Neste
instante da minha exposição, vou apresentar alguns
dos principais argumentos utilizados contra o programa
de cotas (reserva de vagas) para negro na universidade
e, na medida do possível, refutá-los. A intenção é
fundamentalmente didática: provê-los de munição para
a batalha diária de convencimento das pessoas na família,
na escola, no trabalho, no bairro da necessidade imperiosa
de adotarmos dispositivos concretos de combate à gritante
desigualdade racial no nosso país, e cotas é um desses
dispositivos.
1º)
Um ataque comum desferido por um setor da esquerda
marxista ao programa de cotas para negros é de que
tal programa seria uma reivindicação reformista e
não revolucionária. Ora, não tenho dúvida que a proposta
de cotas tem uma natureza reformista, paliativa, assim
como outras reivindicações do movimento social, como,
por exemplo, a bandeira da reforma agrária, defendida
pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra
(MST). A reforma agrária, como o próprio termo designa,
é reforma e não revolução agrária. Rigorosamente,
ela significa levar o capitalismo para o campo. Historicamente,
essa proposta - que tem um caráter democrático - foi
esposada pela burguesia na França, Inglaterra e EUA.
Daí a pergunta: por que, então, nós, negros e negras,
trabalhadores de um modo geral, devemos defender a
reforma agrária, uma tarefa que estaria no bojo do
projeto de revolução burguesa? Porque no atual contexto
histórico do país defender reforma agrária tem um
caráter progressista, que mobiliza as pessoas e coloca
em cheque a dominação de classe no país.
A
mesma premissa é valida para a luta pela implementação
de cotas para negro. Trata-se de uma luta que, apesar
de sua natureza reformista, tem um caráter progressista,
que educa ou mobiliza politicamente os negros e, sobretudo,
coloca em cheque a secular opressão racial deste país.
Como escreveu um dos mais notáveis pensadores marxistas
e líder revolucionário do século XX, Leon Trotsky,
no seu livro Programa de Transição, temos que
saber combinar - no processo revolucionário - reivindicações
específicas e gerais; temos que abraçar um programa
mínimo no qual, mediado por medidas transitórias,
sinalize para um programa máximo que rompa as estruturas
do sistema. Portanto, essa é minha concepção da proposta
de cotas. Ela não é um fim em si mesma, mas um meio,
uma medida específica transitória que no Brasil é
extremamente progressista, pois, entre outros motivos,
tem o poder de dá visibilidade ao povo negro. Por
exemplo, no censo oficial realizado em 2001, na USP,
constatou-se que apenas 1,30% dos 38 930 dos alunos
de graduação são negros. Se fosse implantado o programa
de cotas do Núcleo de Consciência Negra-USP, esse
percentual se elevaria para 25%. Em termos numéricos,
dos atuais 506 (quinhentos e seis), os estudantes
negros subiriam, imediatamente, para 9 733 (nove mil
setecentos e trinta e três). Este eventual "enegrecimento"
da USP representaria ou não um avanço?
Portanto,
ser contra cotas para negro - assim como se contrapor
à reforma agrária - é ter uma postura conservadora.
Do ponto de vista da conjuntura internacional, as
ações afirmativas, atualmente, estão sendo questionadas
pelo governo neo-liberal do George W. Bush, nos E.U.A.
Neste quadro, qual é nosso papel: sairmos em defesa
sem tréguas das conquistas históricas do movimento
negro estadunidense. Ironicamente, se opor às cotas
hoje significa, no plano internacional, está do lado
da elite racista e imperialista norte-americana. Daí
a necessidade de apoiarmos taticamente as ações afirmativas.
Insisto: tal postura, no atual estágio da correlação
de forças, também é uma política de resistência ao
neo-liberalismo, significa somarmos à luta anti-racista
dos afro-americanos pela manutenção de suas conquistas
históricas, arrancadas com tanto sangue, suor e lágrima.
2º)
Uma outra crítica freqüente é de que o ingresso de
negros nas universidades pelo programa de cotas subverte
o mérito. Ora, em uma sociedade marcada pelas contradições
de classe, gênero e raça, o mérito não passa de um
discurso ideológico. Vou exemplificar. Duas candidatas
vão prestar a prova da Fuvest (instituição organizadora
do vestibular da USP) para o curso de medicina. Ambas
chegam à segunda fase, mas apenas uma é aprovada.
Uma é negra, moradora da sinistra periferia da zona
leste paulistana, com 13 anos já trabalhava para ajudar
a mãe. Ela é oriunda de uma família desestruturada,
que convive com a violência. Para completar, estudou
a noite, em escola pública. A outra é branca, mora
no bairro elitizado do Morumbi. Estuda inglês, pratica
esportes, tem alimentação saudável, dispõe de computador
e todo tipo de benesse material. Estudou nas melhores
escolas particulares e ainda fez cursinho pré-vestibular.
