“Seja
a Tua casa um lar de reunião de sábios, não subestimes
a mais singela das suas idéias; e sedento de saber, bebe
as suas palavras.
Esteja
a Tua casa amplamente aberta, e sejam os pobres os filhos
da tua casa”.
Pirkei Avot
Perek Rishon
Este trabalho busca resgatar as
origens da ASA – Associação Scholem Aleichem, fundada
no início dos anos 20, principal espaço de reunião da
esquerda judaica carioca desde o começo de sua existência.
Surgida
a partir da BIBSA, Biblioteca Israelita Scholem Aleichem,
fundada por imigrantes judeus, faz parte de um conjunto
de instituições que possuem orientações políticas semelhantes,
dentre as quais enumeramos, além da BIBSA, a Biblioteca
David Frishman, em Niterói, o Colégio Israelita Brasileiro
Scholem Aleichem, a escola Israelita Brasileira Eliezer
Steinbarg, o Colégio Hebreu Brasileiro, a Cozinha Popular
da Praça Onze – a Árbeter Kich (Cozinha do Trabalhador),
o Socorro Vermelho Judaico (BRAZCOR), o Centro Obreiro
Brasileiro Morris Wintschevsky e a Sociedade Beneficiente
das Damas Israelitas Froien Farain.
Seu primeiro endereço conhecido
foi a rua São Leopoldo, atualmente Rua do Carmo, na região
central do Rio de Janeiro. Mais tarde a BIBSA foi transferida
para a Rua Senador Euzébio, na famosa Praça Onze, região
onde se localizavam muitos judeus recém chegados da Europa
e onde, segundo Abraham Schneider, floresceu um pequeno
“shtetl” no Rio de Janeiro. Lá, segundo Schneider, concentrava-se
a maioria do comércio judeu do Rio de Janeiro, com suas
barbearias, pensões, alfaiatarias e açougues onde só se
vendiam produtos kasher.
A organização de instituições que
agrupassem os judeus ligados ao campo socialista pode
ser vista como uma necessidade que se colocava para além
da construção de laços de solidariedade e sociabilidade,
pois estas poderiam ser perfeitamente solucionadas pelas
demais instituições criadas pela comunidade carioca. Muito
mais importante do que a construção de uma rede de solidariedade
seria a existência de referenciais políticos comuns entre
seus membros, Bem
como a necessidade de difundir e discutir idéias, mas
também a criação, por força de uma resolução do PCB, de
um Setor Judeu no Partido Comunista Brasileiro, que se
manteve ligado ao Setor de Finanças do Partido até meados
da década de 1940. Cabia a este setor garantir, inclusive,
a segurança de seus militantes, visto haver sempre a possibilidade
de extradição, caso algum judeu comunista fosse preso
pela polícia política de Vargas. E era também sua atribuição
contribuir para as campanhas de arrecadação de fundos
para o Partido. Um outro motivo para a criação do Setor
Judeu foi, segundo depoimento de Luís Mendel Goldberg,
a tentativa de “evitar denunciantes”. Mas, apesar desta tentativa, a existência
de delatores entre as fileiras dos militantes da BIBSA
era reconhecida por todos, segundo relato de Schneider:
“A partir de 1937 passamos a viver o tormento da ditadura
de Vargas. A BIBSA era extremamente visada pelo DOPS,
a polícia de Felinto Muller, que, entre outras restrições
às liberdades individuais, impedia-nos de falar ídish.
Para isso, enviava às nossas reuniões um indivíduo, Nicolau
Zimerman, de origem romena, delator responsável pela prisão
e assassinato de inúmeros companheiros nossos, operários,
alfaiates, sapateiros, carpinteiros, ferreiros, vendedores,
todos jovens, sedentos de uma sociedade mais justa.”
O vínculo orgânico entre a BIBSA
e o PCB datava dos primeiros anos de existência do Partido
e da própria Biblioteca, e pode ser confirmado pela realização
de uma Conferência do PCB na sede da BIBSA, segundo o
relato de um dos dirigentes do PCB à época, Octávio Brandão:
“O Estado de sítio continuava. A polícia estava preocupada
com o Carnaval. Aproveitando o momento, em fevereiro de
1925, no Rio de Janeiro, na sede de um centro cultural
israelita, num sobrado à rua Senador Euzébio, hoje Avenida
Vargas, perto da Praça Onze, realizou-se ilegalmente a
Conferência de Delegados de células e núcleos (frações
sindicais) comunistas do Rio de Janeiro e Niterói, em
conjunto com a Comissão Central Executiva do PCB. Esta
Conferência lançou os fundamentos da reorganização do
PCB sobre a base de células.”
