Por JOSÉ HENRIQUE CARVALHO ORGANISTA
Doutorando em Ciências Sociais UERJ – Prof. Substituto UERJ. Bolsista da FAPERJ


VERSÃO WORD [ZIP]

 

 

O Olimpo para os Sobreviventes: Representações Sociais e Mundo do Trabalho

 

Apresentação

Este trabalho tem por  objetivo indicar que a categoria trabalho se constitui, ainda hoje, um campo “privilegiado”, mas não único, para compreensão das transformações no mundo, da vida cotidiana, enfim, das formas de sociabilidade, de construção de identidades, de subjetividades e das representações que irão se constituir na forma de pensar e agir no mundo social. Por isso, entendo que as transformações, ora presenciadas no mundo do trabalho não podem se constituir como campo “singular” de qualquer disciplina, ao contrário, pelas suas diversas implicações, tais transformações se caracterizam por uma complexidade que clamam pela interdisciplinaridade.

O fechamento de postos de trabalho, a precarização, o subemprego, a informalidade, a terceirização, bem como o surgimento de novos postos de trabalho tem por conseqüência transformações na vida das pessoas, em seus valores e nas suas formas de se relacionar com o outro.

Estas afirmativas podem soar estranhas, principalmente para aqueles que advogam o fim da centralidade da categoria trabalho e privilegiam novas categorias para compreensão do mundo social. Sem entrar neste debate - haja vista que este não é nosso objetivo aqui -, cabe chamar atenção para estreita ligação entre o trabalho e a representação que se faz daquele sem-trabalho. Em outras palavras, existe, ainda, um conjunto de crenças e valores culturais em que os indivíduos são classificados e rotulados, agora mais do que antes, entre vencedores e perdedores. Portanto, estar na condição de sem-trabalho pode implicar em exclusão, pobreza, enfim, em um deslocamento de referenciais de estabilidade  como família, relações de amizade e de desespero em relação ao futuro.

Afinal, gostaria de afirmar que por Representação Social entendo uma categoria complexa que não pode ser pensada como um fenômeno individual, mas relacional, haja vista que está inserido na formação histórica, social e cultural, um processo em que o desenvolvimento do EU se da pela internalização de Outros.

Resumidamente, do ponto de vista sociológico, Durkheim é o primeiro autor a trabalhar com a categoria de  Representações Sociais. Na concepção durkheimiana é a sociedade que pensa, desta forma, para ele, nem sempre as representações são  conscientes do ponto de vista individual. O indivíduo  do ponto de vista da teoria durkheimiana é visto como “impotente” diante do poder absoluto e sistêmico da sociedade(1978,79). Esta premissa é criticada tanto pela Sociologia compreensiva, quanto pelo Materialismo histórico dialético.

Weber, por exemplo, entende a vida social como a conduta individual. Em seu  trabalho intitulado “A Ética Protestante e Espírito do Capitalismo”, o autor ressalta que as representações sociais são juízos de valor que os indivíduos possuem e pelos quais eles se orientam. Não é Weber, portanto, tão cético em relação a autonomia do indivíduo  quanto Durkheim, pois, para o primeiro o indivíduo é a “constelação singular” que informa sobre a ação social de seu grupo. Assim, Weber chama atenção para a importância de se compreender as Representações Sociais e, também, de sua eficácia para entender o desenvolvimento histórico.