Coincidentemente, foi a branca que ficou com a vaga
do curso de medicina. Ambas eram concorrentes diretas
e eu pergunto: quem tem mais mérito das duas? Em uma
sociedade capitalista e racista, as oportunidades
na vida não são igualitárias. Portanto, mérito não
é um valor absoluto. É evidente que a referida candidata
negra vai precisar de algum dispositivo compensatório
para nivelá-la à branca.
3º)
Uma outra objeção recorrente é de que o ingresso de
negros pelo sistema de cotas vai implicar no rebaixamento
da qualidade de ensino. Ora, não basta ser negro para,
automaticamente, ser aprovado nesse novo mecanismo
de seleção. Tem que ter qualificação. Por exemplo,
na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ),
todos os negros aprovados pelo programa de cotas tiraram
nota suficiente para ir à segunda fase do vestibular.
Além disso, não podemos esquecer que o vestibular
é um método duvidoso de aferição do conhecimento.
Em uma pesquisa realizada na USP, pelo Núcleo de Apoio
aos Estudos de Graduação (NAEG), constatou-se que
não há uma relação mecânica entre a nota do candidato
no vestibular e seu rendimento no curso. Assim, o
aluno que teve uma das melhores notas no vestibular
não necessariamente será o aluno com o maior grau
de aproveitamento do curso no decorrer dos anos. A
recíproca também é verdadeira. O candidato que, porventura,
foi aprovado com uma das piores notas do vestibular
pode ter um desempenho extremamente satisfatório na
realização do curso. É necessário também assinalar
que os estudantes oriundos da África e de diversos
países da América Latina que ingressam, por exemplo,
na USP e em certas Universidades Federais, não são
submetidos a nenhum tipo de avaliação por tais instituições.
Eles vêm por um sistema de convênio que se estabelece
entre as embaixadas. Tais estudantes que, a rigor,
têm uma formação educacional mais defasada do que
a dos brasileiros, sintomaticamente, não têm seus
níveis de excelência questionados ao término dos cursos.
O potencial deles é equiparado a de qualquer outro
estudante não-negro brasileiro. Isto mostra que o
discurso de excelência da Universidade só serve para
balizar o ingresso e não o produto do processo educacional.
4º)
Um outro argumento muito utilizado contra a proposta
de cotas baseia-se no pressuposto de que a solução
para as distorções raciais na educação é a melhoria
do ensino fundamental e médio da rede pública. Ora,
quem disse que nós, defensores do programa de cotas
para negros, somos contrários à melhoria da rede pública
de ensino? Quem disse que uma proposta é conflitante
com a outra? As cotas são uma alternativa emergencial,
provisória, ao passo que a melhoria da rede pública
de ensino exige um esforço de médio a longo prazo,
ciclo de uma geração, no mínimo. Até lá, os negros
vão continuar sendo destituídos do sonho de cursar
uma universidade pública e de qualidade? Se vocês
tentarem convencer um jovem negro, vestibulando, de
que ele tem que esperar a melhoria do sistema educacional
brasileiro - daqui não sei quantos anos - para poder
realizar o sonho de ingressar na universidade, a reação
dele vai ser de indignação. Afinal, ele quer uma solução
para o problema hoje e não deixar para amanhã ou perder
de vista na linha imaginária do tempo. O estado brasileiro
tem uma dívida com o povo negro e ela tem que ser
saldada já! Além disso, a melhoria da rede de ensino
exige políticas governamentais universalistas e tais
políticas não erradicam com a desigualdade racial
no país. Por exemplo, o Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (IPEA), em 2002, divulgou uma pesquisa que
aponta que todas as políticas públicas na área da
educação de 1929 até os dias atuais - as quais não
tinham um recorte racial - resultaram na melhoria
do nível educacional do brasileiro de um modo geral,
mas a taxa de desigualdade entre negros e brancos
permanece inalterada. Os brancos estudam em média
6,6 anos e os negros 4,4 anos. Essa distância, de
2,2 anos, é praticamente a mesma do início do século
XX. Daí a necessidade de políticas públicas específicas,
que adotem um recorte racial, compensando as desvantagens
acumuladas dos negros em relação aos brancos. Segundo
a mesma pesquisa, os negros precisariam, caso os brancos
ficassem parados, de 32 anos para atingir o nível
educacional dos estudantes brancos.
5º)
Os detratores, outrossim, alegam que um eventual programa
de cotas vai acentuar o racismo no ambiente universitário,
no cotidiano dos estudantes. Ora, o que pode acontecer
é cair a máscara do racismo na sociedade brasileira,
que, por sinal, já está acontecendo. O racismo é uma
arma ideológica de dominação que existe na sociedade
brasileira sem a existência das cotas para negros.