A Conferência realizada na sede
da BIBSA teve ainda por objetivo a organização do II Congresso
Nacional, ocorrido em maio de 1925, o que revela sua importância
para o Partido e seu estreito vínculo com o Setor Judaico.
Além do Setor Judaico, que após
a década de 1940 foi incorporado ao Setor de Massas do
Partido, havia também aqueles judeus que se envolveram
diretamente nas outras estruturas do Partido e que participavam
das chamadas “lutas gerais”, como Olga Benário Prestes,
Paulo Gruber, Salomão Malina, Jacob Gorender, Maurício
Grabois, Elise Ewert, Arthur Ewert e Victor Baron, Leôncio
Basbaum, sendo que após o levante comunista de 1935, a
repressão que se abateu sobre os comunistas levou à prisão
e deportação de Olga Benário Prestes, Geny Gleizer, Moishe
Lipes, Elise Ewert e ao fechamento da BRAZCOR e da Árbeter
Kich. Muitos membros da BIBSA foram presos, torturados
e fichados, alguns enviados para a Ilha Grande, outros
libertados. Um dos últimos presos foi
Tobias Warszawki, que, segundo o relato de Schneider,
foi morto no segundo dia de prisão.
Em 27/11/1935 quando a polícia
política invade e fecha o BRAZCOR a sede da Biblioteca
é mencionada pelos investigadores do DOPS como sendo Senador
Euzébio n0 59, sobrado, em cima da Farmácia
Normal. Samuel Malamud, em seu depoimento, menciona os dois números..
Mas apesar da invasão e do intenso
controle por parte da polícia política a BIBSA continuou
funcionando e mantendo atividades culturais.intensas e
diversificadas e, com a saída de Felinto Muller da chefia
de Polícia, o uso do ídisch já não era tão restrito.
A Biblioteca permitia que os sócios
retirassem livros, a maioria em idisch, para ler em sua
residência. Promovia debates literários, conferências,
noites de perguntas e respostas e discussões sobre assuntos
políticos, utilizando sempre o idisch.
Para os membros da BIBSA, a utilização
do idisch nos eventos e reuniões era fundamental, tanto
pelo fato de ser a língua comum a todos os imigrantes
judeus, como também por ser uma língua emblemática, pois
desde a Conferência de Czernowicz, em 1908, foi considerada
a língua nacional judaica. Neste sentido, a proibição
de seu uso pela polícia política não tinha apenas o objetivo
de garantir o entendimento, por parte dos investigadores,
de tudo o que era dito ou escrito pelos membros das organizações
judaicas, mas também teria sido uma forma de esgarçar
os laços entre os membros da comunidade.
Em meados dos anos 40, o prédio
da Rua Senador Eusébio já não comportava mais o número
de freqüentadores das atividades, mas só em 1956 foi possível
adquirir uma outra sede, em plena Cinelândia, bem em frente
à Biblioteca Nacional.
A freqüência às atividades da BIBSA
não estava condicionada, a princípio, a linhas ideológicas.
Mas os dados disponíveis indicam que no seu interior já
era latente, na década de vinte, o confronto idiomático
entre hebraístas e idishistas - o mesmo conflito que se
manifestara na Conferência de Czernowicz, bem como o ideológico:
pró ou contra o comunismo. Em 1927 o confronto direto
ainda não se potencializara, o que garantiu a Samuel Malamud
tornar-se secretário da instituição.
O vínculo entre a BIBSA e o PCB
pode ser entendido também em virtude da
maioria dos membros da BIBSA ter pertencido aos
quadros do Partido e a própria Biblioteca, na verdade,
representava muito mais do que uma simples instituição
cultural e recreativa, mas, principalmente um espaço político
que agregava os judeus de esquerda,
onde era possível debater temas ligados à sua militância.
Mas, a manutenção da hegemonia
dos idishistas e socialistas nas instituições judaicas
cariocas encontrava resistências por parte da corrente
hebraísta: desde 1925 o apoio dado pela I.C.A. à formação
de uma rede escolar judaica provocara um confronto entre
sionistas/hebraístas e anti-sionistas/idischistas, o que
torna evidente que diferenças políticas/linguísticas/ideológicas
já eram latentes dentro da comunidade naquele ano.
