Se na caracterização da natureza
do governo Lula há uma grande distância entre as posições
sectárias do PSTU e as da esmagadora maioria das forças
de esquerda no país, conforme analisado no artigo
anterior, não é menor o fosso que os separa na avaliação
da atual correlação de forças no mundo e no Brasil. Neste
ponto nevrálgico, essencial para definir a estratégica e
a tática das correntes de esquerda, as divergências são
bem antigas e têm se avolumado no último período. Na essência,
a postura deste partido, de oposição frontal ao governo
Lula, decorre da leitura voluntarista que ele faz sobre
o estágio atual da luta de classes.
Em pelo menos três pontos o grosso
das forças de esquerda se aproxima na análise da conjuntura
mundial, o que moldura suas posições diante do quadro nacional.
Em primeiro lugar, elas concordam que o sistema capitalista
atravessa a mais grave crise da sua história, expressa nas
taxas declinantes de crescimento da economia, no parasitismo
financeiro, na explosão do desemprego, entre outras chagas.
Seria uma crise prolongada, crônica e sistêmica, atingindo
a periferia e o coração do sistema. O segundo consenso é
sobre a resposta regressiva e destrutiva imposta pelo capital
para enfrentar a crise, com a aplicação do perverso modelo
neoliberal, a ofensiva de recolonização do planeta e a agressiva
onda militarista, fascistizante.
Por último, elas observam, animadas,
o aumento dos sintomas de resistência dos povos, com o avanço
da luta contra o imperialismo, os crescentes levantes populares
e, em especial no nosso subcontinente, com as vitórias eleitorais
dos setores de centro-esquerda e de esquerda. Estes êxitos
confirmariam a tendência de esgotamento do neoliberalismo.
No entanto, estas mesmas forças de esquerda ponderam que
ainda não se forjou uma alternativa de superação deste projeto,
que continua hegemônico no mundo. O movimento operário e
popular, duramente atingindo por décadas de neoliberalismo,
ainda se encontraria fragmentado, disperso e na defensiva.
Ainda viveria uma fase de resistência e de acumulação de
forças.
Na avaliação da 9a Conferência
do PCdoB, realizada em junho, “no exame do quadro geral
perdura um balanço de forças adverso à mudança do sistema
de poder capitalista-imperialista dominante. A crise do
socialismo do final do século passado, a derrocada da URSS
e dos países do Leste da Europa provocaram uma derrota estratégica
de grande monta para o movimento revolucionário e de libertação
dos povos, que ainda não reúnem condições para uma ofensiva
em busca do êxito de novo empreendimento socialista. Hoje,
a realidade de grave crise, agravada com a política belicista
do imperialismo, cria situação propícia ao crescimento da
luta dos povos e ao acúmulo de forças de sentido antiimperialista,
mas, de modo geral, não inverte a tendência dominante da
ordem imperialista atual e da situação contra-revolucionária”.
“Otimismo
Voluntarista”
Bem diferente é a visão do PSTU
e da sua matriz mundial, a Liga Internacional dos Trabalhadores
(LIT), fundada em janeiro de 1982 pelo trotskista argentino
Nahuel Moreno. Para a corrente “morenista”, que parece sofrer
do mal crônico do “otimismo voluntarista”, segundo a corrosiva
ironia de uma importante seção que rompeu com a LIT nos
anos 90, a revolução socialista estaria sempre
à espreita na próxima esquina. O menor sinal de resistência
popular é encarado com “um vírus revolucionário”. Esta visão idealista, que coloca a vontade
acima da realidade concreta, contagia toda e qualquer avaliação
da correlação de forças – no mundo e no Brasil, no passado,
presente e futuro - efetuada por esta corrente.
Esta concepção subjetivista parece
decorrer da leitura mecânica de uma das obras mais famosas
de Leon Trotsky, o Programa de Transição, base para
a criação da IV Internacional em 1938. Neste texto, seguido
como bíblia pela “ortodoxia trotskista”, o autor diz de
forma peremptória: “Os falatórios de toda espécie, segundo
os quais as condições históricas não estariam ‘maduras’
para o socialismo, são apenas produto da ignorância ou de
um engano consciente. As premissas objetivas da revolução
proletária não estão somente maduras: elas começam a apodrecer...
Tudo depende do proletariado, ou seja, antes de mais nada,
da sua vanguarda revolucionária. A crise histórica da humanidade
se reduz à crise da direção revolucionária”.
