Há crimes lógicos e passionais;
a distância que os separa é incerta, são definidos
os primeiros pela existência da premeditação.
Da mesma forma que a existência do carrasco
pressupõe a vítima, o Poder monocrático e vertical
implica bodes expiatórios. Essa a função da
pós-graduação nos discursos do Poder, através
dos seus representantes mais autorizados. Justamente
numa época em que cursos de pós-graduação difundiram-se
pelo território nacional e nesse sentido “democratizaram-se”,
são tachados de elitistas e como tais voltados
à extinção decretada pelos donos do poder.
Se o elitismo fosse o pecado dos
cursos de pós-graduação e como tal merecessem
a “pena” da extinção, o que dizer dos cursos
de graduação universitários, alimentados pelas
taxas altíssimas cobradas pelas instituições
“privadas”, a que se somam recursos generosos
carreados pelo Estado para mantê-los, em nome
da “subvenção à iniciativa privada”? Elitista
é toda rede de ensino a que acorrem os “ricos”,
eis que o pobre não precisa temer os exames
para ser “excluído”; a priori está excluído
dos níveis mais altos de ensino. Veja-se o alto
nível de repetência, evasão e entrada tardia
no sistema, dos níveis primário e secundário.
É sabido que aqueles que detêm
capital econômico possuem, por isso mesmo, maior
capital cultural. E ainda mais, são os que ingressam
na rede escolar “estatal gratuita”; pelo fato
de terem cursado bons colégios, são “selecionados”
pelo vestibular para as escolas do Estado, enquanto
os alunos do supletivo mantêm grande parte da
rede universitária particular, o que se constitui
numa ofensa social à pobreza.
A escola, ao “selecionar” os chamados
“melhores”, apenas ratifica uma seleção social
pré-existente, escolhe os escolhidos, confere
poder simbólico aos que detêm poder real – é
a função do ensino universitário e pós-graduado.
Porém, a educação não pode estar acima do desenvolvimento
econômico da sociedade global, ensinam os clássicos.
Eis que o caráter elitista que ela toma é mera
reprodução de uma sociedade diferenciada por
classes e alta concentração de renda, onde os
pobres não têm poder de barganha.
Nesse sentido, criticar o elitismo
educacional, sem remontar às causas, é atacar
as conseqüências, os sintomas, “desconversando”
a causalidade social estrutural. É a esse “esporte”
que se têm dedicado ultimamente as “autoridades”
educacionais do Planalto. Sem dúvida que a difusão
da pós-graduação levou à emergência de centros
aquém da missão pedagógica que se propõem formar
pós-graduandos com nível médio básico. Porém
o remédio pode matar o doente. O estreitamento
da faixa de pós-graduação a alguns centros de
excelência, vistos da ótica do poder. Além de
ferir o direito básico do cidadão em continuar
seus estudos, corre o risco de transformar tais
centros de excelência em centros de preferência.
Em outros termos, manter a hegemonia em centros
de pós-graduação na região Centro-Sul em detrimento
do Norte e Nordeste, acentuando ainda mais as
disparidades regionais.
O fato de existirem alguns centros
de pós-graduação que realizam cursos de mestrado
com instituições pequenas deve merecer a atenção
dos “responsáveis pela educação nacional”. Porém,
não menos verdade que o surgimento de um “pacote
multinacional em educação” mediado pela Fulbrás
(Fundação Franco-Brasileira de Pesquisa e Desenvolvimento)
não deve receber atenção menor. Eis que essa
instituição se responsabiliza pela concessão
de diplomas em nome da Universidade de Paris,
Dauphine e Nancy, nas áreas de Economia do Desenvolvimento,
Administração Pública, Informática, Ciências
Sociais. São 20 vagas para cada doutorado, implicando
dois anos de aula e um ano reservado para tese,
com uma taxa de Cr$ 165 mil anuais para cada
candidato.
Idêntica iniciativa se deu através
da Universidade do Texas, que procura vender
seu "pacote”: um doutorado – filial em
Administração – aos paraibanos de Campina Grande.
Os professores serão selecionados nas matrizes
para lecionarem nas filiais. Isso cria alunos
interessados em diplomas e fortalece nas matrizes
a corrida às vantagens financeiras. É muito
difícil lutar pela qualidade do ensino opondo-se
a senadores e deputados que presidem fundações
universitárias privadas; é mais fácil apelas
à extinção da pós-graduação através dos “centros
de preferência” em nome de “centros de excelência”
e culpar a Universidade em seu conjunto pelo
descalabro que se nota no ensino nacional.
Como pode a Universidade ser culpabilizada
pelo poder, pelo espírito de carreirismo vigente,
pela procura de títulos pelos títulos, pelo
medo dos administradores universitários em tomar
decisões, quando o próprio poder de Estado nestes
últimos 15 anos transformou-a em escola-quartel,
onde a burocracia a seu serviço “disciplinava”
alunos e professores; onde a cumplicidade com
poder era o passaporte à ascensão acadêmica
muito mais que a produção de conhecimentos?
Esse Estado que reduziu a autonomia universitária
a um mito, que privilegiou os serviços de segurança
e informação nas Universidades como supremo
poder “intelectual”, agora critica seu produto
– a Universidade brasileira atual – por não
saber assumir responsabilidades e autogerir-se?
Contrariando seu próprio discurso,
enfatizando o autonomismo acadêmico, o poder,
através do projeto de lei nº 34, obra de sua
facção áulica – a Arena –, atribui ao presidente
da República a escolha e nomeação dos dirigentes
de fundações ligadas ao poder público, em suma,
ao conjunto das Universidades federais do País.
É melancólico observar que a ideologia do poder
consiste na mentira. Isso é, o poder apresenta
um discurso autonomista e uma prática de dependência.
Outro argumento que o Poder esgrime
contra a pós-graduação é a prioridade que se
deva dar aos níveis 1 e 2 do ensino. Sem dúvida
alguma, num país onde ter dentes sem caries,
dormir oito horas e alimentar-se três vezes
ao dia define os setores médios, os graus iniciais
de ensino devem merecer toda atenção. porém,
consiste num falso maniqueísmo, em nome dessa
atenção desatender os graus mais elevados do
ensino. Eis que o Brasil, por força do desenvolvimento
desigual do capitalismo no século 20, na área
da educação, enfrenta dois desafios concomitantes:
liquidar o analfabetismo e universalizar o primeiro
e segundo graus de ensino, tarefa já realizada
na Europa e EUA no século passado. Ao mesmo
tempo, atender aos níveis mais altos de ensino,
tendo em vista a sofisticação científico-tecnológica
desse período do século 20. O desafio consiste
em responder conjugadamente ao atendimento dos
níveis de ensino, distribuindo os recursos existentes,
eis que educação e saúde não constam como metas
prioritárias nos planos de desenvolvimento estatais
nos últimos 15 anos; as verbas de segurança
ocupam seu lugar. Cremos que somente através
da auto-organização da sociedade civil através
de suas bases nas cidades, locais de trabalho
e universidades é que uma pressão em função
das propriedades educacionais e sociais possa
ser encetada. Isso é o ponto de partida para
quaisquer discussões a respeito do ensino e
suas implicações sociais e não a fetichização
da prática em setores restritos da esfera educacional,
como a “solução final” do problema do ensino,
como quer o poder.