Entrevista
a Maria Carneiro da Cunha
FOLHETIM: Qual é a natureza na
burocracia?
TRAGTENBERG: Sob o capitalismo ocidental,
a burocracia é, ao mesmo tempo, o corpo que
“organiza” a produção nas empresas privadas
e semipúblicas e representa o poder executivo
no funcionamento das grandes unidades administrativas,
constituindo parte integrante do Estado. No
modo capitalista de produção, ela administra
uma coletividade. Para servir ao capital, recebe
dele um conjunto de imunidades e privilégios
(mordomias) e pulveriza a responsabilidade.
Ela é independente e soberana perante a coletividade
e possui relativa autonomia em relação à classe
dominante, que utiliza para definir seus métodos
de recrutamento, sistema de promoção, estatuto
e condições de trabalho. Nas sociedades pós-capitalistas,
atua como nova camada dominante, ocupando o
espaço que antes pertencia à antiga classe capitalista.
A burocracia na sociedade capitalista procura
legitimar-se em nome dos interesses nacionais;
nas sociedades pós-capitalistas, isso é feito
em nome dos interesses do proletariado.
FOLHETIM: A burocracia é necessária
na educação?
TRAGTENBERG: Um dos elementos em
que a burocracia fundamenta sua legitimação
consiste em se atribuir a tarefa de “organizar”
tudo. Sob o nazismo, a palavra de ordem do regime
era: organização. Existe aí uma confusão interessada.
Qualquer grupo humano, tendo em vista as finalidades
que persegue, organiza-se para tanto. Mas a
burocracia é outra coisa: está montada como
estrutura de controle, dispondo de imunidades
e privilégios. As formas de organização das
coletividades visando aos seus próprios fins
ocorrem através de uma igualdade básica entre
seus membros; a burocracia “em nome da organização”,
usa e abusa das imunidades e privilégios inerentes
a ela enquanto poder acima dos organizados.
Por isso, ela tem como religião o
culto da hierarquia, ou seja, o culto da distribuição
desigual do poder, onde poucos podem muito e
muitos não tem voz. Assim, na universidade,
a principal preocupação da burocracia é o controle:
ela procura controlar um saber inexistente ou
escasso, da mesma forma que são escassos os
recursos a ela atribuídos. Se entendermos a
universidade como a sede de produção e reprodução
de conhecimentos, a burocracia cumpre um papel
inteiramente supérfluo. Se entendermos a comunidade
acadêmica como o conjunto de alunos e professores,
a burocracia tem um papel parasitário, convertendo
os meios (controles) em fins e desestimulando
a criação intelectual.
É impossível termos uma universidade avançada num capitalismo
retardatário
FOLHETIM: Como a burocracia se
institucionaliza nos vários níveis de ensino?
TRAGTENBERG: Esse fenômeno é inerente
a qualquer Estado, mas no Estado autoritário
ele se acentua, pois há a tendência à centralização
monocrática. Cito o exemplo da UNESP, que é
a realização de uma utopia burocrática. Nessa
instituição, a organização é centralizada e
autoritária, as decisões são de cima para baixo
e os postos-chave são ocupados por docentes
aposentados pela USP ou outros cuja meta científica
é uma aposentadoria, constituindo uma cúpula
medíocre, sem imaginação ou espírito universitário.
O resultado é o pior possível; além da evasão
de pessoal qualificado, ocorrem a falta de pesquisa
de nível superior (o pessoal de Ciências Humanas
surge como novo “Cristo”); a ausência de articulação
científica entre as áreas que ocupam os vários
campi; a carreira universitária retrógrada,
que leva o docente a passar a vida fazendo tese
e não ciência (algumas vezes a própria UNESP
não reconhece os títulos que “cobra” de seus
docentes). Sem falar do salário dos professores,
mais baixo do que é pago pelas próprias universidades
federais.
Em suma, foi na UNESP que melhor
se traduziu a síndrome autoritária do Estado
brasileiro, pois lá se recorrei a todas as “salvaguardas”
possíveis para manter uma reestruturação
desestruturante. Foi esse o destino dos
antigos institutos isolados que hoje integram
a UNESP. Ela é a realização do modelo estado-novista
nos dias que correm, é o passado oprimindo o
presente como fantasma, com os mortos governando
os vivos. Evidentemente, isso ocorre na medida
em que estes se deixam governar por aqueles.
FOLHETIM: Os fatores externos
influenciaram essa burocratização?
TRAGTENBERG: Os motivos são inúmeros,
havendo articulação entre fatores externos e
internos. No plano externo, é impossível termos
uma universidade avançada num capitalismo super-retardatário
como o existente no Brasil. entre nós, o capitalismo
vem realizando seu processo de acumulação, utilizando
o Estado como força econômica e tendo como conseqüências
a repressão política efetuada pelo Estado; a
criação de organismos burocráticos especializados
nessa repressão; a intervenção nas associações
de classe e sindicatos; a formação de dois “conglomerados”
políticos – Arena e MDB – o primeiro no poder
e o segundo apenas como eterno aspirante; a
institucionalização da censura; a socialização
do medo, etc.
Tudo isso deu origem a um período
de decréscimo da participação popular nos processos
decisórios e fortaleceu a onipotência da burocracia
como agente qualificado do poder econômico,
que é exercido em nome da sociedade, mas em
benefício de alguns poucos. Nesse quadro, as
universidades – especialmente as recém-formadas
como a UNESP – tiveram seu comando entregue
àqueles que possuíam como título maior sua cumplicidade
com o poder, muito mais do que sua qualificação
científica.
No plano interno, a divisão dos docentes
em inúmeros escalões, por decretos do poder,
através de “reformas” que são verdadeiras “restaurações”,
o culto do “doutorismo” substituindo o “bacharelismo”,
constituíram fatores de transformação dos campi
universitários em cemitérios de esperanças perdidas.
