Alguns recentes movimentos diplomáticos
da gestão Lula causaram grande estranhamento. Em diversos
congressos sindicais e encontros de movimentos sociais,
base política tradicional do PT, ocorreram comentários
perplexos e indignados sobre uma possível aproximação
do governo brasileiro e norte-americano e, ainda, da aceitação
da agenda de criação da ALCA. Ouvi, em um encontro de
lideranças populares, que Lula estaria deixando a esquerda
indignada e a direita perplexa. Contudo, se adotarmos
um certo distanciamento emocional em relação às atitudes
do governo federal, perceberemos que existe uma clara
coerência com o realismo político com que vem sido tratada
a agenda nacional. Talvez, encontraremos grande semelhança
com o pragmatismo das práticas sindicais do então líder
do sindicalismo metalúrgico. Após o estabelecimento dos
fundamentos do Mercosul, durante os governos Sarney e
Alfonsin, a diplomacia brasileira procurou, por diversas
vezes, ampliar a base territorial desta zona de livre
comércio e, ainda, ampliá-la para uma união política aos
moldes europeus. Dois obstáculos impediram tal empreitada:
a dessintonia entre as políticas macroeconômicas do Brasil
e Argentina e um jogo de aproximação da Argentina, Chile
e México com os EUA. O Brasil, principal potência política
e econômica do Mercosul, sofreu vários revezes com este
jogo diplomático. O México esteve na ponta desta estratégia
ao se inserir no Nafta, zona de livre comércio do norte
do continente americano. Pouco menos de 70% dos produtos
mexicanos exportados para os EUA coincidiam com a pauta
de exportação brasileira, incluindo produtos com baixo
valor agregado, como telhas e vassouras. O Chile procurou
seguir os passos do México e valorizou-se nas tentativas
de FHC para que os chilenos integrassem o Mercosul. Menem,
por vezes, procurou assumir a mesma tática.
Enfim, nos últimos anos, a política
diplomática brasileira, determinada para consolidar e
ampliar o Mercosul, chocou-se com a diplomacia pendular
de outros importantes países latino-americanos.
Lula, enquanto sindicalista, sempre
adotou uma postura extremamente pragmática. Seu pragmatismo
caminhou, inclusive, para a adoção de práticas que eram
identidades de seus adversários, muitas vezes “roubando”
as marcas alheias, o que acabava por diminuir a margem
de manobra de muitos opositores. Garantia sua sustentação
política e, logo depois, caminhava na direção da base
política das forças adversárias, deslegitimando as forças
oposicionistas. A política interna do Presidente Lula
parece adotar o mesmo estratagema. E, possivelmente, a
política externa, ao menos no que diz respeito à América,
segue o mesmo percurso. É verdade que o pragmatismo diplomático
é muito cauteloso e nem sempre o que é visível revela
toda sua intenção política. Daí porque o governo Lula
adotar duas frentes de ação: uma oficial, do Itamaraty,
e outra, oficiosa, liderada pelo dirigente petista Marco
Aurélio Garcia. Marco Aurélio começou com pouca discrição,
viajando à Venezuela e se expondo excessivamente. Logo
em seguida, corrigiu sua postura e raramente voltou às
manchetes dos jornais.
O mesmo pode se dizer em relação
à política comercial externa. Em seis meses, o governo
Lula consolidou uma parceria com a China que elevou este
país ao segundo posto nas importações de produtos nacionais.
O anúncio da formação do G3 parece caminhar no
mesmo sentido.
A diplomacia brasileira foi sempre
muito respeitada internacionalmente, conhecida por seu
pragmatismo e pela busca de ampliação de parceiros comerciais.
Mesmo no regime fechado varguista, ganhamos recursos extras,
que cristalizaram nossas indústrias de bens de capital,
ao exercitarmos o pragmatismo diplomático nas dúbias relações
que estabelecemos por algum tempo com as forças aliadas,
lideradas pela Inglaterra e EUA, e as forças do eixo,
lideradas pela Alemanha. Lula parece aprofundar estas
características ao trazer, consigo, um pragmatismo sindical,
que se movimenta a partir de um eixo ideológico mais à
esquerda, mas não muito definido. Ao se aproximar dos
EUA, estaria diminuindo os espaços de manobra de outras
forças latino-americanas, aumentando seu poder de barganha.
Nada, enfim, que o mundo sindical desconheça.