Marx parece concordar com Durkheim quanto o poder coercitivo  que as crenças e os valores têm sobre os indivíduos. Todavia, o primeiro raramente utiliza-se da categoria sociedade, preferindo a categoria formação social, por entendê-la mais dinâmica e por expressar um processo, um espaço contínuo de formação e transformação. Desta forma, não reduz o indivíduo à sociedade, abrindo a possibilidade para existência dos antagonismos e das lutas de classe, afinal, “as circunstâncias fazem os homens, mas os homens fazem as circunstância”(1984:73). Mesmo reconhecendo que “as idéias dominantes são, em cada época, as idéias das classes dominantes”(1984:47), a concepção dialética marxiana não subsume o indivíduo a sociedade, mas, também, não entende o primeiro como uma entidade autônoma e a parte do conjunto da formação social. O Indivíduo não é para Marx uma fonte absoluta de significação capaz de criar e dar sentido a partir de si mesmo. Nesse sentido, um pressuposto que se impõe diz respeito à consideração de que as representações são socialmente produzidas, operando sobre determinada configuração histórica e temporal.

As Representações circulam pelo mundo e pelas mentes. Portanto, desde já, desejo ressaltar que não comungo com os pressupostos adorniano atribuído ao receptor, por isso, entendo que é importante contemplar  o estudo da Recepção, pois, é através dele que podemos compreender as relações que se estabelecem entre as representações do cotidiano e aquelas veiculadas pelos meios de comunicação. Neste trabalho me utilizarei das pesquisas da própria mídia, isto dará um escopo limitado, mas suficiente para, ao menos, indicar  a complexidade das Representações Sociais.

O Sobrevôo da Coruja: um passeio sobre as transformações no mundo do trabalho

“trabalho anual de uma nação é o fundo de que provém originalmente todos os bens necessários à vida e ao conforto que a nação consome (...)”

Adam SMITH.

“O Trabalho para quem não fosse senhor, não levava a parte alguma e o esforço de realizá-lo, ao invés de dignificar quem o executasse, tendia ao contrário, a aproximá-lo das regras de domínio e submissão imperantes na condição cativa de existência.”

Lúcio KOWARICK

 

Começamos com as citações acima por acreditar que elas, ao menos, indicam que a relação para com o trabalho não é,  e nunca foi  unívoca. Sendo assim, as relações sociais, a partir de posições díspares, também não são homogêneas, repercutindo no olhar que se lança ao outro em cada contexto histórico, político e cultural, bem como na representação que o EU faz de si mesmo.

Num sentido amplo quero, com isso, indicar que o conceito e o lugar que o trabalho ocupa em determinado contexto histórico implica na representação que fazemos daquele que trabalha, bem como daquele que não trabalha. Compreendemos, assim, que o caminho percorrido para que o trabalho fosse conduzido a condição  de atividade “nobre” envolve uma dinâmica complexa. Entendo, assim, que o advento da Revolução Industrial – aqui tenho como referência a Inglaterra-, e a ascensão da burguesia como classe dirigente  que trabalha, afetou a organização, o valor e as formas de trabalho. Esta “nova ordem” fez derreter sólidos vínculos e costumes, novas realidades se formavam e as “coisas” que  foram implodidas precisavam ter outras colocadas em seu lugar. Novos “ethos”, novos comportamentos, novos padrões de sociabilidade, enfim uma nova moralidade precisava ser erigida visando reacomodar a terra  revolvida e dar ao trabalho e ao trabalhador um significado positivo. Leis contra vadiagem, contra a mendicância e de assistência social pululavam por toda Europa [1] visando sedimentar  novas formas de ajustamento social. Todavia, este processo foi de “longa duração”, demorando mais de um século para se firmar. Em seu trabalho Sennett indica que este processo somente se solidificou após a Segunda Guerra mundial, isto, ao menos, afirma este autor, nas economias mais avançadas. [2] Pode-se dizer, que as análises de Castel corroboram e confirmam que o processo de solidificação da nova ordem foi lenta e gradual. De acordo com seu trabalho, o caminho percorrido para a fixação da nova ordem, ou seja, da relação salarial que deu início a condição operária do recente processo de industrialização à relação salarial fordista, foi constituído por cinco degraus, responsáveis pelas transformações ocorridas no seio das classes trabalhadoras para sua conformação. [3]

No que se refere a sociedade salarial este período que se instala com o Estado de bem-estar suplantou a incerteza que se colocou no início do processo da sociedade salarial. A vida cheia de incerteza que havia se instaurado com a ruptura dos sólidos laços com o advento da Revolução Industrial tinha retomado seu curso e, em termos práticos, estabelecia-se uma idéia de uma comunhão de longo prazo.