Ainda durante o Estado Novo, Moishe
Goldfarb, ativista da BIBSA e membro do ICUF fundou a
escola I.L. Peretz em Madureira. O crescimento da escola
e a entrada de crianças de famílias sionistas gerou uma
disputa pelo controle da nova instituição. Segundo Schneider,
sionistas e progressistas levaram o confronto às últimas
conseqüências:
“Uns não suportando os outros, acabaram convocando uma assembléia
geral (...) para decidir com qual dos dois ficaria a escola.
Os sionistas obtiveram a maioria dos votos, mas, de repente,
levantou-se Moishe Goldfarb. Com toda calma, disse que
eles estavam enganados se pensavam que ficariam com o
que os progressistas haviam construído com tanto suor.
Foi a deixa para começar a pancadaria. Briga feia mesmo.
Precisou até chamar o delegado de Polícia.”
Portanto, o conflito não se resumia
à questão do uso de uma das línguas judaicas, mas a divergência
expressava o embate entre duas perspectivas políticas
distintas. A batalha se realizava em todos os campos.
Um exemplo disto foi a reunião convocada para definir
a participação na recepção por ocasião da vinda de Einstein
ao Brasil, em 1925. O Rabino Raffalovich, já tendo criado
uma entidade denominada Comunidade Israelita Brasileira
com sede na Rua do Lavradio 198 viu-se frente à falta
adesão das instituições já existentes quando tentou convocá-las
a se apresentarem na
recepção preparada para Einstein. A reunião foi conturbada
pela exigência de Schneider de ser o representante dos
ashkenazim a partir de sua liderança na Federação Sionista.
Na reunião Gabriel Kohn liderava
os sefaradim de origem marroquina, Jacob Schneider a Federação
Sionista e a Biblioteca Scholem Aleichem era representada
por Nathan Becker e Aron Schenker. Nathan Becker em 1920 fizera parte
da diretoria do Clube Juventude Israelita e em 1928 tomou
parte na fundação do partido Poalei Tzion e Aron Schenker
é apresentado por Malamud como militante da ala progressista
já na década de 20. No final, os representantes da Biblioteca
abandonaram a reunião, por não se sentirem contemplados.
Outra questão importante para os
membros da BIBSA era a preocupação com a construção e
consolidação de escolas que constituíssem um espaço para
o campo socialista na área de educação, o que levou à
fundação de uma outra instituição, o Colégio Israelita
Brasileiro Scholem Aleichem. O vínculo do Colégio Scholem
com a BIBSA fica explícito no depoimento de Moisés Genes
– militante do PCB - a respeito de sua admissão como diretor
do colégio:
“Quando obtive autorização do Ministério da Educação para
o funcionamento do curso ginasial no Colégio Israelita
Brasileiro Scholem Aleichem, na rua Ribeiro Guimarães
178 (não era Colégio, e sim escola primária), em fins
de 1949, o Conselho de Pais designou dois de seus componentes
para me entrevistar. Tinham por incumbência avaliar a
minha capacidade de assumir a função de diretor do novo
curso. (...) Uma das condições era possuir o registro
de docente do MEC. Fui entrevistado pelos srs. Abram Szyman
Wierzba e Abram Joseph Schnaider, ambos alfaiates artesãos,
cultos imigrantes da Polônia e destacadas figuras da comunidade
progressista judaica. O encontro ocorreu na antiga sede
da Biblioteca Scholem Aleichem (BIBSA), na praça Onze,
em cima do cinema centenário.”
Durante toda a sua existência o
Colégio Scholem caracterizou-se por ministrar um ensino
laico, transmitindo uma visão de judaísmo universalista.
Era conhecido na comunidade como o “Colégio de esquerda”.
Em sua grade curricular o ídish era mais importante do
que o hebraico e mesmo as aulas de História Judaica eram
chamadas de “Ídishe Gueshichte”. Com a saída do Prof.
Genes, em julho de 1973, o Colégio entrou em franca decadência,
encerrando suas atividades em 1995.
A saída do Prof. Genes da diretoria
do Colégio, sempre foi identificada como motivada por
desentendimentos com a Diretoria de Pais. Mas, em seu
depoimento, o Prof. Genes deixa entrever uma nova versão
para o fato:
“(...) Os dois membros da intervenção branca tiveram a ousadia,
a petulância de afirmar, com o maior cinismo, numa reunião,
de que ‘o nível do Colégio estava caindo’. Cumpriam as
ordens partidárias de encontrar algum pretexto negativo.”
Não se tratava, portanto, de um
desentendimento de ordem pedagógica ou administrativa,
mas de uma questão partidária, uma divergência entre membros
do PCB que atuavam na direção do Colégio.
