É sabido que a formação da consciência
não se dá por ações pessoais na sua base,
necessita de um solo social. Assim, a sociedade
precisou tornar-se muito complexa, a divisão
do trabalho altamente sofisticada, as funções
sociais altamente diferenciadas para que emergisse
a noção do indivíduo, inclusive do nome próprio.
Isso de deveu a um trabalho milenar onde a
sociedade superou as formas de solidariedade
fundadas no clã, perfilando uma estrutura
social diferenciada, onde a lealdade à classe,
ao estamento e à casta, substituísse a lealdade
primitiva ao clã.
Porém, somente com as revoluções
burguesas ocidentais, especialmente a eclosão
da revolução norte-americana de 1774 e a revolução
francesa de 1789, a existência de uma consciência
social encontrou seu solo na exigência da
participação do cidadão, onde o indivíduo
atua como base de Direito, como integrante
da legitimidade dos poderes constituídos depois
de então.
A cidadania e seu exercício são
inerentes às revoluções burguesas. França,
Inglaterra e Estados Unidos se constituíram
em locais privilegiados de seu exercício,
pois, lá, as revoluções burguesas significaram
rupturas radicais com o passado simbolizado
pelo modo de produção feudal, se deram por
pressão “de baixo” envolvendo setores médios
e populares, daí o projeto burguês, ao realizar-se
inteiramente, encontrou seu solo social e
histórico.
Diferentemente de França, Estados
Unidos e Inglaterra, que realizaram suas revoluções
“por baixo”, pela base, Alemanha, Japão, Itália,
realizaram-nas “de cima”.
Em outros termos, a revolução burguesa
na Alemanha, Japão, Itália, se deu “por cima”,
não por uma mudança partindo da base que significasse
uma ruptura total com o passado, mas por uma
acomodação da burguesia industrial emergente
e a decadente aristocracia agrária e o Estado
“cimentando” tal aliança.
Na América Latina e África não
foi diferente. Haja visto o Brasil, onde as
revoluções são sempre incompletas, onde 1922,
1924 e 1930 aparecem como pronunciamentos
militares a serviço da recomposição dos vários
segmentos da classe dominante: bancário, industrial
e agrícola, e o Estado emerge como o fiador
desse processo político.
A revolução capitalista “de cima”
implica a sua realização que se confira à
massa sem propriedade o papel de expectador.
Eis porque a Proclamação da República apareceu,
segundo cronista da época, ao povo embabascado
que a assistia como uma simples parada militar.
Em tal país, inexiste o conceito e a prática
da cidadania. Não há o cidadão que reivindica
direitos, mas sim, como já dizia Max Weber,
o “súdito tributário”. Não é o cidadão na
plenitude de seus direitos que aprece, mas
sim o súdito que só tem deveres e não direitos
e o principal consiste nas regras de obediência
que o poder impõe sejam respeitadas, além
do pagamento em dia dos impostos devidos ao
Estado tributário. Tal estrutura logicamente
na área educacional age da mesma forma. As
reformas educacionais na realidade são simples
pacotes educacionais, nada mudam, significam
verdadeiras restaurações.
Da mesma forma que, na burocracia
estatal, quando nada se quer resolver cria-se
uma ‘comissão de alto nível’ para estudar
o caso, na área do ensino, quando nada se
quer mudar decreta-se uma ‘reforma’ com a
inevitável consolidação ou enterro.
Nessas condições é que se dá a
ofensiva contra a pós-graduação, que aparece
como o ‘judeu’ do regime. Um bode expiatório
cômodo, para desconversar problemas mais substantivos.
A desativação da pós-graduação, após as injeções
de recursos que recebera na época do ‘milagre
econômico’, além de significar o desperdício
desses recursos com o alto custo social e
econômico que isso implica, torna vulnerável
a credibilidade ao meio acadêmico nacional
nas autoridades educacionais caboclas.
Eis que a desativação da pós-graduação
no momento atual levaria as autoridades educacionais
a passarem um atestado de burrice em centenas
de mestres, mestrandos e doutores, formados
pelo mesmo regime, regulamentado por essas
‘autoridades’.
Porém há outro fator a considerar
como um dos móveis da política de desativação
da pós-graduação, além do reconhecimento de
que não é necessária tecnologia criada no
País e o melhor caminho ainda é incorporar
as das multinacionais: é a formação de uma
nova consciência social.
Especialmente na área de ciências
humanas, que recebe grande contingente de
alunos do interior do Norte e Nordeste, é
que se observa o surgimento de uma nova consciência
social que emerge com a conclusão do curso
de pós-graduação. O aluno provindo de áreas
onde há o predomínio do coronelismo e da enxada
sem o voto; onde a obediência ao poder é a
suprema virtude e o passaporte à ascensão
na carreira, volta e começa a questionar as
relações de exploração e poder existentes
na área. Logicamente, não é visto como alguém
que reivindica direitos, que legitimamente
expressa pontos de vista críticos à realidade
existente e dominante, mas sim como um sujeito
incômodo, que é necessário domesticar ou,
em último caso, excluir.
E não é para menos, num país onde
os votos da região Centro-Sul, a mais industrializada
do país, valem menos que os votos do Brasil
arcaico do interior do Norte e Nordeste; onde
o passado está no presente com a predominância
ainda dos clãs feudais, clãs parentais e currais
eleitorais da s Arenas da vida; onde o matador
profissional cumpre função pública – não é
de admirar que a consciência social seja declarada
fora da lei, seja exilada ou banida.
Num país onde alfabetizar pode
levar á prisão é muito natural que aqueles
que apontem a inconsistência da distribuição
diferencial do poder econômico e político
sejam não só excluídos das prebendas do poder
– é caso da maioria do povo – mas, também,
excluídos das instituições ou nelas congelados.
Esse é um dos aspectos que me parecem
significativos na atual política do Poder
em desativar a pós-graduação. A renúncia à
pós-graduação como campo intelectual para
criação de conhecimentos na área da pesquisa
fundamental ou aplicada implica na aceitação
da hegemonia da tecnologia imposta pelas multinacionais,
com o neo-colonialismo inerente a essa aceitação.
Implica a demissão da procura de soluções
no nível de tecnologia intermediária, eis
que a importada é muito mais barata e portanto
altamente rentável em termos imediatos. Embora
se deva dizer a bem da verdade que a celebérrima
transferência de tecnologia, tão enfatizada
pelos adeptos do neoliberalismo caboclo, até
hoje se reduziu a um pouco mais no referente
à produção de sabonetes, perfumes e outros
produtos de beleza.
Realmente, o que está faltando
na área de pós-graduação é um plano a longo
prazo, a abolição da rigidez de prazos na
feitura de teses de mestrado, eis que ninguém,
trabalhando dois ou três anos, pode satisfatoriamente
demonstrar uma hipótese de trabalho. Mais
do que isso, unificar os institutos – o Agronômico,
Biológico, Adolfo Lutz – num país com tronco
básico, eliminando o aluno errante, que pula
entre um instituto e outro, de uma cidade
a outra como corretor de créditos. Em suma,
trata-se de fazer ciência, produzir conhecimentos
e não apenas teses sobre o irrelevante que
garantam um lugar ao sol ao futuro acadêmico.
Para que isso ocorra é necessário perder o
terror da crítica, o medo a questionamentos
e à repressão que o acompanha. É claro que
isso tudo exige o básico: a organização da
sociedade civil em relação à sociedade política
(o Estado) e a transformação do ‘súdito tributário’
em cidadão, impossível sem a liberdade de
auto-organização dos assalariados de todo
tipo.