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Por
Professor no Departamento de Ciências
Sociais (UEM) e doutorando na Faculdade de Educação
(USP)
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A
impotência da argumentação racional
No
fim, o partido anunciaria que dois e dois são
cinco, e todos teriam que acreditar. Era inevitável
que o proclamasse mais cedo ou mais tarde: exigia-o
a lógica de sua posição. Sua filosofia negava
tacitamente não apenas a validez da experiência
como a própria existência da realidade externa.
O bom senso era a heresia das heresias. E o
que mais aterrorizava não era que matassem o
cidadão por pensar diferente, mas a possibilidade
de terem razão.
(George
Orwell, 1998: 78)
A
estupidez tornou-se tão comum quanto era antes
o senso comum; e isso não significa que se trata
de um sintoma da sociedade massificada ou que
as pessoas “inteligentes” estejam poupadas dessa
doença. A única diferença é que a estupidez
permanece felizmente inarticulada entre os não-intelectuais
e torna-se insuportavelmente repulsiva entre
os “inteligentes”. Em meio à intelligentsia,
pode-se até mesmo dizer que quanto mais inteligente
um indivíduo vem a ser, mais irritante é a estupidez
que compartilha com todos os outros.
(Hannah
Arendt, 1993: 45)
Em 1984, de George Orwell,
o torturador afirma à vítima: “Não apenas destruímos
nossos inimigos; nós os modificamos. Compreendes
o que quero dizer?” (ORWELL, 1998: 235) O objetivo
do algoz não é apenas o de arrancar a confissão
do torturado. Este, ao praticar a crimidéia, comete o maior dos crimes:
questionar a verdade do Partido e do Big Brother.
Não basta arrepender-se ou acatar a verdade instituída:
é preciso estar convicto, introjetar os ensinamentos
da doutrina, render-se por “livre e espontânea vontade”.
Trata-se de convencer-se de que a realidade não
existe fora do âmbito do pensamento único ditado
pelo Partido. Portanto, a realidade é moldada à
verdade absoluta determinada pelo sistema totalitário:
2 + 2 pode resultar em 5.
Parece absurdo imaginarmos que
em algum momento da história algum ser humano aceitou
convictamente tal verdade. Mas o que foram
os processos inquisitórios senão a tentativa de
introjetar dogmas? Que foram os famosos processos
de Moscou senão a submissão a uma verdade
inquestionável? Como explicar que milhares de pessoas
tenham aceitado consciente e voluntariamente as
verdades apregoadas pelos nazistas e tenham
amparado seus crimes? Como compreender que milhões
nutram ódio étnico e racial? E as teorias que intentam
legitimar a escravidão e o genocídio? Se milhares
e milhões podem aceitar tais verdades, então,
o raciocínio de que 2 + 2 é igual a 5 não é tão
absurdo.
No cotidiano nos deparamos com
atitudes semelhantes. Há momentos em que os fatos
cientificamente comprovados são inócuos diante da
verdade ideologicamente estabelecida e dos
preconceitos profundamente disseminados. O crítico
que busca ir para além da aparência e dos discursos
altissonantes e oficias é tachado de ressentido,
pessimista e outros epítetos.
Nestas circunstâncias, o absurdo
toma ares de verdade. O pensar acrítico toma como
verdade o discurso que melhor se ajusta à realidade
imediata. Ele olha mas não vê; pensa mas não raciocina;
trabalha com discursos prontos e idéias preconceituosas
sobre os que pensam diferentemente. Seu horizonte
não vai além do bolso ou do seu nariz. Seu pensamento
expressa o senso comum ideologicamente modelado.
Porém, o senso comum também
tem aspectos positivos. Para Hannah Arendt, o senso
comum é a parcela de sabedoria herdada que
todos temos em comum e difere da lógica:
“A distinção política principal entre o senso comum
e a lógica é que o senso comum pressupõe um mundo
no qual todos cabemos e onde podemos viver juntos,
por possuirmos um sentido que controla e ajusta
todos os dados sensoriais estritamente particulares
àqueles de todos os outros; ao passo que a lógica,
e toda auto-evidência de que procede o raciocínio
lógico, pode reivindicar uma confiabilidade totalmente
independente do mundo e da existência de outras
pessoas”. (1993: 48)
O conhecimento não formal, produzido
nas relações cotidianas entre as pessoas é valorizado.
Este conhecimento está relacionado à subjetividade,
a um sentir que induz ao compromisso
ético com o mundo em que vivemos, à compreensão.
Em Arendt, compreender distingue-se tanto
da informação correta quanto do conhecimento científico.
Nesta concepção, compreensão “é a maneira
especificamente humana de estar vivo” e nada tem
a ver com a idéia comumente aceita de que compreender
é perdoar. Compreender é um processo interminável,
uma forma de reconciliação com o mundo, com uma
realidade que não necessariamente perdoamos. Assim,
podemos compreender os crimes dos ditadores,
dos nazistas etc., mas isto não significa perdoá-los.
