Um
epílogo para a paz
“As armas
sozinhas não são capazes de manter a paz. Ela deve
ser mantida pelos homens. A mera ausência de guerra
não é paz”. John
F. Kennedy
Esta
citação escolhida para ser a epígrafe do presente
artigo é um resumo de um discurso feito pelo Presidente
John F. Kennedy diante da Assembléia Geral das Nações
Unidas em 25 de Setembro de 1961. Ele fala sobre os
conflitos daquele período como a iminência de uma
guerra nuclear que deveria ser parada através do desarmamento
e as disputas em Berlim e Vietnã do Sul opondo as
duas grandes potências da Guerra Fria.
Acima de tudo é um discurso sobre
a natureza da guerra e da paz, que confirma Kennedy
como um dos melhores herdeiros da tradição norte-americana
na política internacional exercida por homens como
os Presidentes Jefferson, Lincoln e Roosevelt que,
embora confrontados pela guerra, foram capazes de
construir a paz. Infelizmente, o atual titular da
Presidência dos Estados Unidos e todos aqueles em
torno dele não são merecedores deste legado.
Fazer a paz não é uma tarefa fácil,
e os eventos recentes envolvendo os Estados Unidos
e as Nações Unidas no que refere-se à guerra no Iraque
tornam estas afirmações extremamente atuais. Em mais
um episódio desta tragédia anunciada perdemos um verdadeiro
pacifista que, para nosso orgulho e tristeza, foi
morto estupidamente num atentado terrorista em Bagdá
no último dia 19 de Agosto.
Falo de Sérgio Vieira de Mello,
Alto Comissário para Direitos Humanos das Nações Unidas,
que foi designado pelo Secretário-geral Kofi Annan
a ajudar nos esforços de reconstrução que vêm ocorrendo
no Iraque desde a queda de Saddam Husseim.
Muitas coisas foram discutidas
pela imprensa brasileira e mundial desde o desastre.
Devemos tentar agora obter algumas lições deste episódio
para prevenir que outras pessoas como Mello e seus
colegas tenham o mesmo destino cruel e pensar sobre
o papel da ONU neste ambiente de complexidade e incerteza
que marca as relações internacionais contemporâneas.
A ONU é paradoxalmente uma das
grandes decepções dos dias de hoje e a melhor esperança
de paz, justiça e desenvolvimento que ainda temos,
dependendo da perspectiva adotada. A autoridade para
fazer valer as suas decisões foi amplamente criticada
por causa da ignorância pela coalizão anglo-americana
acerca das resoluções proibindo a guerra no Iraque.
Esta foi, desde o começo, uma obra dos falcões liderados
pelo Secretário de Defesa Donald Rumsfeld, baseada
no conceito de “guerra preventiva” contra o terrorismo
e todos os inimigos norte-americanos (reais ou potenciais).
Entretanto, embora tenha sido uma
campanha militar rápida que atingiu seus objetivos,
ela provou-se muito diferente do que os seus formuladores
projetaram. As dúvidas sobre o pós-guerra, a “Doutrina
Rumsfeld” de empregar ataque aéreo massivo ao invés
de tropas terrestres, a existência de muitos grupos
fundamentalistas islâmicos, organizações terroristas
e frações étnicas no Iraque tornaram o trabalho muito
mais difícil do que considerado no início sob o ângulo
militar.
Agora eles perceberam que construir
a paz é muito mais difícil do que fazer a guerra.
Exige certas armas que a maioria dos senhores da guerra
não têm. Então, diante dos problemas nos campos militar
e diplomático, eles pediram a ajuda da ONU. Esta instituição
está enfrentando um dilema pois, embora não tenha
autorizado a intervenção armada, apoiou o primeira
Guerra do Golfo em 1991, as punições e o embargo que
seguiram-se contra o Iraque desde então.
Kofi Annan pensou que ao fazer
parte deste processo, a ONU poderia aliviar a tragédia
humana que tem sido vista no Iraque, dividir responsabilidades
com os “vencedores” e reinstalar o multilateralismo.
Foi um movimento arriscado e, como em todos os dilemas,
não havia uma solução ótima, apenas a menos pior.
Então ele enviou seu melhor pacificador
e um grande número de profissionais da ONU. Eles foram
capazes de cumprir uma parte da missão quando Mello
convenceu o vice-rei norte-americano Paul Bremer de
que o Conselho de Governo não deveria ter apenas funções
consultivas em relação às tropas de ocupação e que
o objetivo da presença deles era devolver o poder
para a população iraquiana o mais cedo possível, construindo
uma democracia nos moldes ocidentais – Mello queria
eleições legislativas em 2004 com a elaboração de
uma nova constituição, a formação de um gabinete executivo
e o fim do mandato da coalizão sobre o país.
No entanto, isto não estava claro
para todos. Nem a comunidade internacional nem os
Estados Unidos têm clareza sobre que tipo de regime
é possível construir no Iraque, em função do relativo
ineditismo desta situação. Uma democracia ocidental,
uma república teocrática como o Irã ou uma monarquia
como a Jordânia? Os riscos de uma guerra civil permanente
a exemplo do Líbano, Vietnã e Afeganistão são cada
vez maiores.
No meio desta confusão estava Mello,
com as suas boas intenções (apesar das acusações de
heterodoxia metodológica e carreirismo por procurar
a indicação para Secretário-geral), mas cercado de
dúvidas e interesses ocultos. A ONU assumiu os riscos
de enviar seus funcionários lá e está pagando agora
por uma decisão mal calculada. Está cada vez mais
claro, como disse o Presidente Kennedy há mais de
40 anos, que o papel da ONU deve ser ampliado nos
termos da sua carta de fundação e que a mera ausência
de guerra “convencional” não traz a paz.
Construí-la continua sendo uma
das tarefas mais difíceis e nobres da humanidade e
Mello era um verdadeiro pacificador como demonstrou
no Timor Leste, mas não um soldado. Ele era, portanto,
incapaz de lutar uma guerra que não era sua. Esperemos
que a sua morte trágica faça dele um mártir e símbolo
da luta contra a intolerância ao redor do mundo. Rezemos
para que seu sacrifício no altar da insanidade humana
não tenha sido em vão ou um epílogo para a paz no
Iraque e todo o Oriente Médio, mas somente seu prólogo.