Crescimento
para quem?
A
calamitosa situação econômica e social
que caracteriza os países eufemisticamente
chamados
emergentes
ou
“em desenvolvimento” exige reflexão e
análise críticas quanto aos rumos da política
do governo e seu discurso tranqüilizador
sobre a próxima retomada do crescimento,
tão logo estiver controlada a inflação.
Entretanto,
a recessão se alastra, o desemprego aumenta,
a miséria se expande e a violência beira
os limites do insuportável. Os habitantes
das metrópoles sentem-se, literalmente,
sitiados pelos bandos de delinqüentes
e de narcotraficantes. Os porta-vozes
do governo continuam a repetir, como se
fosse uma verdade revelada no Monte Sinai,
as prescrições do FMI referentes a políticas
neoliberais de equilíbrio fiscal, de superávit
nas contas externas e de altas taxas de
juros para controlar a inflação, sem mencionar
o empobrecimento assustador da maioria
da população.
Espanta
o grau de mistificação usada pelos formuladores
da política econômica ao induzir a população
a acreditar na solução de seus problemas
a partir de um indicador estatístico freqüentemente
manipulado. A doutrina convencional afirma
que o crescimento da taxa do PIB (Produto
Interno Bruto) seria o único caminho para
o progresso e o bem estar. A realidade
contradiz o discurso otimista do governo,
dos empresários e da academia. O PIB reflete
somente uma parcela da realidade, distorcida
pelos economistas, ou seja, a parte envolvida
em transações monetárias. Funções econômicas
desenvolvidas nos lares e atividades de
voluntários acabam sendo ignoradas e excluídas
da contabilidade nacional. Em conseqüência,
a taxa do PIB oculta não somente a crise
da estrutura social, mas também a destruição
do habitat natural – base da economia
e da própria vida humana.
Paradoxalmente,
efeitos desastrosos são contabilizados
como ganhos econômicos. O crescimento
pode conter em seu bojo sintomas de anomia
social. A onda de crimes nas áreas metropolitanas
impulsiona uma próspera indústria de proteção
e segurança que fatura bilhões. Os números
de carros blindados e de helicópteros
usados em São Paulo são dos mais altos
no mundo. Seqüestros e assaltos a bancos
atuam como poderosos estimulantes dos
negócios das companhias de seguro, aumentando
o PIB.
Algo
semelhante ocorrer com o ecossistema natural.
Quanto mais degradados são os recursos
naturais, maior o crescimento do PIB,
contrariando princípios básicos da contabilidade,
ao considerar o produto da depredação
como renda corrente. O caso da poluição
ilustra melhor essa contradição, aparecendo
duas vezes como ganho: primeiro, quando
produzida pelas siderúrgicas, petroquímicas
ou mineradoras e, novamente, quando se
gastam verdadeiras fortunas para limpar
os dejetos tóxicos dessas indústrias despejadas
no ar ou nos rios. Outros custos da degradação
ambiental, tais como gastos com médicos
e medicamentos são contabilizados como
crescimento do PIB. Essa contabilidade
ignora a distribuição da renda, ao apresentar
os ganhos auferidos no topo da pirâmide
social como ganhos coletivos. Tempo de
lazer e o convívio com a família são considerados
sem valor monetário. O excesso de consumo
de alimentos e seu tratamento com dietas
ou cirurgias plásticas são outros exemplos
da contabilidade no mínimo bizarra, sem
falar dos bilhões gastos com tranqüilizantes
e tratamentos psicológicos.
Outro
paradoxo decorrente da globalização embaralha
ainda mais o indicador do PIB. Antes,
os ganhos das corporações transnacionais
eram contabilizados pelo país-sede da
empresa, para onde os lucros foram remetidos.
Na contabilidade atual, os lucros são
atribuídos ao país da localização das
fabricas, embora não permaneçam lá. Oculta
se, assim, um fato básico: as empresas
dos países ricos exploram e expatriam
os recursos dos pobres, chamando isso
de “desenvolvimento”. Como medir ou avaliar
o “progresso” de uma sociedade? Até as
organizações multilaterais – BIRD, BID,
UNESCO - passaram nos últimos anos a introduzir
critérios sociais e qualitativos para
avaliar os avanços em direção ao desenvolvimento
com sustentabilidade. Ao avaliar o estado
da sociedade devemos considerar a economia,
além da produção e do consumo de bens
e serviços, como a atividade destinada
a resgatar o sentido do trabalho e da
vida, refletindo o grau de cooperação
e solidariedade alcançado pelos membros
da sociedade. Neste sentido, muito mais
do que números abstratos e manipulados,
os cuidados e o desvelo com que o coletivo
se dedica aos mais fracos, aos deserdados
e discriminados – crianças, idosos, minorias
étnicas, desabrigados e desempregados,
doentes físicos e mentais - eis os verdadeiros
indicadores do progresso humanos rumo
à sociedade sustentável.
Desenvolvimento
como liberdade
Não
existe consenso entre os cientistas sociais
sobre o significado do termo “desenvolvimento”,
freqüentemente confundido com crescimento
econômico. Amartya Sen, prêmio Nobel de
economia, define o desenvolvimento como
o processo de ampliação da capacidade
de os indivíduos terem opções, fazerem
escolhas. Relativizando os fatores materiais
e os indicadores econômicos, Sen insistem
na ampliação do horizonte social e cultural
da vida das pessoas. A base material do
processo de desenvolvimento é fundamental,
mas deve ser considerada como um meio
e não como um fim em si. O crescimento
econômico não pode ser associado automaticamente
ao desenvolvimento social e cultural.
O desafio de nossa sociedade é formular
políticas que permitam, além do crescimento
da economia, a distribuição mais eqüitativa
da renda e o pleno funcionamento da democracia.
Os índices de desenvolvimento humano (IDH)
levantados e calculados nos últimos anos
revelam aspectos além da capacidade produtiva,
ao postular a melhoria da qualidade de
vida em comum, a confiança das pessoas
nos outros e no futuro da sociedade. Destacam
as possibilidades das pessoas levarem
adiante iniciativas e inovações que lhes
permitam concretizar seu potencial criativo
e contribuir efetivamente para a vida
coletiva. Seguindo esse raciocínio, Sen
resume suas idéias sobre o desenvolvimento
como as possibilidades de “poder contar
com a ajuda dos amigos”, ou seja, a cooperação
e a solidariedade entre os membros da
sociedade que assim transformam o crescimento
econômica destruidor das relações sociais
em processo de formação de capital social
ou em “desenvolvimento como liberdade”.
Para Sen, os valores éticos dos empresários
e governantes constituem parte relevante
dos recursos produtivos, pois orientam
para investimentos produtivos em vez de
especulativos e inovações tecnológicas
que contribuem para a inclusão social.
Quanto maior o capital social – a rede
de relações sociais e o grau de confiança
recíproca – menor a corrupção e a sonegação
de impostos e tributos. Iniciativas de
criar programas e projetos que favoreçam
a equidade e igualdade e estimulam melhores
serviços públicos de educação e saúde,
enquanto impulsionam o crescimento econômico
e possibilitam a governabilidade democrática.