EVA PAULINO BUENO
Depois de quatro anos trabalhando em universidades no Japão, Eva Paulino Bueno leciona Espanhol e Português na St. Mary’s University em San Antonio, Texas. Ela é autora de Mazzaropi, o artista do povo (EDUEM 2000), Resisting Boundaries (Garland, 1995), Imagination Beyond Nation (University of Pittsburgh Press, 1999), Naming the Father (Lexington Books, 2001), e I Wouldn’t Want Anybody to Know: Native English Teachi ng in Japan (JPGS, 2003).


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Caupolicán e o cachorro do Pablo Neruda

 

Foto: Eva Paulino BuenoEra uma vez um país latino americano cujos habitantes originais eram chamados mapuches. Este nome vem de uma das variantes da língua quechua, e quer dizer “água que se perde entre as pedras.” Os mapuches eram razoavelmente numerosos, e viviam nos territórios hoje conhecidos como o Chile e a Argentina. Infelizmente, tal como sucedeu com muitos outros habitantes pré-colombianos das Américas, uma grande parte dos mapuches sucumbiu ante o zelo europeu, aquele coquetel de cruzes, mosquetes e espadas, que as flechas e os tacapes não podiam conter, e doenças que os sistemas imunológicos dos índios não tinham como combater.

No entanto, apesar de terem muitas coisas em comum com outros habitantes originais das Américas, os mapuches são um povo especial na América do Sul, porque eles nunca se renderam, e inclusive assinaram o Tratado de Lillin com o império espanhol.  Neste acordo, ficou estabelecido que os mapuches tinham o direito à autodeterminação e liberdade dentro de seu território, ao sul do rio Bio-Bio. Logicamente, em se tratando de tratados com os colonizadores, a história demonstra que nem sempre o estabelecido é cumprido. E assim foi com os mapuches, que sofreram de 1860 a 1865 campanhas genocidas tanto do lado chileno (chamada de “Pacificação da Araucania”), como do lado argentino (chamada “a conquista do deserto”). Como resultado destas duas campanhas, mais de cem mil mapuches foram exterminados, e os sobreviventes forçados a abandonar suas terras e ir viver em reservas indígenas. [1]

Uma outra característica torna os mapuches tão especiais. Eles têm uma homenagem a um homem mapuche na capital do país, feita em bronze, e é considerada uma representação do herói mapuche Caupolicán. [2] Até aí, também, já escuto alguém dizer, nada de novo. Nas Américas do norte, central e do sul, cada país tem destas representações. Quem pode se esquecer, por exemplo, da estátua da Iracema pernuda em Fortaleza?  Ou dos índios-com-caras-de-brancos dos filmes americanos? Entretanto, e isto é o que me interessa mais neste momento, o que torna os mapuches especiais, é que a representação deles, feita em bronze, em Santiago, é um exemplo muito complexo de colonização, recolonização, e de posmodernismo.

A parte da colonização é fácil, porque todos nós, filhos das Américas, sabemos a história dos colonizadores, de seu encontro com os donos da terra, e do que ocorreu deste encontro. Apesar das pequenas variações de país a país, a história da conquista da América foi sangrenta, cruel, e defendida pelos apologistas dos países europeus que a empreenderam com as armas da religião e da política e das bocas de fogo.

A parte da recolonização, no que concerne a Caupolicán, não é conhecida fora do Chile, então vale a pena contar aqui. Em 1874, o escultor chileno Nicanor Plaza fez uma estátua de bronze para participar de um concurso na cidade de Philadelphia, nos Estados Unidos. Este concurso tinha como objetivo escolher a melhor estátua que representasse um homem da nação dos mohicans—os moicanos. Todos sabemos dos moicanos, cujo último representante morre no fim de um romance chamado, não coincidentemente, O último dos moicanos. [3]

Nicanor Plaza não recebeu o primeiro prêmio no concurso, mas recebeu uma menção honrosa. Além disso, recebeu um convite de seu país para expor sua estátua no morro de Santa Lucia, que é considerado o lugar de nascimento da cidade de Santiago, e portanto o coração histórico do Chile. Quando a estátua chegou a Santiago, recebeu o nome de Caupolicán, e como tal passou a ser conhecida.

Logicamente, o homem representado não está vestido como um mapuche, e por sinal tem na cabeça as conhecidas penas que vemos nos filmes faroeste americano enfeitando a cabeça dos índios (outra inconsistência por parte dos cineastas americanos, que geralmente não se preocupam em mostrar as diferentes vestimentas, costumes e línguas dos habitantes originais da América do Norte, e adotam a fórmula fácil de colocar umas penas na cabeça do indivíduo, umas roupas de couro com franjas, e declará-los “índios”). Ora, os mapuches nunca usaram penas na cabeça, e se Plaza estivesse interessado em representar os mapuches reais, não teria sido impossível encontrar modelos. Mas, de todas formas, agora a representação de Caupolicán vem atravessada da recolonização, cujo efeito nós do Brasil conhecemos muito bem: muitas vezes aceitamos o que dos Estados Unidos, ou a Europa do momento, nos dizem o que somos, e fazemos o labor artístico dirigido para fora do Brasil. [4] Caupolicán estátua, pobre índio de raízes misturadas, nem o último dos moicanos, nem o primeiro dos mapuches, com uma cara que não se parece à de seu povo, e bem possivelmente nem à dos moicanos que pretendia representar. Enquanto isso, os verdadeiros mapuches, se tivessem a oportunidade de ver a tal estátua, iriam se encontrar em falta, errados, não de acordo com o modelo. [5]

