Por VALDECI MONTEIRO DOS SANTOS
Professor licenciado da Universidade Católica de Pernambuco e doutorando em Economia Aplicada da Unicamp

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Notas Conceituais Sobre Abordagem de Clusters Produtivos

 

No Brasil a experiência recente tem evidenciado, tanto no âmbito do debate acadêmico quanto da formulação de políticas públicas e de iniciativas empresariais, uma grande difusão de estudos e proposições baseados na abordagem dos chamados clusters produtivos. Na verdade constata-se que na grande maioria dos casos a idéia de aglomeração de empresas pouco tem haver propriamente com o conceito de cluster produtivo, constituindo-se, em meros agrupamentos de firmas, unidas por nexos muito frágeis e interesses difusos. A idéia de cluster produtivo envolve uma série de características e condicionalidades que extrapolam em muito a conotação que usualmente vem se difundido no Brasil. Espera-se que este artigo, mesmo apresentado de forma sintética, possa contribuir para uma reflexão conceitual sobre clusters produtivos.

A abordagem teórica dos chamados clusters produtivos tem sido enfatizada por análises que se encontram fundamentadas em arcabouços conceituais diversos, dentre os quais merecem destaque: i) primórdios distritos industriais marshallianos de meados do século XIX; ii) os interesses da geografia econômica e da Economia Regional, iniciados na década de 1950, tendo a frente autores como Perroux, Hirschman, Markussen e Becatini; iii) os argumentos da economia neoclássica tradicional, com ênfase na denominada nova teoria do crescimento através de autores como Paul Krugman; iv) o enfoque baseado na moderna gestão de empresas, tendo como autor principal Michel Porter; v) a contribuição dos institucionalistas, neo-schumpeterianos e evolucionistas, também chamados de localistas, que valorizam elementos extrapreço ou extramercado, como o papel da inovação tecnológica no desenvolvimento local  (ex. de Freeman, 1994); vi) e a abordagem associativista, com ênfase na relevância na formação e acúmulo de capital social localizado, baseada especialmente na experiência dos distritos industriais da Terceira Itália, analisados pelo pesquisador Robert Putnam.

Em linhas gerais poder-se ia dizer que a literatura sobre clusters esta sendo trabalhada na fronteira entre uma base teórica baseada em princípios da ciência econômica, sobretudo da denominada Organização Industrial e da Economia Regional e um conjunto de referencias oriundos da ciência política, antropologia e sociologia as organizações. 

A crescente importância atribuída pela literatura de Organização Industrial à análise dos clusters reflete o reconhecimento de que a análise setorial tradicional não vem dando conta de uma série de fenômenos crescentemente importantes na dinâmica industrial. A ênfase nesse tipo de arranjo oferece uma alternativa em relação ao enfoque setorial tradicional, na medida em que incorpora mudanças nas condições de rivalidade entre firmas e que permite captar uma série de elementos estruturais e sistêmicos que afetam a competitividade dos agentes.

Por sua vez, os estudos de Economia Regional costumam atribuir particular importância a determinados fatores locacionais que influenciam a instalação de uma indústria em determinada região, procurando explicitar as forças motoras deste processo e os impactos resultantes sobre a dinâmica de reprodução e transformação de regiões geo-econômicas específicas.

Dois aspectos específicos podem ser destacados como pontos de confluência e complementaridade entre essas abordagens: i) ambas ressaltam a  importância da “proximidade” entre os agentes – a qual pode ser referenciada ao plano organizacional, espacial ou a diferentes estágios de determinada cadeia produtiva - como fator de indução de articulações e interações entre os mesmos; ii) essas análises também ressaltam a importância do contexto social e institucional subjacente como fator de estímulo à consolidação desses arranjos.

Outro pilar do enfoque de clusters é a visão que destaca o fato de que as regiões que conseguiram alcançar um patamar mais elevado de cultura associativa se desenvolveram mais rapidamente. Esses estudos, que tem como um dos seus principais protagonistas o cientista político Robert Putnam (2000), mostram que a maior propensão à associação de uma determinada população leva a um desenvolvimento de longo prazo mais acelerado. Putnam analisou o exemplo da Itália, onde as  fortes disparidades regionais e a base pretérita das cidades-estado levaram a diferenças culturais bastante sensíveis em um espaço que viveu sua história recente sob as mesmas regras institucionais. Utilizando-se de dados existentes sobre as associações não governamentais nas diversas regiões daquele país, ele mostrou que aquelas detentoras de um maior número de associações tornaram-se mais desenvolvidas.

