Apresentação
Este
trabalho tem por objetivo indicar que a categoria trabalho
se constitui, ainda hoje, um campo “privilegiado”,
mas não único, para compreensão das transformações
no mundo, da vida cotidiana, enfim, das formas
de sociabilidade, de construção de identidades,
de subjetividades e das representações que irão
se constituir na forma de pensar e agir no mundo
social. Por isso, entendo que as transformações,
ora presenciadas no mundo do trabalho não podem
se constituir como campo “singular” de qualquer
disciplina, ao contrário, pelas suas diversas
implicações, tais transformações se caracterizam
por uma complexidade que clamam pela interdisciplinaridade.
O fechamento de postos de trabalho,
a precarização, o subemprego, a informalidade,
a terceirização, bem como o surgimento de novos
postos de trabalho tem por conseqüência transformações
na vida das pessoas, em seus valores e nas suas
formas de se relacionar com o outro.
Estas afirmativas podem soar estranhas,
principalmente para aqueles que advogam o fim
da centralidade da categoria trabalho e privilegiam
novas categorias para compreensão do mundo social.
Sem entrar neste debate - haja vista que este
não é nosso objetivo aqui -, cabe chamar atenção
para estreita ligação entre o trabalho e a representação
que se faz daquele sem-trabalho. Em outras
palavras, existe, ainda, um conjunto de crenças
e valores culturais em que os indivíduos são classificados
e rotulados, agora mais do que antes, entre vencedores
e perdedores. Portanto, estar na condição
de sem-trabalho pode implicar em
exclusão, pobreza, enfim, em um deslocamento de
referenciais de estabilidade
como família, relações de amizade e de
desespero em relação ao futuro.
Afinal, gostaria de afirmar que
por Representação Social entendo uma categoria
complexa que não pode ser pensada como um fenômeno
individual, mas relacional, haja vista que está
inserido na formação histórica, social e cultural,
um processo em que o desenvolvimento do EU
se da pela internalização de Outros.
Resumidamente, do ponto de vista
sociológico, Durkheim é o primeiro autor a trabalhar
com a categoria de Representações Sociais. Na concepção durkheimiana
é a sociedade que pensa, desta forma, para
ele, nem sempre as representações são
conscientes do ponto de vista individual.
O indivíduo do
ponto de vista da teoria durkheimiana é visto
como “impotente” diante do poder absoluto e sistêmico
da sociedade(1978,79). Esta premissa é criticada
tanto pela Sociologia compreensiva, quanto pelo
Materialismo histórico dialético.
Weber, por exemplo, entende a vida
social como a conduta individual. Em seu
trabalho intitulado “A Ética Protestante
e Espírito do Capitalismo”, o autor ressalta que
as representações sociais são juízos de valor
que os indivíduos possuem e pelos quais eles se
orientam. Não é Weber, portanto, tão cético em
relação a autonomia do indivíduo quanto Durkheim, pois, para o primeiro o indivíduo é a “constelação
singular” que informa sobre a ação social de seu
grupo. Assim, Weber chama atenção para a importância
de se compreender as Representações Sociais e,
também, de sua eficácia para entender o desenvolvimento
histórico.
Marx parece concordar com Durkheim
quanto o poder coercitivo
que as crenças e os valores têm sobre os
indivíduos. Todavia, o primeiro raramente utiliza-se
da categoria sociedade, preferindo a categoria
formação social, por entendê-la mais dinâmica
e por expressar um processo, um espaço contínuo
de formação e transformação. Desta forma, não
reduz o indivíduo à sociedade, abrindo a possibilidade
para existência dos antagonismos e das lutas de
classe, afinal, “as circunstâncias fazem os homens,
mas os homens fazem as circunstância”(1984:73).
Mesmo reconhecendo que “as idéias dominantes são,
em cada época, as idéias das classes dominantes”(1984:47),
a concepção dialética marxiana não subsume o indivíduo
a sociedade, mas, também, não entende o primeiro
como uma entidade autônoma e a parte do conjunto
da formação social. O Indivíduo não é para Marx
uma fonte absoluta de significação capaz de criar
e dar sentido a partir de si mesmo. Nesse sentido,
um pressuposto que se impõe diz respeito à consideração
de que as representações são socialmente produzidas,
operando sobre determinada configuração histórica
e temporal.
