Por MAURÍCIO TRAGTENBERG
Textos Político-Pedagógicos - In Memoriam


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Ciências Sociais na mira do Capes

Maurício Tragtenberg*

 

Regimes, pessoas e instituições repressivas precisam de bodes expiatórios, necessitam de vítimas para expiar os crimes dos verdugos. Assim como o nazismo tem seu "judeu", como estruturas familiares rígidas necessitam do “louco” da família, regimes autoritários investem contra as ciências sociais, porque isso rende muitos dividendos: em nome da funcionalidade, eficiência e objetividade se bajula o poder, mantém-se o cargo e ao mesmo tempo se adquire respeitabilidade nos ambientes palacianos, como alguém que é portador de um saber legítimo e reconhecido. No caso nacional, o papel de judeu do regime é atribuído às ciências sociais, é a conclusão a que chegamos após termos em mão o paper “A Área de Administração e a atuação do Capes", de autoria do Cláudio de Moura e Castro.

Sua senhoria – participante convidado pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV, para um seminário sobre o Ensino de Administração – nota inicialmente que há um recrutamento pouco seletivo da graduação com reflexo em sua aceitação pelo mercado de trabalho, salientando que há uma cultura gerencial brasileira a ser transmitida. Mas, enquanto o mercado empresarial esvazia as escolas de professores de administração, os  professores de economia, política, sociologia aumentam geometricamente. Como remédio propõe o Método dos Casos, sistema de jogos e história dos negócios nos cursos de administração; para tanto o Capes está se propondo a implementar uma política seletiva no oferecimento de suas bolsas de estudo, limitando fortemente sua alocação para elaboração para teses que sejam mais afetas a outras áreas de conhecimentos afins (economia, sociologia etc.).

Tal orientação tecnocrática não só contraria postura já clássica a respeito – do Conselho Federal de Educação (Parecer 307/66 C.E.SU publicado em “Documenta” n. 56) – como a orientação dominante no país onde se originaram os cursos sistemáticos de administração, que serviram de parâmetros para Europa e América Latina: EUA.

Em primeiro lugar, o CF no Parecer citado define claramente, ao analisar as Diretrizes para o Currículo Mínimo de Administração, que  “a estrutura administrativa constitui fundamentalmente um problema político e jurídico e apenas secundariamente um problema de organização formal” (pág. 63). Daí a importância das Ciências Sociais que objetiva o conhecimento sistemático dos fatos e condições institucionais em que se insere o fenômeno administrativo (pág. 62). Sem deixar de referir-se à experiência dos EUA, onde o fato administrativo passou a traduzir as condições políticas, sociais e econômicas muito mais que os padrões formais de organização. Essa visão foi beneficiada pelas tendências da sociologia e economia contemporâneas (pág. 61).

Da mesma forma pensa o Prof. Frank C. Pierson (The education of American Businessmen, pág. 163, trabalho solicitado pela Carnégie Corporation of New York). Pondera que deve o estudante ter a oportunidade de transferir conhecimentos de caráter geral para a área de administração. No mesmo sentido os profs. Robert A. Gordon e James E. Howell, num estudo a pedido da Ford Foundation Higher Education for Business, na página 133, recomendam que para a formação de um administrador numa sociedade democrática 40 a 50 % das disciplinas dos currículos devem ter caráter geral e não técnico. No mesmo sentido a American Assembly of Collegiate Schools of Business (AACSB), que credencia as escolas de administração nos EUA, adota como critério de credenciamento que 40 a 50% das disciplinas ministradas estejam vinculadas às ciências sociais. Tudo isso mostra como nós brasileiros somos os últimos a saber das primeiras coisas. quando os EUA abandonam o ensino pago pelo ensino subsidiado, descobrimos que a ampliação do ensino equivale à democratização do mesmo; quando os EUA abandonam a estreiteza da visão tecnocrática instrumental e empírica do ensino de administração, fundando seus currículos nas ciências sociais, descobrimos as virtudes de saber cada vez mais menos coisas e exorcizar as ciências sociais como o demônio. Isso se deve realmente ao baixo nível de institucionalização das ciências sociais no continente. Se na Argentina a psicanálise está proibida, não é de admirar que no Brasil as ciências sociais estejam na mira de outro órgão financiador de pesquisa – Finep –, que pretende financiar pesquisas ligadas diretamente á indústria, portanto financiar tecnologia, deixando de lado o financiamento da pesquisa nas universidades onde se faz ciência básica. Tudo isso mostra de que maneira o subdesenvolvimento material gera o subdesenvolvimento mental.

Assim, por exemplo, a pesquisa “Pequena e Média Empresa de São Paulo”, coordenada pelo Prof. Rattner da FGV e publicada pela Ed. Símbolo, jamais viria à luz, eis que contou com sociólogos, especialistas em ciência política, finanças e economia política para ser implementado.

Sem dúvida que o estudo de Casos em administração ou os jogos administrativos auxiliam o aluno a ter uma visão da empresa, porém, de que valem se o mesmo, não dispondo de conhecimentos que a economia, sociologia, política fornecem, não tem um universo conceitual para interpretar os fatos, para compreendê-los? Já dizia o velho e sempre atual Machado de Assis, que o “fato é importante, porém, mais importante é a retina”. Em outras palavras, possuir uma metodologia – que não pode ser confundida com técnica – para interpretar o fato. Não sucumbir à ditadura do fato pregada por Auguste Comte. Contrariamente a ele e ao positivismo, as ciências sociais, especialmente nas suas orientações críticas, enfatizam que contra o fato há argumento. Em última análise, o privilegiamento de projetos tecnocráticos na área da administração, excluídas as ciências sociais, não tendem a formar um homem apto a viver numa democracia. Tende a formar tecnocratas e burocratas empedernidos, contra os quais Max Weber lutava em sua época, classificando-os  como “técnicos sem alma” e “especialistas sem coração”. Em outros termos, uma ciência sem consciência ou, no melhor dos casos, uma tecnologia que pretende se apresentar como ciência.É isso que aqueles que não pensam com os pés precisam evitar. Daí a comunidade acadêmica estar com a palavra.



* Maurício Tragtenberg é professor do Departamento de Ciências Sociais da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas e da Unicamp. Autor de “Burocracia e Ideologia” e “Administração, Poder e Ideologia”.

 

MAURÍCIO TRAGTENBERG

Fonte: Folha de S. Paulo, 08.06.1981    

 


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