A justificativa por trás desta correlação entre grau de associativismo e desenvolvimento econômico é que um volume grande de informações flui nas relações sociais, muitas vezes inclusive com um nível elevado de credibilidade, o que faz com que elas sejam informações altamente eficientes. As relações sociais acabam, portanto, gerando uma teia de relações pessoais estimuladoras de uma maior credibilidade entre os agentes. Essas teias são muito importantes para reduzir os custos de transação na economia e, por conseguirem, contribuem para acelerar o desenvolvimento econômico.

Esta idéia é fortemente utilizada pela concepção de formação de clusters. Os seus defensores argumentam que o aumento da complexidade das cadeias produtivas em um mesmo espaço físico tende a reduzir os custos de transação entre os diversos agentes, por causa dos dois fatores acima mencionados: (i) a maior interação social entre potenciais parceiros comerciais, o que reduz a demanda por segurança nas transações e (ii) o maior fluxo de informações relevantes para as atividades econômicas dos agentes, a partir das suas interações sociais, o que reduz os custos de busca na definição de relações comerciais.

Em termos objetivos o conceito de clusters produtivos tem sido utilizado tanto por análises estritamente qualitativas-descritivas baseadas em “estudos de caso”, como por análises de cunho mais quantitativo, que procuram definir critérios específicos para identificação, caracterização e comparação desses arranjos. As análises de cunho qualitativo geralmente pressupõem que tais arranjos podem ser associados a uma estrutura relativamente “visualizável”, referenciada a um setor específico ou a uma região geográfica bem delimitada. Neste caso, o que se procura, em geral, é detalhar a conformação institucional desses arranjos, com base em critérios específicos de agregação e classificação dos agentes, e avaliar os resultados gerados em termos da performance produtiva e tecnológica do setor, objeto de análise na região em questão.

Dentre as análises que optam por este tipo de enfoque, pode-se destacar aquelas relacionadas à abordagem dos “distritos industriais” (desdobramentos da análise original de Marshall) - no interior dos quais é possível observar um conjunto institucionalizado de relações entre diversos agentes. Este tipo de análise ressalta os possíveis ganhos de eficiência, proporcionados pela especialização produtiva de firmas localizadas em uma mesma região geográfica, atribuindo particular importância a institucionalidade subjacente às relações entre agentes.

Outro aspecto recorrentemente mencionado como fator de fortalecimento da competitividade de empresas inseridas em clusters econômicos refere-se à realização de um elenco de ações conjuntas e coordenadas entre os agentes, as quais resultam numa ampliação dos níveis de "eficiência coletiva" (Schmitz, 1997) proporcionados pelo arranjo. Essa “eficiência coletiva” é geralmente associada a um processo dinâmico que permite a redução dos custos de transação e o aumento das possibilidades de diferenciação de produto ao longo do tempo, em virtude do intercâmbio de informações e do fortalecimento de laços cooperativos entre os agentes.

As possibilidades de geração de ganhos competitivos para os membros desses arranjos decorrem, também, da difusão de inovações tecnológicas e organizacionais ao nível local. Estes arranjos estimulam por sua vez a circulação de informações e o desenvolvimento de uma capacitação comercial e mercadológica que facilita a antecipação das tendências de comportamento do mercado, viabilizando a rápida introdução de novos produtos em função destas tendências.

Em contraste a estas abordagens qualitativas, as análises quantitativas dos clusters produtivos, geralmente são desenvolvidas a partir de dois enfoques distintos: o primeiro baseado no conceito de “similaridade”, pressupondo que diferentes atividades econômicas se estruturam em clusters porque necessitam de uma infra-estrutura semelhante para operarem de forma eficiente [1] . Nesta perspectiva, considera-se que este tipo de agrupamento gera diversos tipos de benefícios (geralmente associados ao conceito de “externalidades em rede”) que não são acessíveis para agentes isolados. Do ponto de vista metodológico-operacional, essas análises utilizam diversas técnicas para definição e caracterização de grupos homogêneos de agentes integrados a esses arranjos (Rabellotti, 1995).