Com o encerramento das atividades
do Scholem, a responsabilidade sobre seu patrimônio foi
entregue ao Colégio A. Liessin cujo Conselho tratou de
promover imediatamente a venda da sede. Havia, ainda,
no Colégio Scholem uma interessante biblioteca com obras
em idisch, enviada, por um dos membros do Conselho Diretor,
Sr. Niskier, ainda antes do seu fechamento, para os EUA,
a pretexto de que lá “estariam sendo bem guardadas e conservadas”.
Toda a documentação produzida por esta instituição encontra-se,
neste momento, em poder do Colégio A.Liessin, mas a consulta
a este acervo, segundo o mesmo depoimento do Prof. Genes,
não tem sido facultada pelos atuais dirigentes deste Colégio.
O Colégio Scholem, durante toda
a sua existência cumpriu o papel de difusor da cultura
judaica de caráter idishista possuindo um projeto pedagógico
que se destacava dentre as demais escolas judaicas. Nos
anos 60 era considerado um dos melhores colégios do Rio
de Janeiro. Seu vínculo com a BIBSA era explícito, mas
a interferência do PCB no Colégio ainda não pode ser fundamentada
através de documentos, apesar de ter sido dirigido, em
grande parte da sua existência, por um membro do Partido.
Mas a BIBSA não era o local dominado
pelos progressistas no início dos anos 20. Somente a partir
de 1928 ficou sob hegemonia dos judeus comunistas, sendo
a primeira instituição da comunidade a ter esta característica.
A conjuntura em que se deu a conquista
desta hegemonia não diz respeito apenas à correlação de
forças dentro da comunidade ou ao que Malamud descreve
como uma estratégica mobilização nas assembléias gerais das instituições
para “provocar conflitos, estabelecer confusão e apoderar-se
das diretorias”.
A hegemonia dos setores progressistas
vai ser resultado de questões mais amplas:
Na URSS em 1925 foi fundado O OZET, sociedade destinada a promover
colonização dos trabalhadores judeus Ucrânia na Rússia Branca e Criméia e a seção judaica Gezert.
Em 1929 O presidente do Soviet
Supremo Michail Kalinim sugeriu um território judaico
na URSS, sendo designada Birubidjan como região Autônoma
Judaica destinada ao povo judeu.
Durante a década de 1930, Stalin
acenou para os judeus soviéticos com a possibilidade de
criar um centro de vida judaica em uma das repúblicas
soviéticas, o que vinha de encontro aos anseios dos sionistas.
Um país do tamanho da Bélgica, parte da antiga União Soviética,
concentrou, durante algum tempo as esperanças entre os
judeus da região de verem realizado o seu sonho de um
lar nacional judaico – um local onde poderiam cultivar
as tradições de seus antepassados e seguir sua religião
abertamente.
Birobidjan foi o lugar escolhido
por Stalin, em 1934, para criar a Região Autônoma Judaica.
Mais do que preservar o judaísmo, Stalin estava interessado
em povoar a região, ao longo da fronteira com a Manchúria,
então ocupada pelo Japão, além de criar uma classe camponesa
judaica que tivesse uma profunda ligação com aquele território.
Para isso pretendia que o ídish servisse como elo fundamental
para a formação de uma comunidade e de uma cultura judaico-soviética.
No entanto, a realidade mostrou-se
diferente, e o sonho da população judaica desvaneceu-se
diante da política autoritária de Stálin, logo após as
primeiras migrações para a região autônoma. A área, contudo,
ainda possui fortes traços de influência judaica até os
nossos dias e atualmente passa por um processo de reflorescimento
comum a quase todas as antigas repúblicas soviéticas.
A falência deste projeto e de outros
congêneres fortaleceu as posições dos judeus ligados ao
campo não sionista, enfraquecendo, conseqüentemente, os
sionistas. Tal processo também teve seus reflexos nas
disputas existentes entre estes dois campos nas demais
comunidades judaicas, inclusive nas comunidades judaicas
que viviam no Brasil, dando maior peso político ao campo
não sionista representado pela BIBSA no Rio de Janeiro.
Mas os problemas enfrentados pelos
membros da BIBSA não se resumiam às disputas políticas
no interior da comunidade judaica. Havia também a constante
vigilância do Estado sobre a comunidade e, em especial,
sobre as instituições que reuniam a esquerda judaica.
