Sem dúvida, mas não se deve fazê-la cumprir objetivos que não
são os seus.
O processo de desenvolvimento, até porque o Brasil não se classifica
de outro modo a não ser como “país em desenvolvimento”,
constitui verdadeira obsessão nacional, desde o
início da era Vargas pelo menos, quando nos descobrimos
“subdesenvolvidos” ou de toda forma dotados de poucas
condições para disputar posições de poder e prestígio
com as potências militares e econômicas que davam
(e continuam dando) as cartas no sistema internacional.
Essa noção está em parte associada ao conceito de
“poder nacional”, que tem conhecidas e notórias
manifestações militares que, em outras épocas, já
denotaram uma pouco saudável inclinação pela aquisição,
em curto prazo, dos meios elementares de afirmação
nacional – poder militar, tout court – em
detrimento da mais consistente formação educacional
da população (cujos resultados são mais lentos).
Essa sensação de “inferioridade” no plano internacional tem
motivado as várias elites que ocuparam posições
de comando no país nas últimas décadas a buscar
o atalho cômodo ou a via rápida em direção ao “Santo
Graal” do desenvolvimento econômico, tido como condição
indispensável – e ele certamente o é – para a afirmação
do Brasil no chamado concerto de nações. Trata-se
não apenas do passaporte para a modernidade – e
o Brasil sempre foi receptivo às “modas” estrangeiras,
identificadas com o padrão dito moderno de civilização
– mas também do remédio milagre para algumas de
nossas taras mais persistentes, como os baixos padrões
de civilidade, de respeito aos direitos humanos
e a anomia relativa das instituições públicas.
Daí decorre, infelizmente ao meu ver, uma tendência quase secular
a tentar buscar no estrangeiro as raízes explicativas
e as soluções prontas aos nossos velhos problemas
de subdesenvolvimento (sem dúvida alguma material,
mas também institucional e de certa forma “mental”),
como se ele pudesse ser equacionado dispensando-se
suas fontes e tratamento domésticos. Essa inclinação
é notoriamente mais manifesta na área do financiamento
público – tradicionalmente voltado para a contratação
de empréstimos externos, em lugar de um esforço
correspondente, até compreensível em virtude de
conhecidas limitações, em direção da poupança nacional
– mas ela também comparece em outras áreas de organização
do Estado e da própria sociedade.
No terreno que nos concerne mais de perto, é até natural que
o Brasil seja pensado e “diagnosticado” com base
em comparações implícitas e até mesmo explícitas
com outros países do sistema internacional, uma
vez que a diplomacia representa o campo objetivo
da interface externa da Nação. Os instrumentos conceituais
da diplomacia não são diferentes daqueles utilizados
nas ciências humanas de modo geral, fortemente embasados
nas analogias e nas comparações entre processos
dinâmicos ou estados de situação das unidades de
análise, neste caso os Estados soberanos (ou mesmo
os sistemas econômicos nacionais ou dos esquemas
de integração).
Como o Brasil importou, até bem recentemente, o essencial de
sua teoria social e das metodologias científicas
que são consumidas ou utilizadas nos establishments
universitários, parece também “normal” que muito
da conceitualização explicativa do “subdesenvolvimento”
existente se faça com base nesses instrumentos e
modelos explicativos estrangeiros. Afinal de contas,
é muito mais “chic” e refinado analisar uma prosaica
figura humana da paisagem nacional – digamos um
rústico garimpeiro de selvas pouco devassadas –
com um ferramental analítico extraído diretamente
de Foucault do que se desgastar numa pesquisa de
terreno ou na leitura de carcomidos papéis de algum
arquivo público. Mas, ainda que aos trancos e barrancos,
a “substituição de importações” também se fez no
campo das ciências sociais, e o Brasil estaria hoje
em condições de pensar os atos e fatos de seu subdesenvolvimento
com base numa análise própria de sua situação atual
– e suas raízes estruturais –, não a partir de um
reflexo mimético do que se pensa constituir as razões
aparentes do sucesso de outros povos e sociedades.
Em mais de uma ocasião, nas últimas décadas e épocas de “desenvolvimentismo
galopante”, já se ouviu que a diplomacia brasileira
também deveria participar do processo de desenvolvimento
do País, trazendo reflexões ou mesmo contribuindo
diretamente com esse esforço a partir de sua atuação
no exterior. Certamente que uma das mais nobres
– e não menos pragmáticas – funções da diplomacia
(ao lado das atribuições tradicionais da informação,
representação e negociação) vem a ser a mobilização
de recursos externos para as tarefas internas de
aumento do bem-estar nacional: abertura de novos
mercados aos produtos nacionais, identificação de
tecnologias apropriadas às nossas características
produtivas, captação de investimentos diretos, melhoria
das condições de financiamento externo, intensificação
da cooperação técnica e científica, enfim, estimulo
geral a todo e qualquer tipo de intercâmbio que
contribua com o tão esperado objetivo da promoção
do desenvolvimento econômico e social do País.