As Representações circulam pelo
mundo e pelas mentes. Portanto, desde já, desejo
ressaltar que não comungo com os pressupostos
adorniano atribuído ao receptor, por isso, entendo
que é importante contemplar
o estudo da Recepção, pois, é através dele
que podemos compreender as relações que se estabelecem
entre as representações do cotidiano e aquelas
veiculadas pelos meios de comunicação. Neste trabalho
me utilizarei das pesquisas da própria mídia,
isto dará um escopo limitado, mas suficiente para,
ao menos, indicar a complexidade das Representações Sociais.
O Sobrevôo da Coruja: um passeio
sobre as transformações no mundo do trabalho
“trabalho anual de uma nação é o fundo de que provém originalmente
todos os bens necessários à vida e ao conforto
que a nação consome (...)”
Adam
SMITH.
“O Trabalho para quem não fosse senhor, não levava a parte
alguma e o esforço de realizá-lo, ao invés de
dignificar quem o executasse, tendia ao contrário,
a aproximá-lo das regras de domínio e submissão
imperantes na condição cativa de existência.”
Lúcio KOWARICK
Começamos com as citações acima
por acreditar que elas, ao menos, indicam que
a relação para com o trabalho não é,
e nunca foi unívoca. Sendo assim, as relações sociais,
a partir de posições díspares, também não são
homogêneas, repercutindo no olhar que se lança
ao outro em cada contexto histórico, político
e cultural, bem como na representação que o EU
faz de si mesmo.
Num sentido amplo quero, com isso,
indicar que o conceito e o lugar que o trabalho
ocupa em determinado contexto histórico implica
na representação que fazemos daquele que trabalha,
bem como daquele que não trabalha. Compreendemos,
assim, que o caminho percorrido para que o trabalho
fosse conduzido a condição de atividade “nobre” envolve uma dinâmica
complexa. Entendo, assim, que o advento da
Revolução Industrial – aqui tenho como referência
a Inglaterra-, e a ascensão da burguesia como
classe dirigente
que trabalha, afetou a organização, o valor
e as formas de trabalho. Esta “nova ordem” fez
derreter sólidos vínculos e costumes, novas realidades
se formavam e as “coisas” que
foram implodidas precisavam ter outras
colocadas em seu lugar. Novos “ethos”, novos comportamentos,
novos padrões de sociabilidade, enfim uma nova
moralidade precisava ser erigida visando reacomodar
a terra revolvida
e dar ao trabalho e ao trabalhador um significado
positivo. Leis contra vadiagem, contra a mendicância
e de assistência social pululavam por toda Europa visando
sedimentar novas
formas de ajustamento social. Todavia, este processo
foi de “longa duração”, demorando mais de um século
para se firmar. Em seu trabalho Sennett indica
que este processo somente se solidificou após
a Segunda Guerra mundial, isto, ao menos, afirma
este autor, nas economias mais avançadas. Pode-se
dizer, que as análises de Castel corroboram e
confirmam que o processo de solidificação da nova
ordem foi lenta e gradual. De acordo com seu trabalho,
o caminho percorrido para a fixação da nova ordem,
ou seja, da relação salarial que deu início a
condição operária do recente processo de industrialização
à relação salarial fordista, foi constituído por
cinco degraus, responsáveis pelas transformações
ocorridas no seio das classes trabalhadoras para
sua conformação.
No que se refere a sociedade salarial
este período que se instala com o Estado de bem-estar
suplantou a incerteza que se colocou no início
do processo da sociedade salarial. A vida cheia
de incerteza que havia se instaurado com a ruptura
dos sólidos laços com o advento da Revolução Industrial
tinha retomado seu curso e, em termos práticos,
estabelecia-se uma idéia de uma comunhão de longo
prazo.
De maneira objetiva o trabalho
passou a significar, para os trabalhadores da
era do Estado de bem-estar, inclusão, auto-conservação,
perspectiva de satisfação das necessidades, etc.
Do lado subjetivo implicou
o enraizamento do trabalhador na ética
do trabalho e seu “casamento” com os pressupostos
do capital.
