Sigmund
Freud
O trabalho psicanalítico nos mostrou
que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas
que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar.
O neurótico cria, em seus sintomas, satisfações substitutivas
para si, e estas ou lhe causam sofrimento em si próprias,
ou se lhe tornam fontes de sofrimento pela criação de
dificuldades em seus relacionamentos com o meio ambiente
e a sociedade a que pertence. Esse último fato é fácil
de compreender; o primeiro nos apresenta um novo problema.
A civilização, porém, exige outros sacrifícios, além do
da satisfação sexual.
Abordamos a dificuldade do desenvolvimento
cultural como sendo uma dificuldade geral de desenvolvimento,
fazendo sua origem remontar à inércia da libido, à falta
de inclinação desta para abandonar uma posição antiga
por outra nova. Dizemos quase a mesma coisa quando
fazemos a antítese entre a civilização e sexualidade derivar
da circunstância de o amor sexual constituir um relacionamento
entre dois indivíduos, no qual um terceiro só pode ser
supérfluo ou perturbador, ao passo que a civilização depende
de relacionamento entre um considerável número de indivíduos.
Quando um relacionamento amoroso se encontra em seu auge,
não resta lugar para qualquer outro interesse pelo ambiente;
um casal de amantes se basta a si mesmo; sequer necessitam
do filho que têm em comum para torná-los felizes. Em nenhum
outro caso Eros revela tão claramente o âmago do seu ser,
o seu intuito de, de mais de um, fazer um único; contudo,
quando alcança isso da maneira proverbial, ou seja, através
do amor de dois seres humanos, recusa-se a ir além.
Até aqui, podemos imaginar perfeitamente
uma comunidade cultural que consista em indivíduos duplos
como este, que, libidinalmente satisfeitos em si mesmos,
se vinculem uns aos outros através dos elos do trabalho
comum e dos interesses comuns. Se assim fosse, a civilização
não teria que extrair energia alguma da sexualidade. Contudo,
esse desejável estado de coisas não existe, nem nunca
existiu. A realidade nos mostra que a civilização não
se contenta com as ligações que até agora lhe concedemos.
Visa a unir entre si os membros da comunidade também de
maneira libidinal e, para tanto, emprega todos os meios,
favorece todos os caminhos pelos quais as identificações
fortes possam ser estabelecidas entre os membros da comunidade
e, na mais ampla escala, convoca a libido inibida em sua
finalidade, de modo a fortalecer o vínculo comunal através
das relações de amizade. Para que esses objetivos sejam
realizados, faz-se inevitável uma restrição à vida sexual.
Não conseguimos, porém, entender qual necessidade força
a civilização a tomar esse caminho, necessidade que provoca
o seu antagonismo à sexualidade. Deve haver algum fator
de perturbação que ainda não descobrimos.
A pista pode ser fornecida por
uma das exigências ideais, tal como as denominamos, da sociedade civilizada. Diz ela: ‘Amarás
a teu próximo como a ti mesmo.’ Essa exigência, conhecida
em todo o mundo, é, indubitavelmente, mais antiga que
o cristianismo, que a apresenta como sua reivindicação
mais gloriosa. No entanto, ela não é decerto excessivamente
antiga; mesmo já em tempos históricos, ainda era estranha
à humanidade. Se adotarmos uma atitude ingênua para com
ela, como se a estivéssemos ouvindo pela primeira vez,
não poderemos reprimir um sentimento de surpresa e perplexidade.
Por que deveremos agir desse modo? Que bem isso nos trará?
Acima de tudo, como conseguiremos agir desse modo? Como
isso pode ser possível? Meu amor, para mim, é algo de
valioso, que eu não devo jogar sem reflexão. A máxima
me impõe deveres para cujo cumprimento devo estar preparado
e disposto a efetuar sacrifícios. Se amo uma pessoa, ela
tem de merecer meu amor de alguma maneira. (Não estou
levando em consideração o uso que dela posso fazer, nem
sua possível significação para mim como objeto sexual,
uma vez que nenhum desses dois tipos de relacionamento
entra em questão onde o preceito de amar seu próximo se
acha em jogo.) Ela merecerá meu amor, se for de tal modo
semelhante a mim, em aspectos importantes, que eu me possa
amar nela; merecê-lo-á também, se for de tal modo mais
perfeita do que eu, que nela eu possa amar meu ideal de
meu próprio eu (self). Terei ainda de amá-la, se
for o filho de meu amigo, já que o sofrimento que este
sentiria se algum dano lhe ocorresse seria meu sofrimento
também – eu teria de partilha-lo. Mas, se essa pessoa
for um estranho para mim e não conseguir atrair-me por
um de seus próprios valores, ou por qualquer significação
que já possa ter adquirido para a minha vida emocional,
me será muito difícil amá-la. Na verdade, eu estaria errado
agindo assim, pois meu amor é valorizado por todos os
meus como um sinal de minha preferência por eles, e seria
injusto para com eles, colocar um estranho no mesmo plano
em que eles estão. Se, no entanto, devo amá-lo (com esse
amor universal) meramente porque ele também é um habitante
da terra, assim como o são um inseto, uma minhoca ou uma
serpente, receio então que só uma quantidade de meu amor
caberá à sua parte – e não, em hipótese alguma, tanto
quanto, pelo julgamento de minha razão, tenho o direito
de reter para mim. Qual é o sentido de um preceito enunciado
com tanta solenidade, se seu cumprimento não pode ser
recomendado como razoável?
