A
casa que Elvis Presley comprou para seus pais, em
1957, se chama "Graceland" – "Terra
da Graça", e fica na cidade de Memphis, no estado
do Tennessee. No sul dos Estados Unidos, muitas casas
têm nomes, especialmente as casas históricas, algumas
datando de antes da guerra civil de 1860-65. Na história
da casa de Elvis Presley, não fica claro se a casa
já tinha este nome antes, ou se o próprio Elvis escolheu
"Graceland". A casa não é velha, pelo menos
em comparação com outras casas históricas do sul,
porque foi construída no século XX. Seja como for,
esta casa, depois de tantos anos da morte do artista,
se transformou em um ponto de romaria para os milhões
de fãs de Elvis Presley no mundo inteiro, e seu nome,
Graceland, aparece em músicas e filmes.
Uma visita a Graceland é muito mais que simplesmente um ato turístico,
por muitas razões. Inicialmente, tem a questão histórica
mesmo, afinal o famoso artista morou nesta casa por
muitos anos, portanto uma visita a sua casa é mais
que puro entretenimento. Ninguém, por mais que não
goste da música de Elvis Presley, pode negar a sua
importância para a música não só dos Estados Unidos,
mas do mundo todo.
Dentro da questão histórica, também se pode ver, em Graceland, como Elvis,
a pessoa real, fez o trajeto da obscuridade para a
fama, e o quanto esta passagem lhe custou. No museu
em que a casa foi transformada, estão fotos e filmes
que mostram sua vida, e sua carreira, e se podem ver,
dramaticamente, as mudanças físicas de Elvis ao longo
de poucos anos. Não é possível esquecer que ele morreu
bastante jovem, oficialmente de um ataque cardíaco,
mas extra-oficialmente devido ao excesso de drogas
que tomava. Em um documentário recente feito pelo
canal de biografias nos Estados Unidos algumas pessoas
que conheceram Elvis e conviveram com ele diziam que
no fim de sua vida ele tinha que tomar remédios para
todas as funções físicas. Não é de se admirar, então,
que sua imagem nos últimos shows é a de um homem inchado,
abobalhado. A voz continuava, mas o corpo estava se
desmoronando ao peso das drogas.
Mas, além da importância da pessoa do artista, sujeita a vicissitudes,
doença e morte, é importante situar Elvis Presley
dentro da tradição musical que tem um de seus focos
em Memphis, Tennessee. Para quem ainda não esteve
neste estado, convém esclarecer: Tennessee fica no
sul dos Estados Unidos, uma região de grande influência
da cultura negra, com uma história de arte e também
de luta pelos direitos civis. Como o assunto que nos
interessa neste momento é Elvis, vamos passar por
alto a questão dos direitos civis, assunto para uma
outra coluna, e vamos concentrar-nos na música.
Quando a pessoa visita a cidade de Memphis, a história da música americana
fica muito mais clara: na rua Beale, no centro da
cidade, cada restaurante, bar, cantina, e mesmo esquina,
tem um artista cantando e tocando, especialmente blues.
Escutar blues e depois escutar a música de Elvis,
especialmente a música do início de carreira, dramatiza
claramente a dívida do rock’n roll ao blues. Inegavelmente,
a cidade de Memphis (juntamente com a cidade de Kansas
City, em Missouri), é um dos berços do rock, por ter
sido o lugar em que especialmente artistas negros
criaram o blues. Elvis, nascido em Tupelo e criado
em Memphis, uma vez era como outros artistas jovens
que até hoje trabalham na cidade, cantando, compondo,
trabalhando nos bares e restaurantes. Uma visita a
Memphis é uma experiência histórica e musical, e ajuda
a reconhecer como a a cultura musical americana como
a conhecemos seria impossível sem a presença da cultura
negra. E como o rock’n roll sería diferente sem a
influência pioneira de Elvis Presley.
Mas uma visita a Graceland, tal como é oferecida aos turistas que se congregam
aos milhares nos edifícios da entrada – e que pagam
pelo menos dezesseis dólares para entrar – é uma experiência
que tem mais a ver com um sonho (ou pesadelo, dependendo
do ponto de vista) cibernético do que com qualquer
outra coisa, muito menos com a explosão de sensualidade
e música que foi Elvis Presley.
