Por EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).


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Uma visita a Graceland de Elvis Presley

 

Elvis Presley (início da carreira)A casa que Elvis Presley comprou para seus pais, em 1957, se chama "Graceland" – "Terra da Graça", e fica na cidade de Memphis, no estado do Tennessee. No sul dos Estados Unidos, muitas casas têm nomes, especialmente as casas históricas, algumas datando de antes da guerra civil de 1860-65. Na história da casa de Elvis Presley, não fica claro se a casa já tinha este nome antes, ou se o próprio Elvis escolheu "Graceland". A casa não é velha, pelo menos em comparação com outras casas históricas do sul, porque foi construída no século XX. Seja como for, esta casa, depois de tantos anos da morte do artista, se transformou em um ponto de romaria para os milhões de fãs de Elvis Presley no mundo inteiro, e seu nome, Graceland, aparece em músicas e filmes. [1]

Uma visita a Graceland é muito mais que simplesmente um ato turístico, por muitas razões. Inicialmente, tem a questão histórica mesmo, afinal o famoso artista morou nesta casa por muitos anos, portanto uma visita a sua casa é mais que puro entretenimento. Ninguém, por mais que não goste da música de Elvis Presley, pode negar a sua importância para a música não só dos Estados Unidos, mas do mundo todo.

Dentro da questão histórica, também se pode ver, em Graceland, como Elvis, a pessoa real, fez o trajeto da obscuridade para a fama, e o quanto esta passagem lhe custou. No museu em que a casa foi transformada, estão fotos e filmes que mostram sua vida, e sua carreira, e se podem ver, dramaticamente, as mudanças físicas de Elvis ao longo de poucos anos. Não é possível esquecer que ele morreu bastante jovem, oficialmente de um ataque cardíaco, mas extra-oficialmente devido ao excesso de drogas que tomava. Em um documentário recente feito pelo canal de biografias nos Estados Unidos algumas pessoas que conheceram Elvis e conviveram com ele diziam que no fim de sua vida ele tinha que tomar remédios para todas as funções físicas. Não é de se admirar, então, que sua imagem nos últimos shows é a de um homem inchado, abobalhado. A voz continuava, mas o corpo estava se desmoronando ao peso das drogas.

Mas, além da importância da pessoa do artista, sujeita a vicissitudes, doença e morte, é importante situar Elvis Presley dentro da tradição musical que tem um de seus focos em Memphis, Tennessee. Para quem ainda não esteve neste estado, convém esclarecer: Tennessee fica no sul dos Estados Unidos, uma região de grande influência da cultura negra, com uma história de arte e também de luta pelos direitos civis. Como o assunto que nos interessa neste momento é Elvis, vamos passar por alto a questão dos direitos civis, assunto para uma outra coluna, e vamos concentrar-nos na música.

Quando a pessoa visita a cidade de Memphis, a história da música americana fica muito mais clara: na rua Beale, no centro da cidade, cada restaurante, bar, cantina, e mesmo esquina, tem um artista cantando e tocando, especialmente blues. Escutar blues e depois escutar a música de Elvis, especialmente a música do início de carreira, dramatiza claramente a dívida do rock’n roll ao blues. Inegavelmente, a cidade de Memphis (juntamente com a cidade de Kansas City, em Missouri), é um dos berços do rock, por ter sido o lugar em que especialmente artistas negros criaram o blues. Elvis, nascido em Tupelo e criado em Memphis, uma vez era como outros artistas jovens que até hoje trabalham na cidade, cantando, compondo, trabalhando nos bares e restaurantes. Uma visita a Memphis é uma experiência histórica e musical, e ajuda a reconhecer como a a cultura musical americana como a conhecemos seria impossível sem a presença da cultura negra. E como o rock’n roll sería diferente sem a influência pioneira de Elvis Presley.

Mas uma visita a Graceland, tal como é oferecida aos turistas que se congregam aos milhares nos edifícios da entrada – e que pagam pelo menos dezesseis dólares para entrar – é uma experiência que tem mais a ver com um sonho (ou pesadelo, dependendo do ponto de vista) cibernético do que com qualquer outra coisa, muito menos com a explosão de sensualidade e música que foi Elvis Presley.