Desta forma, o preceito comportamental
e de atitude perante ao trabalho tornou possível
uma ressignificação do trabalho e do trabalhador
nas sociedades capitalistas avançadas. O primeiro
passa a ser o “sentido da vida”, possibilidade
de enriquecimento futuro e para além do problema da sobrevivência, o trabalho,
ainda que heteronomo, é proclamado como virtude.
Contudo, essa “concertação social”
de acordo com os estudiosos do trabalho começou
a dar sinais de esgotamento a partir do início
da década de 1970. As causas apontadas para a corrosão da sociedade salarial são diversas.
Entretanto, em comum é o reconhecimento de que a crise do petróleo de 1973 juntamente com
a crise que, pela primeira vez, desde o pós Segunda
Guerra, se instalou nos países do capitalismo
avançado, combinava baixas taxas de crescimento
com altas taxas de inflação, teve como alvo o
Estado de bem-estar.
Mais uma vez o capital demonstra
sua capacidade de superação. Iniciando um
movimento de derretimento de todos os laços
que surgiram com o advento da sociedade salarial.
A incerteza é retomada, a mentalidade de
longo prazo é substituída por outra de curto,
às vezes curtíssimo, prazo.
Para o trabalhador a “flexibilidade”
significa precarização, desemprego, subcontratação,
terceirização, contratos por tempos determinados,
e desemprego. Essa nova configuração do mundo
do trabalho, transforma também a vida das pessoas,
seus valores e seus relacionamentos.
Em busca de competitividade em
tempo de “capital” sem fronteiras, as empresas
tendem cada vez mais implementar novas tecnologias
poupadora de mão-de-obra. Assim, substituiu, como
antes nunca se viu, o trabalho vivo por trabalho
morto, ou seja, as empresas tendem a incorporar
ao seu domínio cada vez mais certeza, enquanto
aumenta para os trabalhadores a incerteza e a
sensação de insegurança num mundo onde o slogan
é a flexibilidade.
A Incerteza como força individualizadora
e a Empregabilidade como Utopia:
Essa ação poderosa da incerteza
é reforçada pelos noticiários que se “apressam”
em destacar que para os trabalhadores não há alternativa.
Se não há alternativa e a incerteza prevalece
não há porque procrastinar a satisfação. A ordem
é viver o presente, e não perder qualquer oportunidade.
Se a ordem é viver o presente, não há laços
de solidariedade nem porque pensar no outro.
Assim, “a incerteza do presente é uma poderosa
força individualizadora. Ela divide em vez
de unir, e como não há maneira de dizer quem acordará
no próximo dia em qual divisão, a idéia de interesse
comum fica cada vez mais nebulosa e perde todo valor prático” (Bauman,2000:170).Sem grifos no original.
A lógica destrutiva da incerteza,
da exclusão e do desemprego ao desestruturar o
mundo do trabalho com repercussões arrasadoras
na classe-que-vive-do-trabalho, também transformou
o cotidiano, interferindo sobremaneira no processo
de ressignificação da atividade do trabalho, bem
como do trabalhador. Tudo isso colocando novos
desafios para que a lógica da incerteza e o discurso
da competição não seja o domínio de conseqüências
trágicas. Tratou-se de construir uma nova realidade
discursiva e
reorientar o perfil do trabalho e do trabalhador.
Diante disso, o discurso procurou
disseminar que os novos atributos tecnológicos
ensejavam, em contrapartida, novos paradigmas
qualificacionais. Portanto, disseminava-se a visão
de que o que havia era o descompasso entre os
empregos existentes e o nível de qualificação,
ou seja, transferia,
assim, para os trabalhadores a responsabilidade
pela sua empregabilidade e da polivalencia.
Polivalente torna-se
a palavra-chave para representar o “novo” status
de SER trabalhador. Desta forma:
“Se a mão-de-obra,
a partir de agora, tem de ser mais bem qualificado
e polivalente, as empresas, por sua vez, têm de
mudar seus critérios de contratação e remuneração....José
Pastore, Professor titular...da Universidade de
São Paulo, diz que no mundo atual só há lugar
para quem é capaz de aprender continuamente e
somente estas pessoas terão trabalho e remuneração.