Inicialmente, assim que você compra o seu bilhete de entrada, você recebe
o número do seu grupo e aguarda a chamada. Enquanto
aguarda, você pode assistir um filme sobre a obra
caritativa de Elvis Presley, ou escolher umas lembrancinhas
em alguma das bem estocadas lojas. Aproveite o filme,
porque é realmente a única coisa grátis neste lugar.
As lembrancinhas são caras, se bem que de boa qualidade.
Quando o seu grupo é chamado, por autofalante, você
entra numa fila e espera a vez de subir no micro-ônibus
que leva os visitantes à casa, que fica do outro lado
da rua. Mas, antes de você entrar no ônibus, funcionários
da empresa colocam você contra um painel pintado para
representar o portão de entrada de Graceland, e uma
foto é tirada. Na fila de entrada do ônibus, funcionários
dão a cada pessoa um headphone preso a um cordão,
e vão gritando para todos colocarem o aparelho nos
ouvidos e prestar atenção nas instruções de quando
apertar determinados botões. Somente então você tem
permissão para entrar no ônibus, e vai ser levado
até Graceland.
Afinal, chega-se a Graceland, onde Paul Simon, na letra de uma canção,
diz que tem certeza que vai ser recebido! Os turistas
também são recebidos, mas por funcionários uniformizados
e carrancudos, que os colocam mais uma vez em fila
e gritam o número que devem apertar no aparelho. Daqui
em diante, uma voz masculina vai dando instruções,
explicando partes da casa, apresentando pessoas que
dão testemunhos sobre Elvis, e dizendo quando devemos
apertar outros números. É uma experiência surreal.
Há momentos em que a gente se sente como gado sendo
tocado de curral a curral, manuseado por boiadeiros
sem nenhuma sensibilidade.
Mas a casa existe, e apesar da interferência da narração (que contém também
partes de entrevistas do próprio Elvis), e dos funcionários
organizando o trânsito de pessoas pelo corredor, o
visitante pode ter a experiência da casa, pelo menos
do andar térreo, do porão e do quintal.
A casa foi mantida como estava quando Elvis morreu, e portanto a decoração
reflete o gosto (ou mau gosto) do final dos anos setenta.
Os móveis são pesados, feitos de peles de animais,
o carpet é exagerado, as cortinas são absurdas. A
pior parte, pelo menos na minha opinião, é o corredor
estreito que leva ao porão, onde Elvis tinha sua sala
de tevê (cinco televisores nas paredes), e sua sala
de jogos. O corredor é coberto de espelhos, e a impressão
que se tem, ao passar por ele, é de estar-se em um
daqueles quartos de espelhos nos parques de diversão.
Você olha para um lado e se vê reduplicado, para o
outro, e lá está você de novo; se olha pra cima, a
mesma coisa. A palavra que mais se escuta neste corredor
é "spooky", que quer dizer meio assombrado.
Cada cômodo tem objetos que pertenceram a ele, e a
sempre-presente narração explica o que são, para que
serviram, etc, enquanto a multidão passa, silenciosa,
caminhando diante de pentes, uniformes, pijamas, violões,
capas. Houve um momento, um pouco antes de sair da
casa, em que pensei que, de repente, nós turistas
é que éramos uma procissão mal-assombrada, olhando
objetos que tinham mais vida que nós, porque pertenceram
a uma pessoa famosa.
No terreno ao redor da casa, Elvis tinha algumas construções dedicadas
à administração da sua carreira e da casa, uma quadra
de raquetball, um estábulo para os cavalos, e balanços
para sua filha. Cada uma destas coisas foi muito bem
conservada, inclusive os cavalos, que usam tapadeiras
especiais e são mantidos longe da multidão, para não
se assustarem. E ainda aqui a transmissão direta aos
nossos ouvidos explicava tudo. E então a voz no headphone
nos apresenta o "jardim da meditação", onde
se encontram vários túmulos, inclusive o de Elvis,
e se despede, desejando ao ouvinte que ele ou ela
tenha tido uma boa experiência visitando Graceland.
