Por JOSÉ
APÓSTOLO NETTO
Historiador
e doutorando em História (UNESP - Campus de Assis, SP)
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a recriação do livro no Brasil
![Moteiro Lobato (In: AZEVEDO, Carmen Lúcia de. [et. al.] Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia. São Paulo, Editora SENAC, 1997)](028lobato.jpg) José
Bento Monteiro Lobato ainda não desfruta do devido
reconhecimento quanto ao seu papel ativo no trabalho
de modernização da sociedade brasileira nos setores
artístico, político e cultural. A nossa crítica literária,
bem como a nossa historiografia, e, especificamente,
os nossos livros didáticos estão em débito com o criador
do Jeca Tatu e da boneca-gente Emília.
Não raro, os livros que se referem ao escritor fazem
senão acentuar um ou outro aspecto da sua agitadíssima
vida pública ou privilegiar uma obra ou fase da sua
vasta produção literário-intelectual. O episódio Monteiro
Lobato/Anita Malfati, por exemplo, é um dos aspectos
mais visitados. E serve geralmente para lembrar de
Lobato como o inimigo irredutível dos modernistas.
Talvez esteja nesse acontecimento o ponto de partida
de todo o processo de desconsideração da modernidade
de Monteiro Lobato ; desconsideração esta que ainda
encontra acolhida nas universidades e nas escolas
do ensino médio.
Apenas agora o estigma que recai sobre Monteiro Lobato
estai sendo repensado, e cedendo espaço para outros
olhares. Na esteira dessas novas leituras,
gostaríamos de enfeixar uma outra, cuja especificidade
está no esforço de entender a modernidade singular
de Lobato.
Entendimento que passa, primeiramente, pelo redimensionamento
do próprio conceito de modernidade, operado, sobretudo,
pelos críticos de Monteiro Lobato. Esse redimensionamento
procura principalmente alargar a abrangência do conceito,
que sai do campo meramente discursivo e se revitaliza
no da prática social, política e cultural.
Senão, vejamos. Se entendermos, como os modernistas
históricos, que a obra isolada diz da sua modernidade,
então, nesse sentido, o trabalho de Monteiro Lobato
torna-se limitado. Agora, se ampliarmos o conceito
e entendermos que a modernidade é um fenômeno que
pode ser avaliado dentro de um sistema ou de um todo
orgânico de práticas e discursos, no qual obra, autor
e público estão inter-relacionados, então, o nosso
autor aparecerá tão moderno quanto os modernistas
de 22.
A modernidade de Monteiro Lobato reside justamente
no fato de ele ter conseguido combinar esses componentes
ao longo de sua carreira. É o que podemos reparar
no engajamento do escritor nos diversos fronts em
que lutou e se engajou.
No front do mercado editorial, que é o tema que nos
interessa, Monteiro Lobato promoveu uma verdadeira
reviravolta, a partir da introdução de práticos e
funcionais métodos e processos de publicação e distribuição
de livros. Sem falar da inovadora política editorial
que imprimiu ao mercado livresco.
Antes de Lobato-editor, reinava, no Brasil, soberanamente,
uma certa visão romântica oitocentista do livro, que
o colocava na condição de objeto sagrado, cujo acesso
estava reservado à elite. Sem dizer que a literatura
ou, em outros termos, a arte de bem escrever era tida
como uma prática acadêmica e oficial, exclusiva dos
homens de ciência.
Contribuía para reforçar essa visão, claro, a pequena
capacidade da produção e distribuição de livros da
época, que contava apenas com meia-dúzia de livrarias
e poucos pontos de venda no Brasil.
Editoras inexistiam. Muitos dos nossos melhores escritores
foram, no começo do século 20, editados e publicados
por editoras portuguesas ou francesas. São os casos
de Machado de Assis, Lima Barreto, Graça Aranha, Alberto
Rangel, Coelho Netto, Euclides da Cunha, apenas para
ficar nos mais conhecidos.
