Desde
os tempos mais remotos a humanidade procurou organizar-se
em grupos com o intuito de proteger a espécie, buscar
a sobrevivência e dominar a natureza. Por isso, agrupou-se
em famílias, clãs ou tribos e foi estabelecendo normas
de convivência que objetivavam o bem da coletividade.
No entanto, o desejo de satisfazer alguns impulsos contidos
impeliu o ser humano a romper com a ordem estabelecida
e manifestar sua insatisfação.
Nelson Rodrigues desde a sua primeira
peça A mulher sem pecado, até a última A Serpente, suscitou as mais diferentes
reações a sua produção – elogios, críticas, vaias, aplausos,
apoio e censura. Por abordar e expor os traumas morais
e sexuais da classe média, quase que exclusivamente
a carioca, o autor tornou-se uma figura polêmica e a
censura, do Estado e da sociedade, condenou seus textos
a um julgamento moral e não estético. Assim, é objetivo
deste texto propor caminhos para a investigação das
manifestações de censura moral, utilizadas para condenar
ao silêncio alguns textos teatrais de Nelson Rodrigues.
Para tal, a proposta é cruzar a peça Álbum de Família
com textos clássicos da Tragédia Grega, especificamente
a Trilogia tebana, mostrando que os temas abordados
na composição rodrigueana – traição, adultério, homossexualismo,
morte violenta, incesto - acompanham a humanidade desde
os seus primórdios.
Engels, em seu livro A origem
da Família, da Propriedade Privada e do Estado, elabora
considerações a respeito da formação destes três elementos
sociais a partir dos estudos de L. H. Morgan, mostrando
que a estrutura familiar passou por várias transformações
até chegar à chamada família monogâmica. Por se tratar
da estrutura fundamental que o texto rodrigueano aborda
torna-se imprescindível uma rápida incursão pelos estágios
passados por ela.
A tradição judaico-cristã apresenta
a família como uma instituição alicerçada nos laços
de sangue e na relação harmônica entre pai, mãe e filhos.
Entretanto, as mudanças ocorridas ao passar dos séculos
provam que este é um padrão que já não se sustenta mais,
uma vez que há distintas formas de se formar um núcleo
familiar (pais separados e sozinhos, pais separados
e com outros/as companheiros/as, casais homossexuais).Os
tipos de família apresentados por Engels são quatro:
consangüínea, punaluana, sindiásmica e monogâmica. Na primeira, todos os homens e todas as mulheres de uma tribo eram
maridos e mulheres em comum, sem divisão de laços sangüíneos;
no segundo tipo, eram maridos e mulheres em comum, excetuando-se
os irmãos e irmãs; na família sindiásmica introduziu-se
um elemento novo: junto à verdadeira mãe foi posto o
verdadeiro pai, o matrimônio não era indissolúvel, mas
pressupunha a fidelidade; por fim, a família monogâmica
surgiu a partir do casamento sindiásmico e, ao contrário do
que se possa imaginar, a mudança não se efetuou por
exigências morais, mas econômicas e fortemente alicerçada
em uma estruturação repressora.
Assim, se a sociedade é repressora,
automaticamente a família também o será. Torna-se óbvio
que qualquer relação existente fora dos padrões consentidos
será objeto de condenação. Quando Nelson Rodrigues expõe
as mazelas sexuais da classe média, o faz através de
um ângulo grotesco e trabalha os indivíduos cheios de
cotidiano, linguagem coloquial e vida interior agressiva.
A escolha desta opção estética fez com que a obra, e
o próprio autor, sofressem a censura imposta pela sociedade
e pelo Estado. Procedamos, então, à identificação de
algumas das causas que levaram a sociedade e o Estado
a censurar Álbum de Família pelo período de 22
anos.
Michel Foucault, em seu livro Verdade
e Poder, elabora considerações a respeito do macropoder
e dos micropoderes, escrevendo que para o macropoder
se perpetuar é necessário que as suas características
sejam reproduzidas em micropoderes na rotina da vida
social. Dentre esses, está incluída a família com seus
traços marcadamente reprodutores do contexto cultural
e social. Na obra rodrigueana a presença constante de
temas controlados pela força moral cria um efeito estético
de impacto e desencadeia a reação da sociedade e do
Estado, principalmente porque o autor faz da família
seu alvo de ataque.
