Por CAIO NAVARRO DE TOLEDO
Professor de Ciência Política da UNICAMP



VERSÃO WORD [ZIP]

 

O culto ao novo herói e os novos simbolismos

 

Roberto Marinho Roberto Marinho construiu seu império de comunicação durante o regime militar. A partir de um acordo com o grupo norte-americano Time-Life – que, em 1965, injetou milhões de dólares  nas Organizações Globo -, suas empresas prosperaram e se consolidaram; durante mais de duas décadas, a Rede Globo foi o maior e eficiente sustentáculo político e ideológico da ditadura militar instaurada com a derrubada do governo constitucional de João Goulart. Uma frase do general-presidente Garrastazu Médici talvez sintetize a relação carnal entre a Globo e o regime. Nos anos de chumbo, na plena vigência do AI 5, o ditador confessou: “Sinto-me feliz todas as noites quando assisto o noticiário. Porque, no noticiário da Globo, o mundo está um caos, mas o Brasil está em paz”. Sabe-se que, décadas atrás, Marinho manifestaria suas primeiras afinidades eletivas com regimes de natureza discricionária; como lembrou a carta de um leitor na Folha de S. Paulo, teve ativa “participação no DIP, da ditadura Vargas, censurando jornais”.  No Estado Novo, Marinho ensaiou seus primeiros passos terrestres e provinciais; na ditadura militar, o empresário se projetou para o Brasil e para mundo...

Por ocasião da campanha das Diretas, sob o férreo comando do dr. Marinho - como os serviçais a ele se referem -, a Rede Globo omitiu o que se passava nas ruas e nas praças do País. No dia 25 de janeiro de 1984, por exemplo, o JN da TV Globo – conhecido como a “a hora do Brasil na TV”-,  informou, de forma insólita, que milhares de pessoas se reuniram na praça da Sé para comemorarem o aniversário da cidade de São Paulo; na verdade, mais de duzentas mil pessoas ali foram para exigir eleições diretas para Presidente da República. Na chamada Nova República, a Globo apoiou Sarney sem restrições - em especial, a "campanha patriótica" em torno do Cruzado; com os militares na retaguarda, defendeu a ampliação do mandato presidencial do oligarca do Maranhão, conquistado graças à corrupção e ao fisiologismo explícitos - denunciados inclusive por setores da grande imprensa brasileira.

Desde sempre, o PT e os movimentos políticos e sociais de esquerda eram freqüentemente criminalizados; a liderança mais prestigiosa das esquerdas, Lula da Silva, era execrada e, como “figura maldita”, raramente comparecia nos noticiários da TV.

A Rede Globo, pela iniciativa pessoal de Marinho, viria apoiar ostensivamente a candidatura de Fernando Collor. Um episódio foi marcante na campanha eleitoral: no dia seguinte ao fatídico encontro televisivo entre Lula e Collor, o Jornal Nacional editou facciosamente o debate entre os candidatos. Com muita certeza, o preferido de Marinho – “vitorioso” na versão da Globo - conseguiu influenciar boa parte dos eleitores que ainda estavam indecisos às vésperas dessa disputada eleição. Nessa ocasião, Brizola protestou contra essa manipulação grosseira; aliás, foi ele o único político que ousava questionar a atuação arbitrária da Globo em momentos relevantes da vida política brasileira. (Lembre-se que, em 1982, a TV Globo, mancomunada com a empresa Proconsult, tentou fraudar a primeira eleição direta para o governo do estado do Rio de Janeiro, a fim de beneficiar o candidato de Marinho e da ditadura, Wellington Franco.)

Como se sabe, Marinho não deixou de apoiar Collor até o momento em que o lodaçal ainda não exalava um odor repulsivo; somente a partir das massivas manifestações populares em defesa do impeachment, o empresário, suficientemente sagaz, se afastou de Collor, ao contrário do amigo de coração e de todas as horas, ACM, que desceu a rampa do Planalto com o corrupto-presidente .

Com a intensa propaganda do Real, a Globo contribuiu decisivamente para a eleição de FHC e para uma nova derrota de Lula. Com FHC, a Globo manteve seu protagonismo na vida política do País. Em 2002, diante do desastre econômico-social do governo FHC, Marinho e a Globo procuraram se desvincular da candidatura oficial. Serra foi rifado e perdeu.

Nas últimas eleições presidenciais, o candidato do PT deixou de ser hostilizado pelos noticiários da Rede nacional. Anunciada a vitória consagradora, o outrora barbudo-satanizado, foi, numa entrevista inédita de uma hora de duração, beatificado no altar nacional do JN. Surgia, com a chancela da Rede Globo, um novo Estadista brasileiro, nascido no agreste nordestino e egresso das classes populares. Até o presente momento, Lula da Silva é um ilustre ícone da nova hagiografia global.

Quarta-feira, 6 de agosto de 2003, morreu o dono do império.

Da direita à esquerda domesticada - passando por empresários, sindicalistas, jornalistas, religiosos, intelectuais e artistas (alguns destes, inclusive progressistas) -, apenas se ouviram glorificações à “magnífica obra” realizada pelo dr. Marinho em “defesa da economia brasileira” e na “consolidação das instituições democráticas no País”.

