O 8º Concut e o 48º Congresso
da UNE, ambos realizados em junho, confirmaram o prognóstico
de que uma acirrada polêmica empolgará o conjunto dos movimentos
sociais e das forças de esquerda em nosso país no próximo
período da luta de classes. Essa questão nevrálgica se refere
à postura tática a ser adotada pelos setores populares frente
a um novo governo que sintetiza a sua própria luta contra
o neoliberalismo e pela construção de um projeto alternativo
para o Brasil, na perspectiva do socialismo. Tudo indica que
a batalha de idéias será das mais intensas. O futuro promete
muita adrenalina e fortes emoções!
Como diz o bordão, “para toda a
questão complexa sempre existe uma resposta simples; mas,
geralmente, ela está errada”. Diante de um ciclo político
totalmente novo no país, sem singularidade na nossa história,
este assunto demandará um certo tempo de maturação e muito
equilíbrio; exigirá a difícil combinação da firmeza de princípios
com a necessária habilidade tática; e imporá a solução cotidiana
da tensa equação entre unidade e luta, que tantos transtornos
já causou na nossa trajetória pouco afeita à visão dialética.
Da resposta à complexa questão da tática dependerá o avanço
ou retrocesso da luta do proletariado brasileiro.
POSIÇÃO CRISTALIZADA
Neste rico processo de debate inaugurado
com a vitória, a posse e os primeiros meses do governo Lula,
uma posição tática parece já ter se cristalizado. Ela é formulada
pelo PSTU, uma organização de esquerda com frágil inserção
nos movimentos sociais, mas que tem obtido inusitada amplificação
nos meios de comunicação. No 8o Concut, esta corrente
puxou as “vaias residuais” ao primeiro presidente da República
que visitou um congresso da central. Já no protesto contra
a reforma da Previdência, em 11 de junho, seus militantes
foram flagrados pela mídia acusando Lula e vários parlamentares
de esquerda de “traidores”.
Tamanha cólera talvez nem tenha
o aval da direção do PSTU; entretanto, ela reflete sua elaboração
tática, que acaba instigando tal comportamento. Num texto
esclarecedor, assinado por Mariúcha Fontana, editora do jornal
oficial deste partido, afirma-se de maneira peremptória que
“o governo Lula, por suas alianças e programa, será um governo
burguês e de submissão ao imperialismo”. Para a influente
dirigente, “antes de chegar ao governo central, o PT já era
um obstáculo para uma ruptura das massas com a recolonização
imperialista, a exploração e a institucionalidade burguesa.
Hoje, no governo central, sofreu uma mudança de qualidade:
passou a ser o agente direto da aplicação do projeto burguês
e imperialista no país”.
Desta análise decorre uma conclusão
taxativa: “O desafio da esquerda brasileira na nova etapa
é forjar um partido revolucionário de massas alternativo ao
PT, que se postule como oposição de esquerda ao governo Lula”.
Neste diapasão, ela reproduz a receita de Nahuel Moreno, dirigente
trotskista argentino e fundador da Liga Internacional dos
Trabalhadores (LIT), contra os chamados governos frentistas
“É imprescindível desmascara-lo diariamente... Para que as
massas, com falsas ilusões, possam entender a nossa proposta,
a política revolucionária deve possuir dois aspectos: a explicação,
pela negativa, do caráter traidor e contra-revolucionário
do governo... e a colocação, pela positiva, de que governo
propomos em seu lugar”.
Firmando o caráter oposicionista
do PSTU, nem mesmo os setores que avaliam que o governo Lula
será marcado pela disputa são poupados das ácidas críticas.
Sobram tiros para a Democracia Socialista, outra vertente
trotskista, “que tem diferenças menores com a corrente majoritária
do PT e não vê problemas em participar diretamente de um governo
desta natureza”; para a deputada Luciana Genro, egressa da
mesma organização fundadora do PSTU, “porque não se propõe
a combater as falsas ilusões das massas”; e até mesmo para
o MST, as Pastorais Sociais e Consulta Popular, que “pensam
que, com mobilização, é possível empurrar o governo Lula para
a esquerda”. Todos, sem exceção, estariam equivocados!
Num esforço incansável para demarcar
campos e pescar em águas turvas, a editora do Opinião Socialista rejeita a tática da maioria das correntes avançadas
da sociedade. Para ela, quem adota a postura do apoio crítico
“terminará por fazer parte do mesmo bloco do governo diante
das massas, aparecerá como sua ala esquerda, mas jamais se
constituirá como alternativa de esquerda, independente” Por
fim, a autora faz um apelo, como que temendo um previsível
isolamento do seu grupo: “O PSTU fez um chamado as correntes
de esquerda petista: sejam oposição a este governo de conciliação,
capitalista e imperialista, entrem na via da ruptura com o
PT e discutamos um programa e um novo partido revolucionário,
alternativo ao PT”.
Até agora, porém, nenhum setor
descontente com os rumos econômicos conservadores do governo
Lula e nem mesmo os chamados “radicais” do PT toparam o insistente
convite do PSTU. A proposta de oposição sistemática só encontra
eco em outros pequenos grupos que também se reivindicam trotskistas.