Seguir a narrativa dessa aventura editorial – e era
assim que Lobato gostava de se referir aos seus empreendimentos
– é historicamente importante porque fornece uma visão,
não só das condições sobre as quais funcionava o mercado
de livros antes da aventura editorial lobatiana, bem
como das transformações experimentadas pelo setor,
quando da entrada do escritor.
Segundo o testemunho de Edgar Cavalheiro, o principal
biógrafo do escritor, o primeiro passo para entrada
de Monteiro Lobato no mundo editorial ocorre em 1917.
Nesse ano, Lobato, fazendeiro falido e desanimado,
finalmente, consegue vender a Fazenda da Buquira,
herança do seu avô, o Visconde do Tremembé. Com o
dinheiro angariado resolve, no mesmo ano, transferir-se,
com a família, para São Paulo. Em 1918, ao ser convidado
para dirigir da Revista do Brasil, para qual vinha
colaborando, assiduamente, desde 1916, decide comprá-la.
A Revista do Brasil aparece, assim, como a primeira
experiência séria de Lobato como empresário do livro
e da cultura. Na verdade, ela serviu como uma espécie
de laboratório para Monteiro Lobato, onde ele pôde,
com sucesso, realizar algumas experiências no mercado
editorial brasileiro com livros de sua autoria.
Ele aproveita o embalo do sucesso editorial do livro
O Inquérito sobre o Saci, publicado também em 1917
pela Revista do Brasil, e decide soltar livros que
reunissem todo o material literário, sobretudo, contos,
que ele produzira até então.
O primeiro, de uma série de livros, é Urupês, que
cai no gosto público como doce no formigueiro, e acaba,
por isso, transformando-se num verdadeiro best-seller
nacional. Urupês, ou melhor, todo o processo de publicação
que ele encerra, denuncia, sem dúvida, o espírito
inovador e moderno que Monteiro Lobato imprimiu ao
mercado editorial nacional da época. É preciso seguí-lo
passo a passo, para sentirmos o realismo da modernidade
lobatiana nesse campo.
Deixemos aos cuidados de Edgar Cavalheiro a condução
desse nosso passeio narrativo pela aventura do Lobato
editor. Após descrever a “pasmaceira” em que estava
mergulhado o mercado editorial brasileiro, Edgar Cavalheiro
narra como Monteiro Lobato recria, com originalidade,
todo o ambiente, dando-lhe uma nova dimensão. Diz
ele:
É quando surge Monteiro Lobato. Tendo impresso por sua conta,
nas oficinas d’ O Estado de São Paulo, mil exemplares
de Urupês, verificara, ao ter os volumes prontos para
venda, que em todo o território nacional existiam
sòmente trinta e poucas casas capazes de receber o
livro. Não era possível, por tão poucos canais, o
escoamento daquilo que se lhe afigurava um despropósito
de volumes. Dirige-se, então, ao Departamento dos
Correios, solicita uma agenda e constata a existência
de mil e tantas agências postais espalhadas pelo Brasil.
Escreve delicada carta-circular a cada agente, pedindo
a indicação de firmas ou casas que pudessem receber
certa mercadoria chamada ‘livro’. Com surprêsa recebe
respostas de quase tôdas as localidades. De posse
de nomes e endereços assim obtidos, procura entrar
em contacto com os possíveis clientes, escrevendo-lhes
longa circular, portadora de original proposta: ‘Vossa
Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais
coisas vender, maior será o lucro. Quer vender também
uma coisa chamada livro? V. Sª não precisa inteirar-se
do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial
como qualquer outro, batata, querosene ou bacalhau.
E como V. Sª receberá êsse artigo em consignação,
não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender
os tais ‘livros’, terá uma comissão de 30%; se não
vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com porte
por nossa conta. Responda se topa ou não topa’.
Segundo Edgar Cavalheiro, o expediente
lobatiano funciona perfeitamente, pois:
Quase todos toparam, e Lobato passou dos trinta e poucos
vendedores anteriores, que eram as livrarias, para
mil e tantos postos de vendas, entre os quais havia
lojas de ferragens, farmácias, bazares, bancas de
jornal, papelarias. O comércio de livros, que modorravam
numa rotina galega, ganha impulso insuspeitado. As
edições, que antes não ultrapassavam 400 ou 500 exemplares,
e assim mesmo muito espacejadas, pulam imediatamente
para três mil exemplares, e começam a surgir quatro,
cinco, seis e até mais livros por mês.
