A
alta temperatura que assolou o continente europeu no
último mês provocou um número de mortos estimado entre
3.000 a 5.000 franceses nas duas primeiras semanas de
agosto, inteirando um total de aproximadamente 13.000
até o final do mês. A "canicule"
(calor excessivo), muito mais forte na França do que
em países como a Itália, Portugal, Espanha, Alemanha,
etc., acarretou alto índice de desidratação e comprometimento
de doenças crônicas, atingindo principalmente crianças
e idosos.
Percebo que o fenômeno, que não era tão intenso desde 1947, pegou a população
literalmente de calças curtas: em plenas férias de verão,
80% da população deu descanso aos ternos, sapatos e
meias de seda, substituindo-os pelos confortáveis shorts
e chinelos - inclusive as "chiquérrimas" havaianas que, se forem legítimas e com a famosa
bandeirinha do Brasil, custam 30 euros nas lojas e butiques
mais importantes da capital da moda, como por exemplo
as "Galeries Lafayette".
Não há nada de anormal, mas, há uma diferença cultural sobre a qual gostaria
de discorrer um pouco: nós, brasileiros, nem sempre
abandonamos as roupas socias porque não as utilizamos
com a mesma freqüência, no entanto, como eles, partimos
em férias (é verdade que bem menos de 80% da população);
porém, se considerarmos que, ainda que partamos sem
nossos idosos, os que ficam e, por eventualidade vêem
a falecer sozinhos em casa, são, logo, descobertos por
algum parente, amigo ou vizinho que, conhecendo seus
hábitos, percebe sua falta e "intromete-se"
querendo saber onde está o fulano. Fazendo esse tipo
de análise, pecamos por indiscrição e sofremos sendo
sempre molestados por alguém. Aqui na França, quando
os entes "queridos" telefonam (de maneira
geral uma vez por semana) e não os acham, dificilmente
incomodam algum vizinho ou amigo para ver o que está
havendo. Entretanto, a prefeitura de Paris criou, por
causa disso, um serviço telefônico encarrecado de procurar
as pessoas não encontradas por seus parentes.
O índice assustador de mortos nas câmaras frias inquieta as autoridades
fazendo-as providenciar aberturas de câmaras desativadas
que acabaram, também, superlotadas. Em vez de 5 dias,
que como de hábito permanece cada corpo, os lugares
têm sido ocupados por 15 dias ou mais, à espera dos
familiares que não tiveram conhecimento da morte, ou
chegam à conclusão de que não vale a pena interromper
as férias para fazerem o enterro. Não devemos deixar
que os mortos enterrem os seus mortos??? Talvez, nem
tanto, mas, eles bem que podem esperar já que morreram
mesmo. Além do mais, pra que preocupação se eles nem
podem sair do lugar?
Os cemitérios e funerárias fizeram enterros, excepcionalmente, aos domingos
e o aumento de funcionários foi inevitável. Mesmo a
Igreja Católica andou tendo mais movimento que de costume,
em Chatou, paróquia onde moro, tivemos uma média de
uma exéquia por dia - número relevante considerando
o forte anti-catolicismo francês, a maioria dos enterros
parte diretamente da câmara para o cemitério. Os hospitais
têm improvisado leitos e contado com a ajuda de voluntários.
O governo preocupado com o bom atendimento dos pacientes,
deu uma remuneração para os profissionais da saúde.
Uma responsabilidade coletiva é admitida: a Saúde Pública e Privada por
perceber tardiamente a calamidade; a população por não
ter dado o devido valor; o Governo por não ter ajudado
mais.
Numa tentativa de remediar a situação, a verba da saúde foi aumentada
e porque é inadmissível um país de primeiro mundo ter
passado por esse absurdo, está sendo estudado um projeto
de reestruturação onde o objetivo é ter 1 enfermeiro
para cada 5 pessoas. Ainda não ouvi comentários sobre
a implantação de aparelhos climatizadores nos hospitais
e, apesar de tudo, a opinião dos comerciários é que
não vale a pena investir neles - a quota mínima de ventiladores
esgotou-se em poucos dias sem ter sido reposta.
Observando as queimadas que arrasaram grande parte das florestas européias,
a falta de chuva, o medo das tempestades previstas para
depois dessa anomalia climática, tenho pensado nas milhares
de pessoas que morrem, injustamente, pelo mundo afora,
por esses e outros motivos, muitas vezes sozinhas (mais
vezes do que imaginamos). Tenho tentado buscar uma nova
ética mais humanitária, mais justa, mais solidária.
Por que não acreditar na utopia de uma mudança radical
onde houvesse uma verdadeira fusão do que há de bom
entre as culturas, entre as diversas idéias e pensamentos,
algo que ultrapassasse tudo o que já foi tentado até
hoje, mas que também aproveitasse tudo o que pudesse
interessar para que realmente funcionasse? Real ou ficticio?
Não importa, se acreditamos, podemos partir de dentro
pra fora, das idéias, e mesmo dos sonhos até chegarmos
à realidade.