Dois
Estados para dois povos, uma solução possível,
ideal ou uma resignação?
O conflito israelense-palestino costuma ser avaliado
segundo três abordagens que não respeitam as fronteiras
étnico-nacionais dos envolvidos no conflito, mas
encontram defensores de ambos os lados, muitas vezes
gerando alianças de jure e de facto insuspeitas
e paradoxais.
A primeira delas pode ser definida como uma abordagem
exclusivista. Partilhada pela extrema-direita israelense
e pelos movimentos radicais palestinos (islâmicos
e os sobreviventes de algumas correntes minoritárias
no movimento nacional palestino auto-declaradas
como “marxistas”), proclama que as aspirações nacionais
do lado oposto são ilegítimas, carentes de qualquer
fundamento. Seguindo esta linha, naquele território
deve existir apenas um Estado-nação; judaico ou
palestino. Ao lado que deve se resignar ao domínio
do outro, compete a mudança para outro território,
a aceitação de um status de minoria submissa ou
o extermínio.
No lado israelense tais idéias se condensam na proposta
do “transfer”, deportação maciça da população palestina
para o outro lado do Jordão. Alguns grupos religiosos
mais extremistas chegam a propor a aceitação da
presença palestina num hipotético Estado judeu teocrático,
que nada tem a ver com o atual Estado de Israel,
desde que sua existência seja regida pelas leis
rabínicas concernentes ao “guer toshav”, o estrangeiro
residente. Leis que por diversas razões históricas
jamais foram aplicadas na tradição judaica e tão
hipotéticas quanto a sandice messiânica destes grupelhos.
No lado palestino esta abordagem se estrutura em torno
de duas propostas. O estabelecimento de uma república
islamítica palestina, onde caberia aos judeus (assim
como aos cristãos palestinos e druzos) o status
de “dhimmi”, ou minoria religiosa tolerada, tal
como previsto no direito islâmico, ou pelo batido
slogan “destruição da entidade sionista” pela força,
o que significa, caso fosse exeqüível no plano militar,
o extermínio da população judia da região.
A segunda abordagem prega a constituição de um único
Estado na região, na base de “um homem um voto”.
Não existiria mais o Estado de Israel, nem se deveria
constituir o Estado da Palestina, mas sim um único
Estado para todos seus cidadãos. Defendem esta proposta
algumas correntes trotskistas. que neste caso parecem
aceitar placidamente a idéia por eles mesmos definida
e combatida de “Estado burguês”, baseado no voto
e não na hegemonia de classe. Querem alguns defender
esta abordagem alegando seu parentesco com a idéia
de um Estado binacional judeu-palestino, proposta
nos anos 30 e 40 por grupos sionistas de esquerda,
como o Hashomer Hatsair, ou pelo Brit Shalom, mas
cujo tempo já se foi. Se a história jamais se repete
a não ser como farsa, esta seria uma ópera bufa
caso não implicasse em derramamento de sangue e
progressão do conflito, fato demonstrado pelo caso
libanês e por outras desastradas experiências da
criação de “Estados multi-nacionais” em situações
conflituosas, como no caso da ex-Iugoslávia.
A última abordagem é a fórmula “dois Estados para
dois povos”. Foi referendada como princípio pela
resolução da ONU de 1947, aceita pela corrente majoritária
no movimento sionista, rejeitada pelo movimento
nacional palestino de então. Constitue-se na base
dos Acordos de Oslo, assinados entre Israel e a
OLP em 1993.