Através de um exame mais detalhado,
descubro ainda outras dificuldades. Não meramente esse
estranho , em geral, indigno de meu amor; honestamente,
tenho de confessar que ele possui mais direito de minha
hostilidade e, até mesmo, meu ódio. Não parece apresentar
o mais leve traço de amor por mim e não demonstra a mínima
consideração para comigo. Se disso ele puder auferir uma
vantagem qualquer, não hesitará em me prejudicar; tampouco
pergunta a si mesmo se a vantagem assim obtida contam
alguma proporção com a extensão do dano que causa em mim.
Na verdade, não precisa nem mesmo auferir alguma vantagem.
Se puder satisfazer qualquer tipo de desejo com isso,
não se importará em escarnecer de mim, em me insultar,
me caluniar e me mostrar a superioridade de seu poder;
e, quanto mais seguro se sentir e mais desamparado eu
for, mais, com certeza, posso esperar que se comporte
dessa maneira para comigo. Caso se conduza de modo diferente,
caso mostre consideração e tolerância como um estranho,
estou pronto a trata-lo da mesma forma, em todo e qualquer
caso e inteiramente fora de todo e qualquer preceito.
Na verdade, se aquele imponente mandamento dissesse ‘Ama
a seu próximo como este te ama’, eu não lhe faria objeções.
E há um segundo mandamento que me parece mais incompreensível
ainda e que desperta em mim uma oposição mais forte ainda.
Trata-se do mandamento ‘Ama os teus inimigos’. Refletindo
sobre ele, no entanto, percebo que estou errado em considerá-lo
com uma oposição maior. no fundo, é a mesma cosa.
Acho que agora posso ouvir uma
voz solene me repreendendo: ‘É precisamente porque teu
próximo não é digno de amor, mas, pelo contrário, é teu
inimigo, que deves amá-lo como a ti mesmo’. Compreendo
então que se trata de um caso semelhante ao do Credo
quia absurdum.
Ora, é muito provável que meu próximo,
quando lhe for prescrito que me ame como a si mesmo, responda
exatamente como o fiz e me rejeite pelas mesmas razões.
Espero que tenha os mesmos fundamentos objetivos para
fazê-lo, mas terá a mesma idéia que tenho. Ainda assim,
o comportamento dos seres humanos apresenta diferenças
que a ética, desprezando o fato de que tais diferenças
são determinadas, classifica como ‘boas’ ou ‘más’. Enquanto
essas inegáveis diferenças não forem removidas, a obediência
às elevadas exigências éticas acarreta prejuízos aos objetivos
da civilização, por incentivar o ser mau. Não podemos
deixar de lembrar um incidente ocorrido na câmara dos
deputados francesa, quando a pena capital estava em debate.
Um dos membros acabara de defender apaixonadamente a abolição
dela e seu discurso estava sendo recebido com tumultuosos
aplausos, quando uma voz vinda do plenário exclamou: ‘Que
messieurs les assassins commencent!’
O elemento de verdade por trás
disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas
a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que
desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se
quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos
dotes instintivos deve-se levar em conta uma poderosa
quota de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo
é, para eles, não apenas um ajudante potencial ou um objeto
sexual, mas também alguém que os tenta a satisfazer sobre
ele a sua agressividade, a explorar sua capacidade de
trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem o
seu consentimento, apoderar-se de suas posses, humilhá-lo,
causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Homo homini
lupus. Quem, em face de toda sua experiência
da vida e da história, terá a coragem de discutir essa
asserção? Via de regra, essa cruel agressividade espera
por alguma provocação, ou se coloca a serviço de algum
outro intuito, cujo objetivo também poderia ter sido alcançado
por medidas mais brandas. Em circunstâncias que lhe são
favoráveis, quando as forças mentais contrárias que normalmente
a inibem se encontram fora de ação, ela também se manifesta
espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem,
a quem a consideração para com sua própria espécie é algo
estranho. Quem quer que relembre as atrocidades cometidas
durante as imigrações raciais ou as invasões dos hunos,
ou pelos povos conhecidos como mongóis sob a chefia de
Gengis Khan e Tamerlão, ou na captura de Jerusalém pelos
piedosos cruzados, ou mesmo, na verdade, os horrores da
recente guerra mundial, quem quer que relembre tais coisas
terá de se curvar humildemente ante a verdade dessa opinião.
