Por ALEXANDER MARTINS VIANNA
Mestre em História Social pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ e autor de Dicionário Crítico do Pensamento da Direita - Idéias, Instituições e Personagens. Rio de Janeiro: Mauad, 2000

 

Novo Moderno Prometeu:

O Espelho de Victor Frankenstein

(Parte II)

 

“O amanhã jamais igualará o ontem;
Nada, exceto o mutável, pode perdurar!”
(Mary Shelley, 1818)

Ed.: L&PM Pocket. Porto Alegre, 1997, 276 pp.Na tradição judaico-cristã, Adão perde o paraíso por comer o fruto da árvore do conhecimento. Na tradição clássica greco-romana, Prometeu é condenado à dor perpétua por ter roubado dos deuses o segredo do fogo e tê-lo dado aos homens. No entanto, se a perda do paraíso representara para Adão a mortalidade, a dor da faina e a privação material, ao menos pudera decair em companhia de alguém e, juntos, vencerem a mortalidade com a procriação e o conhecimento roubado de Deus. Prometeu, pelo contrário, foi acorrentado na própria dor solitária que sua ousadia lhe impusera. É esta imagem que Mary Shelley tem em mente quando sobrenomeia sua obra de “The Modern Prometheus”. Ora, que outra lição Frankenstein teve para si além da dor, privação e construção de um exílio de solidão – a mesma que relegara à sua monstruosa criatura?

Frankenstein rompera a barreira entre a vida e a morte. Nesse sentido, ousara mais do que Adão – que não tocara na árvore da eternidade – ou o antigo Prometeu. No entanto, novo paradoxo, ele não foi punido por um deus mais forte e furioso, mas por sua própria criatura, que se tornou bastante consciente de sua condição: “Você é meu criador, mas o senhor sou eu” (SHELLEY, 2001: 159). Nesta condição monstruosa, toda convenção existente entre céu e terra, bem e mal, celestial e infernal, servo e senhor, foi borrada e derrogada. Não há mais fronteira claramente delineada e, por isso, o mundo de Victor entrou em colapso, criando uma atmosfera de risco devido à sua própria busca insensível pelo saber. No entanto, se o monstro é a imagem e semelhança de seu criador, tal relação especular é apresentada por Mary Shelley mais como um processo que envolve responsavelmente toda a sociedade do que como algo construído unilateralmente por Victor.

A aparência externa horripilante do monstro era o espelho da alma de seu criador num momento em que estava cheio de ambição egoísta por glória científica, exilando-se voluntariamente de luz, afeição e sensibilidade. No entanto, como qualquer criatura que nasce, a personalidade do monstro – o seu “Eu” ou “emanação” interior – não estava desde sempre formada. Nada o levaria necessariamente para o mal. Nesse sentido, o nascimento não define caráter ou capacidade, mas sim as circunstâncias sociais oferecidas para o aproveitamento e desenvolvimento de seu potencial afetivo e racional. Por isso, o outro erro de Frankenstein foi não ter dado afeição e acolhimento para sua criatura, abandonando-a à própria sorte por não suportar contemplar em seu inocente e horripilante rosto a imagem de seu próprio fracasso. Por outro lado, uma vez estando no mundo, o monstro não foi acolhido pelo afeto de ninguém. Ironicamente, o único espaço social que a sociedade lhe reservava era sua fronteira com o bestial: bosques, montanhas e regiões polares inóspitas. Nestas condições, ele poderia ser nocivo ou indiferente aos homens tanto quanto um urso ou qualquer outra criatura bestial das florestas. No entanto, em seu exílio involuntário, o monstro encontraria acidentalmente a família igualmente exilada de De Lacey.