Parte da premissa de que nem Israel desaparecerá,
nem os palestinos viverão sob ocupação de qualquer
país. Nem os judeus israelenses aceitarão imigrar,
morrer em massacres ou viver sob o “benévolo” governo
islâmico, nem os palestinos tencionarão atravessar
o Jordão ou viver sem direitos de cidadania sob
ocupação militar israelense. Reconhece de fato a
realidade da região, sem adentrar em fantasias religiosas
ou ultimalistas. Sem esperar pelo Messias, pelo
Mahdi, ou pela Revolução Mundial (três facetas do
messianismo judaico, sendo a última uma de suas
versões laicas) aponta para uma solução viável e
realista. Acredita no compromisso territorial como
solução para o conflito, no reconhecimento recíproco
e no respeito como pedras angulares para a paz e
o progresso da região. Antes que o Reino de Deus
ou o Socialismo se instalem no mundo, preocupa-se
em tornar a vida dos dois povos em pacífica e frutífera.
No momento em que a contraposição entre as superpotências,
que durante décadas alimentavam a tensão na região,
cedeu diante do hegemonismo de uma delas, o caminho
para uma solução baseada em dois Estados está posto.
Se esta última abordagem é a mais viável, em certo
sentido a mais lógica, por que parece ser a mais
difícil de ser implementada? Por que logo depois
de Oslo tínhamos a sensação de que em breve chegaríamos
lá, de que a praia se aproximava após longa e extenuante
natação por mar revolto, para em seguida nos sentirmos
como que arrastados por gigantesca onda de volta
ao redemoinho da matança?
As sociedades israelense e palestina continuam presas
de suas fantasmagorias. Os delírios do “Grande Israel”
e da “Grande Palestina” não se contrapõem, antes
se complementam numa espiral descendente de violência
e morte. As colônias israelenses nos territórios
palestinos e as explosões dos terroristas suicidas
servem como catalisadores do ódio.
Em meio a isto, os demagogos dançam seu bailado macabro.
Ariel Sharon já declarou que acredita no futuro.
Para ele em cinqüenta anos haverá a mudança da matriz
energética com o fim das reservas de petróleo. Com
isso, a força política dos palestinos e dos árabes
será apenas uma memória. Acredita que células de
hidrogênio destruirão as células terroristas do
Hamas e do Jihad al Islami. Compete a Israel agüentar
mais estes anos, e então tudo será melhor.
Yasser Arafat é outro que acredita no futuro. Enquanto
gasta o presente reduzindo seu povo à desgraça e
combatendo o primeiro-ministro palestino, sonha
com a bomba demográfica, para ele o antídoto às
bombas israelenses. Quando os palestinos representarem
uma real ameaça populacional aos israelenses, então
as cartas serão jogadas na mesa e um Estado palestino
do mar ao rio Jordão será estabelecido.
Espremidos entre as células e as bombas, entre as
declarações para a mídia e a real intenção de seus
líderes, a população israelense e palestina sofre
na pele as conseqüências do conflito.
A solução de dois Estados para dois povos é possível.
Todos sabem por onde passa a fronteira, todos entendem
que ninguém se moverá de lá de maneira voluntária
para dar lugar ao outro. Na impossibilidade de se
dividir a justiça e os sentimentos por uma terra,
resta sua divisão.
Ela também é necessária. As sociedades israelense
e palestina são corroídas pelo conflito, pela ocupação,
pelo terror. Só com uma paz baseada no respeito
à autodeterminação dos dois povos é que tornará
possível uma regeneração do tecido social corrompido
pela violência. E aí, o canto das sereias do exclusivismo,
da intolerância, não se farão mais ouvir.
Mas será esta uma solução ideal? Para os que acreditam
na união das pessoas para além das divisões nacionais,
étnicas ou religiosas, a resposta será negativa.
Mas num mundo em que a abolição dos Estados nacionais
é ainda um sonho remoto, será demais exigir que
justo numa região conflituada, cheia de mortos e
de ressentimentos, haja a primeira manifestação
de um internacionalismo por enquanto abstrato.
Muito já se falou sobre o futuro radioso surgido a
partir dos fuzis. Muitos já lutaram em guerras de
libertação. Mas no Oriente Médio em geral, e em
Israel/Palestina em particular, só mesmo a paz é
revolucionária. E mesmo que venha por interferência
e pressão externas, será melhor do que o “legítimo
direito” de dois povos cometerem suicídio coletivo.