A
arte imita a vida ou é a vida que imita a arte?
O
filme “Cidade de Deus”, de Fernando Meirelles e
Kátia Lund, candidato brasileiro a uma indicação
ao Oscar 2003, foi visto por milhões de cinéfilos
em todo o Brasil e em boa parte do mundo. Por aqui,
lançado em agosto de 2002 em quase duzentas salas,
foi o quinto mais visto entre todos os filmes nacionais
e internacionais do ano. Na Inglaterra foi exibido
em 76 salas e foi a terceira maior bilheteria entre
as películas estrangeiras, só perdendo para “O Tigre
e o Dragão” e “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”.
Se perguntarmos à maioria das pessoas que assistiram
ao filme “Cidade de Deus” sobre o ator Rubens Sabino
da Silva, dificilmente obteremos resposta. Ele interpretou
o “Neguinho”, dono de um ponto-de-venda de drogas,
que o acaba perdendo para o traficante Zé Pequeno
(Leandro Firmino).
Rubens foi preso na manhã do dia
13 de junho passado, após roubar a bolsa de uma
mulher dentro de um ônibus na avenida Niemeyer,
em frente ao Morro do Vidigal (Rio). Populares ajudaram
na captura do ator, que, ao tentar fugir, pulou
nas pedras da orla, bateu com o rosto e levou 13
pontos na boca. Ele estava descalço, sem camisa
e desarmado, e alegou que roubou porque estava sem
comer a vários dias.
Fato semelhante aconteceu com Fernando
Ramos da Silva, também menor da periferia – só que
em São Paulo -, que virou ator de cinema e teve
fim trágico. Fernando foi o personagem principal
no filme “Pixote, a Lei do Mais Fraco”. Graças à
sua interpretação inesquecível, o filme de Hector
Babenco, inspirado em fatos reais, foi um sucesso
mundial e recebeu vários prêmios internacionais.
Fernando era ator “natural”, aprendeu sozinho, sem
escola, quase por milagre. Além de trabalhar com
Babenco, fez uma ponta em “Eles não Usam Black-Tie,
de Leon Hirszman, e na novela “O Amor é Nosso”,
da Globo. Nunca foi bem aceito no meio artístico;
analfabeto, tinha dificuldade em decorar as falas.
Quando ficou sem trabalho voltou para a favela em
Diadema, onde levantava uns trocados com pequenos
furtos, até ser morto, varado de balas pela PM.
Esses acontecimentos correlatos
levam-nos a refletir sobre quais condições esses
pequenos miseráveis da periferia são arrebanhados
para interpretarem personagens que eles conhecem
bem, pois os vivem no seu dia-a-dia. Os filmes acima
citados, com tanto patrocínio e bilheteria invejável,
poderiam proporcionar uma remuneração razoável,
o que impediria, em parte, os acontecimentos trágicos
que se sucederam. As crianças e adolescentes que
vivem na periferia de nossas grandes cidades, têm
valores e códigos difíceis de ser entendidos pelos
intelectuais das artes. Esses intelectuais, com
suas mentes arrogantes e investidos na categoria
de empresários, nem um pouco preocupados com os
problemas sociais que enfocam em suas obras, usam
esses jovens como iscas para atrair patrocínios.
Fazendo discursos bonitos e promessas, que quase
nunca cumprem, manipulam esses jovens, mostram-lhes
um mundo de ilusões, e depois de conseguirem seus
objetivos, devolvem-nos à dura realidade do cotidiano.
Sobre a história de Fernando Ramos,
só nos resta lamentar, mas quanto ao Rubens, ainda
está em tempo de se fazer algo. Quando o filme “Cidade
de Deus” fez sucesso, ninguém comentou sua atuação,
mas no infeliz acontecimento do ônibus, toda a mídia
deu um destaque exacerbado. Torçamos para que agora
que Rubens virou astro de destaque na mídia, não
seja sacrificado nem pela PM e nem pela opinião
pública.