Regimes, pessoas e instituições repressivas
precisam de bodes expiatórios, necessitam de vítimas
para expiar os crimes dos verdugos. Assim como o nazismo
tem seu "judeu", como estruturas familiares
rígidas necessitam do “louco” da família, regimes
autoritários investem contra as ciências sociais,
porque isso rende muitos dividendos: em nome da funcionalidade,
eficiência e objetividade se bajula o poder, mantém-se
o cargo e ao mesmo tempo se adquire respeitabilidade
nos ambientes palacianos, como alguém que é portador
de um saber legítimo e reconhecido. No caso nacional,
o papel de judeu do regime é atribuído às ciências
sociais, é a conclusão a que chegamos após termos
em mão o paper “A Área de Administração e a atuação
do Capes", de autoria do Cláudio de Moura e Castro.
Sua senhoria – participante convidado
pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo,
da FGV, para um seminário sobre o Ensino de Administração
– nota inicialmente que há um recrutamento pouco seletivo
da graduação com reflexo em sua aceitação pelo mercado
de trabalho, salientando que há uma cultura gerencial
brasileira a ser transmitida. Mas, enquanto o mercado
empresarial esvazia as escolas de professores de administração,
os professores
de economia, política, sociologia aumentam geometricamente.
Como remédio propõe o Método dos Casos, sistema de
jogos e história dos negócios nos cursos de administração;
para tanto o Capes está se propondo a implementar
uma política seletiva no oferecimento de suas bolsas
de estudo, limitando fortemente sua alocação para
elaboração para teses que sejam mais afetas a outras
áreas de conhecimentos afins (economia, sociologia
etc.).
Tal orientação tecnocrática não só
contraria postura já clássica a respeito – do Conselho
Federal de Educação (Parecer 307/66 C.E.SU publicado
em “Documenta” n. 56) – como a orientação dominante
no país onde se originaram os cursos sistemáticos
de administração, que serviram de parâmetros para
Europa e América Latina: EUA.
Em primeiro lugar, o CF no Parecer
citado define claramente, ao analisar as Diretrizes
para o Currículo Mínimo de Administração, que
“a estrutura administrativa constitui fundamentalmente
um problema político e jurídico e apenas secundariamente
um problema de organização formal” (pág. 63). Daí
a importância das Ciências Sociais que objetiva o
conhecimento sistemático dos fatos e condições institucionais
em que se insere o fenômeno administrativo (pág. 62).
Sem deixar de referir-se à experiência dos EUA, onde
o fato administrativo passou a traduzir as condições
políticas, sociais e econômicas muito mais que os
padrões formais de organização. Essa visão foi beneficiada
pelas tendências da sociologia e economia contemporâneas
(pág. 61).
Da mesma forma pensa o Prof. Frank
C. Pierson (The education of American Businessmen,
pág. 163, trabalho solicitado pela Carnégie Corporation
of New York). Pondera que deve o estudante ter a oportunidade
de transferir conhecimentos de caráter geral para
a área de administração. No mesmo sentido os profs.
Robert A. Gordon e James E. Howell, num estudo a pedido
da Ford Foundation Higher Education for Business,
na página 133, recomendam que para a formação de um
administrador numa sociedade democrática 40 a 50 %
das disciplinas dos currículos devem ter caráter geral
e não técnico. No mesmo sentido a American Assembly
of Collegiate Schools of Business (AACSB), que credencia
as escolas de administração nos EUA, adota como critério
de credenciamento que 40 a 50% das disciplinas ministradas
estejam vinculadas às ciências sociais. Tudo isso
mostra como nós brasileiros somos os últimos a saber
das primeiras coisas. quando os EUA abandonam o ensino
pago pelo ensino subsidiado, descobrimos que a ampliação
do ensino equivale à democratização do mesmo; quando
os EUA abandonam a estreiteza da visão tecnocrática
instrumental e empírica do ensino de administração,
fundando seus currículos nas ciências sociais, descobrimos
as virtudes de saber cada vez mais menos coisas e
exorcizar as ciências sociais como o demônio. Isso
se deve realmente ao baixo nível de institucionalização
das ciências sociais no continente. Se na Argentina
a psicanálise está proibida, não é de admirar que
no Brasil as ciências sociais estejam na mira de outro
órgão financiador de pesquisa – Finep –, que pretende
financiar pesquisas ligadas diretamente á indústria,
portanto financiar tecnologia, deixando de lado o
financiamento da pesquisa nas universidades onde se
faz ciência básica. Tudo isso mostra de que maneira
o subdesenvolvimento material gera o subdesenvolvimento
mental.
Assim, por exemplo, a pesquisa “Pequena
e Média Empresa de São Paulo”, coordenada pelo Prof.
Rattner da FGV e publicada pela Ed. Símbolo, jamais
viria à luz, eis que contou com sociólogos, especialistas
em ciência política, finanças e economia política
para ser implementado.
Sem dúvida que o estudo de Casos
em administração ou os jogos administrativos auxiliam
o aluno a ter uma visão da empresa, porém, de que
valem se o mesmo, não dispondo de conhecimentos que
a economia, sociologia, política fornecem, não tem
um universo conceitual para interpretar os fatos,
para compreendê-los? Já dizia o velho e sempre atual
Machado de Assis, que o “fato é importante, porém,
mais importante é a retina”. Em outras palavras, possuir
uma metodologia – que não pode ser confundida com
técnica – para interpretar o fato. Não sucumbir à
ditadura do fato pregada por Auguste Comte. Contrariamente
a ele e ao positivismo, as ciências sociais, especialmente
nas suas orientações críticas, enfatizam que contra
o fato há argumento. Em última análise, o privilegiamento
de projetos tecnocráticos na área da administração,
excluídas as ciências sociais, não tendem a formar
um homem apto a viver numa democracia. Tende a formar
tecnocratas e burocratas empedernidos, contra os quais
Max Weber lutava em sua época, classificando-os
como “técnicos sem alma” e “especialistas sem
coração”. Em outros termos, uma ciência sem consciência
ou, no melhor dos casos, uma tecnologia que pretende
se apresentar como ciência.É isso que aqueles que
não pensam com os pés precisam evitar. Daí a comunidade
acadêmica estar com a palavra.