A expropriação da infância
Atualmente
temos o mesmo receituário para aqueles que estão com depressão,
na prisão, nos reformatórios ou são menores de rua: trabalho.
Na nossa região há até um jeito peculiar de dizer isso: é o
nosso "vá baixar uma mina!". Uma frase de efeito que
deixa envergonhado qualquer ser que se atreva a se rebelar contra
o "sistema". Às vezes a mina é indicada – como se
fosse uma espécie de garrafada – até para os casos de homossexualismo,
como se ser gay fosse um problema a ser tratado. Mas
bem, deixemos isso de lado... O que importa agora é saber que
a idéia de trabalho nem sempre teve esse caráter idílico e milagroso.
Foi apenas nestes últimos três
séculos que o trabalho – em sua pior forma, o trabalho assalariado,
aquele em que se labuta para os outros em troca de dinheiro
– começou a ser entendido como o redentor dos males da humanidade.
O proverbial "o trabalho dignifica o homem" causaria
no mínimo estranheza em outras sociedades que não se identificam
com o ethos ocidental moderno – como a indígena – na
qual há um espaço para o trabalho, mas bem delimitado, de modo
que outras dimensões humanas possam ser bem vividas na comunidade.
Eles já sabiam que para se ter uma vida boa deve se trabalhar
pouco, no sentido que hoje damos ao termo: uma prática de esforço
desprendida por uma pessoa e que está subordinada a um processo
de produção. A subordinação nos tira algo que é fundamental
para o estar-bem: a liberdade. Quem não gostaria de dormir até
mais tarde na segunda-feira? Quem não gostaria de tomar um café
assistindo a sessão da tarde num dia frio e chuvoso? Quem não
adoraria ficar namorando até as cinco da manhã em pleno dia
de semana? Quem já não desejou ter pelo menos uma tarde de folga
no dia de semana para levar seus filhos para tomar sorvete e
conversar? Você pode? Nem eu! Até foi estabelecida a quarta-feira
como o dia internacional do sofá para que não nos esqueçamos
que as coisas boas da vida têm limites, e limites bem restritos.
Enfim, somos privados de um grau maior de liberdade em nome
da produção de coisas e, é claro, fazemos de tudo para nos convencer
e convencer os outros de que não importa o que façamos, o essencial
é trabalhar, mesmo que seja para fazer algo que, bem no fundinho,
desconfiamos que não é lá muito útil.
Foi também na Era Moderna que surgiu
a concepção de infância como um período específico de desenvolvimento
e que marcou a diferenciação entre a criança e o adulto. Contudo,
ainda hoje é comum pensá-la como um ser humano adulto, só que
menor, diminuído. A equação "criança = adulto pequeno"
se cristalizou tão fortemente que muitas vezes exigimos dela
comportamento de gente grande. Dessa forma, a nossa atitude
corriqueira de julgarmos pessoas e situações dentro dos moldes
de nossas cabeças faz com que "ser criança não signifique
ter infância".
A expropriação da infância está
presente em todas as classes sociais. A forma velada
está nas classes mais ricas, que se justificando na idéia de
um mundo cada vez mais competitivo, forçam seus filhos a irem
às aulas de inglês, balé ou judô, natação, aulas de música,
aulas de reforço nas disciplinas em que foram tiradas notas
menores que seus colegas/concorrentes, além, é claro, da escola
e de todas as suas atividades. E quanto ao brincar desinteressado?
Se sobrar tempo, o que raramente acontece. A criança, nesta
situação, está se estafando e se educando para ser um adulto
cansado, pois suas energias foram canalizadas para atividades
demasiadamente adultas, ditadas por adultos e que amenizam a
ansiedade de uma suposta falta de preparação para a vida. Uma
ansiedade... dos adultos! Isso quando a criança não é instrumentalizada
para compensar frustrações de pais que não puderam se realizar
em determinada coisa e vêem em seus filhos a possibilidade de
concretizar um sonho perdido... dos adultos!