De maneira objetiva o trabalho passou a significar, para os trabalhadores da era do Estado de bem-estar, inclusão, auto-conservação, perspectiva de satisfação das necessidades, etc. Do lado subjetivo implicou  o enraizamento do trabalhador na ética do trabalho e seu “casamento” com os pressupostos do capital.

Desta forma, o preceito comportamental e de atitude perante ao trabalho tornou possível uma ressignificação do trabalho e do trabalhador nas sociedades capitalistas avançadas. O primeiro passa a ser o “sentido da vida”, possibilidade de enriquecimento futuro e  para além do problema da sobrevivência, o trabalho, ainda que heteronomo, é proclamado como virtude.

Contudo, essa “concertação social” de acordo com os estudiosos do trabalho começou a dar sinais de esgotamento a partir do início da década de 1970. As causas apontadas para  a corrosão da sociedade salarial são diversas. Entretanto, em comum é o reconhecimento de que  a crise do petróleo de 1973 juntamente com a crise que, pela primeira vez, desde o pós Segunda Guerra, se instalou nos países do capitalismo avançado, combinava baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação, teve como alvo o Estado de bem-estar. [4]

Mais uma vez o capital demonstra sua capacidade de superação. Iniciando um  movimento de derretimento de todos os laços que surgiram com o advento da sociedade salarial.  A incerteza é retomada, a mentalidade de longo prazo é substituída por outra de curto, às vezes curtíssimo, prazo.

Para o trabalhador a “flexibilidade” significa precarização, desemprego, subcontratação, terceirização, contratos por tempos determinados, e desemprego. Essa nova configuração do mundo do trabalho, transforma também a vida das pessoas, seus valores e seus relacionamentos.

Em busca de competitividade em tempo de “capital” sem fronteiras, as empresas tendem cada vez mais implementar novas tecnologias poupadora de mão-de-obra. Assim, substituiu, como antes nunca se viu, o trabalho vivo por trabalho morto, ou seja, as empresas tendem a incorporar ao seu domínio cada vez mais certeza, enquanto aumenta para os trabalhadores a incerteza e a sensação de insegurança num mundo onde o slogan é a flexibilidade.

A Incerteza como força individualizadora e a Empregabilidade como Utopia:

Essa ação poderosa da incerteza é reforçada pelos noticiários que se “apressam” em destacar que para os trabalhadores não há alternativa.  Se não há alternativa e a incerteza prevalece não há porque procrastinar a satisfação. A ordem é viver o presente, e não perder qualquer oportunidade. Se a ordem é viver o presente, não há laços  de solidariedade nem porque pensar no outro. Assim, “a incerteza do presente é uma poderosa força individualizadora. Ela divide em vez de unir, e como não há maneira de dizer quem acordará no próximo dia em qual divisão, a idéia de interesse comum fica cada vez mais nebulosa  e perde todo valor prático” (Bauman,2000:170).Sem grifos no original.

A lógica destrutiva da incerteza, da exclusão e do desemprego ao desestruturar o mundo do trabalho com repercussões arrasadoras na classe-que-vive-do-trabalho, também transformou o cotidiano, interferindo sobremaneira no processo de ressignificação da atividade do trabalho, bem como do trabalhador. Tudo isso colocando novos desafios para que a lógica da incerteza e o discurso da competição não seja o domínio de conseqüências trágicas. Tratou-se de construir uma nova realidade discursiva  e reorientar o perfil do trabalho e do trabalhador.