Inicialmente, assim que você compra o seu bilhete de entrada, você recebe o número do seu grupo e aguarda a chamada. Enquanto aguarda, você pode assistir um filme sobre a obra caritativa de Elvis Presley, ou escolher umas lembrancinhas em alguma das bem estocadas lojas. Aproveite o filme, porque é realmente a única coisa grátis neste lugar. As lembrancinhas são caras, se bem que de boa qualidade. Quando o seu grupo é chamado, por autofalante, você entra numa fila e espera a vez de subir no micro-ônibus que leva os visitantes à casa, que fica do outro lado da rua. Mas, antes de você entrar no ônibus, funcionários da empresa colocam você contra um painel pintado para representar o portão de entrada de Graceland, e uma foto é tirada. Na fila de entrada do ônibus, funcionários dão a cada pessoa um headphone preso a um cordão, e vão gritando para todos colocarem o aparelho nos ouvidos e prestar atenção nas instruções de quando apertar determinados botões. Somente então você tem permissão para entrar no ônibus, e vai ser levado até Graceland.

Afinal, chega-se a Graceland, onde Paul Simon, na letra de uma canção, diz que tem certeza que vai ser recebido! Os turistas também são recebidos, mas por funcionários uniformizados e carrancudos, que os colocam mais uma vez em fila e gritam o número que devem apertar no aparelho. Daqui em diante, uma voz masculina vai dando instruções, explicando partes da casa, apresentando pessoas que dão testemunhos sobre Elvis, e dizendo quando devemos apertar outros números. É uma experiência surreal. Há momentos em que a gente se sente como gado sendo tocado de curral a curral, manuseado por boiadeiros sem nenhuma sensibilidade.

Mas a casa existe, e apesar da interferência da narração (que contém também partes de entrevistas do próprio Elvis), e dos funcionários organizando o trânsito de pessoas pelo corredor, o visitante pode ter a experiência da casa, pelo menos do andar térreo, do porão e do quintal.

A casa foi mantida como estava quando Elvis morreu, e portanto a decoração reflete o gosto (ou mau gosto) do final dos anos setenta. Os móveis são pesados, feitos de peles de animais, o carpet é exagerado, as cortinas são absurdas. A pior parte, pelo menos na minha opinião, é o corredor estreito que leva ao porão, onde Elvis tinha sua sala de tevê (cinco televisores nas paredes), e sua sala de jogos. O corredor é coberto de espelhos, e a impressão que se tem, ao passar por ele, é de estar-se em um daqueles quartos de espelhos nos parques de diversão. Você olha para um lado e se vê reduplicado, para o outro, e lá está você de novo; se olha pra cima, a mesma coisa. A palavra que mais se escuta neste corredor é "spooky", que quer dizer meio assombrado. Cada cômodo tem objetos que pertenceram a ele, e a sempre-presente narração explica o que são, para que serviram, etc, enquanto a multidão passa, silenciosa, caminhando diante de pentes, uniformes, pijamas, violões, capas. Houve um momento, um pouco antes de sair da casa, em que pensei que, de repente, nós turistas é que éramos uma procissão mal-assombrada, olhando objetos que tinham mais vida que nós, porque pertenceram a uma pessoa famosa.

No terreno ao redor da casa, Elvis tinha algumas construções dedicadas à administração da sua carreira e da casa, uma quadra de raquetball, um estábulo para os cavalos, e balanços para sua filha. Cada uma destas coisas foi muito bem conservada, inclusive os cavalos, que usam tapadeiras especiais e são mantidos longe da multidão, para não se assustarem. E ainda aqui a transmissão direta aos nossos ouvidos explicava tudo. E então a voz no headphone nos apresenta o "jardim da meditação", onde se encontram vários túmulos, inclusive o de Elvis, e se despede, desejando ao ouvinte que ele ou ela tenha tido uma boa experiência visitando Graceland.

O jardim da meditação foi realmente um jardim até que a família resolveu trazer os restos mortais de Elvis para cá, e depois também os de sua mãe, de sua avó, e mais tarde os de seu pai. Há também uma placa pequena dando o nome do irmão gêmeo de Elvis, que morreu ao nascer. Somente nesta parte da casa os visitantes podem ficar sozinhos na multidão, cada um com o seu próprio Elvis, sem a interferência de nenhuma narração. Muita gente rezava, outros choravam, todos tiravam fotos. Era como se Elvis Presley tivesse sido amigo de todos, de cada uma destas pessoas.