Isso de certa forma vem sendo feito, praticamente desde o surgimento
do Estado independente, como já tive a ocasião de
explicitar em meu trabalho de pesquisa histórica
Formação da Diplomacia Econômica no Brasil (São
Paulo-Brasília: Funag-Senac, 2001). O que porém
se pretende, quando se coloca o objetivo “desenvolvimentista”
também para a diplomacia, é engajá-la mais diretamente
na tarefa de encontrar aquele “atalho cômodo” ou
aquela “via rápida” em direção ao “Santo Graal”
do desenvolvimento econômico, o que pode parecer
razoável do ponto de vista do senso comum, mas correndo
aqui o risco de incorrer em pelo menos duas disfunções,
uma analítica, outra processual.
A distorção analítica consistiria em atribuir à diplomacia
o encargo de “definir”, dentre o emaranhado de experiências
nacionais de desenvolvimento econômico – sempre
excepcionais e únicas do ponto de vista do processo
histórico, não custa relembrar –, as “receitas”
mais apropriadas às características nacionais para
serem “transplantadas” ou pelo menos aproveitadas
nos esforços domésticos com essa intenção. Em alguns
casos chega-se até mesmo a falar de um “modelo”
qualquer de desenvolvimento, assim como o Brasil
da fase do “milagre” – em plena era militar – também
já serviu de modelo ou de receita para alguns países
asiáticos que ainda não tinham começado sua arrancada
industrializadora. Passemos por cima, nesta análise
forçosamente rápida, do fato de que tais modelos
são simplesmente “irreprodutíveis”, na medida em
que representam uma espécie de consolidação teórica,
a posteriori e necessariamente generalista,
de algo que deu certo em algum lugar, em condições
talvez excepcionais, não sendo portanto suscetíveis
de constituir um guia para a administração de um
outro processo nacional, em outras circunstâncias
e outra época.
Como esses modelos ou receitas isolam um ou dois fatores ditos
“causacionais”, na ausência efetiva ou na impossibilidade
prática de ser capturado ou reproduzido todo o contexto
ambiental daquele processo específico de desenvolvimento,
corre-se o risco de apontar soluções (aparentemente)
“certas” para situações e épocas erradas, ou pelo
menos não correspondentes às reais necessidades
da sociedade receptora. Nessas condições, considero
que atribuir à diplomacia a tarefa de “pensar” o
processo de desenvolvimento nacional pode ser tão
inócuo como nocivo à condução independente desse
processo no Brasil, na medida em que ela poderia
estar induzindo à adoção de políticas ineficientes
ou desadaptadas ao contexto nacional.
Do ponto de vista processual, por outro lado, não se pode pedir
à diplomacia mais do que ela está normalmente habilitada
a fazer, ou seja, defender os interesses nacionais
em função de diretrizes claras, que normalmente
são estabelecidas pelo poder político. Seus métodos
e técnicas são conhecidos e operados com razoável
maestria pelos “técnicos” encarregados institucionalmente
dessa área especializada da ação estatal, para tanto
treinados e pagos pela coletividade. Em outros termos,
seus servidores estão preparados para o exercício
de um conjunto de funções “técnicas”, típicas da
função diplomática, não necessariamente para outras,
de caráter mais geral (ou de public policy)
que têm mais a ver com o ambiente macroeconômico
governamental, como pode ser a definição e a implementação
de um projeto nacional de desenvolvimento.
Não existe, em princípio, nenhuma objeção a que diplomatas
participem, como simples cidadãos ou mesmo como
burocratas do Estado, da concepção, da formulação
e da implementação de um projeto de desenvolvimento nacional – alternativo
ao existente, ou inexistente, na prática – mas deve-se
ter uma consciência clara quanto aos limites e possibilidades
desse tipo de exercício. Eles estão habilitados,
por exemplo, a contribuir com seu conhecimento especializado
para a superação de algumas barreiras ao acesso
a mercados externos dos produtos brasileiros de
exportação, desde que sejam dadas as condições para
tanto – como a participação em negociações bilaterais,
regionais ou multilaterais –, reduzindo assim uma
das fontes reconhecidas de vulnerabilidade externa
da economia brasileira.
Mas, como geralmente esse
tipo de negociação (ou de “barganha”) implica reciprocidade
de benefícios e concessões, a contrapartida necessita
ser medida em função dos demais objetivos da política
econômica externa – atração de investimentos, por
exemplo, ou a definição de um mix preciso
de insumos internos e externos em políticas setoriais
– ou mesmo dos outros objetivos da política econômica
nacional – como a distribuição de renda, hipoteticamente
–, algo que nem sempre os diplomatas estão habilitados
a fazer. Não que eles estejam estruturalmente impossibilitados
de cumprir tal tipo de demanda, mas é que ela precisa
ser colocada no contexto próprio de formulação de
políticas nacionais, não no ambiente mais especializado
da política externa e da diplomacia profissional.
Como se vê, não existem respostas simples aos problemas de
desenvolvimento e, sobretudo, essas respostas não
são dadas, basicamente, pelo meio ambiente internacional,
terreno próprio de atuação da diplomacia. Todo processo
de desenvolvimento depende, essencialmente, de uma
conjunção de esforços nacionais e ele só se sustenta
a partir de bases propriamente nacionais, todo e
qualquer impulso externo sendo meramente adicional
e complementar ao ambiente doméstico. Assim como
as raízes de nossos problemas não se encontram no
plano externo, as soluções tampouco devem ser buscadas
no contexto internacional. Dito isto, o diplomata
tem um grande papel a cumprir na definição das bases
nacionais do desenvolvimento econômico e social.