Mas, neste terreno minado, as recorrentes cisões históricas
inviabilizam a tão sonhada unidade. Desde a fundação da IV
Internacional, em setembro de 1938, os seguidores de Leon
Trotsky nunca conseguiram superar suas divergências táticas
e estratégicas, o que explica a formação de dezenas de seitas
numa disputa fratricida.
Para o Partido da Causa Operária,
que se autoproclama trotskista e pregou o voto nulo no segundo
turno contra “a candidatura patronal de Lula”, a união com o PSTU, “uma corrente centrista
e eleitoreira”, é impensável. Estes dois grupos vivem às turras,
inclusive com cenas de agressões físicas. Já a nanica Liga
Bolchevique Internacionalista esbraveja: “Para os genuínos
trotskistas não pode haver meio termo. Apoiar vergonhosamente
o governo Lula, como fazem os revisionistas da DS, O Trabalho
e CST, significa jogar na lata de lixo as lições da IV Internacional
sobre os governos de frentes populares. Ficar em cima do muro,
como fazem os morenistas do PSTU, revela-se patético e de
uma covardia política sem igual”.
NATUREZA DO GOVERNO
A posição do PSTU destoa frontalmente
da tática da maioria das forças de esquerda no Brasil por
vários motivos. Afora as antigas divergências históricas,
vale ressaltar aqui neste espaço as abissais diferenças na
avaliação da atual conjuntura. Em pelo menos três aspectos
não há acordo com a postura “principista e voluntarista” deste
partido: na caracterização do governo Lula; na análise da
correlação de forças no país e no mundo; e na intricada questão
das alianças. A polarização em torno destes pontos tem se
acirrado em todos os fóruns, como na CUT e UNE, e pode empurrar
ainda mais para o gueto político esta corrente.
No que se refere ao governo Lula,
o grosso dos movimentos sociais e das esquerdas tem apostado
as suas fichas no êxito desta experiência inédita no Brasil.
A avaliação quase consensual é de que, na conjuntura atual,
o fracasso do governo Lula representaria uma dura derrota
do projeto de transformação social das esquerdas brasileiras.
Uma frustração com os seus rumos, a vitória do medo sobre
a esperança, não seria capitalizada pelo movimento operário
e popular, ainda bastante debilitado pelos revezes históricos
e pela brutal ofensiva do capital. Serviria apenas para impulsionar
uma direita neoliberal ainda mais hidrófoba.
Como advertiu logo no início deste
ano o professor Carlos Nelson Coutinho, num artigo que serviu
como divisor de água na seara petista, “o governo Lula terá
de se equilibrar num estreitíssimo fio da navalha... Uma inteligente
e razoável pressão à esquerda, vinda dos movimentos sociais
e da ‘esquerda do PT’, será importante para impedir a possibilidade
de cooptação; mas um radicalismo insensato, um voluntarismo
principista e alheio às exigências das condições objetivas,
devem ser enfaticamente evitados”. Para este renomado intelectual,
o “radicalismo ‘esquerdista’ seria um gravíssimo erro político”,
já que o “eventual êxito do governo Lula será, para a esquerda
em geral, uma vitória de alcance histórico-universal”.
A partir desta compreensão, quase
toda a esquerda social-política optou por apoiar e participar
do governo Lula. Ficaram de fora apenas o PSTU e as seitas
que se dizem seguidoras do “genuíno trotskismo”. Nunca houve
na história do Brasil um governo tão nitidamente identificado
com as forças de esquerda da nossa sociedade. Pela primeira
vez na sua longa trajetória de 81 anos, os comunistas ocupam
o primeiro escalão do governo – inclusive com seu líder na
Câmara Federal. A maioria das correntes da chamada “esquerda
do PT” também foi contemplada. No essencial, estão representados
no governo Lula todos os partidos e forças políticas que lutaram
contra a ditadura militar e resistiram à implantação do neoliberalismo.
Vários sindicalistas, como Olívio
Dutra, Miguel Rosseto, Jacques Wagner e outros ex-dirigentes
da CUT, estão em ministérios – o que sinaliza, ao menos, maior
sensibilidade com a temática do trabalho. O MST, considerado
um dos mais ativos movimentos sociais da atualidade, fez questão
de explicitar seu apoio ao governo, participou da indicação de dirigentes
do Incra em vários estados e está envolvido em mais de 10
projetos oficiais de apoio à agricultura familiar, à saúde
e à educação, segundo relato da Agência Carta Maior. Juntamente com a UNE, a CUT e outras entidades
populares, ele tem acento no Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social (CDES), um fórum amplíssimo, para desespero dos mais
sectários.
ESPAÇO EM DISPUTA
Só por esta razão já seria, no
mínimo, unilateral e precipitada a conclusão de que a natureza
deste governo é “burguesa e pró-imperialista”, como afirma
o PSTU. Na verdade, ela expressa o acúmulo que as forças democráticas-populares
lograram forjar nas últimas décadas de luta. É um governo
contraditório, híbrido, que agrega desde setores do centro
até as forças mais avançadas do país. “Resultou assim uma
formação governamental democrática, plural, composta de diversos
setores oposicionistas ao governo passado, cujo núcleo dirigente
é ocupado pelas correntes que constituem a maioria do PT,
tendo na liderança popular de Lula sua marca destacada”, ressalta,
numa avaliação mais multilateral, recente documento do PCdoB.