Diante disso, o discurso procurou disseminar que os novos atributos tecnológicos ensejavam, em contrapartida, novos paradigmas qualificacionais. Portanto, disseminava-se a visão de que o que havia era o descompasso entre os empregos existentes e o nível de qualificação, ou seja,  transferia, assim, para os trabalhadores a responsabilidade pela sua empregabilidade e da polivalencia. Polivalente  torna-se a palavra-chave para representar o “novo” status de SER trabalhador. Desta forma:

“Se a mão-de-obra, a partir de agora, tem de ser mais bem qualificado e polivalente, as empresas, por sua vez, têm de mudar seus critérios de contratação e remuneração....José Pastore, Professor titular...da Universidade de São Paulo, diz que no mundo atual só há lugar para quem é capaz de aprender continuamente e somente estas pessoas terão trabalho e remuneração. Para ele.... até pouco tempo, as empresas contratavam operários classificados como alfabetizados, ou seja, que sabiam escrever seu próprio nome...Hoje, a classificação de alfabetização é outra. Só é alfabetizado o trabalhador que consegue ler manuais de instrução e realizar múltiplas tarefas... por esse critério, ressalva Pastore, metade de nossa força de trabalho é analfabeta. E Conclui, esse “gap” ...compromete a competitividade das empresas, reduz os salários dos trabalhadores e faz encolher as oportunidades de bons empregos...(Exame, 22 maio de 1996)”.

O ônus do desemprego era colocado sob a responsabilidade do trabalhador. Todavia, cabe ressaltar que esta representação acerca do trabalhador não se constrói no vazio. É verdade que o nível de escolaridade no Brasil reforça a idéia de um gap entre as vagas existentes e os candidatos, mas, também é verdade que os postos de trabalho gerados são menores do que aqueles destruídos, gerando um déficit de lugares. O chamado capital cultural como sistema de significação aprofunda e acirra o individualismo na busca de um lugar no “Olimpo”. A relação com o trabalho e, porque não dizer, da vida cotidiana, passou a expressar–se pelos sentimentos e ideais de sucesso e fracasso.

Caberia, então, para o trabalhador no mundo flexível buscar a construção de sua empregabilidade. Ser polivalente, honesto, sensível, carismático, multifuncional, com uma formação educacional ampla, visão de conjunto, hábil nas tomadas de decisões e zeloso com suas relações sociais, são características que sintetizam o trabalhador tipo-ideal . Com tais especificidades, ter empregabilidade significa manter-se em condições de se auto-empregar. Portanto, o conceito de empregabilidade é semelhante ao de empreendedorismo, já que implica em criar condições de se auto-empregar e, em vez de salário, manter viva a alternativa de remuneração.

Numa rápida pesquisa nas edições da revista VOCE S/A, encontramos alguns títulos que ressaltam o empreendedorismo como motor de desenvolvimento econômico. Entre os artigos destacamos a edição de janeiro de 2001, número 31, com o sugestivo título “Seja o seu Patrão”. A reportagem destaca as transformações do mundo do trabalho, as características do novo modelo de profissional e as mudanças de comportamento em relação ao empreendedor. Com destaque trazemos alguns trechos desta reportagem.

“O velho modelo do profissional de sucesso, aquele que saía das melhores universidades, iniciava sua carreira como trainee numa grande multifuncional e ali mesmo subia cada degrau na hierarquia rígida e bem verticalizada da companhia, está em xeque. Em seu lugar, existem novos caminhos para trilhar uma vida profissional brilhante. Veja bem: isso não significa que estar numa multinacional e nela crescer não possa ser interessante. O fato é que essa não é mais a única possibilidade. Agora, o profissional, principalmente o talentoso e bem preparado, pode optar. (...)

Mas a novidade nessa história toda é que o empreendedorismo ultrapassou de vez os muros das grandes corporações. Os empreendedores, aqueles que são donos de seu próprio negócio, nunca estiveram tão em alta. Antes, eram considerados profissionais do segundo time. Muitas vezes, tomavam o caminho do negócio próprio porque não achavam um bom emprego ou porque queriam se livrar do manda-e-desmanda dos chefes(...) (VOCE S/A – reportagem de capa jan/2001). Sem grifos no original.