As peças rodrigueanas são registros
estéticos da face desagradável que os seres humanos
querem esquecer, pois estão aí para lembrar a efemeridade
humana e mostrar uma visão em negativo da mesma. Ao
contrário da visão clássica da dramaturgia, que exaltava
a razão, o exemplar, o heroísmo e a santidade, o autor
revela o contraditório do ser humano: o amor e o ódio,
a carne e a alma, a morte e a vida. Em Álbum de Família
o relacionamento das personagens é sempre pautado
em emoções fortes e extremadas, os membros da família
nutrem entre si sentimentos antagônicos de raiva, desprezo,
ódio, amor e paixão. Os laços que unem Jonas, Senhorinha
e sua descendência não são aqueles esperados pela sociedade,
eles escondem segredos que dificilmente seriam aceitos
com naturalidade. Além disso, a peça apresenta uma tensão
dramática inspirada na atmosfera do incesto e, por isso,
foge ao controle dos códigos estabelecidos.
O imbricamento dos textos clássicos
da Trilogia Tebana e de um texto moderno – Álbum
de Família, faz surgir características que proporcionam
a análise de aspectos narrados em obras do mesmo gênero,
em tempos distantes entre si, mas que conservam em suas
estruturas elementos atemporais. Neste caso específico,
os contribuintes para o processo de discussão fazem
parte do universo do ser humano, mas, mesmo assim, são
tidos como agressivos e fora dos padrões. A referência
é direcionada à morte violenta, ao lesbianismo, à traição
e, principalmente, ao incesto.
Álbum de Família ficou censurada
durante 22 anos, mesmo trabalhando com temas que acompanham
a humanidade desde tempos muito remotos, tratados na
clássica Tragédia Grega. Passemos, então, a exemplificar
tal afirmação.
A
marca trágica da morte
A morte, fenômeno natural inerente
ao ser humano, é uma das poucas certezas que a humanidade
possui. Entretanto, faz parte do seu imaginário e da
sua esperança prolongar o máximo de tempo possível a
existência sobre a Terra. Assim como faz parte da perspectiva
humana morrer de forma natural e com idade avançada,
pois lembrar constantemente a efemeridade e a mortalidade
é um processo agressivo por representar a imagem do
desconhecido.
Elaborada esteticamente de maneiras
distintas nos diferentes contextos de produção, a morte
foi trabalhada por Sófocles e por Nelson Rodrigues como
o alívio contra todos os pesadelos da vida. Sófocles
trabalhou a morte na perspectiva de solução aos erros
cometidos pelos mortais, contra seus iguais e contra
os deuses, como forma de pagar pela desobediência e
rebeldia. Ela surge como a grande redentora dos males
praticados pelos humanos porque não é representada apenas
pelos mortos, mas por todos os que sofrem. Suas penas
são diferentes tipos de morte e elas aparecem fartamente
tanto no texto de Sófocles quanto no de Nelson Rodrigues.
Assim, além das mortes físicas temos várias outras representadas
pelos castigos sofridos pelas personagens. Na trilogia
tebana, a cegueira de Édipo, o vagar de Antígona acompanhando
o pai/irmão, o desespero de Creonte após a morte do
filho e da esposa. Em Álbum de Família, a loucura
de Nonô, a autocastração de Guilherme, as violações
praticadas por Jonas, a solidão e o desprezo que acompanham
Rute, a impotência de Edmundo, a humilhação sofrida
por D. Senhorinha e os sentimentos incestuosos que têm
uns pelos outros.
A morte e o castigo, que é uma
forma de morrer, são os meios através dos quais as personagens
expiam suas culpas, não como um recurso para dar o fim
inevitável à vida, mas como instrumento de vingança
e penalidade, quase sempre de forma horrível e grotesca.