Destas assertivas, a corrente “morenista”
retirou três conclusões cabais: a do fim próximo do capitalismo,
a da iminência da revolução e a da culpabilidade das direções!
Para esta visão simplista é “baboseira dizer que não é possível
romper com o imperialismo pela adversidade da correlação
de força”, como repetiu há dias o jornal do PSTU. Só que a história é mais complexa e costuma
se vingar dos que subestimam a realidade. No caso da crise
do capitalismo, ela comprova que este sistema não morrerá
de forma natural e que a interpretação fatalista sobre seu
colapso final pode resultar em graves equívocos políticos,
em ações voluntaristas que lançam na aventura a luta dos
trabalhadores. Hoje o capitalismo se encontra na sua mais
grave e prolongada crise; mas a sua superação dependerá
da ação conseqüente das forças revolucionárias. Do contrário,
ele continuará conduzindo a humanidade à barbárie e não
à revolução socialista!
Já no que se refere ao clichê da
“crise da direção revolucionária”, repetida mil vezes por
alguns sábios, a pergunta que não quer calar é porque esta
corrente nunca conseguiu hegemonizar o movimento operário
mundial, curando-o desta sua doença crônica? Se a revolução
é obra de milhões e as condições objetivas já estão mais
do que maduras para a sua eclosão, porque as massas não
abandonam as “direções traidoras” e engrossam aos borbotões
a LIT e as suas filiais? Porque os aparatos burocráticos
não são implodidos? Porque a juventude, tão avessa à rotina,
não adere em massa a esta corrente? Por último, uma pergunta
ainda mais incomoda: Porque os poucos sindicatos ou grêmios
dirigidos por esta “vanguarda” não são um exemplo de vitalidade
revolucionária? Não será porque as condições objetivas são
adversas, fruto da fase de defensiva estratégica, o que
exige a justa combinação de firmeza de princípios e flexibilidade
tática?
Num balanço mais rigoroso da sua
trajetória histórica, o PSTU, que hoje é tratado como “partido-mãe”
da LIT, deveria tirar férteis lições das suas trágicas experiências.
O “otimismo voluntarista” já conduziu esta organização mundial
a diversos becos sem saída, a graves erros políticos. Alguns
casos são emblemáticos neste sentido. Eles só confirmam
que a avaliação incorreta da real correlação de forças pode
resultar em graves derrotas e duros retrocessos do movimento
operário. Como ensinava V.I.Lênin, o segredo da tática revolucionária
é a analise concreta da realidade concreta. É ilustrativo
lembrar alguns destes episódios.
Trágicas
experiências
Um que ficou famoso, gerando irônicos
comentários na esquerda mundial, se deu na Nicarágua
em 1979. Em pleno processo revolucionário nesta nação centro-americana,
a corrente morenista decidiu organizar a Brigada Simon Bolívar
e enviar militantes de vários países para engrossar a guerrilha
contra a ditadura de Somoza. Após a vitória da revolução
sandinista, entretanto, esta brigada passou a fazer oposição
aberta ao novo governo de reconstrução nacional, taxando-o
de “burguês e pró-imperialista”. Acusando o grupo de “provocador
trotskista” e de fazer o jogo da reação e do imperialismo,
a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) decidiu,
em agosto de 79, expulsar os seus membros não nicaragüenses
do país.
O Secretariado Unificado da IV
Internacional, que na época ainda conseguia reunir o grosso
das correntes trotskistas, enviou então uma delegação a
Manágua para averiguar o caso. Esta declara, em 3 de setembro,
que “todas as atividades que busquem hoje em dia criar divisões
entre as massas mobilizadas e a FSLN são contrárias aos
interesses da revolução. Este é o caso, em especial, da
Brigada Simon Bolívar. Numa situação política e econômica
que exige a maior unidade na luta possível, a FSLN teve
razão em exigir que os membros não nicaragüenses deste grupo
saiam do país” (Intercontinental Press, 24 de setembro de
1979). O deprimente episódio ocasionou mais uma fratricida
divisão no trotskismo mundial.