No Brasil, durante o governo Washington
Luís o relatório secreto de Carlos Reis elaborado em 1926
espalhava “provas” da infiltração e financiamento da agitação
comunista através de países estrangeiros. Este relatório
deu origem ao anteprojeto de Aníbal Toledo aprovado e transformado no
Decreto n0 5.221 de 12 de agosto de 1927 também
denominado de Lei Celerada.
Complementava o acirramento do
surto repressivo o Decreto n0 5.373 de 12 de
dezembro de 1927 que aumentava o tempo de prisão para
“colocadores e fabricantes de bombas”.
Desde 10 de agosto de
1927 a polícia política varejava sindicatos, jornais e
casas, apreendendo documentação, fechando jornais e entidades,
prendendo operários, militantes anarquistas e comunistas
e deportando estrangeiros. Instituiu-se “um novo regime
de terror”.
A partir da Lei Celerada pessoas
físicas ficavam mais sujeitas à prisões arbitrárias (o
caso de Leôncio Basbaum) e as pessoas jurídicas entidades, clubes,
etc, poderiam ser interditadas ou fechadas definitivamente.
Este fato levou algumas atividades sociais e políticas
a atuar numa espécie de semi-clandestinidade ou para a
clandestinidade absoluta. O que determinaria esta diferença
seria a tolerância das autoridades para agirem, permitindo
ou impedindo o funcionamento das instituições, sendo que
seu fechamento era feito mediante resolução do Ministro
da Justiça frente à solicitação do Chefe de Polícia do
Distrito Federal.
Após o episódio do fechamento da
organização BRAZCOR em dezembro de 1935, segundo a DESPS,
a freqüência à Biblioteca diminuiu, porque seus sócios
temiam a ação da polícia, conforme afirmação de Mozek
Niskier, memorialista judeu nascido na Polônia em 1916
em Ostrowiec, no Brasil desde os 20 anos em 8 de novembro
de 1936:
“No início, durante o Estado Novo, a Biblioteca Sholem Aleichem
tinha pouca freqüência. Eu, Lewis Feingold, Elias Zeitel
e Herschel Mendt (?) fazíamos todas as atividades ainda
na Praça Onze”.
Niskier lembra que Sadia Lozinski
como presidente da BISA enfrentava as restrições impostas
pelo Estado Novo aos judeus como a de terem sido proibidas
as reuniões em idisch e a presença do investigador de
polícia judeu Nicolau Zimmerman que em 1935 teria denunciado
a Cozinha Brascor .
O próprio Niskier foi enquadrado
pela polícia a partir de 1944:
“Moszek Niskier - Figura aqui registrado um cidadão de nome
idêntico, sem qualificação entre os militantes comunistas
desta Capital que, em 1944, mantinham ligações políticas
com partidários do mesmo credo residentes em diversos
Estados.
Aos poucos porém ela teria começado a funcionar mas com a
ausência dos mais exaltados adeptos do comunismo”.
A DESPS, em 1942, reportava a situação
da Biblioteca:
"- Trata-se de mais uma das agremiações que foi autorizada
a funcionar como “brasileira”, pelo Ministério a Justiça
Cumpre salientar que a maioria dos seus associados é estrangeira.
A Diretoria é Constituída, e isto por imposição desta
Seção, de brasileiros naturalizados (não brasileiros natos):
Fato digno de nota é o de , aproximadamente três quartos
dos livros que constituem a Biblioteca serem redigidos
em idioma Ídisch”, sendo bastante reduzida a literatura
vernácula..
As conferencias feitas em português (por imposição desta
secçao, uma vez que se trata de agremiação brasileira),
versam quase sempre sobre temas israelitas. Nas reuniões
litero-musicais, são executadas, cantadas ou recitadas
composições israelitas, entremeadas, as vezes, com números
de compositores brasileiros. Esta agremiação, ultimamente,
tem procurado atrair a juventude para o
seu meio havendo, para realizar tal objetivo criado uma
seção juvenil.
Em 5 de outubro daquele ano, com
o Brasil alinhando-se definitivamente contra o nazi-fascismo
a Biblioteca realizou no Instituto Nacional de Música
uma noite lítero-musical em benefício das vítimas dos
torpedeamentos dos navios nacionais. Abriu a sessão Saadia
Lozinsky seu presidente. A polícia política descreve o
evento da seguinte forma:
“(...) falou sobre a cooperação dos judeus na luta contra
Hitler não só no Brasil como também nos exércitos russos
onde eles perfazem um total de cinco milhões de homens.