A edição 708 de 23 de fevereiro de 2000, com o título A morte começa aos 40, retoma a idéia de culpabilização. Nas palavras de João Pedro Perez, diretor de venda de softwares da IBM, “a empresa busca um perfil que as pessoas que não se atualizaram não têm”. Este pensamento retoma a idéia da culpabilização das vítimas do desemprego.

A seguir reproduziremos alguns dos depoimentos contidos na revista. Stetison Peccioli de Carvalho, 49 anos, era gerente regional do Banco Antônio Queiroz. Foi demitido aos 45 anos, por fax, em 1995:

(...) Nunca mais foi contratado. Stetison declara: “Os amigos a quem eu poderia recorrer estão sendo demitidos, estou na contramão do mercado”. Stetison trabalhou como autônomo durante dois anos, participou de uma empresa de consultoria e começou a dar aula sobre mercado de capitais no Instituto Nacional de Pós-Graduação. Para ele, “cada vez que alguém sai do  mercado financeiro nasce um consultor. Todo mundo diz que é consultor. Na verdade, o que nós fazemos é bico. No ano passado, ele comprou uma banca de jornais no Morumbi e espera faturar com ela, já a partir deste ano, tanto quanto ganhava como gerente. Mas, diz que, se tivesse oferta de emprego, voltaria ao mercado”.  Sem grifos no original.

“Se tivesse oferta de emprego, voltaria ao mercado”. Stetison, realmente parece estar na contramão, mas, não porque “envelheceu” e sim pela sua expectativa de um emprego seguro, estável, pelo menos, assim parece aos paladinos do empreendedorismo. Na verdade, ser empreendedor para Stetison é uma condição de trabalho e não de emprego, por isso, considera sua condição de consultor como um bico.

“Isaldo Luiz Campos, 44 anos, também saiu do mercado financeiro. Trabalhou como gerente em Belo Horizonte nos bancos Bradesco, Noroeste e Unibanco, teve uma microempresa e depois trabalhou como vendedor de uma gráfica. Desde 1998 está sem trabalho. Seu cabelo branqueou precocemente e ele  teve uma crise de depressão. “Dói, machuca muito ficar parado, sem perspectivas”, diz. Hoje curado da crise, Campos aprendeu a viver com menos, trabalha como síndico do edifício  em que mora (...)”.

“Itzhak Meir Bogmann, 51 anos, formado em Engenharia operacional  pelo Instituto Techinion, de Israel, com pós-graduação em administração pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (...) foi descartado na última fase com a justificativa que a empresa queria alguém de no máximo 35 anos. (..) Hoje, destaca a revista, tem múltiplas atividades: trabalha por comissão numa empresa de consultoria financeira, é síndico do flat em que mora nos jardins (...) e diretor de marketing do clube A Hebraica.

*

As biografias apresentadas acima demonstram que existe uma tendência de ancorar as Representações Sociais em uma realidade conhecida, condensando significados diferentes e, por vezes, ameaçador, em uma realidade familiar. Em outras palavras, o processo de culpabilização é transferido às vítimas do processo, isso, pelo seu baixo nível educacional, ou, quando essa explicação não é totalmente aderente ao real, como vimos nas biografias acima, pelo “envelhecimento” das vítimas.

