|
Por
LUIZ
ALBERTO MONIZ BANDEIRA
Politólogo, professor titular de história da política
exterior do Brasil (aposentado) na Universidade de Brasília e autor
de várias obras, entre as quais Conflito e integração na América
do Sul: Brasil, Argentina e Estados Unidos (Revan, 2003), da
qual foi extraido esse trecho aqui reproduzido.
VERSÃO
WORD [ZIP]
|
|
Brasil
e os golpes na Bolívia, Uruguai e Chile: 30 anos depois
Conquanto
voltasse a defender, desde o governo do general
Costa e Silva (1967-1969), o princípio de não-intervenção
e o respeito à soberania dos povos, o Brasil, cujo
regime militar passara a orientar-se pelo nacionalismo
de direita, não admitia, em sua vizinhança, experiências
de esquerda, que viessem a estimular a chamada subversão
e obstaculizar, externamente, a expansão dos seus
interesses econômicos. A repressão, que o governo
do general Emílio Garratazu Médici (1961-1974) internamente
intensificara contra toda e qualquer oposição ao
regime militar, projetou-se, por conseguinte, sobre
outros países da América do Sul, sob a forma de
intervenções mais ou menos encobertas, sem apelo
à justificativa doutrinária das fronteiras ideológicas.
A Bolívia, onde a convocação da Assembléia Popular,
em fins de 1970, parecera aos militares brasileiros
uma tentativa de formação de um soviete, recebeu
a primeira estocada. A Casa Militar do presidente
Garratazu Médici, chefiada pelo general João
Batista Figueiredo, ofereceu aos adversários do
governo do general Juan José Torres, através do
ex-coronel Juan Ayoroa, dinheiro, armas, aviões
e até mercenários, bem como permissão para instalar
áreas de treinamento perto de Campo Grande (Mato
Grosso) e em outros locais próximos da fronteira. E o golpe de estado, deflagrado,
finalmente, pelo general Hugo Banzer, contou com
aberto apoio logístico do Brasil, cujos aviões militares,
sem ocultar as insígnias nacionais, descarregaram
fuzis, metralhadoras e munições em Santa Cruz de
la Sierra, enquanto tropas do II Exército, comandado
pelo general Humberto Melo, estacionavam em Mato
Grosso, prontas para intervir na Bolívia (onde alguns
destacamentos penetraram), se necessário fosse. Poucos meses depois, dezembro
de 1971, o Uruguai outra vez esteve igualmente na
iminência de sofrer a intervenção militar do Brasil.
As tropas do III Exército, sediadas no Rio Grande
do Sul, prepararam-se para o invadir, executando
a Operação Trinta Horas (tempo necessário para a
ocupação de todo o Uruguai), o que só não se concretizou
porque o general Liber Seregni, candidato da Frente
Ampla (partidos de esquerda e centro-esquerda),
perdeu as eleições para os conservadores. Mas os serviços de inteligência
do Brasil lá continuaram a colaborar ativamente
no combate às organizações de esquerda. O delegado
Sérgio Fleury, da Divisão de Ordem Política e Social
da Polícia de São Paulo, ajudou a organizar o esquadrão
da morte para liquidar os tupamaros (militantes
do Movimiento de Liberación Nacional Tupac Amaru),
que realizavam espetaculares operações de guerrilha
urbana. E quando os militares finalmente
deram, em 1973, o golpe de estado, ultimando o processo
de implantação da ditadura, o Brasil, que influíra
direta ou indiretamente para esse desfecho, enviou
ao Exército do Uruguai centenas de veículos, tais
como caminhões e carros Volkswagen, em uma operação
da ordem de US$ 815.000, enquanto a Argentina fornecia
automóveis para a Polícia, bem como gasolina e querosene
da Yacimientos Petrolíferos Fiscales.