As polícias políticas possuíam
informações detalhadas a respeito do desenvolvimento de
todas as reuniões que se realizavam na BIBSA:
“Em seguida usou da palavra Sr. Jacob Vainstock representante
do Grêmio Hebreu Brasileiro que reafirmou a solidariedade
hipotecada ao Governo do Brasil pelo aludido Grêmio quando
do rompimento com os países do “Eixo”.
Para driblar a vigilância da polícia
política, após a guerra, os membros da BIBSA invocaram
o temário anti-semita fundando Comitês de Combate ao Fascismo
e ao Anti-Semitismo no Brasil. Foram criados comitês e
associações de caráter legal que serviriam como fachada
para as atividades políticas: Comitê de Socorro aos Israelitas
Vítimas da Guerra, Comitê de Auxílio aos Imigrantes Judeus
Yugoslavos, Comitê de Socorro aos Israelitas da Bessarábia,
Comitê de SOS aos Israelitas Sobreviventes de Ostrowiecz,
Comitê dos Bessarabianos do Rio de Janeiro, Comitê dos
Israelitas da Bessarábia, Comitê dos Judeus de Ostrowiz,
Sociedade dos Israelitas da Polônia, Sociedade dos Israelitas
de Ostrowiecz.
A partir da ilegalidade do PCB
estes órgãos, criados após a guerra, passaram a ser essenciais
para manter a atividade da militância, pois eram as plataformas
legais de ação de um partido colocado na clandestinidade.
Mas a polícia política detectava
estes atalhos. A DESPS através da 11a Seção
monitorava o Comitê Russo de Socorros às Vítimas da Guerra
e a Sociedade
para Auxílios às Vítimas da Guerra assinalando na segunda
a “presença de ricos contribuintes judeus russos” e “muitos
colaboradores judeus conhecidos como simpatizantes do
comunismo desde suas atividades como sócios da Biblioteca
Israelita Scholem Aleichem”. Principalmente o “elemento
feminino que colabora na arrecadação de donativos e nos
serviços de bar nas festas”.
A DPS, em 8 de julho de 1946, assim
reportou esta novidade:
“Fundado no Rio de janeiro. Este comitê proclamou em todo
o país, uma campanha sob o título “Campanha Pró Imprensa
Progressista”. Tomam parte nesse comitê, as seguintes
pessoas, no Rio de Janeiro: Leôncio Basbaum, Sacha Kransa,
Leon Stumberg, David Silberstein, Bernardo Landa, Philipe
Peretzman, Carlota Lachtermacher.
Diversas pessoas anti-sionistas (sic) pernambucanas receberam
diretrizes especiais para angariar dinheiro para essa
campanha”
David Zilbersztajn diretor da Biblioteca
Scholem Aleichem e Felipe Pereltzman que escrevia na imprensa idisch progressista aparecem citados no
relatório. Leon Steimberg era reportado pela DPS como
um dos membros, em 1946, do “Comitê de Combate ao Fascismo
e ao Anti-semitismo no Brasil, conforme carta enviada
de Recife ao Comitê Central de israelitas Vítimas da Guerra.
Outros procedimentos eram utilizados
pelos membros da BIBSA para garantir a sobrevivência da
entidade, como, por exemplo, a utilização das mulheres
militantes para garantir a manutenção da BIBSA. A militância
comunista feminina e a participação das mulheres na coleta
de fundos para a Biblioteca é confirmada por Schneider:
“Conheci poucas pessoas capazes de demonstrar tanta garra
na defesa de seus idéias socialistas como nossa companheira
Doba Zonenschain. Diretora da BIBSA e, mais tarde, da
ASA, Doba não media esforços visando à tão almejada sociedade
igualitária, objetivo que sempre moveu nossos corações.
Líder por natureza, nos tempos escuros da ditadura getulista
Doba arriscava-se e, apesar da repressão violenta contra
os movimentos de esquerda, dirigia-se às casas dos nossos
associados para pedir contribuições destinadas ao pagamento
do aluguel da Biblioteca.”
A 4a Seção da DESPS
monitorava especificamente as agremiações judaicas. Especialmente
a BIBSA. A Biblioteca estava registrada como uma
sociedade brasileira, mas a DESPS considerava a maioria
de seus associados estrangeiros, embora a diretoria fosse
constituída de brasileiros naturalizados, o que demonstra
claramente que o status de cidadão brasileiro não dava
aos judeus o reconhecimento desta condição, por parte
do Estado.
Saadia Lozinsky que assumiu a presidência
da BIBSA em 1935 e nela permaneceu até 1945 era descrito
como um elemento de tendência conservadora mas de certa
idade e “portanto impotente no seio da diretoria que é
inclinada ao esquerdismo embora não se manifeste, talvez
pela fiscalização incessante desta Seção”.