A existência da inclinação para
a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor
com justiça que ela está presente nos outros, constitui
o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso
próximo e força a civilização a um tão elevado dispêndio
[de energia]. Em conseqüência dessa mútua hostilidade
primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se
vê permanente ameaçada de desintegração. O interesse pelo
trabalho em comum não a manteria unida; as paixões instintivas
são mais fortes que os interesses razoáveis. A civilização
tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer
limites para os instintos agressivos do homem e manter
suas manifestações sob o controle por formações psíquicas
reativas. Daí, portanto, o emprego de métodos destinados
a incitar as pessoas a identificação e relacionamentos
amorosos inibidos em sua finalidade, daí a restrição à
vida sexual e daí, também, o mandamento ideal de amar
ao próximo como a si mesmo, mandamento que é realmente
justificado pelo fato de nada mais ir tão fortemente contra
a natureza original do homem. A despeito de todos os esforços,
esses empenhos da civilização até hoje não conseguiram
muito. Espera-se impedir os excessos mais grosseiros da
violência brutal por si mesma, supondo-se o direito de
usar a violência contra os criminosos; no entanto, a lei
não é capaz de deitar a mão sobre as manifestações mais
cautelosas e refinadas da agressividade humana. Chega
a hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo
ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em
seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimento
foram acrescentados à sua vida pela má vontade deles.
Ao mesmo tempo, seria injusto censurar a civilização por
tentar eliminar da atividade humana a luta e a competição.
Elas são indubitavelmente indispensáveis. Mas oposição
não é necessariamente inimizade; simplesmente, ela é mal
empregada e tornada uma ocasião para a inimizade.
Os comunistas acreditam ter descoberto
o caminho para nos livrar de nossos males. Segundo eles,
o homem é inteiramente bom e bem disposto para com seu
próximo, mas a instituição da propriedade privada corrompeu-lhe
a natureza. A propriedade da riqueza privada confere poder
ao indivíduo e, com ele, a tentação de maltratar o próximo,
ao passo que o homem excluído da posse está fadado a se
rebelar hostilmente contra seu opressor. Se a propriedade
privada fosse abolida, possuída em comum toda a riqueza
e permitida a todos a partilha de sua fruição, a má vontade
e a hostilidade desapareceriam entre os homens. Como as
necessidades de todos seriam satisfeitas, ninguém teria
razão alguma para encarar outrem como inimigo; todos de
boa vontade, empreenderiam o trabalho que se fizesse necessário.
Não estou interessado em nenhuma crítica econômica do
sistema comunista; não posso investigar se a abolição
da propriedade privada é conveniente ou vantajosa. Mas sou capaz de reconhecer que as
premissas psicológicas em que o sistema se baseia são
uma ilusão insustentável. Abolindo a propriedade privada,
privamos o amor humano da agressão de um de seus instrumentos,
de certo forte, embora, decerto também, não o mais forte;
de maneira alguma, porém, alteramos, as diferenças em
poder e influência que são mal empregadas pela agressividade,
nem tampouco alteramos nada em sua natureza. A agressividade
não foi criada pela propriedade. Reinou quase sem limites
nos tempos primitivos, quando a propriedade ainda era
muito escassa, e já se apresenta no quarto das crianças,
quase antes que a propriedade tenha abandonado sua forma
anal e primária; constitui a base de toda relação de afeto
e amor entre pessoas (com a única exceção, talvez, do
relacionamento da mãe com seu filho homem). Se eliminamos os direitos pessoais
sobre a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos
relacionamentos sexuais, prerrogativas fadadas a se tornarem
a fonte de mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade
entre homens que, sob outros aspectos, se encontram em
pé de igualdade. Se também removemos esse fator, permitindo
a liberdade completa da vida sexual, e assim abolirmos
a família, célula germinal da civilização, não podemos,
é verdade, prever com facilidade quais os novos caminhos
que o desenvolvimento da civilização vai tomar; uma coisa,
porém, podemos esperar: é que, nesse caso, essa característica
indestrutível da natureza humana seguirá a civilização.
Evidentemente, não é fácil aos
homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a
agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis. A
vantagem que um grupo cultural, comparativamente pequeno,
oferece concedendo a esse instinto um escoadouro sob a
forma de hostilidade contra intrusos, não é nada desprezível.