Para ele.... até pouco tempo, as empresas contratavam
operários classificados como alfabetizados, ou
seja, que sabiam escrever seu próprio nome...Hoje,
a classificação de alfabetização é outra. Só é
alfabetizado o trabalhador que consegue ler manuais
de instrução e realizar múltiplas tarefas... por
esse critério, ressalva Pastore, metade de nossa
força de trabalho é analfabeta. E Conclui, esse
“gap” ...compromete a competitividade das empresas,
reduz os salários dos trabalhadores e faz encolher
as oportunidades de bons empregos...(Exame, 22
maio de 1996)”.
O ônus do desemprego era colocado
sob a responsabilidade do trabalhador. Todavia,
cabe ressaltar que esta representação acerca do
trabalhador não se constrói no vazio. É verdade
que o nível de escolaridade no Brasil reforça
a idéia de um gap entre as vagas existentes
e os candidatos, mas, também é verdade que os
postos de trabalho gerados são menores do que
aqueles destruídos, gerando um déficit de lugares.
O chamado capital cultural como sistema de significação
aprofunda e acirra o individualismo na busca de
um lugar no “Olimpo”. A relação com o trabalho
e, porque não dizer, da vida cotidiana, passou
a expressar–se pelos sentimentos e ideais de sucesso
e fracasso.
Caberia, então, para o trabalhador
no mundo flexível buscar a construção de sua empregabilidade.
Ser polivalente, honesto, sensível, carismático,
multifuncional, com uma formação educacional ampla,
visão de conjunto, hábil nas tomadas de decisões
e zeloso com suas relações sociais, são características
que sintetizam o trabalhador tipo-ideal
. Com tais especificidades, ter empregabilidade
significa manter-se em condições de se auto-empregar.
Portanto, o conceito de empregabilidade é semelhante
ao de empreendedorismo, já que implica em criar
condições de se auto-empregar e, em vez de salário,
manter viva a alternativa de remuneração.
Numa rápida pesquisa nas edições
da revista VOCE S/A, encontramos alguns
títulos que ressaltam o empreendedorismo como
motor de desenvolvimento econômico. Entre os artigos
destacamos a edição de janeiro de 2001, número
31, com o sugestivo título “Seja o seu Patrão”.
A reportagem destaca as transformações do mundo
do trabalho, as características do novo modelo
de profissional e as mudanças de comportamento
em relação ao empreendedor. Com destaque trazemos
alguns trechos desta reportagem.
“O velho
modelo do profissional de sucesso, aquele que
saía das melhores universidades, iniciava sua
carreira como trainee numa grande multifuncional
e ali mesmo subia cada degrau na hierarquia rígida
e bem verticalizada da companhia, está em xeque.
Em seu lugar, existem novos caminhos para trilhar
uma vida profissional brilhante. Veja bem: isso
não significa que estar numa multinacional e nela
crescer não possa ser interessante. O fato
é que essa não é mais a única possibilidade. Agora,
o profissional, principalmente o talentoso e bem
preparado, pode optar. (...)
Mas a novidade
nessa história toda é que o empreendedorismo ultrapassou
de vez os muros das grandes corporações. Os
empreendedores, aqueles que são donos de seu próprio
negócio, nunca estiveram tão em alta. Antes, eram
considerados profissionais do segundo time. Muitas
vezes, tomavam o caminho do negócio próprio porque
não achavam um bom emprego ou porque queriam se
livrar do manda-e-desmanda dos chefes(...) (VOCE
S/A – reportagem de capa jan/2001). Sem grifos
no original.
A edição 708 de 23 de fevereiro
de 2000, com o título A morte começa aos 40,
retoma a idéia de culpabilização. Nas palavras
de João Pedro Perez, diretor de venda de softwares
da IBM, “a empresa busca um perfil que as pessoas
que não se atualizaram não têm”. Este pensamento
retoma a idéia da culpabilização das vítimas
do desemprego.
A
seguir reproduziremos alguns dos depoimentos contidos
na revista. Stetison Peccioli de Carvalho, 49
anos, era gerente regional do Banco Antônio Queiroz.