Carrega, portanto, em si a tragédia e são fartos os
exemplos de castigos e mortes que acontecem na trilogia
tebana e em Álbum de Família. Nos textos de Sófocles
Laio é assassinado pelo próprio filho, supostamente
em conseqüência da maldição lançada por Pélops por ter
tido seu filho, Crisipo, raptado por Laio que nutria
uma paixão mórbida pelo rapaz; Etéocles e Polinice matam-se
na disputa pelo poder; Antígona é condenada a morrer
trancada em uma caverna; Hêmon e Eurídice suicidam-se.
No texto de Nelson Rodrigues Nonô enlouquece após ter
mantido contato sexual com a mãe; Edmundo não consegue
relacionar-se sexualmente com a esposa, Heloísa, porque
ama D. Senhorinha e suicida-se ao tomar conhecimento
do que ocorrera entre ela e Nonô; Guilherme mutila-se,
mata Glória e suicida-se; D. Senhorinha mata Jonas e
vai ao encontro de Nonô.
Por exercer, simultaneamente, fascínio
e medo, repulsa e atração, e trazer em si uma aura de
mistério, a morte é um componente essencial da tragédia.
As composições de Sófocles e de Nelson Rodrigues souberam
trabalhar com tal tema e, por isso, os autores receberam
o reconhecimento do público. Com recepções distintas,
obviamente, mas sempre lembrados.
A traição
O ato de trair nas suas diferentes
formas de se manifestar: traição pelo poder, pelo dinheiro,
por vingança ou amorosa, condenado pela sociedade, é,
entretanto, representado esteticamente há muito tempo,
a exemplo da traição bíblica de Adão e Eva. O mundo
literário está farto de criações estéticas que retratam
traições famosas: Oréstia, Ésquilo; Otelo,
Shakespeare; Teresa Raquin, Zola e tantas outras.
Os textos literários que abordamos também elaboram a
traição de maneiras distintas. Na Trilogia Tebana as
traições se manifestam mais na disputa pelo poder, sem
rodeios, de forma clara e objetiva; em Álbum de Família
sua manifestação é subjetiva e dissimulada.
O autor grego aborda a disputa
pelo poder como algo propenso ao castigo: Etéocles e
Polinice matam-se; Antígona perde a vida; Creonte perde
o filho e a esposa. Para os gregos a justiça sintetiza
o valor moral supremo, e agir de maneira correta, ou
seja, moralmente, significa respeitar a medida de cada
um (metron) e seguir a lei da sociedade (polis).
Os filhos de Édipo, após abandonarem o pai à própria
sorte, ao atingirem a maioridade, fazem um acordo de
alternância no trono. Mas Etéocles se recusou a deixar
o trono e entregá-lo a seu irmão Polinice. Este uniu-se
com o sogro Adrasto e marchou contra Tebas. Dupla traição:
Etéocles não respeitou o acordo feito com o irmão e
Polinice marchou contra seu próprio povo. Em Nelson
Rodrigues as traições são mais de cunho sensual. Entretanto,
se considerarmos o destronamento simbólico do poder
patriarcal, podemos afirmar que os filhos homens de
Álbum de Família buscam constantemente eliminar
a figura do pai. Assim, Edmundo e Nonô querem eliminar
o pai para receber as atenções da mãe, por quem nutrem
um amor incestuoso; e Guilherme, para obter a atenção
da irmã, pela qual é apaixonado. Não deixa de ser a
manifestação do desejo da morte do pai, uma forma de
usurpar o seu lugar. A única posição destoante deste
quadro é a de Glória que reverencia o pai, vendo nele
uma imagem sacralizada:
GLÓRIA
(transportada) – Papai, não. Quando eu era menina,
não gostava de estudar catecismo... Só comecei a gostar
– me lembro perfeitamente – quando vi, pela primeira
vez, um retrato de Nosso Senhor... Aquele que está ali,
só que menor – claro! (desfigurada pela emoção)
Fiquei tão impressionada com a SEMELHANÇA! (RODRIGUES,
1981: 92)
À semelhança de Antígona, que foi
a única a auxiliar e acompanhar Édipo desde o início
do seu exílio, Glória é a única a defender o pai, contrariando
todas as argumentações apresentadas por Guilherme. Para
ela não importava o que o pai tinha feito, seu ódio
era dedicado à mãe.