Na mesma época, o Brasil também
colaborou com os EUA na preparação do golpe de estado
contra o governo do Chile, cujo presidente, Salvador
Allende, intentava a implantação do socialismo pela
via democrática e constitucional. Evidências houve
de que oficiais brasileiros dos serviços secretos,
em conexão, possivelmente, com a CIA, participaram
da conspiração, tanto que o general Orlando Geisel,
ministro da Guerra no governo Garratazu Médici,
avisara ao embaixador do Paraguai que cedo o Chile
cairia “em
mãos dos militares”. O próprio embaixador dos EUA
em Santiago, Edward Korry, afirmou que o “real apoio
técnico e psicológico” ao coup
d'État “veio
do governo militar do Brasil”. E seu sucessor, o embaixador
Nathaniel Davies, revelou que o embaixador brasileiro,
Cândido da Câmara Canto, convidou-o para que conjuntamente planejassem e coordenassem os esforços no sentido
de derrubar o governo de Allende. Sem dúvida alguma, a cumplicidade
do Brasil foi, na verdade, muito maior do que transpareceu.
Além de recursos financeiros, fornecidos por empresários
de São Paulo, vários carregamentos de armas e munições,
entre 1972 e 1973, saíram do porto de Santos, com
destino a Valparaiso, em caixas de maquinaria agrícola
e de outros produtos, importados pela firma do Senador
Pedro Ibáñez Ojeda, a fim de abastecer a organização
direitista Patria y Libertad. E, com a queda do governo Allende,
em 11 de setembro de 1973, o Brasil reconheceu imediatamente
a Junta Militar, chefiada pelo general Augusto Pinochet.
Vários aviões da Força Aérea Brasileira voaram para
Santiago, transportando não só mantimentos e remédios
como também assessores da Polícia Federal e oficiais
das Forças Armadas, que participaram de interrogatórios
e treinaram seus colegas chilenos na arte da tortura,
enquanto o embaixador Câmara Canto coordenava as
medidas de apoio às novas autoridades do país.
Logo depois do golpe de estado
no Chile, com o conhecimento da CIA, os serviços
de inteligência do Chile, Argentina, Brasil, Paraguai
e Uruguai passaram a cooperar e, em 1975, instituíram a Operação Condor, codinome
dado ao acordo para o empreendimento de ações conjuntas,
visando a coordenar a repressão e eliminar os adversários dos regimes ditatoriais
existentes nos
países do Cone Sul. Mas o raio de ação da
Operação Condor não se restringiria à América Latina.
A terceira fase
e a mais secreta da Operação Condor, segundo o documento
desclassificado pelo Defense Intelligence Agency
(DIA), do Exército norte-americano, consistiu em
formar equipes especiais dos países membros a fim
de que viajassem por todo o mundo e executassem
sanções, que incluíam até assassinatos, contra supostos
terroristas ou
que apoiassem suas organizações,ou seja, contra
adversários políticos dos
regimes militares instalados no Cone Sul.
Se um adversário político ou um que apoiasse a organização
política adversa estivesse na Europa, uma equipe
especial da Operação Condor seria enviada para o
localizar e
vigiá-lo. Quando culminasse a localização e a vigilância,
uma segunda equipe de Operação Condor seria enviada
para aplicar a sanção efetiva contra aquele adversário.
Em teoria, um país proveria de documentação falsa
a equipo de assassinos, formada por agentes de um
outro país. Em Buenos Aires - onde havia exilados
chilenos, uruguaios, bolivianos, brasileiros e paraguaios
– vários crimes ocorreram no marco da Operação Condor,
ainda antes de que ela fosse formalmente concertada
e oficializada.