Os lances de originalidade e criatividade
de Monteiro Lobato no campo editorial podem ser observados
durante os quase sete anos que esteve à frente, juntamente
com Octales Marcondes Ferreira, primeiro, da editora
Monteiro Lobato & Cia (1920-1925) e, depois, da
Companhia Editora Nacional, onde permanece até 1927.
A inovação, nesse caso, fica por conta, primeiro,
do critério editorial usado por ele para a seleção
dos escritores e livros publicados nas suas editoras
e, segundo, pela exploração das técnicas de marketing
e propaganda para seduzir o leitor e ampliar a rede
de fornecimento e venda de livros.
No primeiro caso, o método era simples e ousado, ao
mesmo tempo. Conta Edgar Cavalheiro que Monteiro Lobato
recusava-se a imprimir os “medalhões”, os consagrados,
argumentando que o leitor médio estava ansioso por
escritores e livros de linguagem simples, direta e
popular. Existe inclusive uma anedota do próprio Lobato
para ilustrar o fato:
Há, por exemplo, narra Edgar Cavalheiro, o caso daquele
prêto que entra na saleta da editôra sobraçando um
maço de originais:
- Sou Fulano de Tal, escrevi êste
livro, e desejava saber se êle merece ser editado.
Lobato responde ex-abrupto:
- Perfeitamente. Edito o seu livro.
O prêto, confuso, soube apenas
demonstrar o seu espanto:
- Mas se o senhor ainda não leu o livro?
- Não tem importância.
Se êle não prestar, eu conserto. O que preciso é de
um prêto na galeria dos meus editados. De você só
quero uma coisa: o retrato bem prêto, sem chapéu,
mostrando a garofinha.’
Graças a essa política editorial aberta,
Lobato-editor consegue garantir a entrada no mercado
de um sem número de escritores, senão completamente
desconhecidos, pelo menos pouco divulgados em nível
nacional.
Durante o período que Lobato esteve no comando literário
das editoras Monteiro Lobato & Cia e Companhia
Editora Nacional pelo menos 50 novos escritores foram
apresentados ao público.
Muitos deles se tornaram mais tarde os principais
propagandistas do modernismo brasileiro. A lista é
extensa e variada. Foram editados nomes como: Godofredo
Rangel, Paulo Setúbal, Menotti Del Picchia, Guilherme
de Almeida, Cornélio Pires, Afrânio Peixoto, Coelho
Neto, Oliveira Viana, Pedro Calmon, Gastão Cruls,
Rodolfo Teófilo, Papi Júnior, Oswald de Andrade, Tales
de Andrade, Eduardo Carlos Pereira, Oswaldo Orico,
Cesídio Ambrogi, Carlos Dias Fernandes, Djalma Andrade,
Alberto Seabra, Otto Prazeres, Lucílio Varejão, Sud
Menucci, entre outros.
No campo mercadológico/publicitário, Monteiro Lobato
também inova ao introduzir e manipular um conjunto
de técnicas e métodos de sondagem, pesquisas, classificação
de mercados e de truques publicitários de sedução
do leitor completamente inéditos naquele momento.
Uma dessas técnicas, comentada a pouco, era a de correr
atrás do leitor, procurando saber onde mora, levando
até ele o livro, para que tivesse apenas o trabalho
de ler. Para tanto, a pesquisa de localização e identificação
do leitor era imprescindível. E Lobato lançou mão
de todos esses expedientes. Foi assim que ele conseguiu,
por exemplo, fazer com que o número de assinantes
da Revista do Brasil saltasse de 12, em junho de 1918
para 150, em agosto do mesmo ano. A técnica do anúncio
também foi muito explorada por Lobato. Servia, sobretudo,
para divulgar as chamadas edições da Revista do Brasil.
