O
Panóptico: Foucault confirma Orwell
Ao
ler Admirável Mundo Novo de Huxley e “1984” de George
Orwell, fiquei com a impressão de que aquele aparato
estatal de vigilância com a Grande Tela e o Grande
Irmão, as torturas, a tensão constante num ambiente
de delação, fazia referência mais especificamente
aos regimes totalitários de esquerda ou de direita,
enquanto os modos pseudo-democráticos de condução
e massificação de Admirável Mundo Novo se
identificavam categoricamente com a sociedade tecnológica,
consumista e capitalista em que vivemos. As brilhantes
comparações de Aldous Huxley no prefácio do seu
ensaio de 1958, Regresso ao Admirável Mundo Novo
reforçaram esta idéia de que os elementos coercitivos
de “1984” caracterizavam as ditaduras, inclusive
a brasileira dos militares pós 64 e os elementos
de manipulação, de condução sutil “como um gado”
de AMN seriam características das “democracias”
capitalistas ocidentais, portanto com analogia mais
acentuada com a nossa realidade atual.
Porém, ao ler sobre o pensamento e
a obra de Michel Foucault, principalmente Vigiar
e Punir (1975), percebi que o “1984” de Orwell
está muito mais presente em nossa vida atual do
que eu pensava. Senão superando a presença indiscutível
de Admirável Mundo Novo, pelo menos participando
em pé de igualdade no que diz respeito ao controle
social em nosso tempo. Em Vigiar e Punir,
Foucault trata com muita propriedade do tema da
“Sociedade Disciplinar”, implantada a partir dos
séculos XVII e XVIII, consistindo basicamente num
sistema de controle social através da conjugação
de várias técnicas de classificação, de seleção,
de vigilância, de controle, que se ramificam pelas
sociedades a partir de uma cadeia hierárquica vindo
do poder central e se multiplicando numa rede de
poderes interligados e capilares. O ser humano é
selecionado e catalogado individualmente, não no
sentido de valorizar suas particularidades que o
fazem um ser único, “um mamífero com um grande cérebro”,
como disse Huxley, mas para melhor controlá-lo.
O sentido é dissecar o corpo social, transformar
esta massa amorfa em micro seções individuais, para
conhecer e controlar. O Poder nesse sentido é exercido
de forma celular. Pois como diz
Foucault, “toda forma de saber produz poder”. Dividir, classificar, conhecer cada célula social para governar.
O poder é então baseado na “Microfísica do Poder”,
outra obra de Foucault. O filósofo aponta que a
motivação de toda esta rede de controle se justifica
pela necessidade que a burguesia teve de efetivar
um controle mais determinado sobre as massas, que
poderiam representar um perigo explosivo, se fossem
levados a sério os ideais da Revolução Francesa
e do Iluminismo. Seria como se fossem abertas as
comportas de uma imensa represa, cujas águas foram
mantidas estancadas a milênios desde a Antigüidade
remota, através dos mais variados mecanismos de
poder, cuja argamassa da ignorância popular foi
um dos elementos mais eficazes da sustentação desta
barragem. Se deixassem essa imensa quantidade de
água descer rio abaixo, livre com o conhecimento
do Iluminismo, ela certamente inundaria e destruiria
as luxuosas instalações do poder e sua corte finíssima,
que hoje se traduz por burguesia. Era preciso consertar
a velha barragem e parar essa força descomunal das
massas ou então construir uma outra barragem e reservar
o trinômio Liberdade, Igualdade e Fraternidade para
os sócios do seleto clube burguês. Assim foi feito
com a implantação da “Tecnologia das Disciplinas”.