Mesmo após a 2a Guerra
Mundial, a BIBSA ainda era estreitamente vigiada. Os relatórios
da DESPS mencionam suas atividades, o fato de serem simpáticos
ao “credo vermelho” e que editavam um boletim denominado
Gazetilha Mural. Tal vigilância, por parte do Estado brasileiro
deve ser compreendida no contexto em que se insere: a
Guerra Fria, onde os campos ideológicos eram bastante
delimitados e polarizados, bem como pelo alinhamento do
Brasil ao bloco político liderado pelos EUA.
Após a Segunda Guerra foi também
criado na BIBSA o Departamento Juvenil (a cargo do Sr.
Luiz Mendel Goldberg) e o de Ensaios Dramáticos (sob a
direção do Sr. José Lando). Este último ficou, mais tarde, sob
a direção de Zygmund Turkov.
Luiz Goldberg espelha talvez a
primeira troca de gerações nas instituições judaicas pois
não sendo imigrante aceita ter sido influenciado por aquela
geração, no seu caso dando ênfase às bases político-sociais
de esquerda. Por ela, segundo seu depoimento, forjou-se
sua maneira de encarar a vida e viver politicamente. Galgou
todos os degraus dentro da Associação desde jovem, ainda
na Biblioteca Sholem Aleichem.
Em 1943, apesar da intervenção
da DESPS, motivada, segundo seus investigadores, por uma palestra que “exaltava as vantagens do sistema proletário”,
organizou-se um Corpo Coral e Círculo Dramático (Dram
Craiz) onde destacavam-se: Aída Kamenetzky da direção
do Colégio Scholem Aleichem, Dina Varantz, Cile Goifman
(os dois sendo coristas do Teatro Municipal), Sara Tacsir,
Misha Levovitch, José
ou Lebowitz, Moishe Ravet, David Berman e sua esposa
Riva Berman (os dois Drama e Coro), Aron Hun e Mendel
Kestembaum, dirigidos por Hershl Blanc, nascido da Polônia
e que imigrou para o Brasil em fevereiro de 1935, com
apresentações no Teatro Recreio, ABI, Escola de Música
da UFRJ atual na rua do Passeio Foi criada, ainda a Gueséishaft Fraint Far Idisch Teáter (Sociedade
dos Amigos do Teatro Idisch), para manter a atividade
teatral.
Com todos estes esforços e, apesar
da intensa vigilância policial, a BIBSA mantinha suas
atividades e crescia em número de membros. Em 1946, com
o final da guerra, foi convocada uma assembléia geral
em que pela primeira vez concorreu mais de uma chapa sendo
a vencedora a liderada por David Zilbersztajn, nascido
em Lodz na Polônia.
Mais um empreendimento da BIBSA
foi a criação de um jornal com periodicidade semanal.
Abraham Josef Schneider atribui a criação do jornal Undzer
Shtime (com endereço na rua Ribeiro Lima 596 São Paulo),
fundado em 3 de abril de 1947, depois da guerra a ativistas
da biblioteca.. Este semanário, editado em português
e ídish por Israel Fetbrot, de acordo com Malamud, foi
criado depois da II Guerra Mundial por Hersch Scherter
seu redator principal em São Paulo” e impresso na Tipografia
do Franckental, com uma sucursal no Rio dirigida por Rafael
Perecmanis e com colaboração de Sucher Lederman, Sara
Tacsir e Josef Landa No núcleo paulista trabalhavam nele:
Horácio Schechter, Jacob Schwartzburd, Jaime Schnaider,
Josef Sendacz, Isaac Gochnarg, Luzer Goldbaum e eLeib
Kaftal. Em Porto Alegre colaboravam Simão Nicolaiewsky
e Rotemberg. Nilman em Salvador.
Ainda Abraham Josef Schneider refere-se
à criação, neste período, de outros periódicos, como a
revista ICUF, sigla de Ídisher Cultur Farband e da revista
literária Funken em idisch, assim como a revista mensal
Reflexo em português. Estas publicações contavam com a
colaboração de judeus residentes no Rio de Janeiro e São
Paulo como Aron e Hersh Schenker, José Lipski, Eliezer
Farber e Jacob Schwartzbrot. Josef Lipsky, militante do
PCB era comerciante era redator do jornal Unzer Stime,
escrevia para a revista ICUF, sigla de Ídisher Cultur
Farband e da revista literária Funken em idisch ligadas
de uma forma ou outra à Biblioteca Scholem Aleichem.
