Era
uma vez um país latino americano cujos habitantes originais
eram chamados mapuches. Este nome vem de uma das variantes
da língua quechua, e quer dizer “água que se perde entre
as pedras.” Os mapuches eram razoavelmente numerosos,
e viviam nos territórios hoje conhecidos como o Chile
e a Argentina. Infelizmente, tal como sucedeu com muitos
outros habitantes pré-colombianos das Américas, uma
grande parte dos mapuches sucumbiu ante o zelo europeu,
aquele coquetel de cruzes, mosquetes e espadas, que
as flechas e os tacapes não podiam conter, e doenças
que os sistemas imunológicos dos índios não tinham como
combater.
No entanto, apesar de terem muitas
coisas em comum com outros habitantes originais das
Américas, os mapuches são um povo especial na América
do Sul, porque eles nunca se renderam, e inclusive assinaram
o Tratado de Lillin com o império espanhol. Neste acordo, ficou estabelecido que os mapuches tinham o direito
à autodeterminação e liberdade dentro de seu território,
ao sul do rio Bio-Bio. Logicamente, em se tratando de
tratados com os colonizadores, a história demonstra
que nem sempre o estabelecido é cumprido. E assim foi
com os mapuches, que sofreram de 1860 a 1865 campanhas
genocidas tanto do lado chileno (chamada de “Pacificação
da Araucania”), como do lado argentino (chamada “a conquista
do deserto”). Como resultado destas duas campanhas,
mais de cem mil mapuches foram exterminados, e os sobreviventes
forçados a abandonar suas terras e ir viver em reservas
indígenas.
Uma outra característica torna os
mapuches tão especiais. Eles têm uma homenagem a um
homem mapuche na capital do país, feita em bronze, e
é considerada uma representação do herói mapuche Caupolicán. Até aí,
também, já escuto alguém dizer, nada de novo. Nas Américas
do norte, central e do sul, cada país tem destas representações.
Quem pode se esquecer, por exemplo, da estátua da Iracema
pernuda em Fortaleza? Ou dos índios-com-caras-de-brancos dos filmes americanos? Entretanto,
e isto é o que me interessa mais neste momento, o que
torna os mapuches especiais, é que a representação deles,
feita em bronze, em Santiago, é um exemplo muito complexo
de colonização, recolonização, e de posmodernismo.
A parte da colonização é fácil, porque
todos nós, filhos das Américas, sabemos a história dos
colonizadores, de seu encontro com os donos da terra,
e do que ocorreu deste encontro. Apesar das pequenas
variações de país a país, a história da conquista da
América foi sangrenta, cruel, e defendida pelos apologistas
dos países europeus que a empreenderam com as armas
da religião e da política e das bocas de fogo.
A parte da recolonização, no que
concerne a Caupolicán, não é conhecida fora do Chile,
então vale a pena contar aqui. Em 1874, o escultor chileno
Nicanor Plaza fez uma estátua de bronze para participar
de um concurso na cidade de Philadelphia, nos Estados
Unidos. Este concurso tinha como objetivo escolher a
melhor estátua que representasse um homem da nação dos
mohicans—os moicanos. Todos sabemos dos moicanos, cujo
último representante morre no fim de um romance chamado,
não coincidentemente, O último dos moicanos.
Nicanor Plaza não recebeu o primeiro
prêmio no concurso, mas recebeu uma menção honrosa.
Além disso, recebeu um convite de seu país para expor
sua estátua no morro de Santa Lucia, que é considerado
o lugar de nascimento da cidade de Santiago, e portanto
o coração histórico do Chile. Quando a estátua chegou
a Santiago, recebeu o nome de Caupolicán, e como tal
passou a ser conhecida.
Logicamente, o homem representado
não está vestido como um mapuche, e por sinal tem na
cabeça as conhecidas penas que vemos nos filmes faroeste
americano enfeitando a cabeça dos índios (outra inconsistência
por parte dos cineastas americanos, que geralmente não
se preocupam em mostrar as diferentes vestimentas, costumes
e línguas dos habitantes originais da América do Norte,
e adotam a fórmula fácil de colocar umas penas na cabeça
do indivíduo, umas roupas de couro com franjas, e declará-los
“índios”). Ora, os mapuches nunca usaram penas na cabeça,
e se Plaza estivesse interessado em representar os mapuches
reais, não teria sido impossível encontrar modelos.