Foi demitido aos 45 anos, por fax, em 1995:
(...) Nunca
mais foi contratado. Stetison declara: “Os amigos
a quem eu poderia recorrer estão sendo demitidos,
estou na contramão do mercado”. Stetison
trabalhou como autônomo durante dois anos, participou
de uma empresa de consultoria e começou a dar
aula sobre mercado de capitais no Instituto Nacional
de Pós-Graduação. Para ele, “cada vez que alguém
sai do mercado financeiro nasce um consultor. Todo
mundo diz que é consultor. Na verdade, o que nós
fazemos é bico. No ano passado, ele comprou
uma banca de jornais no Morumbi e espera faturar
com ela, já a partir deste ano, tanto quanto ganhava
como gerente. Mas, diz que, se tivesse oferta
de emprego, voltaria ao mercado”. Sem grifos no original.
“Se tivesse oferta de emprego,
voltaria ao mercado”. Stetison, realmente parece
estar na contramão, mas, não porque “envelheceu”
e sim pela sua expectativa de um emprego seguro,
estável, pelo menos, assim parece aos paladinos
do empreendedorismo. Na verdade, ser empreendedor
para Stetison é uma condição de trabalho e não
de emprego, por isso, considera sua condição
de consultor como um bico.
“Isaldo
Luiz Campos, 44 anos, também saiu do mercado financeiro.
Trabalhou como gerente em Belo Horizonte nos bancos
Bradesco, Noroeste e Unibanco, teve uma microempresa
e depois trabalhou como vendedor de uma gráfica.
Desde 1998 está sem trabalho. Seu cabelo branqueou
precocemente e ele teve uma crise de depressão. “Dói, machuca
muito ficar parado, sem perspectivas”, diz. Hoje
curado da crise, Campos aprendeu a viver com menos,
trabalha como síndico do edifício em que mora (...)”.
“Itzhak
Meir Bogmann, 51 anos, formado em Engenharia operacional pelo Instituto Techinion, de Israel, com pós-graduação
em administração pela Escola Superior de Propaganda
e Marketing (...) foi descartado na última fase
com a justificativa que a empresa queria alguém
de no máximo 35 anos. (..) Hoje, destaca a revista,
tem múltiplas atividades: trabalha por comissão
numa empresa de consultoria financeira, é síndico
do flat em que mora nos jardins (...) e diretor
de marketing do clube A Hebraica.
*
As biografias apresentadas acima
demonstram que existe uma tendência de ancorar
as Representações Sociais em uma realidade conhecida,
condensando significados diferentes e, por vezes,
ameaçador, em uma realidade familiar. Em outras
palavras, o processo de culpabilização é transferido
às vítimas do processo, isso, pelo seu baixo nível
educacional, ou, quando essa explicação não é
totalmente aderente ao real, como vimos nas biografias
acima, pelo “envelhecimento” das vítimas.
Não é por acaso que na tenaz tentativa
de suplantar seus “erros”, centenas de milhares
de pessoas procuram construir sua empregabilidade,
lotando cursos de pós-graduação e de MBA. Empregabilidade que significa
mais do que o binômio emprego e salário, ou seja,
significa a capacidade constante de gerar trabalho
e renda. Assim procedendo os termos empregabilidade
e empreendedorismo parecem sinônimos e sinalizam
para um futuro, por vezes utópico, mas que possibilitam
transferir os problemas de hoje, para um amanhã..
Mais ainda, as Representações Sociais
acerca do trabalho e por extensão do trabalhador
são transformadas. Requisitos como pontualidade,
assiduidade e obediência não são mais colocados,
ao menos discursivamente, como instrumentos importantes
para manutenção do emprego. Por conseguinte, os
motivos apresentados àqueles que encontram-se
sem trabalho, não são
mais por seus comportamentos inadequados,
mas sim, nas transformações dele mesmo como um
sujeito inadequado. Desta forma, não é difícil
compreender que seu sentimento de inadequação
seja transformado em culpa e incapacidade de SER
trabalhador, consagrando o princípio do mérito
e da divisão entre vencedores e perdedores.
O Olimpo é destinado aos vencedores
desta batalha pela empregabilidade, que construíram
sua experiência e fama, mas como uma condição
transitória, pois, nunca se sabe quem será o próximo
a deixar a habitação destinada, agora, aos “Deuses”
efêmeros e individualistas, nem quais serão as
próximas exigências do capital para objetivar
as Representações Sociais acerca do trabalho e
do trabalhador.