Como afirma Arendt, “ao compreendermos o totalitarismo
não estaremos perdoando coisa alguma, mas antes,
reconciliando-nos com um mundo em que tais coisas
são definitivamente possíveis.” (Id. 39)
Ora, o conhecimento racional e
científico, forjado nas universidades, pode prescindir
do humano; muitas vezes, imagina-se mesmo acima
do humano. O pensamento totalitário utiliza a autoridade
da cientificidade e objetividade para justificar
a barbárie. Não foram os cientistas, indivíduos
bem informados, os que praticaram experiências genéticas
contra os judeus e que desenvolveram teorias que
procuravam justificar o holocausto? Não foram indivíduos
instruídos e diplomados em cursos superiores que
organizaram a máquina de extermínio que ceifou milhões
de vidas humanas (do transporte às câmaras de gás
e o sumiço dos cadáveres)? Na ex-União Soviética e outros
países ditos comunistas, a psiquiatria não
foi usada como instrumento de repressão política?
Os regimes ditatoriais latino-americanos não contaram
com a cumplicidade de médicos na tortura de prisioneiros
políticos?
O elogio ao senso comum
e ao saber informal não resulta necessariamente
na condenação do saber científico e formal, ou vice-versa.
Contudo, é preciso reconhecer os limites do saber
dito científico e negar a este suas pretensões de
constituir o único saber legítimo. O diálogo entre
o professor Long e o pastor Mathieu, personagens
criados por Célestin Freinet (1998), expressa de
forma exemplar os dilemas, limites e contradições
dessa relação. Eles nos mostram que progresso técnico
não resulta necessariamente em progresso humano
e que a instrução nem sempre torna o homem melhor.
O intelectualismo que desconsidera
o saber popular é tão perigoso quanto a ignorância
e a alienação das massas. O ignorante titulado,
igualmente alienado e descomprometido, imagina-se superior
aos simples mortais e tem a pretensão de encarnar
a verdade, a qual deve ser pregada aos incautos.
Este tipo de intelectual imagina-se iluminado e
capaz de iluminar o caminho dos outros. Arrogante,
como se estivesse no Olimpo, desvaloriza o saber
informal e o saber prático. Não percebe
seus limites a arrisca-se a se afogar nas águas
que acolhem os narcisistas.
Estes especialistas se arrogam
guardiões da ciência e do conhecimento diplomado,
e, em sua redoma protetora contra as influências
do que consideram descartável, tornam-se insensíveis
diante da realidade social, descartam e deturpam
a compreensão. Assim, abrem caminho para
a doutrinação. Esta, por sua vez, transcende
o domínio do racional, substituindo-o por afirmações
que se supõem evidentes e necessárias. A doutrinação
destrói a compreensão preliminar, isto é,
o senso comum, a linguagem popular que confere
significado ético ao conhecimento. Como escreve
Arendt:
“Se o cientista, desorientado pelo próprio labor de
sua investigação, começa a bancar o especialista
em política e despreza a compreensão popular da
qual partiu, ele perde de imediato o fio de Ariadne
do senso comum, a única coisa que pode guiá-lo com
segurança por entre o labirinto de seus próprios
resultados. Se, por outro lado, o estudioso deseja
transcender seu próprio conhecimento – e a única
forma de dar significado ao conhecimento é transcendê-lo
– , ele deve tornar-se humilde e voltar a ouvir
com muito cuidado a língua do povo, na qual palavras
como totalitarismo são empregadas diariamente como
clichês políticos e mal empregadas como rótulos
para restabelecer o contato entre o conhecimento
e a compreensão.” (1993: 42)
Pois, é a linguagem popular, expressão
do senso comum e da compreensão preliminar,
que permite chegarmos à verdadeira compreensão;
a nos colocarmos diante dos dilemas humanos, desenvolvermos
a capacidade de se indignar diante do sofrimento
humano e assumirmos um compromisso ético. Do contrário,
de que adianta todo o conhecimento científico acumulado
e o domínio das mais confiáveis informações?
Winston, personagem central do
livro de Orwell, evolui para esta compreensão na
medida em que se humaniza. Funcionário do Partido
no Departamento de Registros, onde forja-se
o presente e o futuro com a falsificação e controle
do passado, tem o conhecimento mas não compreende.
Sua humanidade encontra-se subsumida na verdade
do Partido, o qual representa o conhecimento verdadeiro.
Aqui, não há espaço para o senso comum, pois
o regime do Grande Irmão suprime tudo o que
aparenta sentimentos, individualidades e as relações
humanas.
Winston reencontra sua humanidade
nos proles, a parcela abjeta da sociedade.