Mas a saga da estátua continua: quando Nicanor Plaza colocou a obra nos jardins do morro de Santa Lucia, o sucesso foi tanto, que se decidiu fazer outras estátuas a partir daquela. Agora, há quatro Caupolicáns em Santiago, dois negros, dois brancos. Na realidade, embora a tradição diga que a estátua em Santa Lucia é a original de Plaza, muitos duvidam disso, e acham que o original está perdido. Esta é a parte do posmodernismo, a reprodução a partir de um “original” que, na realidade, pode até não existir.  Este Caupolicán, que seria, se fosse uma representação dos mapuches já um simulacro, é um simulacro duplo, porque simula representar os mapuches quando estava tentando representar os moicanos, os quais, de todas maneiras, já se encontravam em extinção. O que vemos em quatro lugares em Santiago, Chile, é um eco de uma voz que não existe.

E o cachorro do Pablo Neruda, que tem a ver com a história? Talvez quase nada e talvez quase tudo.

Na cidadezinha costeira de Isla Negra  (que, como dizem os locais, “ni es isla, ni es negra”), ao sul da cidade de Valparaiso, está uma das casas de Pablo Neruda. É uma casa muito interessante, tanto do ponto de vista arquitetônico, como histórico, como poético.  Esta casa começou com uma pequena cabina que Neruda construiu na encosta, virada para o mar, e para lá vinha às vezes para escrever ou simplesmente olhar o mar.  Com o tempo, ele começou a construção da casa, em várias fases. A casa cresceu, organizamente, como uma árvore, de acordo com as próprias palavras do poeta. ‘A medida que a casa crescia, Neruda acrescentava coisas, caracóis recolhidos de praias, objetos comprados e recebidos como presente de amigos e admiradores do mundo inteiro. Desta casa ele olhava o mar e escrevia. No jardim desta casa ele colocou um barco, que o fazia sentir-se marinheiro sem ter que lidar diretamente com o mar, que o aterrorizava. Ele amava esta casa, e daqui saiu para morrer. Para cá voltou, para ser enterrado no pequeno túmulo no jardim, voltado para o mar.

A casa, os jardins, e o túmulo, são objeto de muito interesse por parte de aficcionados da literatura latino americana do muito inteiro. Hoje, a casa de Pablo Neruda em Isla Negra é um museu, e pode-se passar uma tarde conhecendo os quartos da casa, escutando a explicação dos guias, passeando pelo jardim, olhando o mar do mesmo ângulo que o poeta olhou muitos dias. No museu se encontram reproduções de quadros e objetos, livros do poeta, assim como livros sobre sua obra, que podem ser adquiridos, ou simplesmente manuseados.

Também, se você a) gosta de cachorros, ou b) acredita em reencarnação, você pode ter uma surpresa muito interessante junto ao túmulo. Um cachorro de uns dois anos, um vira-latas, se posta diante do túmulo e olha o mar atentamente, durante muito tempo. É como se ele estivesse buscando inspiração, ou simplesmente aproveitando a oportunidade de olhar a paisagem.

E o que esse cachorro tem a ver com Caupolicán, mapuches, moicanos, colonização, recolonização, posmodernismo? Talvez ele seja meramente uma maneira de marcar o real, o não histórico, o mais simples nível da existência. Por outro lado, talvez  ele marque mais do que suspeita a nossa vã filosofia.



[1] Reynaldo Mariqueo  e Jorge Calbucura escrevem que, apesar dos esforços da sociedade chilena dominante, os mapuches conseguiram preservar sua cultura, religião e língua tradicionais. Dos poucos sobreviventes das campanhas de extermínio do século XIX, os mapuche conseguiram refazer sua comunidade, e atualmente há duzentos e cinqüenta mil mapuches na Argentina, e um milhão no Chile. Ver mais detalhes sobre a história de luta dos mapuches no texto bastante acessível  de marique o Calbucura em http://www.mapuche-nation.org/english/frontpage.htm

[2] A enciclopédia Encarta nos informa que Caupolicán morreu em 1558, empalado pelos espanhóis depois de sua derrota frente ao exército invasor. Mas não esclarece se este herói foi uma figura histórica, ou uma mescla de vários defensores dos mapuches. O que se sabe ao certo é que Caupolicán foi protagonista da obra épica de Alonso de Ercilla chamada La Araucana. É bem possível que Caupolicán tenha nascido, tal como Iracema e Peri de José de Alencar, de um momento em que a nação chilena precisava de  heróis nativos, não europeus.

[3] The Last of the Mohicans, de James Fenimore Cooper.

[4] Assim, se entende como, por exemplo, a maioria dos filmes do Cinema  Novo faziam um sucesso delirante em Cannes, e poucos no Brasil sequer os conheciam. As razões deste desconhecimento são complicadas, mas o fato de os brasileiros não se “verem” nestas representações, assim como o sentimento de que os cineastas tratavam a este “Brasil” como algo fora de si, como uma cultura “alheia,” certamente influenciaram  a recepção (ou falta dela) a filmes que, fora do Brasil, eram considerados uma obra prima.

[5] Tal é o destino, no Brasil, especialmente da mulher cujo corpo e rosto não estão de acordo com a beleza européia considerada a mais perfeita. A maioria absoluta das mulheres brasileiras, baixinhas, escurinhas, mais pra gordinhas que pra magras, tende a se sentir também for a de esquadro, erradas. Seria como  um encontro do Caupolicán real com a super produzida Xuxa.

EVA PAULINO BUENO

     

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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