Por TELMA BESSA
Doutoranda em História Social/PUC/SP, Professora da UNISANTA CECÍLIA - SANTOS/SP


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O Grito dos Excluídos e a Soberania do Brasil

(07 de setembro: dia da independência?)

 

A história do Brasil, como bem sabemos, assenta-se sobre grandes contrastes estruturais. De um lado, aprofunda-se a progressiva concentração de terra, de renda e de riqueza, hoje comandada pelo setor financeiro e especulativo. De outro lado, agrava-se a exclusão de amplos setores da população e, por tabela, agravam-se também as dívidas sociais, notadamente o desemprego, a falta de terra e a precariedade dos serviços públicos.

Há séculos mãos visíveis e invisíveis vêm se apropriando das riquezas deste país. Mãos que mais parecem garras, por sua ganância de tudo devorar. O esquema se repete desde a colônia, passando pelo império, até a república. O pau-brasil, o açúcar, o algodão, o cacau, o café, o ouro, a borracha – todas as riquezas tiveram o mesmo destino: os mercados internacionais. A economia brasileira nasceu e se consolidou atrelada desde o início ao sistema capitalista: primeiro mercantil, depois industrial e agora financeiro. A lógica do tripé latifúndio, trabalho escravo e monocultura de exportação sobrevive até os nossos dias.

O resultado não poderia ser outro: um povo empobrecido sobre uma terra tão rica em recursos naturais, em potencial energético e em força humana. Usando a expressão de Eduardo Galeano, parecemos mendigos sentados em montanhas de ouro. Neste processo de extorsão, as classes dominantes funcionam como correias de transmissão entre os trabalhadores e os mercados mundiais. Extraem a riqueza dos contribuintes e repassam para as metrópoles. Hoje o mecanismo de sucção se repete via o pagamento de juros e serviços da dívida externa. Enxuga-se o orçamento para nutrir as contas bancárias dos credores internacionais. Com isso, os riscos de quem especula no mercado financeiro são transferidos para o conjunto da população, com a intermediação do governo e das elites nacionais. O superávit primário é a garantia de que podem investir sem problemas, pois sua fatia não será tomada. Os custos recaem sobre a precariedade das políticas públicas e, consequentemente, sobre a qualidade de vida da população. No fim da linha, crescem as dívidas sociais à medida que se avolumam os gastos com a dívida.

Esta situação não é desconhecida por nós, trabalhadores(as) do setor educacional que estamos “antenados” com a conjuntura do país. Sabemos que a contemporaneidade dessas temáticas leva-nos ao reconhecimento da pluralidade, de uma diversidade de estudos e abordagens que "abre a possibilidade de produzir uma história que será sempre política, porque inserida no seu tempo e comprometida com ele (...) na esperança de estarmos, de alguma maneira, com nosso trabalho ajudando a construir o futuro, numa perspectiva transformadora". [1]

Neste processo, considerando a dinâmica social brasileira e numa perspectiva mais complexa, o Grito dos Excluídos [2] remete a outros gritos de que está pontilhada a trajetória acidentada deste país. Gritos de dor e revolta, gritos de luta e resistência, gritos do campo e da cidade – sistematicamente ignorados pela historiografia oficial brasileira. Gritos indígenas, negros e populares, não raro calados à bala pelas forças repressivas, sempre prontas a desmantelar os movimentos de libertação.

Na contramão dessas contradições, entretanto, a resistência popular tem sido teimosa e tenaz ao longo dos séculos. Não precisamos lembrar aqui Canudos, Contestado, Palmares, Cabanas, Ligas Camponesas e tantos outros episódios que falam por si e por sua força simbólica. Embora vergado pelo peso da miséria e do trabalho, o povo brasileiro jamais se deixou abater.

O Grito dos Excluídos já completou nove anos de existência. Vem mudando o significado do dia 07 de setembro. Este é o dia do povo nas ruas, praças e campos, expressando seus desejos, anseios e utopias. Denunciando as mazelas e anunciando valores da solidariedade e justiça. Cada vez mais o Grito é reconhecido e compreendido nos vários setores sociais e principalmente vivido e construído pelos próprios excluídos. A sua força é permanecer fiel à inspiração inicial: ouvir a voz dos excluídos e dos esquecidos, trazer á luz as realidades sofridas do povo, aquelas que a escrita não consegue considerar e transmitir.

Este ano, o Grito dos excluídos traz o lema: “ Tirem as mãos, o Brasil é nosso chão”. Faz referência á luta pela soberania e independência do país. Está ligado diretamente à questão da Alca, sinalizando ao governo brasileiro para sair das negociações e o Congresso Nacional a convocar um plebiscito oficial.

O Grito dos Excluídos e a Campanha contra a Alca, ao mesmo tempo que fazem desfilar pelas ruas os gemidos das vítimas, retomam e fortalecem sua garra organizativa, no momento em que a história do país encontra-se numa verdadeira encruzilhada. A encruzilhada é justamente a adesão ou não à Alca. Dependendo da posição brasileira no processo em curso, o país e o continente latino-americano podem fazer a história mudar de rumo.



[1] FENELON, Déa Ribeiro. Cultura e História Social: historiografia e pesquisa" In: História e Cultura    Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História. n. 10 São Paulo, dezembro de 1983.
[2] O  primeiro Grito dos Excluídos foi realizado em 7 de setembro de 1995 e teve como lema: “A Vida em primeiro lugar”. A iniciativa surgiu das Pastorais Sociais em 1994, em vista da Campanha da Fraternidade, que apresentava o tema: “A fraternidade e os excluídos”.O Grito surgiu da intenção de denunciar  a exclusão, valorizar os sujeitos sociais. Este grito aconteceu em mais de 170 cidades e teve como símbolo uma panela vazia.

 

 

TELMA BESSA

 

 
 

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