No
uso de tal caracterização Nogueira chega à conclusão
que o preconceito e as atitudes discriminatórias, nas
formas em que se apresentam no Brasil, podem ser tipificados
como sendo um “preconceito de marca”, em contraposição
às situações correlatas que ocorrem nos Estados Unidos
às quais o estudioso reserva a designação de “preconceito
de origem”. (Nogueira, 1979: 78).
***
A
preocupação em demarcar linhas de origem étnica e ou
racial no Brasil tem variado de acordo com as necessidades
políticas, sociais e econômicas dos grupos que disputam
a hegemonia na sociedade brasileira. Decorre disso que
a identificação da origem e da cor da população não
aparece em vários recenseamentos realizados ao longo
da nossa História.
A
partir do final do Século XIX, em decorrência dos processos
abolicionista e de proclamação da República, passa a
ocorrer entre as elites dominantes em nosso país a necessidade
de formulação de uma identidade nacional. O projeto
de construção de uma nação, portanto, torna necessária
a discussão das questões relativas à cor e à raça dos brasileiros,
como já aparecem nos
censos de 1872 e de 1890, por exemplo.
Um
século depois, no censo de 1970, estes itens foram excluídos
pelas autoridades. Época auge do Regime Militar, na
década de 1970 manifesta-se a preocupação das instâncias
de poder em afirmar a inexistência de racismo em nosso
país, como já foi mais do que demonstrado pela vasta
bibliografia a respeito do chamado “mito da democracia
racial” no Brasil.
Durante
o intervalo de tempo que vai da Abolição ao período
de ditadura militar pós-1964, os aspectos ligados a
cor e raça foram estrategicamente suprimidos ou não,
de acordo ou com as políticas
governamentais vigentes.
As
discussões atuais sobre a implementação de ações afirmativas
revigoraram a controvérsia sobre cor e classificação
racial dos brasileiros. A proposta de cotas para estudantes
negros em universidades públicas trouxe de volta a discussão
sobre a delimitação de raça, origem e identificação
étnica, ou seja, colocou em pauta as seguintes questões:
Como determinar quem são os herdeiros da segregação
racial conseqüente da escravidão e do racismo contra negros em nosso país? Como determinar quem
é negro ou quem é afro-descendente em um país miscigenado
e em que a própria população se auto-define através
de quase duzentas cores, como demonstra o resultado
de uma pesquisa realizada pelo IBGE e divulgada em 2000?
As
delimitações identitárias são flexíveis e flutuantes
no decorrer de contextos históricos sociais. Em vários
segmentos da sociedade, tanto nos chamados “novos movimentos
sociais” quanto nos setores governamentais, busca-se
uma definição mais precisa na identificação dos afro-descendentes
brasileiros, com o objetivo de implementar políticas
públicas de inclusão social, pois vivemos em um momento
de reivindicações organizadas e de busca de alternativas
que levem a diminuir as desigualdades sociais, inclusive
as geradas pelo racismo.
Neste
contexto de incertezas e
de busca de definição de uma identidade negra,
podemos recorrer novamente a contribuição de Oracy Nogueira,
que indica que
o preconceito de marca é predominante em nosso país,
onde as nuanças cromáticas da pele podem contribuir
para um futuro mais ou menos promissor nos moldes de
um sistema sócio-econômico competitivo e excludente.
Embora, “a concepção de branco e não-branco, varie,
no Brasil, em função do grau de mestiçagem, de indivíduo
para indivíduo, de classe para classe, de região para
região” (Nogueira, 1979: 80), o clássico anúncio do
requisito de “boa aparência” nos classificados de emprego,
esconde o objetivo maior: a rejeição aos negros, definidos
de acordo com a tonalidade de sua cor, textura de cabelo.
Quanto mais distante do padrão branco europeu de aparência,
menores são as oportunidades no sistema educacional
e no mercado de trabalho como também indicam inúmeras
pesquisas sociais a esse respeito.
Considerando-se
as definições de preconceito de marca e de preconceito
de origem, segundo Nogueira, “...onde o preconceito
é de marca, a probabilidade de ascensão social está
na razão inversa da intensidade das marcas de que o
indivíduo é portador, ficando o preconceito de raça
disfarçado sob o de classe, com o qual tende a coincidir...”
(Nogueira, 1976: 90)
Para
finalizar, se em nossa sociedade o preconceito e a exclusão
racial estão mais ligados à aparência do que à origem
biológica e ou étnica, podemos utilizar como referência
nas práticas de políticas afirmativas para afro-descendentes
o conceito de “preconceito de marca” cruzando-o ao de
classe social. Afinal quando se é mais escuro e mais
pobre, sabe-se que a tendência é a de ser mais e mais
excluído do modelo socio-econômico estabelecido. Esta
idéia pode parecer simplista, porém, nós negros sabemos
exatamente como as diferenças cromáticas da nossa pele
influenciam em uma maior ou menor aceitação social. Afinal mudança de classe social é até possível,
mas a cor da pele, felizmente não é.