A parábola do
serviço público no Brasil
Desde
a década de 30 do século passado, o Brasil se empenhou
na construção de um serviço público estatal, que fosse
capaz de dar suporte a uma moderna sociedade industrial
capitalista. Ainda que mantendo os trabalhadores do campo
sob as condições de miséria e opressão impostas pelo latifúndio
e a classe operária submetida ao despotismo da fábrica,
uma camada intelectual foi sendo gerada pela necessidade
mesma do processo de desenvolvimento capitalista. Como
a própria particularidade do desenvolvimento capitalista
e da ‘revolução burguesa’ no Brasil exigiu um Estado corporativista,
a demanda por um serviço público estatal teve suas dimensões
ampliadas, de modo que o serviço público foi funcional
para que os trabalhadores fossem organizados segundo as
necessidades de um mercado determinado, que pedia forte
participação do Estado.
Nessa
trilha foi se formando uma burocracia estatal multiforme
que tinha o objetivo explícito de atenuar e controlar
os conflitos sociais, fosse pela repressão desapiedada
ou pela concessão de assistência ou direitos sociais.
Mas um Estado assim conformado não poderia deixar de ser
ele mesmo traspassado pelas contradições sociais e políticas
existentes na ordem social burguesa em construção.
Assim é que vários setores profissionais encontraram no
Estado o seu ‘patrão’, dentre os quais uma camada de trabalhadores
intelectuais estatais, conhecidas como servidores ou funcionários
públicos. São professores de diversos níveis, cientistas,
médicos, engenheiros, juristas, bancários, agrônomos.
São também operários qualificados, dotados de um saber
específico. Toda essa gama de trabalhadores, por décadas
recebeu compensação em proventos e direitos pelos seus
serviços prestados a construção do Estado nacional de
uma burguesia associada
ao imperialismo.
Grande
parte desses trabalhadores públicos estatais, particularmente
professores universitários e bancários, desde o final
dos anos 70, estiveram na linha de frente pela democratização
do Estado e pela extensão dos direitos sociais, convergindo
com as reivindicações que vinham da classe operária fabril
das grandes empresas multinacionais, dos trabalhadores
bancários dos grandes bancos privados e do mundo do trabalho
e da cultura, mais em geral. Em significativa medida essas
reivindicações por direitos sociais foram estabelecidas
pela Constituição nacional de 1988, ainda que, na prática,
os trabalhadores do campo tenham permanecido excluídos
de direitos básicos e fundamentais, como o acesso a terra
e a seguridade social.
Desde
então, porém, os sucessivos governos, impregnados pela
perspectiva e pelo programa neo-liberal difundido pelas
agencias econômicas e culturais do grande capital financeiro
transnacional, têm-se batido pela redução dos direitos
sociais e do trabalho, como forma de combater o crônico
déficit fiscal do Estado, utilizando o falso argumento
de que esses penalizam as contas “públicas”. A redução
dos direitos é o complemento lógico da privatização do
patrimônio público (várias empresas e bancos estatais),
em grande parte já realizada. Em vez de voltar-se para
os reais motivos do déficit que é a sangria causada pelo
pagamento dos juros da dívida externa, os governos (de
Fernando Collor a Fernando Cardoso, a Luiz Inácio da Silva)
preferem responsabilizar os trabalhadores públicos estatais
por terem feito valer os direitos advindos do seu trabalho
e que se empenharam em ver estendidos ao conjunto dos
trabalhadores da nação.
A
emenda constitucional n. 40, dita “reforma da previdência”,
em tramitação no Congresso Nacional, ataca os próprios
fundamentos filosóficos e conceituais da Constituição
brasileira ao subtrair direitos sociais inalienáveis.
Antes de tudo porque parcela o conceito de seguridade
social, do qual educação, saúde, saneamento e previdência
são um todo, apesar de contar com fontes de financiamento
diferenciadas. É dessa diferenciação de fontes que se
aproveita para a transferência de recursos próprios da
previdência para outros fins, contribuindo para montar
a farsa do déficit previdenciário. Dos recursos transferidos,
da sonegação por parte das grandes empresas e da corrupção
endêmica podem ser encontrados os números do déficit,
não nos direitos sociais dos trabalhadores, enganosamente
taxados de ‘privilegiados’.
A
retirada de direitos sociais que essa ‘reforma da previdência’
traz, assim como aquela que se anuncia para a subseqüente
‘reforma trabalhista’, afetará gravemente a situação dos
trabalhadores públicos estatais atuais e futuros, incidindo
na qualidade dos serviços prestados ao conjunto dos cidadãos
e trabalhadores e, fundamentalmente, afetando a soberania
nacional e a capacidade do Brasil se defender de ameaças
externas. Os serviços de prestação de serviços assistirão
a um rebaixamento de qualidade, assim como os serviços
de educação e saúde pública serão afetados.
A
Universidade pública sofrerá um golpe do qual talvez não
se recupere mais. A aposentadoria massiva de professores
/ pesquisadores no auge da sua capacidade intelectual
afetará as condições de produção autônoma de cultura,
ciência e tecnologia de que o Brasil tanto precisa, assim
com atingirá as condições de educação superior e qualificação
profissional dos filhos das classes mais exploradas do
povo, agravando a sua situação de opressão. A recente
manifestação de simpatia do ministro da Educação, sobre
a possibilidade de recebimento de investimentos estrangeiros
nas empresas privadas ‘universitárias’, indica os rumos
que se pretende para a universidade pública e seus trabalhadores:
uma fina e elegante universidade privada, ao melhor estilo
empresarial, na qual o conhecimento seja apenas uma mercadoria
a mais, e uma universidade pública sem recursos, com trabalhadores
intelectuais mal pagos, de baixa qualificação e sem estimulo,
que ofereçam uma formação rebaixada para os filhos dos
trabalhadores mais simples e sem direitos.
A
natureza mesma dessa emenda constitucional, portanto,
contraria os mais fundos interesses da nação e do povo
brasileiros, em se considerando que afeta seriamente a
capacidade de produção e difusão autônoma do conhecimento
científico.