E o que é mais interessante para nós, admiradores
de Orwell: este “Poder das Sociedades Disciplinares”,
se baseou, segundo Foucault, no modelo do Panóptico
de Jeremy Bentham (1748-1832), o filósofo utilitarista
inglês que idealizou o sistema de prisão com disposição
circular das celas individuais, dividas por paredes
e com a parte frontal exposta à observação do Diretor
por uma torre do alto, no centro, de forma que o
Diretor “veria sem ser visto”. Isto permitiria um
acompanhamento minucioso da conduta do detento,
aluno, militar, doente ou louco, pelo Diretor, mantendo
os observados num ambiente de incerteza sobre a
presença concreta daquele. Essa incerteza resultaria
em eficiência e
economia no controle dos subalternos, pois tendo
invadida a sua privacidade de modo alternado, furtivo,
incerto, ele mesmo se vigiaria. Esse sistema permitiria
também um controle externo do funcionamento do Panóptico,
pois uma simples observação a partir da torre, permitiria
a avaliação da qualidade da administração do Diretor,
sendo ele também vigiado. Esta vigilância se espalhou
de modo similar por toda a sociedade em uma rede
ramificada além da estrutura física das instituições.
Essa distribuição capilar do Poder é um dos pólos
fundamentais de controle das massas, potencialmente
perigosas à “Ordem”.
Ora, aí, no Panóptico estão explícitos os elementos
essenciais de “1984”: a vigilância, o suspense de
ser visto sem ver, as inspeções alternadas e incertas:
“a qualquer momento a Polícia do Pensamento pode
entrar e dar voz de prisão”, a qualquer momento
o cidadão pode cometer o Crimidéia, qualquer um
pode ser o delator, desde as próprias crianças até
o amigo do boliche. A Grande Tela vigia, filma,
invade a privacidade, ela é o próprio Panóptico
elevado ao cubo, espalhado, inflado. Foucault fala
da impessoalidade do Diretor, ele pode estar na
torre, pode não estar, é vedado ao observado saber
se ele está ou não na torre, se o Diretor está ou
não o observando. O observador não precisa necessariamente
ser o Diretor, pode ser um amigo, seus familiares,
um simples funcionário subalterno, pode nem haver
ninguém. O Grande Irmão também não é impessoal?
Na verdade uma abstração, uma personificação do
Estado, ele pode ou não existir como pessoa física.
Quantos boatos já se fizeram sobre a morte não divulgada
de um líder poderoso e a suspeita de que o seu Império
continuava de pé? Também há correspondência em relação
à asfixia do drama vivido por Winston. O texto de
Foucault é igualmente sufocante, tem-se uma primeira
impressão de que não há saída possível. Dizem que
há até uma discussão sobre a validade do caráter
marxista-libertário da obra de Foucault, tamanha
a desesperança inicial quando se toma conhecimento
da malha tão intrinsecamente montada do poder. Mas
é claro que tem que se buscar uma saída, o que Foucault
aponta no decorrer de outras obras. Mas o certo
é que Foucault é uma confirmação do escritor de
“1984”. Aquilo que George Orwell anteviu em 1948,
em forma literária-alegórica, Foucault detalhou,
décadas depois, de forma teórico-filosófica. Isto
nos traz uma correspondência maior ainda entre Aldous
Huxley e Orwell. Por este prisma, há quase uma fusão
entre “1984” e Admirável Mundo Novo. A vigilância
coercitiva, sufocante, explícita e implícita da
Grande Tela e do Grande Irmão com a massificação
terrivelmente uniforme da “felicidade tecnológica”
e do condicionamento Skenneriano de Brave New Word.
Ora, em AMN também não havia um rígido controle
de classificação, de catalogação dos fetos, das
pessoas? Claro, apesar da alienação pelo condicionamento,
imbecilização, drogas e tudo o mais, era necessário
um rígido controle dos indivíduos (se é que podemos
chamá-los assim) para se assegurar a homogeneidade.
Por outro lado em “1984” havia a coerção
e a intimidação, mas havia também a propaganda e
a sugestão estatais exercidas pela Grande Tela.
“Lá fora faz um tempo confortável e a vigilância
cuida do normal” (Zé Ramalho, Admirável Gado Novo).
É a normalidade que buscam, tanto Mustaf Mond, o
Coordenador Mundial de AMN, quanto o Grande Irmão.