Outro momento dramático na história
da LIT – e das esquerdas em geral – se deu com a desintegração
da URSS e do bloco soviético, a partir do final dos
anos 80. Na clássica tese trotskista, estes regimes seriam
“estados operários degenerados”, que demandariam “revoluções
políticas” para retomar o curso socialista. Moreno, porém, tratou de “atualizar o Programa
de Transição”, prevendo duas etapas nesta estratégica: a
“revolução de fevereiro”, democrática, seguida da “revolução
de outubro”, socialista. Com este esquema unilateral, que
não levava em conta o complexo jogo de interesses no Leste
Europeu, a LIT e suas filiais saudaram, eufóricas, os tristes
episódios que resultaram na restauração da barbárie capitalista
na região.
Em 1990, após seu III Congresso,
a LIT esbanjava otimismo. “Do mesmo modo em que os últimos
meses significaram uma virada histórica para a humanidade,
eles foram para a LIT o salto para ganhar influência em
setores de massas... O trotskismo está vivo porque a revolução
mundial matou o stalinismo e colocou em marcha a grandiosa
luta de massas.... Esta se abrindo a hora do socialismo
com democracia” (Correio Internacional, julho de 1990).
Tamanho erro de cálculo custou caro. Como repisa uma seita
rival “antes da destruição dos estados operários, o morenismo
apoiou todos os movimentos que serviram de ponta de lança
do imperialismo contra a URSS, como a reacionária guerrilha
islâmica impulsionada pela CIA no Afeganistão... Na Polônia,
reivindicou um governo de Lech Walessa e ‘todo poder ao
Solidariedade’”.
A própria historiografia oficial
da LIT reconhece que este foi um dos piores equívocos da
sua trajetória. Como desculpa, alega que a morte de Nahuel
Moreno, em fevereiro de 1987, debilitou a organização. “A
nova direção dá respostas equivocadas aos processos do Leste
de 1989-90. Define corretamente estes processos como revolucionários,
mas não vê as suas contradições, fazendo assim uma caracterização
unilateral. Surge então para o Leste e todos os países uma
atitude autoproclamatória e uma política com traços oportunistas
de capitulação à reação democrática... Chega-se quase a
dissolução da LIT-QI”.
Mais recentemente, esta corrente
entrou novamente em parafuso com os rápidos e turbulentos
episódios da Venezuela. Seus seguidores se fragmentaram
em vários pedaços. A maior referência do “morenismo” neste
país, o ex-deputado constituinte Alberto Franceschi, é hoje
um dos principais porta-vozes da direita; foi um dos líderes
da tentativa frustrada de golpe em abril 2002; tornou-se
um próspero produtor agrícola e um poderoso empresário do
ramo de transporte. Na década de 80, como líder do MIR da
Venezuela, Franceschi foi peça chave na fundação da LIT
e, junto com Nahuel Moreno, escreveu as “Teses sobre guerrilherismo”
(1986), um texto de polêmica com os revolucionários cubanos.
Já o seu sucessor na internacional
“morenista”, o Partido Socialista dos Trabalhadores (PST),
esbarrou no sectarismo da LIT. Isto porque apóia o governo
Hugo Chávez, mesmo mantendo a linha das “denúncias e exigências”,
outra invenção de Moreno. Esta postura gerou a ira de várias
seitas trotskistas. “A posição do PST é tão vergonhosa que
o seu próprio partido-irmão, o PSTU, denunciou que ‘o conjunto
da esquerda apoiou Chávez... e o fez sem denunciar o caráter
populista e demagógico de seu programa’”. Devido a estas fraturas, a LIT sucumbiu
no país. Em documento recente, garante que Chávez “quer
negociar com a direita e o imperialismo” e que “hoje não
existe na Venezuela uma organização nacional no campo do
proletariado com uma política revolucionária e classista,
em oposição ao governo pela esquerda”.
Equívocos
grosseiros
Outro trauma antigo desta corrente
emana da Argentina, que agora volta à cena com as
suas explosões populares. Neste caso, a ferida é profunda
e nunca cicatrizou. Afinal, o “morenismo” nasceu neste país.
Foi aí que teve início da militância de Hugo Miguel Bressano
como assessor dos Sindicatos dos Têxteis (AOT) e dos Trabalhadores
em Frigoríficos Anglo-Ciabasa. Convertido ao trotskismo
na década de 40, ele se projetaria com o nome de Nahuel
Moreno. Sua militância foi marcada por inúmeros ziguezagues,
tanto que muitos o taxam de “camaleão político”. Na sua trajetória, organizou vários partidos
e foi o construtor da “maior força de esquerda” da Argentina
nos anos 80, o Movimento ao Socialismo (MAS).