Mas, de todas formas, agora a representação de Caupolicán
vem atravessada da recolonização, cujo efeito nós do
Brasil conhecemos muito bem: muitas vezes aceitamos
o que dos Estados Unidos, ou a Europa do momento, nos
dizem o que somos, e fazemos o labor artístico dirigido
para fora do Brasil. Caupolicán
estátua, pobre índio de raízes misturadas, nem o último
dos moicanos, nem o primeiro dos mapuches, com uma cara
que não se parece à de seu povo, e bem possivelmente
nem à dos moicanos que pretendia representar. Enquanto
isso, os verdadeiros mapuches, se tivessem a oportunidade
de ver a tal estátua, iriam se encontrar em falta, errados,
não de acordo com o modelo.
Mas a saga da estátua continua: quando
Nicanor Plaza colocou a obra nos jardins do morro de
Santa Lucia, o sucesso foi tanto, que se decidiu fazer
outras estátuas a partir daquela. Agora, há quatro Caupolicáns
em Santiago, dois negros, dois brancos. Na realidade,
embora a tradição diga que a estátua em Santa Lucia
é a original de Plaza, muitos duvidam disso, e acham
que o original está perdido. Esta é a parte do posmodernismo,
a reprodução a partir de um “original” que, na realidade,
pode até não existir.
Este Caupolicán, que seria, se fosse uma representação
dos mapuches já um simulacro, é um simulacro duplo,
porque simula representar os mapuches quando estava
tentando representar os moicanos, os quais, de todas
maneiras, já se encontravam em extinção. O que vemos
em quatro lugares em Santiago, Chile, é um eco de uma
voz que não existe.
E o cachorro do Pablo Neruda, que
tem a ver com a história? Talvez quase nada e talvez
quase tudo.
Na cidadezinha costeira de Isla Negra
(que, como dizem os locais, “ni es isla, ni es
negra”), ao sul da cidade de Valparaiso, está uma das
casas de Pablo Neruda. É uma casa muito interessante,
tanto do ponto de vista arquitetônico, como histórico,
como poético. Esta
casa começou com uma pequena cabina que Neruda construiu
na encosta, virada para o mar, e para lá vinha às vezes
para escrever ou simplesmente olhar o mar.
Com o tempo, ele começou a construção da casa,
em várias fases. A casa cresceu, organizamente, como
uma árvore, de acordo com as próprias palavras do poeta.
‘A medida que a casa crescia, Neruda acrescentava coisas,
caracóis recolhidos de praias, objetos comprados e recebidos
como presente de amigos e admiradores do mundo inteiro.
Desta casa ele olhava o mar e escrevia. No jardim desta
casa ele colocou um barco, que o fazia sentir-se marinheiro
sem ter que lidar diretamente com o mar, que o aterrorizava.
Ele amava esta casa, e daqui saiu para morrer. Para
cá voltou, para ser enterrado no pequeno túmulo no jardim,
voltado para o mar.
A casa, os jardins, e o túmulo, são
objeto de muito interesse por parte de aficcionados
da literatura latino americana do muito inteiro. Hoje,
a casa de Pablo Neruda em Isla Negra é um museu, e pode-se
passar uma tarde conhecendo os quartos da casa, escutando
a explicação dos guias, passeando pelo jardim, olhando
o mar do mesmo ângulo que o poeta olhou muitos dias.
No museu se encontram reproduções de quadros e objetos,
livros do poeta, assim como livros sobre sua obra, que
podem ser adquiridos, ou simplesmente manuseados.
Também, se você a) gosta de cachorros,
ou b) acredita em reencarnação, você pode ter uma surpresa
muito interessante junto ao túmulo. Um cachorro de uns
dois anos, um vira-latas, se posta diante do túmulo
e olha o mar atentamente, durante muito tempo. É como
se ele estivesse buscando inspiração, ou simplesmente
aproveitando a oportunidade de olhar a paisagem.
E o que esse cachorro tem a ver com
Caupolicán, mapuches, moicanos, colonização, recolonização,
posmodernismo? Talvez ele seja meramente uma maneira
de marcar o real, o não histórico, o mais simples nível
da existência. Por outro lado, talvez ele marque mais do que suspeita a nossa vã filosofia.