No caso específico da UNESP, há outro elemento
a considerar: distribuída pelas cidades do interior
a instituição é vulnerável à politicagem local,
que interfere nas nomeações dos diretores de
suas unidades. Ainda estamos na época da enxada
e do coronelismo, sem o voto.
FOLHETIM: A burocratização afeta
a transmissão do conhecimento e a liberdade
de ensino?
TRAGTENBERG: Sem dúvida, mas é necessário
acentuar que nenhum campus universitário é uma
ilha. A falta de liberdade de associação e pensamento
na sociedade global torna inviável a liberdade
acadêmica. A hegemonia do serviço de segurança
na estrutura universitária socializa a insegurança.
Quando um operador de xerox da Universidade
do Rio Grande do Norte, em natal, envia ao serviço
de segurança da mesma e este ao MEC uma entrevista
publicada na revista IstoÉ sobre trabalho
médico, passando por cima do reitor, isso significa
que a liberdade está em sursis; quando
um ex-chefe de “segurança e informação” da Universidade
Federal do Paraná converte-se em seu reitor,
isso quer dizer que o regime da “incompetência
treinada” é o predominante.
O cancro que corrói a universidade
burocrática é que a escolha de seus dirigentes
se dá menos pela competência acadêmico-científica
e muito mais por sua cumplicidade com o poder.
Geralmente, eles sobem pelo elevador de serviço
(por serviços prestados ao poder) e não pelo
social (por serviços prestados à sociedade global).
É claro que a universidade burocratizada, onde
a função mais importante não é a produção de
conhecimentos, mas o controle sobre eles e as
pessoas, tende, no plano interno, à multiplicação
das “panelas burocráticas”. No tipo dessas “panelas”,
professores investidos do poder de coordenadores
de programas de graduação ou pós-graduação,
chefes de departamentos, institutos ou faculdades,
colocam seus colegas sob “estado de sítio”.
Estabelece-se na instituição universitária uma
certa “ditadura acadêmica” em que a dissensão
é punida com o ostracismo, onde a fofoca de
corredor age como retaliação do “excluído”.
FOLHETIM: Quais as conseqüências
para a qualidade de ensino e a orientação das
pesquisas?
TRAGTENBERG: As piores possíveis.
Hoje temos curso de pós-graduação, que não são
pós coisa alguma, na medida em que não houve
graduação. Eles se constituem em reciclagem
de uma graduação inexistente e também cumprem
outro papel requerido pelo sistema: manter a
maior parte do tempo possível na rede escolar
uma mão-de-obra potencial, que se fosse lançada
prematuramente no mercado constituiria um fato
de tensão social. A pós-graduação é a hibernação
de uma mão-de-obra que se encaminha para um
mercado saturado, para maior tranqüilidade dos
donos do poder. Num país onde o professor universitário
– como mostra Karl Popper em A sociedade
aberta e seus inimigos – perde seu posto
porque é tachado de “comunista”, falar em autonomia
universitária, liberdade acadêmica ou participação
chega a ser um escárnio. O que os mandarins
estatais e universitários não entenderam é que
a liberdade não é a submissão livremente consentida
a seus ditames; ela é a aceitação daqueles que
pensam de forma diferente, em termos estruturais
e não meramente ocasionais. Mesmo alguns professores
participam dessa visão de mandarins, porque
não percebem que não é o professor que ensina
e o aluno que aprende, mas que o grande educador
é a comunidade; por isso mesmo, o próprio educador
precisa ser educado.
Os
dirigentes da universidade são escolhidos por
serviços prestados ao Poder
FOLHETIM: Como combater nos vários
níveis os (eventuais) excessos ou malefícios
da burocracia?
TRAGTENBERG: Respondo com os argumentos
que Rosa Luxemburgo utilizou em sua polêmica
com Lenin: “sem eleições gerais, sem liberdade
ilimitada de imprensa e de reunião, sem a livre
luta entre as opiniões, a vida morre em todas
as instituições públicas, torna-se uma vida
aparente, onde resta a burocracia como único
elemento ativo” (A revolução russa). E claro
que a democracia, como qualquer forma participativa,
tem seus limites e defeitos; nesse contexto,
a liberdade é uma e indivisível e restringi-la
equivale a negá-la.
A burocracia nega a liberdade na
medida em que “organiza’ os professores e estudantes
por escalões (mestres, doutores, livres-docentes
ou alunos de graduação, pós-graduação ou especialização).
E uma das muitas manhas burocráticas para dividir
o subproletariado intelectual, o qual enfrenta
uma burocracia unida por seus interesses e prebendas,
que procura preservar e aumentar o seu poder.
A liberdade só é possível entre iguais,
socialmente falando; portanto, ela só é possível
quando se desvincula o saber do poder na sociedade
civil e na universidade. O saber do mestre é
a única condição de sua “autoridade”; o controle
burocrático dos alunos pelo sistema diferencial
de avaliação nas mãos do docente e pela freqüência
obrigatória constitui uma forma de autoritarismo.
A abolição do sistema de exames e da freqüência
obrigatória constituem os pré-requisitos da
democratização da universidade, assim como a
participação real e não simbólica dos alunos
nos órgãos colegiados.
À ditadura da cátedra ou do departamento
devemos opor a participação comunitária (estudantes
e professores) ma instituição, com iguais direitos
de influir nas decisões em todos os níveis.
Isso só se torna possível quando, na sociedade
global, a maioria dos assalariados tem liberdade
para se auto-organizar em seus locais de trabalho
ou em órgãos associativos de todo tipo; em suam,
quando aqueles que não têm voz conquistam o
direito de tomar a palavra.