A junção das idéias do trabalho
como panacéia e da criança como um adulto pequeno resultam na
forma explícita de expropriação da infância: o
trabalho infantil. Essas idéias são o credo não anunciado de
grande parte da sociedade que aceita o trabalho infantil como
uma solução, antes de considerá-lo um problema. Devido ao trabalho
infantil estar se tornando politicamente incorreto essas pessoas
concordam cada vez mais discretamente, mas concordam. Elas não
se escandalizam em saber – pela Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (PNAD) realizada pelo IBGE – que em 2001 havia
5,5 milhões de crianças e adolescentes entre 5 a 17 anos de
idade trabalhando no País, e nem se sensibilizam em saber que
desses, mais de um milhão não freqüentavam escolas e quase 49%
trabalhavam sem remuneração, e das que eram remuneradas, 77%
ganhavam um salário mínimo ou menos. A pesquisa mostrou também
que um terço das crianças e adolescentes que trabalhavam (cerca
de 1,8 milhão) cumpriam jornada integral, o que significa 40
horas ou mais por semana. Um outro dado importante é que no
universo do trabalho infantil, mais da metade (51,2%) utilizavam
produtos químicos, máquinas, ferramentas ou instrumentos no
trabalho, o que aumentaria suas chances de sofrer algum acidente
cujas seqüelas levariam para o restante de suas vidas.
Dessa forma, de acordo com a OIT
(Organização Internacional do Trabalho) em sua publicação A
erradicação do trabalhado infantil e a proteção ao trabalho
do adolescente (1997, p.10) é necessário desmascarar os
três grandes mitos do trabalho infantil que sustenta essa "cultura
da concordância". São os seguintes: a) o trabalho infantil
é necessário porque a criança está ajudando sua família a sobreviver,
mas quando a família se torna incapaz de cumprir esta
obrigação, cabe ao Estado apoiá-la, e não as crianças; b) a
criança que trabalha fica mais esperta, aprende a lutar pela
vida e tem condições de vencer profissionalmente quando adulta,
mas o trabalho precoce é árduo e nunca foi estágio necessário
para uma vida bem sucedida, ele não qualifica e, portanto, é
inútil como mecanismo de promoção social; c) o trabalho enobrece
a criança, antes trabalhar que roubar, mas crianças e
adolescentes que trabalham em condições desfavoráveis pagam
com o próprio corpo quando carregam pesos excessivos, são submetidos
a ambientes nocivos à saúde, vivem nas ruas ou se entregam à
prostituição. Também pagam com a alma quando perdem a possibilidade
de um lar, de uma escola, de uma formação profissional adequada
por terem sido jogados em cenários degradados e degradantes.
Mesmo denunciando estes mitos,
o que mais se precisa fazer para convencer as pessoas que o
trabalho não é bom para a criança? Como convencer que o trabalho
é coisa para adulto? Esclarecer que a origem da palavra trabalho
vem de tripalium (ou trepalium), um instrumento romano de tortura,
cujas variantes em diversas línguas sempre possuíram uma cor
sombria, ligada ao sofrimento, tormento e agonia e que, portanto,
apenas os adultos devem suportar? Talvez a melhor estratégia
seja mostrar os efeitos em curto e longo prazos do trabalho
infantil na saúde da criança. Provar que as dimensões física
e psicológica são seriamente afetadas em virtude do corpo e
da mente da criança não estarem preparados para tripaliare,
levando futuramente, já adulto, a pedir benefício ao INSS devido
à depressão, problemas na coluna vertebral ou lesão nas articulações
e tendões por esforços repetitivos. Se verdadeiramente quisermos
eleger a qualidade de vida como um novo valor para a nossa sociedade,
teremos que começar pelas crianças, defendendo o que elas realmente
devem fazer: estudar e brincar. Para um corpo pequeno e um cérebro
em formação, essas são atividades que proporcionam uma espécie
de dança dos neurônios, uma dança melódica (e não monótona)
necessária para o desenvolvimento pleno das habilidades da criança,
principalmente uma em especial, tão rara entre os seres humanos:
a criatividade.