Os enfoques que salientam a “similaridade” entre agentes que conformam diferentes tipos de clusters industriais distinguem-se de um outro tipo de enfoque que atribui particular importância à “interdependência” dos relacionamentos internos ao cluster. Este enfoque concebe as relações entre setores ou atividades como mola propulsora da dinâmica interna dos clusters industriais.

Nesta perspectiva de análise, segundo Britto e Albuquerque (2000), pressupõe-se que uma característica básica dos clusters é o agrupamento de agentes não similares, mas que apresentam competências complementares, o que reforça a interdependência entre eles e a necessidade de alguma forma de coordenação coletiva ao nível do arranjo. Desse modo, este enfoque acaba atribuindo particular importância às relações “verticais” entre cliente-fornecedor e produtor-usuário que conformam uma divisão de trabalho interna ao cluster.

Para Britto e Albuquerque, a partir da diferenciação entre os dois enfoques mencionados, é possível avançar num tratamento conceitual mais rigoroso do objeto de análise. Assim, o conceito de cluster pode ser elaborado a partir de duas abordagens: (i) de “baixo para cima”, a partir das firmas presentes nesses arranjos e de suas redes de interação e (ii) de “cima para baixo”,  a partir de recortes regionais ou locais do ambiente institucional no interior do qual interagem os agentes.

Ainda segundo estes pesquisadores, dois processos simultâneos seriam fundamentais para uma compreensão mais abrangente do processo de formação dos clusters produtivos:

Um processo de “desintegração técnica” observada nas firmas que se defrontam  com crescentes pressões competitivas. De fato, para fazer frente a essas pressões, as firmas tendem a caminhar na direção de um maior grau de especialização, concentrando recursos e competências em atividades que requerem vantagens competitivas mais evidentes em relação a outros agentes. 

O resultado desse processo é a consolidação de arranjos inter-organizacionais  genericamente associados ao conceito de “redes de firmas” (Britto, 1999) - que possibilitam uma organização eficiente de atividades econômicas, viabilizadas por ligações sistemáticas estabelecidas entre empresas envolvidas direta e indiretamente a um determinado tipo de produção. Através do processo de interação entre agentes inseridos no mesmo arranjo, uma firma particular obtém acesso a recursos e competências complementares que possibilita uma maior competitividade em relação a outras firmas não inseridas no arranjo. 

Ocorre, portanto, a consolidação de uma divisão de trabalho estruturada no interior desses arranjos, que reforça o grau de interdependência entre os agentes e fazem com que as relações clientes-fornecedores e produtores-usuários se diferenciem das relações estritamente mercantis tradicionais, passando a envolver práticas cooperativas de coordenação.

O segundo processo compreende estímulos à formação de clusters relacionados ao contexto institucional no qual os mesmos se encontram inseridos. Dentre os aspectos desse contexto institucional, ressaltam-se: a) uma elevada "especialização produtiva", com base num processo histórico de acúmulo de competências; b) uma intensa "divisão de trabalho" responsável pela redução dos custos de transação nas operações realizadas entre empresas locais; c)  uma "pluralidade de protagonistas", com um grande número de agentes locais satisfatoriamente capacitados; d) a ampliação cumulativa da "base de conhecimentos" dos agentes locais por meio do processo de especialização; e) um sistema eficiente de transmissão de informações ao nível local; f) um elevado nível de qualificação dos recursos humanos, como resultado de um processo histórico de sedimentação de habilidades e conhecimentos; e g) a generalização de relações diretas entre os agentes, o que facilita a difusão de inovações tecnológicas e organizacionais.

A importância dessas características refere-se não apenas à provisão de “externalidades” produtivas e tecnológicas que impulsionam o crescimento  do cluster, mas, à própria montagem de um arcabouço institucional que estimule a interação (e a cooperação) entre agentes no seu interior.



[1] A identificação e análise dos clusters econômicos de um ponto de vista estritamente regional-espacial geralmente baseia-no conceito de similaridade (Krugman, 1991), assim como as análises que concebem estes clusters de um ponto de vista estritamente setorial, associando-os a um padrão de estruturação das atividades industriais que proporciona vantagens competitivas para empresas neles integradas (Porter, 1999).

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VALDECI MONTEIRO DOS SANTOS

     


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