Ele percebe que os proles:
“Eram governados por lealdades particulares que não
punham em dúvida. O que importavam eram relações
individuais, e podia ter valor em si um gesto completamente
irrelevante, um abraço, uma lágrima, uma palavra
dita a um moribundo. De repente, ocorreu-lhe que
os proles tinham continuado assim. Não eram leais
a um partido, país ou ideologia, eram leais aos
seus semelhantes. Pela primeira vez na vida não
desprezou os proles nem pensou neles apenas como
força inerte que um dia ganharia vida e regeneraria
o mundo. Os proles tinham continuados humanos. Não
se haviam endurecido por dentro. Haviam conservado
as emoções primitivas que ele próprio tivera de
reaprender por esforço consciente. E assim raciocinando
ele se lembrou, sem ligação aparente, de como vira,
havia algumas semanas, uma mão amputada na rua e
como a chutara para a sarjeta, como se fosse um
talo de couve.” (ORWELL, 1998: 155-56)
Winston não suporta a pressão e
trai a si mesmo, o seu amor por Júlia e a sua humanidade.
Mas, por momentos, é-lhe evidente a necessidade
de manter a humanidade. “Se podes sentir
que vale a pena continuar humano, mesmo que isso
não dê o menor resultado, terás vencido os torturadores.”,
diz ele à sua amada. (Id.: 157)
Conservar a humanidade é essencial.
O saber científico não elimina a possibilidade da
barbárie, antes pode contribuir para justificá-la,
se “simplesmente sabemos sem ainda compreender contra
o que lutamos, sabemos e compreendemos menos ainda
pelo que estamos lutando.” Então seremos presas
fáceis à manipulação dos doutrinadores de plantão,
escravos da verdade absoluta ou simplesmente indivíduos
resignados. E, desta forma, perderemos a capacidade
de intervir politicamente e de reagir criticamente
diante da realidade. No final, a miséria material
e espiritual passa a ser justificada com argumentos
darwinistas: os mais aptos sobreviverão e dominarão;
os outros serão dominados e descartados.
A apologia da razão, isto é, do
saber acadêmico formal, resulta num tipo de miopia
que, aliada a um certo elitismo narcisista, impede
a percepção das fragilidades da argumentação racional.
Infelizmente, a história comprova-o. Oxalá, tenhamos
aprendido! Oxalá, como desejava Hannah Arendt, tenhamos
o dom de um coração compreensivo. Talvez
não seja má idéia voltarmos, à maneira de Rousseau,
a privilegiarmos o sentimento.
Um dos
episódios mais estarrecedores descritos em 1984,
ocorre quando Winston, na prisão, encontra Parsons.
“És culpado?”, pergunta-lhe Winston. A resposta
ilustra bem o significado da crimidéia:
“ – Naturalmente sou! – gritou Parsons, com uma olhadela
servil à placa de metal. – Não crês que o Partido
prenda inocentes? – A cara de rã acalmou-se
um pouco, chegou a tomar uma expressão sentimental.
– Crimidéia é uma coisa horrível, velho – afirmou,
sentencioso. É insidiosa. Pode te pegar sem
que te dês conta. Sabes como foi que me pegou?
No sono. Sim, é fato. Lá estava eu, trabalhando
duro, procurando fazer meu dever, sem nunca
saber que tivesse nada de mau na cabeça. E daí
comecei a falar dormindo. Sabes o que me ouviram
dizer?
Baixou a voz como Alguém que se vê obrigado a pronunciar
uma obscenidade, por ordem do médico ou do juiz.
– Abaixo o Grande
Irmão! Sim, foi o que eu disse.”
Parsons foi denunciado por sua filhinha, que o escutou através
do buraco da fechadura. “Não me queixo dela.
Com efeito, tenho orgulho dela”, afirma. (ORWELL,
1998: 216-17)
Os funcionários
que organizaram e fizeram funcionar essa máquina
da morte alegaram, no final da guerra,
que apenas cumpriam ordens. Com efeito,
como bem observou Postman (1994: 93-94): “O
burocrata considera as implicações de uma decisão
apenas até o ponto em que ela irá afetar as
operações eficientes da burocracia, e não assume
nenhuma responsabilidade por suas conseqüências
humanas. Desse modo, Adolf Eichmann torna-se
o modelo básico e metáfora de um burocrata da
Era do Tecnopólio.”
Como notou
Howe (1994: 184): “1984 projeta um pesadelo
no qual a política substitui a humanidade e
o Estado sufocou a sociedade. Num certo sentido,
é um livro profundamente antipolítico, cheio
de ódio pelo tipo de mundo no qual reivindicações
públicas destroem as possibilidades da vida
pessoal.”
ANTONIO
OZAÍ DA SILVA
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Bibliografia:
ARENDT, Hannah.
A dignidade da política. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1993.
FREINET, Célestin.
A Educação do Trabalho. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
HOWE, Irving. A Política e o Romance.
São Paulo: Editora Perspectiva,1998.
ORWELL, George.
1984. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1998.
POSTMAN, Neil. Tecnopólio: a rendição da
cultura à tecnologia. São Paulo: Nobel, 1994
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