Impregnado até a medula do “otimismo
voluntarista”, Moreno tentou várias vezes apressar artificialmente
os fatos políticos, desprezando a correlação de forças.
Com o fim da ditadura e a vitória de Raul Alfonsin, profetizou
o imediato trânsito ao socialismo. “Estão dados todos elementos
para que triunfe a Revolução de Outubro”, afirmou. Os equívocos
aventureiros acabaram por implodir o MAS, o “partido-mãe”
da LIT. Após quase uma dezena de fraturas internas, a direção
da LIT, agora sob influência do PSTU, preconizou a expulsão
do MAS. “A exclusão se consumou, através de manipulações
estatutárias, numa reunião do ‘comitê executivo internacional’,
que ocorreu em maio de 1998”, relata um texto crítico do
MAS.
Hoje a corrente “morenista” está
reduzida a frangalhos, tendo a minúscula Frente Operária
e Socialista (FOS) como filiada da LIT e quase uma dezena
de seitas trotskistas. Mesmo após os memoráveis levantes
populares de 2001/02 esquerda foi incapaz de unir forças
para intervir na recente sucessão presidencial. Apesar disto,
a LIT permanece com sua cegueira voluntarista. “Em nosso
país se iniciou uma verdadeira revolução... que deixou em
ruína o regime democrático-burguês. Nos termos da nossa
corrente morenista, tratou-se de uma ‘revolução de fevereiro’...
A revolução continua, a tarefa agora é desenvolver o processo
até o seu segundo estágio: a luta pelo poder operário e
popular e o triunfo da revolução socialista”.
Por último, neste breve balanço
dos grosseiros erros da corrente “morenista”, uma pitada
de Cuba. Após um rápido namoro com a revolução cubana,
Nahuel Moreno passou a tratar a “ditadura de Fidel Castro”
como um feroz inimigo. Resoluções da LIT recomendavam incentivar
a “revolução política” no país. Um renomado trotskista brasileiro
chegou a dizer que “apoiaremos uma revolução que consideramos
iminente contra o regime burocrático de Fidel... Achamos
que é necessário lutar contra o Partido Comunista”. Agora, quando os EUA conspiram febrilmente
contra ilha, a LIT volta à tona com os seus devaneios.
Mesmo com o governo cubano reconhecendo
que faz concessões para manter as conquistas da revolução,
ela insiste em desconhecer a correlação de forças. Enquanto
a maioria da esquerda reafirma o seu apoio a ilha, a LIT
condena suas recentes decisões judiciais. “As medidas repressivas
do regime cubano merecem o repúdio, porque não são mais
que medidas dirigidas a amordaçar os trabalhadores e o povo,
enquanto as medidas econômicas abrem as portas do país ao
imperialismo europeu... Devemos dizer claramente que os
socialistas não se confundem com o regime repressivo de
Castro”. Aplausos de George W. Bush!
Revezes
históricos
Apesar dos duros revezes históricos,
que reduziram a LIT a uma internacional regional e bastante
frágil, esta corrente insiste na mesma linha voluntarista.
No seu último congresso mundial, em julho de 2001, que reuniu
seções de apenas 13 países, sendo oito do continente americano
e a esmagadora maioria de pouca expressão de massa, a LIT
orientou as filiadas nacionais a aproveitarem “o processo
revolucionário aberto no subcontinente na tarefa de avançar
na construção de uma alternativa de direção revolucionária”.
No trecho da resolução dedicado à América Latina, intitulado
“revolução ou colônia”, ela ainda esbraveja:
“A crise de direção é a grande
trava a que estes processos avancem mais rápido no caminho
da revolução operária e socialista. Com a ofensiva imperialista
sendo respondida pelo ascenso e provocando crises graves
dos regimes, o que impede que os levantes e insurreições
visem mais diretamente a questão do poder operário é a ação
dos aparatos e a ausência de direções revolucionárias...
As direções com influência de massa, como os partidos do
Fórum São Paulo ou as direções guerrilheiras, ajudam a desviar
o ascenso e a recompor o regime sustentando projetos de
colaboração de classes. Essa é a grande falência que adoece
o processo de lutas latino-americanas”. O papel, realmente, admite todo tido
de bravata!