Paradoxalmente, atestando encontros
e desencontros na facetada comunidade judaica a Biblioteca
Scholem Aleichem em 17 de outubro de 1946, na visão da
DPS recebia esta descrição:
“Esta sociedade foi criada originariamente, com fins culturais
e assistência social, mas, agora, quase exclusivamente,
entregue ao mister de lutar pelo estabelecimento do Estado
Judaico na Palestina”.
No entanto, a ficha preenchida
também faz a observação de que faziam parte
da entidade “diversos elementos esquerdistas
da colônia judaica desta capital.”
Nas anotações do DPS, constam também
a recepção do jornalista americano Aron Kurtz e as conferências
de Moisés Merkin e José Apataxu, em 1947.
No ano de 1949 parece haver-se
exarcebado a vigilância sobre a biblioteca.Anota-se que
a mesma recebeu em mala postal procedente de Varsóvia
escritos em polonês editados pela Agência Judaica
endereçados à Biblioteca.
Em 1949 o escritor Sch. Almazov
da imprensa idischista comunista dos Estados Unidos (Der
Hammer-1934) principalmente Freiheit esteve na Biblioteca
encarregados de provar a falsidade do suposto desaparecimento
de pessoas e entidades judaicas na URSS deixou depoimento
sobre sua visita ao Brasil acusando os sionistas de tumultuar
seu trabalho.
Tais fatos demonstram que, apesar das condições adversas,
os conflitos entre os sionistas e não sionistas não cessaram,
existindo apenas um clima de cooperação desconfiada entre
os judeus de esquerda e os demais setores da comunidade,
que pode também ser atribuído à chamada cooperação aliada.
Em 1956, a BIBSA mudou-se para
nova sede na rua Álvaro Alvim. Mas, mesmo durante os anos
50, considerados pela historiografia tradicional como
sendo um interregno democrático, a BIBSA continuava a
ser acompanhada pela polícia política, sempre sob a afirmação
de que ”tal agremiação é de tendência comunista”.
Por outro lado, a divulgação dos
crimes de Stálin levou a um questionamento dos membros
da BIBSA a respeito de sua vinculação com o PCURSS:
“Antes mesmo de ser divulgado o relatório de Krushev, recebemos,
no Partido, um jornal do Partido polonês publicado em
idisch com um artigo em que se dizia, com toda a nitidez,
a verdade: tinham ocorrido terríveis crimes e injustiças
na URSS, contra ativistas culturais judeus. Era muito
difícil entender. A União Soviética tinha mobilizado o
mundo inteiro contra o nazismo, sacrificou-se contra o
inimigo poderosíssimo, salvou a humanidade. Como, então
era possível terem sido cometidos tais crimes, tais ilegalidades?
O impacto foi enorme, especialmente se for levado em conta
o fato de todos os executados terem sido um exemplo de
progressismo, comunismo e idealismo.”
Como em todo campo da esquerda,
as revelações do Relatório Krushev provocaram enorme impacto,
gerando fissuras no movimento comunista, afastamento de
muitos membros importantes de Partidos ligados ao PCURSS
e representam, no nosso entendimento, um marco no movimento
comunista mundial. Não poderia ter sido diferente para
os membros da BIBSA, profundamente comprometido com os
ideais socialistas.
No entanto, muitos dos ativistas
da BIBSA ainda mantiveram-se filiados ao PCB. A fidelidade
aos ideais socialistas e à construção de uma sociedade
mais justa contribuiu para que a BIBSA continuasse em
atividade até os dias de hoje. Sua transformação na Associação
Scholem Aleichem mantém em funcionamento as atividades
culturais desenvolvidas pela antiga Biblioteca e representa,
dentro da comunidade judaica, o espaço destinado a todos
os judeus cariocas que encontram sua referência no chamado
campo progressista.
Neste sentido, pretendemos, nos
próximos trabalhos, dar continuação a esta pesquisa, através
da qual poderemos construir um entendimento sobre este
importante setor da comunidade judaica carioca, estendendo
nossas reflexões aos momentos mais próximos do presente,
enfocando a ASA, Associação Scholem Aleichem, que surgiu
como um desdobramento da BIBSA, expressão de uma corrente
dissonante entre os judeus cariocas e que não detém a
hegemonia dentre o conjunto das instituições judaicas
sediadas no Rio de Janeiro, mas mantém a coerência com
os princípios que a nortearam desde o seu surgimento.