O jardim da meditação foi realmente um jardim até que a família resolveu
trazer os restos mortais de Elvis para cá, e depois
também os de sua mãe, de sua avó, e mais tarde os
de seu pai. Há também uma placa pequena dando o nome
do irmão gêmeo de Elvis, que morreu ao nascer. Somente
nesta parte da casa os visitantes podem ficar sozinhos
na multidão, cada um com o seu próprio Elvis, sem
a interferência de nenhuma narração. Muita gente rezava,
outros choravam, todos tiravam fotos. Era como se
Elvis Presley tivesse sido amigo de todos, de cada
uma destas pessoas.
Não é para menos. Este artista, de influência tão profunda, esteve na encruzilhada
de várias tendências e várias tensões históricas.
Sua música fez uma catálise, especialmente quando
ele começou a cantar, entre a musica branca e a música
negra. Elvis também foi um cavalheiro da escola do
sul dos Estados Unidos; basta ver qualquer de suas
entrevistas para verificar-se isso. Ele tinha a gentileza
fácil, o charme, a maneira de falar, que se encontra
no sul até hoje. Finalmente, com sua dança considerada
na época até imoral, Elvis inaugurou a sensualidade
física na música, e abriu caminho para que outros
artistas abrissem a camisa, dançassem livremente durante
suas apresentações, e usassem o cabelo como quisessem,
sem terem que cortá-lo escovinha militar. Ao mesmo
tempo, a vida de Elvis teve uma certa pitada de tragicidade,
e isso o coloca ainda mais no coração das pessoas.
Logicamente, não houve somente um Elvis Presley. Embora o selo comemorativo
dos 20 anos da sua morte, lançado pelo correio dos
Estados Unidos em 1997, tenha escolhido o Elvis jovem,
ele teve duas outras importantes fases. Esta primeira,
poderíamos chamar de Elvis de Memphis; a segunda seria
o Elvis de Hollywood, e a terceira o Elvis de las
Vegas.
Na primeira fase, ele é realmente uma força da natureza. Ele é jovem, bonito,
vibrante, um talento virgem. É o tempo em que ele
é chamado "Elvis Pelvis", por causa dos
seus movimentos durante suas apresentações. O Elvis
de Hollywood está bem representado na obra de Andy
Warhol, que o retrata sério, meio perturbado, segurando
uma pistola (uma cena de um de seus filmes). Sua carreira
em Hollywood foi uma lástima, porque ele jamais pôde
atuar em um filme que fizesse uso de seu talento.
Por fim, há o Elvis de Vegas, cansado, velho aos quarenta
anos, corroído por drogas de todos os tipos.
Naquele momento, junto ao túmulo de Elvis Presley, é possível que cada
um de nós se lembrava de uma pessoa diferente, mas
a maioria chorava a perda do jovem Elvis, tão inocente,
e um exemplo de beleza masculina. Eu tirei as fotos de praxe, notei que o nome
do artista, como alguém já tinha dito, estava escrito
errado na lápide, e voltei ao ônibus, em tempo de
ver que o fluxo da multidão na entrada de Graceland
continuava firme, cada pessoa colocando obedientemente
seu headphone e entrando na casa. Meu grupo tomou
o micro ônibus e voltou para o ponto de partida.
Ao voltar para a recepção, cada um foi confrontado com a foto que havia
sido tirada antes de entrarmos no ônibus. A vinte
dólares cada foto, somente os fãs mais fanáticos não
resistiram. Alguns usaram este dinheiro para pagar
a entrada ao "Lisa Marie", o jato de Elvis,
enquanto outros foram comer um sanduíche na cafeteria.
No início pensei que talvez Elvis estivesse se revirando no túmulo, horrorizado
ao ver em que indústria sua casa e sua vida haviam
se transformado. Mas, pensando bem, para um homem
cujo lema era "TCB" – Take Care of Business
(tomar conta dos negócios) – talvez este uso de Graceland
seja exatamente o que ele queria. E, vamos e venhamos,
se não fosse pela argúcia comercial de sua ex-esposa
Princilla, que recuperou a casa e a transformou no
que é hoje, talvez a mansão tivesse já desmoronado.
Para os fãs da música de Elvis Presley, fica um alerta: melhor não ir ver
Graceland. Logicamente, a escolha é de cada um.