O general Carlos Prats, que servira ao governo
de Salvador Allende, foi assassinado em setembro
de 1974, em Buenos Aires. Segundo os depoimentos prestados nos EUA, a bomba foi
colocada pelo norte-americano
Michael Townley, ex-agente tanto da DINA como da
CIA. E, além de outros numerosos dissidentes dos
regimes militares, também foram assassinados em
Buenos Aires, em maio de 1976, dois parlamentares
uruguaios, o senador Zelmar Michelini y o deputado
Héctor Gutiérrez Ruiz; e o general Juan José Torres,
ex-presidente da Bolívia, em junho. E em 21 de setembro
do mesmo ano, Orlando Letelier, ex-embaixador do
Chile, e sua secretária, Ronni Moffit, foram assinados
em plena capital dos EUA, na terceira fase da Operação
Condor, no âmbito da qual os EUA facilitaram comunicações
entre os chefes dos serviços de inteligência dos
países do Cone Sul, conforme revelou o embaixador
dos EUA no Paraguai, Robert E. White. O fato de
que o Pentágono
estava interessado na Operação Condor, em 1976, era relevante para a rede de comunicações que
foi estabelecida e facilitada pelos EUA. O general
Alejandro Fretes Davalos, chefe do Estado-Maior
das Forças Armadas do Paraguai, informou ao embaixador
norte-americano Robert White que todos os
chefes dos serviços de inteligência dos países da
América do Sul na Operação Condor se mantinham em
contacto um com o outro através das instalações
de comunicação dos EUA na Zona do Canal do Panama
Zone que cobriam toda a América Latina Essas
instalações eram empregadas para coordenar as informações
de inteligência nos países do Cone Sul.
Garcia Lupo, R., 1973,
p. 229. Lozada,
1972, pp. 402, 403, 411-414, 437-440. Schilling,
1974, pp. 65-66.
Garcia Lupo, R, “Bolivia - Instrumento Geopolítico en
manos de Brasil", in Noticias,
Buenos Aires, 31.05.1974. Garcia Lupo, R., 1983,
p. 174.
Grael, 1985, pp. 11-21. O autor dessa obra, coronel
Dickson N. Grael, servia no III Exército quando
dos preparativos para a invasão do Uruguai. Schilling,
1974, p. 67. Roper, Christopher, “EUA y América
Latina - La Política del presidente Nixon” in
Estrategia,
março/abril 1972, nº. 15, pp. 33-42.
Caula & Silva, 1986, pp. 43-44.
Sanguinetti, J. M. – “Anatomia da Crise - Bem Nacional
o Golpe Uruguaio”, in O
Estado de São Paulo, São Paulo, 13.06.1974,
p. 24. La Opinión, Buenos Aires, 13.07.1973.
O Globo, Rio de Janeiro, 25.05.1974.
Simon, Marlise, “The Brazilian Connection” in The Washington Post, 06.01.1974, p. B3.
Nathaniel Davies, 1985, p. 332.
Korry, Edward M., “Confronting our Past in Chile” in
Los Angeles Times, 08.03.1981, sec. 6,
p. 5, cf. N. Davies, 1985., pp. 331-332.
Simon, Marlise, “The Brazilian Connection” in The Washington Post, 06.01.1974, p. B3..
Rojas, R., 1974, pp. 204-205.
Jornal do Brasil,
18.09.1973, pp. 10 e B3. Segundo o deputado Maurílio
Ferreira Lima, o presidente Allende preparava-se
para denunciar, internacionalmente, a atuação
de Câmara Canto em Santiago, quando
eclodiu o golpe de estado. Veja,
São Paulo, 13.11.1985, p. 91.
State Department Cable, U.S. Ambassador Robert White
(Paraguay) to Secretary of State Cyrus Vance,
Subject: Second Meeting with Chief of Staff re
Letelier Case, October 20, 1978, Confidential.
Esse telegrama foi descoberto pelo professor J. Patrice
McSherry, da Universidade de Long Island, e publicado
pelo New York Times, de 6 de março de 2001.
http://www.gwu.edu/-nsarchiv/mews/20010306/.
LUIZ
ALBERTO MONIZ BANDEIRA
|
|
|
|
|
|
|
|