Enquanto esteve oculto no anexo da casa campestre da família de De Lacey, o monstro passou por um longo e tocante aprendizado afetivo e sentimental que o tornaria consciente de sua condição monstruosa. Quando narra tal experiência para seu criador, o monstro demonstra que o conhecimento que veio para ele era inseparável de sensibilidade e auto-reflexão. Nesse sentido, tal como seu criador, mas de forma atípica, o monstro vivera momentaneamente um ideal romântico de família:

“...Ouvi o relato dos descobridores do hemisfério americano e chorei com Safie o triste destino dos aborígenes. Essas narrativas inspiraram-me sentimentos inusitados. O ser humano era, a um só tempo, poderoso, virtuoso e magnificente tanto quanto vil e cheio de vícios...Cada palestra dos meus vizinhos trazia-me novas revelações...As palavras que escutava induziam-me a concentrar-me em mim mesmo. Aprendi, Frankenstein, que os bens mais almejados pelos seus semelhantes eram a alta posição, a reputação e as riquezas. Uma só dessas vantagens bastaria para outorgar respeito a um homem, mas a falta de pelo menos uma delas era o suficiente para que fosse relegado à condição de pária ou escravo, condenado a despender todas as suas forças para o lucro de poucos eleitos. E que era eu? Nada sabia sobre minha criação e meu criador, mas sabia que não possuía a menor parcela disso a que chamavam de dinheiro, nem amigos, nem a mais insignificante propriedade...Olhando e prescrutando pelas redondezas, não vi nem ouvi alguém que se assemelhasse a mim. Então, eu era um monstro, uma nódoa na Terra da qual todos os homens fugiam e a quem ninguém queria reconhecer por seu igual! Não lhe posso descrever a agonia que tais pensamentos me infligiam. Tentava em vão esquivar-me dessas reflexões. Quanto mais eu aprendia, mais elas se acentuavam, provocando minha maior desolação. Ah! Por que não tinha eu podido permanecer em meu bosque, não tendo conhecido outras sensações além de fome, sede e aquelas provocadas pelos elementos?!

Como é estranha a natureza do conhecimento! Uma vez adquirido, ele apega-se à mente e ali fica como um líquen na rocha. Por vezes, desejava alijar todas as idéias e sentimentos, mas aprendi que o único caminho para chegar a isso era a morte, um estado que eu temia, embora não compreendesse. Admirava a virtude e os bons sentimentos, amava as maneiras gentis e agradáveis daquela família camponesa, mas estava privado do seu convívio, a não ser pelos meios furtivos de que dispunha, sem ser visto e conhecido, o que aumentava o meu anseio de tornar-me um de seus semelhantes. As palavras de Agatha e os sorrisos da encantadora árabe não eram coisas para mim. Tampouco as amenas exortações do ancião e o convívio estimulante com o querido Félix”(Idem, pp.114-115) [Grifo meu]

Depois, o monstro interrompe momentaneamente a sua narrativa para questionar seu criador. Havia um dívida moral de Frankenstein com o monstro. Este, diferentemente de qualquer outro experimento científico, é sujeito e não objeto, tem consciência e sensibilidade e, por isso, sabe cobrar-lhe igualdade de tratamento, clemência, bem-estar e afeição. Assim, queria que Frankenstein pusesse fim à sua solidão:

“(...)Mas porque formou um monstro tão pavoroso, que até você mesmo se afastou de mim com repulsa? Deus fez o homem belo e atraente, à sua própria imagem, ao passo que minhas formas...O próprio Satã tinha seus companheiros, demônios como ele, que o seguiam e encorajavam, mas eu sou absolutamente solitário(...). A aquisição de sabedoria reforçou a noção do pária que eu era. Eu acalentava esperanças, é verdade, mas elas se desvaneciam quando via minha figura refletida nas águas ou minha sombra ao luar...Não havia Eva para mitigar minhas tristezas nem participar dos meus pensamentos. Eu era só. Ocorriam-me as súplicas de Adão a seu Criador...” (Idem, pp.124-125) [Grifo meu]

A doce experiência de convívio indireto com a família de De Lacey tornou mais forte no monstro a sensação de solidão. Por um momento, De Lacey – o ancião cego, injustiçado e de alma virtuosa – parecia a única esperança para o monstro estabelecer um convívio direto com sua família, que há tanto tempo ele amava em segredo. Somente De Lacey, por sua condição tão singular, poderia ouvi-lo antes de qualquer atitude de repúdio em face de sua aparência e, assim, fazer a intermediação para o futuro contato com os demais integrantes da casa. Mary Shelley desenvolve para eles um tocante e fraterno diálogo, o único que o monstro teria chance de dispor em toda a sua monstruosa existência. Ela o enriquece de sutilezas para que, através dos dois párias sociais, exponha suas críticas aos valores da sociedade de sua época:

“– Não se desespere. Não ter amigo é de fato uma infelicidade. Mas o coração dos homens, quando isento de egoísmo total, é pleno de amor e caridade. Confie, pois, em suas esperanças, que não lhe hão de decepcionar, se tais amigos forem bons e amáveis.

– Sim, eles são bondosos. São as melhores criaturas do mundo. Mas infelizmente têm preconceitos contra mim. Não que eu seja de má natureza. Minha vida até aqui tem sido inofensiva e, até certo ponto benéfica. Mas um preconceito fatal lhes obscurece os olhos e, onde seria de esperar que eles vissem um amigo solidário e sensível, nada mais lhes aparece do que...um monstro, na acepção da palavra.

– Isso é realmente uma circunstância infeliz. Mas se o senhor é, de fato, de boa formação, por que não os pode convencer?

– É o que tenciono fazer, e aí está a razão dos meus temores. Amo ternamente a esses amigos. Desde há meses, tenho praticado, sem que o saibam, atos generosos para com eles. Contudo, eles pensam o contrário, acreditam que quero fazer-lhes mal, e é esse preconceito que desejo vencer.(...) O senhor é um homem excelente. Agradeço-lhe e aceito sua generosa oferta. Desde que me estenda sua mão, confio em que, com sua ajuda, não serei expulso do convívio de seus semelhantes.

– Praza aos céus que tal não aconteça. Mesmo que o senhor fosse criminoso, a falta de solidariedade humana somente poderia induzi-lo ao desespero e não à prática da virtude. Também sou infeliz. Eu e minha família fomos condenados, embora inocentes. Tenho condições, portanto, de compreender sua infelicidade” (Idem, pp.127-128) [Grifo meu]

No entanto, quando Félix, Agatha e Safie chegaram à cabana, a simples miragem do monstro provocou uma reação de horror que deixou De Lacey complemente aturdido. Embora muito mais forte que Félix, o monstro deixa a casa sem causar danos a ninguém. Em larga medida, Mary Shelley constrói este processo de perda como se fosse a queda de Adão. Adquirir consciência de si mesmo e, neste processo, perceber que não há lugar no mundo dos homens que pudesse tratá-lo como semelhante pareciam transformar em quimera as doces palavras ouvidas da boca do ancião. Agora, restava para o monstro um aprendizado consciente do ódio, devolver aos homens aquilo que deles recebera: dor e repulsa.

“...Entre as miríades de homens que existiam, não havia um só que se condoesse de mim e me trouxesse alívio. Onde estavam a bondade e a generosidade humanas? A partir daquele instante, declarei guerra à espécie humana e, mais do que todos, concentrei meu ódio naquele que me havia criado e colocado-me em tão insuportável infelicidade” (Idem, p.130) [Grifo meu]

Assim, a solidão que antes sentia por amar unilateralmente a família de De Lacey transforma-se em ódio, maldade e sede de vingança. Mary Shelley demonstra, assim, que a formação sentimental do monstro e seu desvio para o “mal” é um processo social, ou seja, não se tratava de um comportamento cuja essência estava definida desde o nascimento. A constituição do monstro é tão flexível quanto de qualquer ser capaz de desenvolver e usufruir conhecimento e sensibilidade, mas torna-se pária social uma vez que é privado de afeição, reconhecimento e propriedade. Nesse sentido, através de sua existência, a consciência do leitor é provocada no sentido de perceber que não há melhoria nas condições civilizacionais européias se o progresso material ocorrer com exclusão social e perda de afeição. Nada está definitivo no que tange à condição humano. Por isso mesmo, podemos observar no tratamento trágico que Mary Shelley dá ao monstro uma concepção rousseauniana de dignidade humana, ou seja, a concepção de que “o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”. O próprio monstro lembra isso a Frankenstein e a Walton:

“...Você parte de uma confusão de causa e efeito. Meus atos perniciosos e minha tendência para o mal resultam da falta de compreensão e afeto. Desde que eu encontre o amor de outro ser, desaparecerá a causa de meu crime e tornar-me-ei um ser inofensivo, cuja existência será ignorada por todos(...)”(Idem, p.140) [Grifo meu]

“...Eu fui criado para o amor e para a piedade(...).Admito que minhas ações passadas não estimulam qualquer boa impressão a meu respeito. Mas não procuro quem compartilhe de meu infortúnio. Sei que jamais poderei encontrar piedade. Quando pela primeira vez a busquei, era dos meus sentimentos de solidariedade, dos meus anseios de afeto e compreensão, da minha inclinação para o bem que eu esperava que alguém compartilhasse(...). Outrora alimentei esperanças de encontrar seres que, perdoando minha forma exterior, amar-me-iam pelas qualidades morais que eu pudesse contrapor a ela. Acalentei-me de elevados pensamentos de honra e devoção. Mas agora o crime me degradou à condição do animal mais vil(...). O anjo decaído torna-se demônio. No entanto, mesmo aquele inimigo de Deus e do homem tinha amigos e seguidores. Eu sou sozinho(...)”(Idem, pp.204-205) [Grifo meu]

Ser sem espécie, indivíduo radical, o monstro de Mary Shelley é um desafio simbólico e uma provocação social. Ele questiona as motivações de seu criador, não lhe concedendo nenhuma autoridade apriorística e, por fim, triunfa sobre sua vida. De certa forma, a construção ficcional do monstro de Mary Shelley é um exercício criativo de desafio a qualquer paradigma de conhecimento e de sociedade aceito sem questionamento, ao mesmo tempo que expõe o seu próprio ideal de convivência social ao usar os núcleos domésticos de Frankenstein e De Lacey como modelos, já que nestes o respeito filial não era algo garantido por dogma, mas sim advindo de uma educação sentimental para a liberdade adequadamente equilibrada pelo bom cumprimento dos deveres paternos de proteção, bem-estar e afeição. Victor Frankenstein desfrutou de algo que não soube dar à sua criatura e, por isso, foi punido pelo mal destino que construiu para ela.

Conclusão:

Toda existência monstruosa testa o convencional ao borrar as fronteiras das classificações sociais, revelando-as naquilo que realmente são: construções da vontade humana e não destinos imutáveis. Assim, tudo é passível de transformação e questionamento, mesmo os sonhos de perfeição prometéica ou de fechamento dos horizontes sociais e políticos de expectativas. O ideal de fraternidade – no sentido de engajamento solidário em torno da plena realização dos princípios de igualdade – não poderia ser deixado no esquecimento pelas sociedades européias sob a atmosfera política da Restauração (1815-1830). Não por acaso, o ideal romântico de vida familiar foi cronologicamente ambientado por Mary Shelley na Genebra republicana do contexto de Rousseau (1712-1778), em vez de transcorrer na França ou na Inglaterra. Nesse sentido, além de todas as implicações já apontadas anteriormente, um monstro cheio de consciência rousseauniana é o espelho perfeito para que a Europa da Restauração contemple a si mesma e sinta, tal como Frankenstein, uma inescapável responsabilidade pelos crimes sociais advindos da deformidade de um ideal político.

 

Referências Bibliográficas:

BARZUN, Jacques. Classic, Romantic and Modern. Chicago/London: Chicago University Press, 1975.

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no Ar: A aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

FOUCAULT, Michel. “O Nascimento da Medicina Social”. In Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1995. pp.79-98

FURET, François. O Homem Romântico. Lisboa: Presença, 1999.

RÉMOND, René. O Século XIX, 1815-1914. São Paulo: Cultrix, 1993.

SAID, Edward W.. Cultura e Imperialismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SHELLEY, Mary. Frankenstein. São Paulo: Martin Claret, 2001.


ALEXANDER MARTINS VIANNA

     

 


 


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