Dos
rituais primitivos e religiosos dos quais estava envolta
a antiga Grécia, surgiu a aventura efêmera que atravessaria
os séculos: o Teatro. Organizado e formalizado pelos gregos
para o espaço cênico, o teatro é até hoje, essencialmente,
a arte que trata sobre o homem e a mulher e suas relações
com o mundo e todos os acontecimentos que os cercam.
Os gregos nos são, até os dias
de hoje, uma constante referência, tanto do ponto de vista
artístico quanto do ponto de vista filosófico e, sem dúvida
alguma, do sistema social, que hoje nos é quase impossível
de compreender em função de tamanha desestrutura que passamos,
principalmente no que diz respeito à ordem do pensamento
vigente.
Foram os gregos que criaram, dentro
do universo artístico, a Tragédia Grega, que fala sempre
sobre realidades e mitos. As histórias das tragédias sempre
eram conhecidas de todos, falava de heróis legendários,
em luta com o austero e implacável destino; e dos deuses,
sempre participantes no sentido de recompensar a coragem
e punir a rebeldia. E assim, a partir da forma comportamental
do herói diante das imposições do destino, organizava-se
a ação dramática.
O teatro grego teve como característica
principal ser um teatro cívico, sobretudo a tragédia,
um teatro como define Barthes que era “sociedade restrita
e mundial”.
Falar do teatro grego é sempre
motivo e um objeto para grandes polêmicas, teses e dissertações.
Mas aqui vamos procurar traçar um campo reflexivo-crítico
sobre o nosso pequeno teatro burguês, que reflete o que
somos em dias de tanta depuração, tanta ausência de paradigmas
norteadores, buscando perceber esse nosso tão famigerado
hoje e nada mais.
Muito ao contrário dos gregos,
uma boa parcela do nosso teatro atual, não revela mais
as questões de ordem social. O teatro hoje esta envolto
por uma camada de anestésicos que visam falar do homem
e seus conflitos interiores. Claro que a sociedade de
hoje, está muito
longe de ter princípios semelhantes aos gregos. Porém,
as obras das tragédias gregas ultrapassaram os séculos
justamente por não se aterem a falar dos psicologismos
das personagens, evitando assim, que o teatro se afastasse
do censo de coletivo original.
Os espetáculos na atualidade (e
há muito tempo) por uma questão de ordem econômica, e
de esvaziamento cultural, estão cada vez mais reduzidos
no que diz respeito ao elenco. Assim, ao longo da história,
o que era para os gregos o personagem principal: o coro,
composto, por muitos, hoje, muitas vezes, é apenas um
ator em o palco nu, e uma platéia reduzida aos pequenos
espaços de pequenas salas.
Da mesma forma como o coro foi
se reduzindo, os espetáculos também o foram, e todo o
contexto que o cerca. Assim, das grandes festas Dionisíacas
em que estava envolto o antigo teatro Grego, nosso teatro
agora está envolto de si mesmo e das suas coisas, que
estão somente a um palmo de si.
Claro que o teatro grego, por mais
grandiosos que tenha sido na sua forma espetacular e na
sua concepção social , estava num contexto de uma democracia
que não dava conta de uma parcela da população também,
como os metecos, os escravos. E mesmo assim, enquanto
uns podiam assistir aos espetáculos, outros trabalhavam
para eles. Mas a participação, tanto de um lado quanto
de outro, era sempre consciente de uma atitude política.
Parece-me que, enquanto os gregos
estavam fazendo arte, também faziam atos de política e
de educação, não no sentido banal que estas palavras têm
ganho a cada dia na contemporaneidade, muito menos no
sentido político partidário. Era uma atitude nata, de
quem ocupava o seu lugar civil, de quem ocupava não apenas
um lugar na assembléia, mas sim, de quem tinha a responsabilidade
civil nos seus atos do cotidiano coletivo.
Hoje, numa sociedade onde o artista
passa pela dificuldade de fazer o espetáculo, pois a própria
sociedade já se transformou em algo espetacular, fica
cada vez mais difícil fazer teatro de uma forma que este
tenha o peso de uma responsabilidade com a transformação
social, uma vez que o próprio teatrista se vê na dificuldade
de uma compreensão mais ampla da sociedade na qual está
inserido.
Os espetáculos gregos
sempre foram de cunho popular, não apenas porque eram
dados ao ar livre como, especialmente, congregavam toda
a população, sem delimitação de classes. Os artistas de
então, contratados do Estado,
cumpriam uma função educativa, como intérpretes
de um estado de espírito coletivo: a democracia.
Em dias tão desajustados, fica
cada vez mais distante essa idéia desse teatro responsável
como um elemento educativo estético. Cada vez mais se
torna difícil manter grupos de grande elenco e estáveis
e já arrisco dizer que na nossa sociedade o teatro não
é um elemento cuja importância seja real.
Há de forma mais geral duas fortes
tendências: a do teatro que opta por um lugar de investigação,
que fica mais à margem, e outro que se define pela lógica
capitalista, que é o que chamamos de teatro comercial.
O Estado restringe-se à administração de verbas e à criação
de leis de apoio fiscal para que as empresas privadas
viabilizem verbas às companhias teatrais. Conseqüentemente,
este fator define o perfil dos espetáculos e atividades
culturais. Como os grupos que recebem os apoios fiscais
não conseguem sobreviver exclusivamente destes, acabam
tendo como opção os trabalhos pedagógicos e ainda os festivais.
Os festivais, em tempos atuais,
acabam ganhando um cunho elitista, uma vez que também
precisam agradar seus patrocinadores. Muitos fazem circular
as produções comerciais e outros, que se colocam como
mais alternativos, acabam fazendo circular os mesmos trabalhos
e grupos, pois se tornam pertencentes de um núcleo fechado
de amigos teatrais.
O grande comungar do teatro com
o povo é um pouco raro. Claro que temos no Brasil festivais
que, durante suas atividades, dinamizam apresentações
em toda a cidade, fazendo circular apresentações em bairros,
escolas, fábricas, mas mesmo assim, isso é mais um compromisso
de marketing empresarial que um compromisso socio-educativo.Ainda,
em grande maioria, as apresentações de festivais estão
presas às salas de teatro, que em caso de grandes prédios
de teatro, a própria estrutura já inibe naturalmente a
entrada de uma classe menos privilegiada. Assim, somente
os dados cidadãos de algum poder aquisitivo desfrutam
de tal evento. E essa mentalidade revela a forma como
pensamos a arte hoje e como os patrocinadores definem,
mesmo que sem “imposição”, as estruturas.
Cada vez mais se vê o teatro preocupado
em fazer teatro para si mesmo ou para a grande mídia,
e os artistas esperando por sua ascensão nos grandes meios
de divulgação, esquecido da sua possibilidade de formação,
de intervenção social e cultural. Nem poderia ser diferente
se vivemos a era da individualidade, onde o texto: “um
por todos e todos por um” é apenas uma frase solta que
todos julgam interessante, uma vez que foi Alexandre Dumas
quem escreveu, mas que todos a deixam fora do plano de
atitudes do seu contexto. Claro que não estou pedindo
aqui que todos saiam às ruas fazendo teatro e que excomunguem
o teatro de sala e o teatro romântico. Mas proponho que
se façam a pergunta do por quê cada vez mais estamos indo
para pequenas salas e com um número cada vez mais reduzido
de pessoas para assistir o feito teatral ?
Seria muito pedir também que perguntássemos
qual pode ser a aproximação dos festivais, o dos espetáculos
com a população ?
Penso que não. Não seria muito.
É possível fazer essa reflexão. É certo que nunca poderemos
resgatar a mentalidade grega, até mesmo por que isso seria
impossível e tolo, mas se ficaram as Tragédias Gregas
é sinal de que podemos nos deixar influenciar por essa
cultura, ressignificando-a para o nosso tempo.
Uma vez que o teatro não tem esse
caráter civil que os gregos tinham, podemos entrar aqui
num problema de ordem de formação. Não seria nenhuma novidade
dizer aqui que o nosso sistema educacional no Brasil (poderia
dizer de outros lugares também, mas nesse momento me interessa
falar da minha própria casa, da minha própria nação) é
um sistema que há tempos vive em decadência. Assim, se
falarmos do trabalho de formação em teatro, basta fazermos
um retrospecto de como se iniciou o ensino das artes no
Brasil que logo perceberemos que o teatro está ainda longe
de ser um componente dentro da educação.
Com a chegada da “Missão Francesa”
no governo de Don João VI instalou-se a primeira escola
de Artes do Brasil, que tratou de preocupar-se apenas
com o ensino das artes plásticas, além de ter trazido
e imposto todo o molde francês para esta. De lá pra cá,
é clara a percepção de que todas as estruturas de ensino
de artes se deram somente através das artes plásticas,
hoje artes visuais. A própria instauração das faculdades
de artes, ou melhor a antiga Ed.Artística, tinham seus
conteúdos quase que integralmente voltados para artes
plásticas, e uma ou outra cadeira voltada à música e ao
teatro. Hoje, já temos disponível no país algumas faculdades
de teatro que ainda estão nos seus ajustes em função de
sua jovialidade.
Então, desde que começamos, realmente
não houve nenhuma ocupação verdadeira do teatro dentro
das instituições de ensino, talvez porque este seja considerado
subversivo, e essa consideração seja algo para arrepiar
o conceito de ordem e de democracia em que vivemos em
nosso país. Não que o teatro dado na academia vá dar conta
de resolver os problemas, mas a criação destas e a formação
de professores que possam atuar dentro do ensino fundamental
e ensino médio talvez pudesse caminhar para auxiliar na
formação de cidadãos melhores consumidores e fruidores
da produção artística de sua época, bem como amenizar
essa carência dentro das instituições de ensino.
O teatrista de hoje precisa ficar
passível de uma transformação muito grande, e zelar ao
máximo por sua formação integral como homens e mulheres
pertencentes a esse mundo, tanto aquele que se encontra
na periferia, quanto nos grandes centros. Não falo aqui
em tentar fazer um teatro grego, que era o teatro e a
cidade, mas tentar enfrentar sua formação como a única
coisa capaz de modificar seu ato, e a construção do seu
objeto espetacular, quando o indivíduo se transforma,
todo seu contexto se modifica.
Cuidar da nossa formação é não
deixar permissão para colonização, não permitir nossa
aculturação. Zelar por formação é criar espaços reais
de liberdade, é construir identidade e, acima de tudo,
é estar preparado para viver esses novos tempos e, quem
sabe, criar tempos melhores ou pelo menos mais esperançosos.
Em dias nublados, como os de hoje,
longe da antiga Grécia, mais que grandes produções, mais
que salas fechadas, mais que nosso umbigo, mais que o
fortalecimento de personalidades, necessitamos de apuração
de caráter, mais que o simulacro precisamos de ações concretas
e verdadeiras de transformação.
Quando o indivíduo se deixa tocar,
quando deseja ser tocado, automaticamente se transforma,
e quando se transforma o entendimento sobre as coisas,
transformam-se também a ética, a estética, a linguagem
e estas por sua vez modificam todo um olhar da sociedade,
juntamente com outras estruturas. Gostaria de dizer que
é possível transformar o olhar do umbigo para o olhar
civil.Essa transformação leva o indivíduo a redescobrir
recantos adormecidos, a “emocionar-se”, que, na origem
da palavra, significa mover-se.