A
revolta da palestina
Maurício
Tragtenberg
Quando a 09/12/87 um caminhão israelense
acidentalmente atropelou quatro habitantes
do campo de refugiados palestinos de
Jebalya na faixa de Gaza, pela repercussão
provocada na região, iniciou-se a reação
palestina na Cisjordânia e Gaza à ocupação
israelense.
A maioria dos rebeldes são constituídos
de jovens na faixa entre 15 e 25 anos,
criados no regime de ocupação israelense,
criados nos “campos de refugiados”.
A reação à ocupação deus-e espontaneamente,
surpreendendo as lideranças palestinas,
inclusive a OLP.
Esses jovens palestinos aparecem
vinculados ao grupo da Jihad Islâmica,
ligado ao movimento dos Irmãos Muçulmanos
do Egito. Jihad é um grupo sunita que
prega uma guerra santa contra a ocupação
israelense e tem sua base nas mesquitas.
Por incrível que pareça, o colonizador
israeli construira mesquitas nas regiões
ocupadas, preocupado em desviar as forças
do nacionalismo palestino. É justamente
delas que surge a reação contra o neocolonialismo
do Estado de Israel.
As regiões ocupadas por Israel
fornecem mão-de-obra barata para Israel,
especialmente na construção civil. Alguns
kibutzim em épocas de entressafra empregam
mão-de-obra assalariada palestina.
Essa mão-de-obra palestina da zona
ocupada sai pela manhã em caminhões,
dirigindo-se aos postos de trabalho
em Israel, regressando ao final de cada
jornada de trabalho. Esses trabalhadores
não possuem autorização para pernoitarem
em Israel e uma polícia especial cuida
de localizar os recalcitrantes.
A ocupação israelense funda-se
nas normas do direito colonial inglês,
na medida em que Gaza e Cisjordânia
não são consideradas zonas anexadas
a Israel. A legislação colonial inglesa
é uma das mais repressivas que a história
moderna conheceu. Assim, a administração
militar em Gaza e Cisjordânia, com base
nessa legislação, pode deter por tempo
indeterminado para interrogatório qualquer
pessoa da área, pode deter sem mandato
judicial de prisão, pode demolir ou
selar casas de pessoas consideradas
pelas autoridades como colaboradores
de “terroristas”.
É uma luta desigual. Um exército
fortemente armado e treinado contra
jovens adolescentes que atiram pedras
e lutam com paus.
Isso levou a moderados palestinos
ameaçarem com boicote aos produtos israelenses,
boicote ao pagamento de impostos às
autoridades de ocupação. Desde que o
exército israelense oficializou a política
de espancamento, mais de 200 palestinos
foram internados com fraturas.
As forças de ocupação usam o toque
de recolher para disciplinar 300 mil
palestinos, cercam os campos de palestinos
para impedi-los de saírem dão trabalho.
Até então bastava exilar alguns líderes
e a “vida voltava ao normal” como diziam
alguns. Hoje isso é insuficiente. A
política neocolonial do atual governo
Likud-Partido Trabalhista causa crises
de consciência em Israel, levando 30
mil israelenses a saírem em manifestação
pública em Tel Aviv protestando contra
a ocupação e a violenta repressão dos
palestinos. Dezenas de oficiais e centenas
de soldados do Exército de Israel recusaram-se
a servir nas zonas de ocupação. O movimento
“Iesh Gvul” (Há Limite), criado em 19982,
por reservistas que se recusaram a lutar
no Líbano, produziu uma petição pública
em que critica essa política neocolonial
e insensata. Enquanto isso, Shamir declara
que “amais haverá um Estado Palestino”.
Não há dúvida que fôra precedido por
Golda Meir quando ela dizia: “Os palestinos
não existem”. Tanto existem que a questão
palestina ocupou as manchetes da imprensa
mundial nos últimos meses.
Essa política neocolonial levou
o secretário do Partido Trabalhista
de Israel a demitir-se. O jornal israelense
“Haaretz” noticiava que psicólogos do
Exército foram enviados a Gaza para
tratar dos soldados israelenses abalados
emocionalmente com o papel repressivo
que lhes é destinado, que contradiz
os valores educacionais em que foram
formados, de só lutar para defender-se
e não empregar violência indiscriminada
contra jovens, mulheres, velhos e crianças.
Enquanto isso ocorre, Arafat declara-se
pronto a discutir a confederação palestina
israelense nos territórios ocupados.
O Conselho Central da OLP e o Conselho
Nacional Palestino, reuniram-se para
discutir que estratégia adotar nos territórios
ocupados. Pensam em criar um governo
no exílio, isso levaria os EUA e Israel
a negociarem diretamente com a OLP,
pensam alguns.
A revolta palestina apresenta novos
contornos. A OLP, embora não fosse a
iniciadora da mesma, é ainda a organização
que legitimamente representa os palestinos.
Porém, aparece uma força nova: o fundamentalismo
sunita. Tem ela apoio na Cisjordânia,
tem força na Síria e mais alguns países
árabes. Como todo movimento fundamentalista
é teocrático e rígido. Caso Israel rejeite
negociar com a OLP terá que enfrentar
futuramente o fundamentalismo sunita.
Aí a conversa será outra.
É verdade que há também o fundamentalismo
religioso em Israel. Boa parte das colônias
criadas nos territórios ocupados são
obra do movimento “Gush Emubim” (Bloco
dos Fiéis). Um dos seus representantes
é a sinistra figura do rabino Kahane,
que conseguiu unir judeus e árabes contra
sua política cega e racista de expulsar
os árabes de Israel, os que lá “sobraram”.
A revolta palestina coloca em questão
a sobrevivência do neocolonialismo no
século 20, seu arcaísmo. Coloca em questão
a urgência de uma solução política,
a criação do Estado Palestino, cuja
necessidade clama aos céus. É no apoio
a essa luta que os setores progressistas
do mundo devem unir-se, no direito do
palestino a sua autodeterminação nacional,
na construção de um Estado laico.
A postergação da solução do problema
palestino continuará a manter o Oriente
Médio como um barril de pólvora com
explosões imprevisíveis. Isso se dá
no momento em que a própria URSS pretende
retirar-se do Afeganistão e uma política
de distenção mundial aparece no horizonte.