Desde algum tempo, imortal na vetusta Academia sem ter escrito um livro sequer, Marinho, após sua morte, se transformou em herói nacional.

Antes de se dirigir ao velório no Rio de Janeiro, com o vice-presidente e alguns de seus mais eminentes Ministros de Estado, Lula da Silva decretou luto oficial por três dias como última homenagem ao mais novo pai da Pátria.

Um jornal carioca, em sua versão on line, difundiu a mais recente avaliação que Lula da Silva fez da pessoa e do papel representado pelo dr. Marinho em nossa história. Assim relatava o JB:

Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou nota oficial lamentando a morte do jornalista Roberto Marinho. Na opinião do presidente, o Brasil perde um homem que passou a vida acreditando no Brasil. ''Como diria nosso amigo Carlito Maia: Tem gente que vem ao mundo a passeio, tem gente que vem ao mundo a serviço. Roberto Marinho foi um homem que veio ao mundo a serviço - quase um século de vida de serviços prestados à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil''.  

Na comitiva presidencial que acorreu ao velório, também estava o Ministro da Fazenda, Antonio Palocci, ex-militante trotskista. Compungido, diante das câmeras e microfones, foi ainda mais generoso em sua avaliação sobre a contribuição cultural e política do falecido. Suas palavras foram definitivas: “ (...) o dr. Roberto Marinho construiu o maior desse sistema, o Sistema Globo de Televisão, ajudando muito a integração do País e a expressão do Brasil no exterior (...) ele foi importante na consolidação das instituições democráticas no País. Portanto, é uma perda que o Brasil tem; mas nós devemos, mais do que qualquer coisa, aplaudir sua vida” . À noite, no horário radiofônico da Hora do Brasil, uma senadora do PT não deixou por menos: “Graças à Rede Globo, o Brasil não é um quintal cultural do Estados Unidos”. Como, pois, não prantear a morte do empresário schumpteriano, do democrata sem jaça e do renitente nacionalista? 

Exatamente 16 anos atrás, era radicalmente diferente a opinião de Lula da Silva e do conjunto do PT sobre a figura de Marinho e da sua maior criatura. Discursando aos militantes e simpatizantes do partido, em 16 de setembro de 1987 – nos tempos do é dando que se recebe de Sarney - , Lula da Silva, sem paletó e gravata, não titubeou em seu juízo político sobre o nosso cidadão Kane e o papel ideológico representado pela Rede Globo: "Nós hoje somos um país com praticamente 20 milhões de crianças abandonadas; nós somos um país com 16 milhões de analfabetos; nós somos um país onde a história é contada pela Rede Globo de Televisão porque o senhor Roberto Marinho não faz outra coisa a não ser mentir para o povo."

Lula da Silva e seus assessores têm afirmado que o Brasil e o mundo mudaram muito nas últimas décadas. Seria inevitável, pois, que o PT também mudasse; mais maduro politicamente e mais responsável ideologicamente, o partido teria se transformado. Desta forma, Lula e seus companheiros têm publicamente afirmado que as lideranças maiores do PT - inclusive ele no passado recente - produziram muitas bravatas. Como registra o Aurélio, alguns dos sentidos do verbo bravatear são: jactar-se de valente, fanfarronar, blasonar...  A qual destes três estariam aludindo os dirigentes do PT quando fazem este arremedo de autocrítica?

Ainda não sabemos. O que bem sabemos, sim, é que hoje o núcleo dirigente do PT - através da reabilitação de Roberto Marinho/Rede Globo de Televisão – parece repudiar palavras de ordem que foram construídas pelos movimentos sociais e políticos na luta pela redemocratização do País.  Segundo a hermenêutica dominante e oficial, o povo se equivocaria se ainda insistir em bradar o famoso refrão: “O povo não é bobo. Abaixo a Rede Globo”.

Razões de Estado, hoje, imporiam a retificação da antiga consigna: Poderia ser assim:“O povo se engana. Viva a Rede Globo”.

A eleição de Lula da Silva criou fortes expectativas de mudanças na economia, particularmente  na direção de um rompimento com as diretrizes da política neoliberal que, há mais de 10 anos no poder, vem aprofundando ainda mais as mazelas e as desigualdades  do capitalismo selvagem brasileiro. Mas, a vitória de um candidato do campo progressista também criou uma enorme expectativa no sentido de que fossem dados os primeiros passos para a criação de uma cultura democrática sólida e consistente no Brasil. No plano dos simbolismos, o governo Lula da Silva tem - como no caso deste episódio – provocado muitas frustrações.

Roberto Marinho e a Rede Globo, ao contrário do que proclamaram os discursos dos novos governantes e de seus porta-vozes de plantão, jamais estiveram comprometidos com o “futuro do Brasil” nem com a consolidação das instituições democráticas. Afirmar isso é contribuir para o embuste e a falsificação da História. Como disse Lula em 1987, isso significaria “mentir para o povo”.

 


CAIO NAVARRO DE TOLEDO

     
LEIA +

 


http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados