Por FRANCISCO MORENO CARVALHO
Médico e historiador. Milita no Movimento PAZ Agora de Israel.


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Dois Estados para dois povos, uma solução possível, ideal ou uma resignação?

 

O conflito israelense-palestino costuma ser avaliado segundo três abordagens que não respeitam as fronteiras étnico-nacionais dos envolvidos no conflito, mas encontram defensores de ambos os lados, muitas vezes gerando alianças de jure e de facto insuspeitas e paradoxais.

A primeira delas pode ser definida como uma abordagem exclusivista. Partilhada pela extrema-direita israelense e pelos movimentos radicais palestinos (islâmicos e os sobreviventes de algumas correntes minoritárias no movimento nacional palestino auto-declaradas como “marxistas”), proclama que as aspirações nacionais do lado oposto são ilegítimas, carentes de qualquer fundamento. Seguindo esta linha, naquele território deve existir apenas um Estado-nação; judaico ou palestino. Ao lado que deve se resignar ao domínio do outro, compete a mudança para outro território, a aceitação de um status de minoria submissa ou o extermínio.

No lado israelense tais idéias se condensam na proposta do “transfer”, deportação maciça da população palestina para o outro lado do Jordão. Alguns grupos religiosos mais extremistas chegam a propor a aceitação da presença palestina num hipotético Estado judeu teocrático, que nada tem a ver com o atual Estado de Israel, desde que sua existência seja regida pelas leis rabínicas concernentes ao “guer toshav”, o estrangeiro residente. Leis que por diversas razões históricas jamais foram aplicadas na tradição judaica e tão hipotéticas quanto a sandice messiânica destes grupelhos.

No lado palestino esta abordagem se estrutura em torno de duas propostas. O estabelecimento de uma república islamítica palestina, onde caberia aos judeus (assim como aos cristãos palestinos e druzos) o status de “dhimmi”, ou minoria religiosa tolerada, tal como previsto no direito islâmico, ou pelo batido slogan “destruição da entidade sionista” pela força, o que significa, caso fosse exeqüível no plano militar, o extermínio da população judia da região.

A segunda abordagem prega a constituição de um único Estado na região, na base de “um homem um voto”. Não existiria mais o Estado de Israel, nem se deveria constituir o Estado da Palestina, mas sim um único Estado para todos seus cidadãos. Defendem esta proposta algumas correntes trotskistas. que neste caso parecem aceitar placidamente a idéia por eles mesmos definida e combatida de “Estado burguês”, baseado no voto e não na hegemonia de classe. Querem alguns defender esta abordagem alegando seu parentesco com a idéia de um Estado binacional judeu-palestino, proposta nos anos 30 e 40 por grupos sionistas de esquerda, como o Hashomer Hatsair, ou pelo Brit Shalom, mas cujo tempo já se foi. Se a história jamais se repete a não ser como farsa, esta seria uma ópera bufa caso não implicasse em derramamento de sangue e progressão do conflito, fato demonstrado pelo caso libanês e por outras desastradas experiências da criação de “Estados multi-nacionais” em situações conflituosas, como no caso da ex-Iugoslávia.

A última abordagem é a fórmula “dois Estados para dois povos”. Foi referendada como princípio pela resolução da ONU de 1947, aceita pela corrente majoritária no movimento sionista, rejeitada pelo movimento nacional palestino de então. Constitue-se na base dos Acordos de Oslo, assinados entre Israel e a OLP em 1993.

Parte da premissa de que nem Israel desaparecerá, nem os palestinos viverão sob ocupação de qualquer país. Nem os judeus israelenses aceitarão imigrar, morrer em massacres ou viver sob o “benévolo” governo islâmico, nem os palestinos tencionarão atravessar o Jordão ou viver sem direitos de cidadania sob ocupação militar israelense. Reconhece de fato a realidade da região, sem adentrar em fantasias religiosas ou ultimalistas. Sem esperar pelo Messias, pelo Mahdi, ou pela Revolução Mundial (três facetas do messianismo judaico, sendo a última uma de suas versões laicas) aponta para uma solução viável e realista. Acredita no compromisso territorial como solução para o conflito, no reconhecimento recíproco e no respeito como pedras angulares para a paz e o progresso da região. Antes que o Reino de Deus ou o Socialismo se instalem no mundo, preocupa-se em tornar a vida dos dois povos em pacífica e frutífera. No momento em que a contraposição entre as superpotências, que durante décadas alimentavam a tensão na região, cedeu diante do hegemonismo de uma delas, o caminho para uma solução baseada em dois Estados está posto.

Se esta última abordagem é a mais viável, em certo sentido a mais lógica, por que parece ser a mais difícil de ser implementada? Por que logo depois de Oslo tínhamos a sensação de que em breve chegaríamos lá, de que a praia se aproximava após longa e extenuante natação por mar revolto, para em seguida nos sentirmos como que arrastados por gigantesca onda de volta ao redemoinho da matança?

As sociedades israelense e palestina continuam presas de suas fantasmagorias. Os delírios do “Grande Israel” e da “Grande Palestina” não se contrapõem, antes se complementam numa espiral descendente de violência e morte. As colônias israelenses nos territórios palestinos e as explosões dos terroristas suicidas servem como catalisadores do ódio.

Em meio a isto, os demagogos dançam seu bailado macabro. Ariel Sharon já declarou que acredita no futuro. Para ele em cinqüenta anos haverá a mudança da matriz energética com o fim das reservas de petróleo. Com isso, a força política dos palestinos e dos árabes será apenas uma memória. Acredita que células de hidrogênio destruirão as células terroristas do Hamas e do Jihad al Islami. Compete a Israel agüentar mais estes anos, e então tudo será melhor.

Yasser Arafat é outro que acredita no futuro. Enquanto gasta o presente reduzindo seu povo à desgraça e combatendo o primeiro-ministro palestino, sonha com a bomba demográfica, para ele o antídoto às bombas israelenses. Quando os palestinos representarem uma real ameaça populacional aos israelenses, então as cartas serão jogadas na mesa e um Estado palestino do mar ao rio Jordão será estabelecido.

Espremidos entre as células e as bombas, entre as declarações para a mídia e a real intenção de seus líderes, a população israelense e palestina sofre na pele as conseqüências do conflito.

A solução de dois Estados para dois povos é possível. Todos sabem por onde passa a fronteira, todos entendem que ninguém se moverá de lá de maneira voluntária para dar lugar ao outro. Na impossibilidade de se dividir a justiça e os sentimentos por uma terra, resta sua divisão.

Ela também é necessária. As sociedades israelense e palestina são corroídas pelo conflito, pela ocupação, pelo terror. Só com uma paz baseada no respeito à autodeterminação dos dois povos é que tornará possível uma regeneração do tecido social corrompido pela violência. E aí, o canto das sereias do exclusivismo, da intolerância, não se farão mais ouvir.

Mas será esta uma solução ideal? Para os que acreditam na união das pessoas para além das divisões nacionais, étnicas ou religiosas, a resposta será negativa. Mas num mundo em que a abolição dos Estados nacionais é ainda um sonho remoto, será demais exigir que justo numa região conflituada, cheia de mortos e de ressentimentos, haja a primeira manifestação de um internacionalismo por enquanto abstrato.

Muito já se falou sobre o futuro radioso surgido a partir dos fuzis. Muitos já lutaram em guerras de libertação. Mas no Oriente Médio em geral, e em Israel/Palestina em particular, só mesmo a paz é revolucionária. E mesmo que venha por interferência e pressão externas, será melhor do que o “legítimo direito” de dois povos cometerem suicídio coletivo.

FRANCISCO MORENO CARVALHO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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