Já na edição de junho de 1918, trazia na capa um pomposo
anúncio dos livros Urupês e Saci Pererê.
No projeto gráfico também podemos notar
a originalidade de Monteiro Lobato-editor. A inovação
do padrão gráfico se verifica através de uma programação
visual sofisticada e tipografia elegante, atentando,
ao mesmo tempo, para a revisão rigorosa da composição
e provas finais. Mas não só:
Objetivando cativar e conquistar um número cada vez mais
amplo de leitores, contrata artistas para substituir
as monótonas capas tipográficas pelas capas desenhadas,
tornando o seu produto mais atraente aos olhos do
consumidor.
Temos aí, portanto, alguns exemplos,
entre outros, da postura modernista de Monteiro Lobato,
no campo editorial. Uma postura que se queria diferente
da prática reinante na época, que recriasse o mercado
do livro em outros termos que não romântico e aristocrático,
mas democrático e dinâmico.
Sobre o
assunto ver: CHIARELLI, Tadeu. Um Jeca nos
Vernisages: Monteiro Lobato e o desejo
de uma arte nacional no Brasil. São Paulo,
Editora da Universidade de São Paulo, 1995. e
NUNES, Cassiano. Monteiro Lobato: o
editor do Brasil. Rio de Janeiro, Contraponto:
PETROBRAS, 2000.
Essa idéia
e brilhantemente defendida por Tadeu Chiarelli
no livroUm Jeca nos Vernisages: Monteiro
Lobato e o desejo de uma arte nacional no Brasil.
São Paulo, EDUSP, 1995. Nele o autor diz que
o trabalho de desconsideração de Lobato tem início,
sobretudo, na interpretação que os modernistas
e os seus herdeiros fizeram do artigo A Propósito
da Exposição Malfatti, saído no jornal O
Estado de São Paulo, em 20.12.1917
Na esteira
dos trabalhos de releitura de Monteiro Lobato,
aparecem os livros de Tadeu Chiarelli. Um Jeca
nos Vernissages: Monteiro Lobato e o desejo de
uma arte nacional no Brasil. São Paulo, Editora
da Universidade de São Paulo, 1995.; Vasda B.
Landers. De Jeca a Macunaíma: Monteiro
Lobato e o Modernismo. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 1988. APOSTOLO NETTO, Jose. O Jeca
tatu e o mundo que ele criou: o problema da originalidade
cultural em Velha Praga e Urupês. Assis, 1998.
Dissertação (Mestrado) Universidade estadual Paulista.
NUNES,
Cassiano. Op. Cit. p.37
CAVALHEIRO,
Edgar. Monteiro Lobato: vida e obra.
v. 2. 3 ed.. São Paulo, Brasiliense, 1962. pp.
193-194.
AZEVEDO, Carmen Lucia de et al. Monteiro
Lobato: Furacão na Botocundia. 2. ed. São Paulo, Editora SENAC
São Paulo, 1998. p.130.
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BIBLIOGRAFIA BÁSICA
AZEVEDO, Carmem Lucia de et al. Monteiro Lobato: furacão
na Botocúndia. 2 ed. São Paulo, Editora SENAC São Paulo,
1998.
APOSTOLO NETTO, J. O Jeca Tatu e o mundo que ele criou:
o problema da originalidade cultural em Velha Praga e Urupês.
Assis, 1998. Dissertação (Mestrado) – Universidade Estadual
Paulista.
CAVALHEIRO, Edgar. Monteiro Lobato: Vida e Obra. v.
1-2. 3 ed.. São Paulo, Brasiliense, 1962.
CHIARELLI, Tadeu. Um Jeca nos Vernissages. São Paulo,
Editora da USP, 1995.
KOSHIYAMA, Alice Mitika. Monteiro Lobato: intelectual,
empresário, editor. São Paulo, T. A Queiroz, 1982
NUNES, Cassiano. Monteiro Lobato: o editor do Brasil.
Rio de Janeiro, Contraponto: PETROBRAS, 2000.
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