Em relação às traições de cunho
amoroso, na trilogia tebana há somente dois momentos
que podem ser considerados casos de traição por amor,
e não propriamente amorosa: o primeiro quando Antígona
abandona Tebas, sua pátria, para acompanhar o pai/irmão;
o segundo, ao desobedecer às ordens de Creonte e fazer
os ritos funerais do irmão, Polinice. No texto rodrigueano,
entretanto, as traições possuem um cunho mais sensual,
respondem aos apelos do corpo e transcorrem dentro de
um grupo fechado, uma família reduzida aos seus membros
e uma ou outra pessoa de fora. Neste cenário, as personagens
de Álbum de Família cometem traições dentro do
gueto familiar – D. Senhorinha trai o marido, Jonas,
com o filho Nonô; Jonas trai a esposa, D. Senhorinha,
com Rute, irmã da primeira; Jonas comete o adultério
dentro da própria casa, com meninas de 12 a 16 anos,
auxiliado pela cunhada Rute.
Como podemos constatar, o tema
da traição foi abordado por dois autores que tinham
entre si mais de um milênio de distância porque sua
elaboração estética existe em função da existência humana.
De vida longa, portanto.
Homossexualismo/lesbianismo
Abordar as relações homossexuais
em obras literárias tem sido uma constante e tal escolha
proporcionou composições trágicas que foram na contramão
da nossa civilização, cuja tendência é valorizar o alto,
a cabeça, a superioridade racional.
A maldição dos Labdácidas teve
origem principal no rapto de Crisipo, filho do rei Pélops,
praticado por Laio que nutria pelo rapaz um amor contra
naturam. Este ato inaugurou na Grécia, ao menos
mitologicamente, a pederastia, fazendo com que Laio
fosse amaldiçoada por Pélops e a partir daí iniciasse
toda a trajetória de desgraças da geração de Lábdaco,
pai de Laio.
A apresentação de personagens de
aparente normalidade, mas que nos desvãos da sociedade
deixam emergir os instintos e cometem uma série de crimes
vinculas ao comportamento sexual, fez com Nelson Rodrigues
trabalhasse com os impulsos incontroláveis da sexualidade,
valorizando o baixo, o corpo. Os envolvimentos amorosos,
na obra rodrigueana, fogem aos padrões de “normalidade”
estabelecidos pelas regras sociais. Desta forma, em
Álbum de Família a relação lésbica entre Glória
e Teresa aparece logo no início da peça, quase como
um prólogo, e tem como finalidade precipitar os acontecimentos.
Ao ser descoberta a relação entre as duas, ambas são
expulsas do internato e Glória volta para casa impulsionando
a revelação dos segredos da família.
Abordar as relações sexuais entre
seres do mesmo sexo em obras literárias tem sido uma
constante. Entretanto, a forma de trabalhar e a recepção
que tal tema recebe são determinadas pelo contexto do
qual fazem parte. Em certos momentos, as relações homossexuais
puderam (podem) ser narradas sem maiores sobressaltos.
Porém, não é o caso das obras de Sófocles e de Nelson
Rodrigues. A própria maldição dos Labdácidas é determinada
pela amizade Contra naturam que Laio tinha por
Crisipo. Ou, mais precisamente, pelo sentimento contrário
ao que a natureza determinava, no entender da sociedade
grega. Quando Laio desrespeitou a hospitalidade de Pélops,
ofendeu Zeus e Hera, guardiã severa dos amores legítimos,
e precipitou a própria desgraça e de toda a sua geração.
Em Álbum de Família, a relação
amorosa entre dois seres do mesmo sexo é demarcada,
ainda, pelo ambiente (internato religioso) e por envolver
duas mulheres, pois ao que nos parece, os casos narrados
literariamente sempre foram em sua maioria envolvendo
o gênero masculino. Apresentar uma complicação e desmistificar
rompe com a tradição que está convencionada, provocando
as mais diversas reações.