É sempre possível unir um considerável número de pessoas
no amor, enquanto sobrarem outras pessoas para receberem
as manifestações de sua agressividade. Em outra ocasião,
examinei o fenômeno no qual são precisamente comunidades
com territórios adjacentes, e mutuamente relacionadas
também sob outros aspectos, que se empenhem em rixas constantes
ridicularizando-se umas às outras, como os espanhóis e
os portugueses, por exemplo, os alemães do Norte e os
alemães do Sul, os ingleses e os escoceses, e assim por
diante. Dei a esse fenômeno o nome de ‘narcisismo
de poucas diferenças’, denominação que não ajuda muito
a explicá-lo. Agora podemos ver que se trata de uma satisfação
conveniente e relativamente inócua da inclinação para
a agressão, através da qual a coesão entre os membros
da comunidade é tornada mais fácil. Com respeito a isso,
o povo judeu, espalhado por toda a parte, prestou os mais
úteis serviços às civilizações dos países que os acolheram;
infelizmente, porém todos os massacres de judeus na Idade
Média não bastaram para tornar o período mais pacífico
e mais seguro para seus semelhantes cristãos. Quando,
outrora, o Apóstolo Paulo postulou o amor universal entre
os homens como o fundamento de sua comunidade cristã,
uma extrema intolerância por parte da cristandade para
com os permaneceram fora dela tornou-se uma conseqüência
inevitável. Para os romanos, que não fundaram no amor
sua vida comunal como estado, a intolerância religiosa
era algo estranho, embora, entre eles, a religião fosse
do interesse do Estado e este se achasse impregnado dela.
Tampouco constituiu uma possibilidade inexeqüível que
o sonho de um domínio mundial germânico exigisse o anti-semitismo
como seu complemento, sendo, portanto, compreensível que
a tentativa de estabelecer uma civilização nova e comunista
na Rússia encontre o seu apoio psicológico na perseguição
aos burgueses. Não se pode senão imaginar, com preocupação,
sobre o que farão os soviéticos depois que tiverem eliminado
seus burgueses.
Se a civilização impõe sacrifícios
tão grandes, não apenas à sexualidade do homem, mas também
à sua agressividade, podemos compreender melhor porque
lhe é difícil ser feliz nessa civilização. Na realidade,
o homem primitivo se achava em situação melhor, sem conhecer
restrições de instintos. Em contrapartida, suas perspectivas
de desfrutar dessa felicidade, por qualquer período de
tempo, eram muito tênues. O homem civilizado trocou uma
parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela
de segurança. Não devemos esquecer, contudo, que na família
primeva apenas o chefe desfrutava da liberdade instintiva;
o resto vivia em opressão servil. Naquele período primitivo
da civilização, o contraste entre uma minoria que gozava
das vantagens da civilização e uma minoria privada dessas
vantagens era, portanto, levado a seus extremos. Quanto
aos povos primitivos que ainda hoje existem, pesquisas
cuidadosas mostraram que sua vida instintiva não é, de
maneira alguma, passível de ser invejada por causa de
sua liberdade. Está sujeita a restrições de outra espécie,
talvez mais severas do que aquelas que dizem respeito
ao homem moderno.
Quando, com toda justiça, consideramos
falho o presente estado de nossa civilização, por atender
de forma tão inadequada às nossas exigências de um plano
de vida que nos torne felizes, e por permitir a existência
de tanto sofrimento, que provavelmente poderia ser evitado;
quando, com crítica impiedosa, tentamos pôr à mostra as
raízes de sua imperfeição, estamos indubitavelmente exercendo
um direito justo, e não nos mostrando inimigos da civilização.
Podemos esperar efetuar, gradativamente, em nossa civilização
alterações tais, que satisfaçam melhor nossas necessidades
e escapam a nossas críticas. Mas talvez possamos também
nos familiarizar com a idéia de existirem dificuldades,
ligadas à natureza da civilização, que não se submeterão
a qualquer tentativa de reforma. Além e acima das tarefas
de restringir os instintos, para as quais estamos preparados,
reivindica nossa atenção o perigo de um estado de coisas
que poderia ser chamado de ‘pobreza psicológica dos grupos’. Esse perigo é mais ameaçador onde os
vínculos de uma sociedade são principalmente constituídos
pelas identificações dos seus membros uns com os outros,
enquanto que indivíduos do tipo de um líder não adquirem
a importância que lhes deveria caber na formação de um
grupo. O presente estado cultural dos Estados
Unidos da América nos proporcionaria uma boa oportunidade
para estudar o prejuízo à civilização, que assim é de
se temer. Evitarei, porém, a tentação de ingressar numa
crítica da civilização americana; não desejo dar a impressão
de que eu mesmo estou empregando métodos americanos.