Após
Sadat, o quê?
O atentado contra Sadat na realidade
significa um golpe de Estado abortado, pelo
número de prisões havido antes do atentado,
pois o mesmo já era do conhecimento da CIA
que trabalha junto com a Informação egípcia,
como pela repressão posterior. Para efeito
interno, julgou o regime conveniente legitimar-se
pela transmissão do poder ao vice-presidente
Mubarak e ao mesmo tempo utilizar o plebiscito
como técnica acessória.
As manobras navais norte-americanas
e as advertências soviéticas ligadas as ameaças
da Líbia e as reações do Sudão, mostram um
quadro aparencial onde ressurge a questão
principal: problema: o problema palestino
como um desafio a ‘estabilidade’ no Oriente
Médio.
Pensar que o problema é recente
é laborar em ledo engano. O problema palestino
surge por ocasião da emigração judaica à Palestina
financiada pela Agência Judaica e pelo Barão
Rotschild. De um lado, com a criação da “Legião
Judaica” por Jabotinsky lutando a favor da
Inglaterra na guerra de 1914-1918 e a crise
do império otomano, estabelece a Inglaterra
seu “protetorado” na Palestina. Porém a imigração
se dá pela expropriação de terras pertencentes
a palestinos de língua árabe que secularmente
habitava o país, paralelamente a esse processo
criou-se a “Irgun Zwei Leumi” braço armado
do chamado partido “Revisionista” de que Beguin
é discípulo, preocupado em expulsar pelo terrorismo
a Inglaterra e ao mesmo tempo criar um Império
Judaico com a topografia dos tempos bíblicos.
Com a “Declaração Balfour” a Inglaterra
se compromete a tornar a Palestina um “Lar
Nacional” para os judeus. Após a 2ª Guerra
Mundial é proclamado o Estado de Israel, estruturado
de forma pluripartidária onde a “direita’
é ocupada pelo Bloco Religioso, especialista
em criar colônias me terras árabes sob hegemonia
do Partido “Herut” (nova denominação do Partido
Revisionista) sob direção de Beguin.
Após as inúmeras guerras mantidas
entre o Estado de Israel e seus vizinhos árabes,
alargou-se sua esfera de dominação ao mesmo
tempo que convertia os palestinos em “escória
da terra” no dizer de Koestler, despojados
de sua terra, habitação, formam o contingente
dos errantes do século, são os novos judeus
do século XX.
O acordo Sadat-Beguin sancionou
um lance da diplomacia norte-americana no
Oriente Médio e ao mesmo tempo isolara Sadat
no contexto do mundo árabe, sua morte por
obra de fundamentalistas muçulmanos mostra
o precário das situações resolvidas por via
diplomática de cúpulas pelas Grandes Potências.
Ao mesmo tempo, coloca na ordem do dia o problema
palestino, sem cuja discussão, nenhuma solução
pacífica ou diplomática terá o mínimo de viabilidade.
Soluções neo-colonialistas do tipo
– criação de administração árabe nos territórios
ocupados por Israel – em nada contribuirão
para solucionar a questão. Ao contrário, tenderão
a esticar a corda até os limites do imprevisível.
As “soluções” armadas como técnicas de resolução
de problemas revelaram sua falácia no próprio
Oriente Médio, onde a Guerra do Yom Kipur
os árabes mostraram sua capacidade na utilização
da tecnologia ocidental com sucesso, que,
travou a ofensiva israelense em pontos vitais.
A questão palestina, vital para
o mínimo de “estabilidade política” no Oriente
Médio não pode ser resolvida sem a consulta
e o respeito aos diretamente interessados,
os palestinos, através de suas organizações
de fato que necessitam ser reconhecidas como
“de direito”, nesse sentido, Carter e Ford
ao enunciarem a necessidade do reconhecimento
da OLP como legítimo interlocutor dos palestinos,
mostram o que deve ser feito e o que eles
enquanto detinham o poder se recusaram a fazê-lo.
Os políticos são muito interessantes, têm
um “discurso” enquanto detém o poder e outro
“discurso” após perdê-lo, assim Galbraith
enquanto assessor de Kennedy defendia a tecnocracia,
bastou perder a assessoria para que passasse
a criticá-la.
Concordará Beguin com essa proposta?
É impossível prever. Porém, o homem que realiza
“ataques preventivos” contra o Iraque de fazer
inveja a qualquer totalitário, que dispõe
de maioria no Parlamento graças ao apoio do
Bloco Religioso, ávido em ocupar terras árabes,
dificilmente concordaria em sentar-se na mesa
de negociações com a OLP.
Porém, é necessário não esquecer
que Beguin está coberto pelo guarda chuva
norte-americano no Oriente Médio. Embora o
voto judaico seja significativo na esfera
política interna norte-americana, considerações
de política internacional, especialmente ligadas
à política externa da URSS, poderão levar
Reagan The Kid a moderar seu impetuoso parceiro.
Nesse sentido operam as últimas declarações
de Reagan que o Egito se constitui no amigo
“preferencial” dos EE UU no Oriente Médio
o que deve ter ofendido o ego político de
Tel Aviv.
Em suma, a “estabilidade” do Oriente
Médio passa pela “questão palestina” e é impossível
tapar o sol com a peneira, da mesma maneira
é impossível negar a absorvição da tecnologia
de guerra moderna pelo mundo árabe, por tudo
isso, é urgente uma solução negociada da “questão
palestina” que lhes garanta a vida digna e
livre que tem qualquer grupo nacional. Somente
assim os palestinos deixarão de ser os judeus
dos fins do século XX. Fora disso, continuará
o Oriente Médio a ser o “caldeirão do diabo”
onde humildes camponeses pagam com a vida
o jogo desbragado de “esferas de influência”
com que os donos do mundo – EE UU e URSS –
e seus satélites procuram manter. O exemplo
do Irã é muito recente e pode servir de lição
a URSS e a “sábia” diplomacia norte americana.
Murabak e Beguin que anotem isso, antes que
seja tarde demais.