Não é por acaso que na tenaz tentativa de suplantar seus “erros”, centenas de milhares de pessoas procuram construir sua empregabilidade,  lotando cursos de pós-graduação e de MBA. Empregabilidade que significa mais do que o binômio emprego e salário, ou seja, significa a capacidade constante de gerar trabalho e renda. Assim procedendo os termos empregabilidade e empreendedorismo parecem sinônimos e sinalizam para um futuro, por vezes utópico, mas que possibilitam transferir os problemas de hoje, para um amanhã.. Mais ainda, as Representações Sociais  acerca do trabalho e por extensão do trabalhador são transformadas. Requisitos como pontualidade, assiduidade e obediência não são mais colocados, ao menos discursivamente, como instrumentos importantes para manutenção do emprego. Por conseguinte, os motivos apresentados àqueles que encontram-se sem trabalho, não são  mais por seus comportamentos inadequados, mas sim, nas transformações dele mesmo como um sujeito inadequado. Desta forma, não é difícil compreender que seu sentimento de inadequação seja transformado em culpa e incapacidade de SER trabalhador, consagrando o princípio do mérito e da divisão entre vencedores e perdedores.

O Olimpo é destinado aos vencedores desta batalha pela empregabilidade, que construíram sua experiência e fama, mas como uma condição transitória, pois, nunca se sabe quem será o próximo a deixar a habitação destinada, agora, aos “Deuses” efêmeros e individualistas, nem quais serão as próximas exigências do capital para objetivar as Representações Sociais acerca do trabalho e do trabalhador.



[1] Para melhor entendimento deste processo ver CASTEL, Robert.  As metamorfoses da questão social. Vozes. Petropolis, 3º edição,2001.
[2] SENNET, Richard. A Corrosão do Caráter. Rio de Janeiro. Record. 2000
[3] Para maiores detalhes ver Castel, principalmente nas páginas 424 até 444.
[4]   Diversos autores trabalham com a crise do Estado de bem-estar social. Aqui no Brasil podemos indicar para leitura. ANTUNES, Ricardo. Adeus ao Trabalho? São Paulo. Editora Cortez. 2000.

 

JOSÉ HENRIQUE CARVALHO ORGANISTA
     

Bibliografia

ADORNO, Theodor. “A Industria Cultural”. In. Cohn, Gabriel (org.) Comunicação e Indústria Cultural. São Paulo. Nacional.1975

ANTUNES, R. “Adeus ao Trabalho?. São Paulo. Editora Cortez.2000.

BAUMAN, Z. “Modernidade Liquida. Rio de Janeiro. Jorge Zahar.2001.

CASTEL, R. “As metamorfoses da questão social”: uma crônica do salário. Rio de Janeiro. Editora Vozes.1995.

CHAUÏ, Marilena. “Subjetividades Contemporâneas: Comentários. Subjetividades Contemporâneas. n1. 1997 p.20

COELHO, Maria Claudia. “A experiência da fama” Rio de Janeiro. FGV.1999.

DUARTE, Luiz Fernando D. “Da Vida Nervosa: nas classes trabalhadoras urbanas. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor. 1986.

DURKHEIM, Émile. “As regras do Método Sociológico”. Pensadores. São Paulo. Abril.1978.

ECO, Umberto. “Apocalípticos e Integrados”. São Paulo. Perspectiva. 1974.

FREUD,S. “O Mal- Estar na Civilização. Rio de Janeiro. Imago.1997

MARX, K & ENGELS, F. Ideologia Alemã. São Paulo. Hucitec.1984.

SENNETT, Richard. “A corrosão do caráter”. Rio de Janeiro. Record.1999.

WEBER, Max. “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo.

Pioneira. 1985.

PERÍODICOS

Exame “A fábula de dona Jabo”  Edição 777. 16/10/2002. p.134

Exame “A morte começa aos 40. Edição 708. 23/02/2000.

Exame “Você diz não para o chefe?. Edição 654 de 28/01/98 págs. 62 e 63

Você s/ª “Seja o seu Patrão”.  Edição 31.Janeiro/2001. págs.20.60

Você S/a “ A migração do emprego”. Edição 46. abril/2001 págs.22- 59



http://www.espacoacademico.com.br - Copyright © 2001-2003 - Todos os direitos reservados