Essa composição singular, sem precedentes
na história do Brasil, abre inúmeras possibilidades ao avanço
dos setores populares, mas também está carregada de armadilhas.
A maioria das forças de esquerda optou por encarar o desafio,
evitando fugir da raia com posturas puristas e esquerdistas.
Mas ela tem noção das características da sua vitória – que
se deu nos marcos das regras eleitorais burguesas e não através
de uma revolução; que permitiu eleger o presidente, mas não
representou a tomada do poder, que se mantém nas mãos do capital.
Também está ciente das enormes condicionantes deste novo ciclo
– contexto mundial adverso, herança maldita de FHC, minoria
política-institucional e fragilidade do movimento operário.
Mas não é só na composição ministerial
que fica patente a intricada natureza do novo governo. Inúmeros
episódios nestes seis meses de experiência de comando confirmam
que este será um governo marcado por intensa disputa entre
a continuidade e a mudança. No plano macro-econômico, estratégico
na viabilização do projeto democrático-popular, ainda prevalece
o continuísmo, com a insistência no receituário ortodoxo e
nas reformas liberalizantes. É neste terreno que o PSTU imagina
colher frutos. Mas com a sua oposição sistemática, sem base
numa alternativa viável e descolada da real correlação de
forças, ele pode acabar fazendo o jogo da elite – que pretende
transformar sua derrota eleitoral numa vitória política. Os
holofotes da mídia burguesa e o constrangedor apoio de expoentes
da direita deveriam servir, ao menos, de alerta!
Bem diferente é a tática adotada
pela maioria esmagadora dos movimentos sociais, das forças
de esquerda e da intelectualidade progressista do país. Visando
efetuar “uma inteligente e razoável pressão à esquerda, importante
para impedir a cooptação”, estes setores reafirmam seu apoio
ao governo e, ao mesmo tempo, procuram pressionar no rumo
das mudanças. Este é o espírito do documento assinado por
mais de 400 economistas, sugerindo medidas para o desenvolvimento
com distribuição de renda; ou do texto assinado por 30 parlamentares
do PT propondo “tomar o rumo do crescimento já”; ou do manifesto
dos intelectuais de “alarme contra a reforma da Previdência”;
ou da resolução do Concut contra a mesma reforma...
Por outro lado, estes setores também
enxergam os avanços já efetuados, embora tímidos, pelo governo.
Como explicita recente documento da Confederação Nacional
dos Bispos do Brasil (CNBB), “fora da política econômica,
há alentadores sinais de mudanças em relação ao governo anterior.
Destaca-se a política externa, que tem priorizado a defesa
da soberania e dos interesses do Brasil. Mudanças internas
no Itamaraty e o ritmo mais lento nas negociações da Alca
podem levar à rejeição desta proposta... Além disso, o arquivamento
do acordo de concessão aos EUA de uma base militar em Alcântara
(MA) confirma a opção por uma política externa soberana, que
pode tornar-se um dos eixos estruturantes das mudanças”. O
texto elogia ainda os avanços na questão agrária, em áreas
sociais e na defesa dos direitos humanos.
Esta longa citação se justifica
porque atesta, de maneira cabal, a falta de tato político
do PSTU. Para esta organização, a luta contra a recolonização
do continente é prioritária. Daí o seu empenho para, juntamente
com o MST, Pastorais Sociais, PCdoB e PT, fortalecer a jornada
contra a Alca e a militarização da região. O que explica,
então, sua insistência em não enxergar, ao menos, os recentes
avanços na política externa? Como é possível caracterizar
este governo como pró-imperialista? Qual a razão para esconder
que o embaixador Samuel Pinheiro, exonerado por FHC por seu
combate à Alca e hoje ocupando o cargo de secretário-geral
do Ministério das Relações Exteriores, foi convidado para
eventos deste partido? Porque não comemorar, com fizeram o
MST e outras entidades, a anulação do contrato de entrega
de Alcântara?
Esta postura sectária, que tenta
simplificar a natureza do governo Lula, pode indicar dois
graves erros. O primeiro é o da mesquinharia partidista que,
sem levar em conta a correlação de forças adversas, procura
demarcar campos para crescer. O segundo confirmaria uma sina
histórica desta corrente de subestimação da tática, que descola
a estratégica da ação cotidiana e acaba derrapando no dogmatismo.
Como ensinou o mestre da tática, V.I.Lênin, inclusive nas
suas incontáveis polêmicas com Leon Trotski, “a fraseologia
revolucionária é a repetição de palavras de ordem sem relação
com as circunstâncias objetivas, ao sabor dos últimos acontecimentos,
à situação de momento. Palavras de ordem excelentes, que arrastam
e embriagam, mas desprovidas de base sólida, tal é a essência
da fraseologia revolucionária”.