Não é para menos. Este artista, de influência tão profunda, esteve na encruzilhada de várias tendências e várias tensões históricas. Sua música fez uma catálise, especialmente quando ele começou a cantar, entre a musica branca e a música negra. Elvis também foi um cavalheiro da escola do sul dos Estados Unidos; basta ver qualquer de suas entrevistas para verificar-se isso. Ele tinha a gentileza fácil, o charme, a maneira de falar, que se encontra no sul até hoje. Finalmente, com sua dança considerada na época até imoral, Elvis inaugurou a sensualidade física na música, e abriu caminho para que outros artistas abrissem a camisa, dançassem livremente durante suas apresentações, e usassem o cabelo como quisessem, sem terem que cortá-lo escovinha militar. Ao mesmo tempo, a vida de Elvis teve uma certa pitada de tragicidade, e isso o coloca ainda mais no coração das pessoas.

Logicamente, não houve somente um Elvis Presley. Embora o selo comemorativo dos 20 anos da sua morte, lançado pelo correio dos Estados Unidos em 1997, tenha escolhido o Elvis jovem, ele teve duas outras importantes fases. Esta primeira, poderíamos chamar de Elvis de Memphis; a segunda seria o Elvis de Hollywood, e a terceira o Elvis de las Vegas.

Na primeira fase, ele é realmente uma força da natureza. Ele é jovem, bonito, vibrante, um talento virgem. É o tempo em que ele é chamado "Elvis Pelvis", por causa dos seus movimentos durante suas apresentações. O Elvis de Hollywood está bem representado na obra de Andy Warhol, que o retrata sério, meio perturbado, segurando uma pistola (uma cena de um de seus filmes). Sua carreira em Hollywood foi uma lástima, porque ele jamais pôde atuar em um filme que fizesse uso de seu talento. Por fim, há o Elvis de Vegas, cansado, velho aos quarenta anos, corroído por drogas de todos os tipos.

Naquele momento, junto ao túmulo de Elvis Presley, é possível que cada um de nós se lembrava de uma pessoa diferente, mas a maioria chorava a perda do jovem Elvis, tão inocente, e um exemplo de beleza masculina.  Eu tirei as fotos de praxe, notei que o nome do artista, como alguém já tinha dito, estava escrito errado na lápide, e voltei ao ônibus, em tempo de ver que o fluxo da multidão na entrada de Graceland continuava firme, cada pessoa colocando obedientemente seu headphone e entrando na casa. Meu grupo tomou o micro ônibus e voltou para o ponto de partida.

Ao voltar para a recepção, cada um foi confrontado com a foto que havia sido tirada antes de entrarmos no ônibus. A vinte dólares cada foto, somente os fãs mais fanáticos não resistiram. Alguns usaram este dinheiro para pagar a entrada ao "Lisa Marie", o jato de Elvis, enquanto outros foram comer um sanduíche na cafeteria.

No início pensei que talvez Elvis estivesse se revirando no túmulo, horrorizado ao ver em que indústria sua casa e sua vida haviam se transformado. Mas, pensando bem, para um homem cujo lema era "TCB" – Take Care of Business (tomar conta dos negócios) – talvez este uso de Graceland seja exatamente o que ele queria. E, vamos e venhamos, se não fosse pela argúcia comercial de sua ex-esposa Princilla, que recuperou a casa e a transformou no que é hoje, talvez a mansão tivesse já desmoronado.

Para os fãs da música de Elvis Presley, fica um alerta: melhor não ir ver Graceland. Logicamente, a escolha é de cada um.



[1] Elvis comprou a casa quando tinha somente 22 anos, e pagou 102.500 dólares por ela. Ele sempre quis comprar uma mansão para seus pais, e esta casa foi a escolhida. A mansão foi construída em 1939 por uma família rica de Memphis que era dona  uma fazenda de 500 acres desde 1861. O nome, “Graceland,” foi dado pelo dono original, para homenagear sua filha, que se chamava Grace.

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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