Trata-se de um racismo dissimulado, mascarado, velado,
porém extremamente eficiente. Por exemplo, o progresso
educacional do negro brasileiro é inferior ao do negro
sul-africano da época do apartheid e dos negros
dos Estados Unidos da América da época da segregação
racial. Nestes países, havia mais médicos, engenheiros
e advogados negros do que aqui. Portanto, o racismo
à brasileira já é perverso; porém, se o programa de
cotas contribuir para que o conflito nas relações
raciais fique declarado, vai ser o primeiro passo
da sua superação definitiva. Uma comparação singela
é válida para entendermos esse processo. Um médico
só consegue prescrever um medicamento correto se o
paciente explicita os sintomas da doença. Caso o paciente
dissimule seus problemas de saúde, dificilmente o
médico tem condições de traçar um diagnóstico preciso
e, por conseguinte, prescrever um medicamente eficaz
para se eliminar a doença. Assim, só é possível vislumbrarmos
a superação definitiva para qualquer problema, inclusive
o racial, quando ele, efetivamente, vier à baila.
6º)
Os refratários também argumentam que não é possível
implantar um programa de cotas porque no Brasil não
dá para definir quem é negro, uma vez que todo brasileiro
seria mestiço. Ora, o discurso da mestiçagem é extremamente
perigoso. Em uma perspectiva biológica, o mestiço
existe em qualquer lugar do mundo, afinal, não existe
raça pura. Mestiço não é uma categoria genuinamente
brasileira. Até nos Estados Unidos ou na Alemanha
existe uma certa dosagem de mestiçagem, ou seja, de
mistura racial. Carl Degler levantou a hipótese de
que a construção ideológica da figura do mestiço (ou
mulato, moreno, etc) no Brasil serviu para amortecer
o choque racial. Como os negros constituíam, desde
o período colonial, a maioria absoluta da população
e os brancos uma ínfima minoria, fabricou-se uma categoria
intermediária, o mulato, que servia como válvula de
escape para a tensão racial. Esta saída teria sido
providencial: um ser híbrido que nunca se define se
é negro ou branco. Infelizmente, o discurso ideológico
da mestiçagem se popularizou, de modo que a população
brasileira - ao contrário da norte-americana, por
exemplo - geralmente não se assume racialmente. O
programa de cotas, na minha avaliação, vem atacar
essa "esquizofrenia" do nosso sistema racial,
na medida em que obriga as pessoas a se assumirem
se são negras ou não-negras. E as supostas fraudes?
No vestibular deste ano da UERJ, aumentou minimamente
o número de pessoas que se auto-declararam negras
em relação ao ano passado. E os casos de pessoas que
são claras e se inscrevem pelo sistema de cotas? Esses
casos foram exceções. Ainda assim, na minha avaliação
não constituem fraudes, pois os meus critérios para
definir quem é negro não são os marcadores biológicos
ou simplesmente a cor de pele. A genética já provou
que raça não existe. O meu critério é político e ideológico.
Negro é quem se assume, quem se identifica enquanto
tal; é todo aquele que abraça a luta anti-racista.
Ao contrário do que o então candidato a presidência
- Luís Inácio “Lula” da Silva (PT) - declarou em debate,
não existe método científico capaz de determinar quem
é negro no Brasil. Aliás, em nenhum lugar do mundo.
Nos Estados Unidos, na Alemanha ou em qualquer outro
país, o critério para identificar quem é negro, em
última instância, também é arbitrário, ou seja, são
critérios político e ideológico, mas jamais biológico
ou genético.
Considerações
Finais
A
implementação dos primeiros programas de ações afirmativas,
entre os quais a política de cotas, decreta o fim,
na minha avaliação, do mito da democracia racial,
ou seja, do mito da ausência de preconceitos ou discriminações
raciais no Brasil. A vigência desses programas, por
si só, é a prova cabal de que existe tanto racismo
quanto um problema específico do negro no país. Caso
contrário, não haveria a necessidade de medidas reparatórias
a esse segmento populacional. As bases ideológicas
de sustentação do mito da democracia racial, portanto,
estão sendo implodidas!
Esse
é um momento singular na história do país, em que
a sociedade civil não só se conscientiza cada vez
mais do problema do racismo, como se debruça nas possíveis
soluções. Pela primeira vez na história do Brasil
acena-se romper com a barreira do silêncio que paira
sobre o racismo. Felizmente, as alternativas para
a superação desse mal, ainda que tardiamente, tendem
a entrar na pauta da agenda nacional. Evidentemente,
as cotas não são a panacéia para todos os problemas
advindos da desigualdade racial, mas são o início.
Entre um programa de cotas e nada, eu seguramente
fico com um programa de cotas. Daí a responsabilidade
de todos vocês que ainda são contrários a essa medida
compensatória. Se opuser às cotas e não apresentar
nada de alternativo para enfrentar a desigualdade
de oportunidades entre negros e brancos no campo educacional,
é fazer o jogo do opressor, que há 503 anos dirige
o país com uma política de exclusão e racismo. Muito
obrigado!