A aura desagradável do incesto
Engels (2000), em seu livro A
origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado,
aborda a formação da instituição familiar e faz uma
constituição retrospectiva da história da família afirmando
que “...existiu uma época primitiva em que imperava
no seio da tribo, o comércio sexual promíscuo, de modo
que cada mulher pertencia igualmente a todos os homens
e cada homem a todas as mulheres”. Desta forma, é possível
afirmarmos que as relações sexuais primitivas eram regidas
pela promiscuidade e que laços sangüíneos não tinham
a menor importância, uma vez que as palavras “pai”,
“mãe”, “irmã” e “irmão”, entre outros graus de parentesco
como os conhecemos, possuíam valor diverso daquele que
lhes é atribuído atualmente.
As obras literárias que trazem
em si indagações a respeito das relações familiares,
comumente se transformam em ameaças porque trabalham
com o desmonte da imagem tradicional da constituição
familiar, alicerçada nos laços de sangue. O incesto,
praticado livre e consentidamente na família consangüínea
(primitiva), a partir dos primeiros indícios de monogamia
e patriarcado, passou a ser motivo de vergonha e condenação.
Este posicionamento é decorrente das relações estabelecidas
como permitidas ou proibidas, de acordo com aquilo que
é incorporado como “belo” ou “feio”. No caso do incesto,
objeto passível de tratamento poético-dramatúrgico,
o incesto por sua natureza coercitiva é, ainda hoje,
objeto de tratamento dramático, como o foi entre os
gregos.
Consideremos, contudo, que na situação
mágico-mítica ateniense o castigo do herói infrator
era desígnio divino e na obra em questão – Álbum
de Família – as personagens que imitam ações de
incesto não são julgadas. Isto acontece porque na narrativa
de Sófocles o destino (Moira) se encarrega de
traçar o caminho das personagens, sem que elas tenham
oportunidade de modificar seus desígnios, causando impacto
através do trágico que marca o fim de suas vidas. A
platéia fica condoída com o desenrolar dos fatos e sensibiliza-se
com o castigo recebido pelo herói, porque ele não sabe
que cometeu um erro. Em Nelson Rodrigues, a platéia
convive numa situação de proibição de incesto e sente-se
agredida em suas crenças e estereótipos de convivência
social, porque acredita ser boa em conseqüência da observação
das normas exogâmicas, enquanto as personagens vivem
regidas pela endogamia. O grande diferencial é que na
obra sofocleana os erros são cometidos de maneira inconsciente,
enquanto que na rodrigueana os envolvidos têm plena
consciência dos seus laços sangüíneos.
É por isto que o texto de Nelson
Rodrigues resultou em um teatro considerado como grosseiro,
povoado de incestos perpetrados ou idealizados, agressivo
e recheado de cenas de crueldade, fazendo com que a
crítica e a censura fossem impiedosas.
O fato da platéia, da crítica e
da censura ter conhecimento do parentesco de sangue
das personagens, fez com que houvesse uma tendência
natural de nivelar o plano estético com o ético-político.
Neste caso, conforme escreveu Mário Guidarini (1980),
“A única atitude coerente do público seria de gostar
ou não gostar da peça. Se gostar, apesar do conteúdo
desagradável, então o público percebe a obra esteticamente
e não ético-politicamente”.
Esta breve elaboração do imbricamento
dos textos de Sófocles e Nelson Rodrigues fez uma rápida
incursão pelas forças inerentes ao ser humano: ódio,
amor, morte, incesto, humilhação e crueldade. E foi
ao analisarmos a demonstração destas forças que pudemos
concluir que a censura se posicionou de maneira implacavelmente
moral no que se refere a Álbum de Família, porque
as manifestações do desejo são naturais, mas trabalhar
dialeticamente com a descrição do prazer e da náusea
implica em admitir o corpo como suporte indesejável
para a manifestação da vida.