Apresentação
Desafios
do Trabalho no Século XXI -
Uma Agenda de Investigação Crítica
O complexo de reestruturação
produtiva que atinge o mundo do trabalho, a partir da crise
estrutural do capital, nos últimos trinta anos, atinge,
nos primórdios do século XXI, uma etapa desenvolvida. Seus impactos
concretos no processo de trabalho e na organização do trabalho
são múltiplos, atingindo, de forma diferenciada, países capitalistas,
regiões, setores e empresas. É o que comprova a série de investigações
sociológicos da última década, que procuraram apreender, em
suas manifestações empíricas, os contornos da reestruturação
produtiva.
No caso do Brasil, no decorrer
da década de 1990 são inúmeras as pesquisas sociais que trataram
da objetividade e subjetividade do novo (e precário) mundo do
trabalho, seja na indústria, na agroindústria ou nos serviços.
Em todas elas tornou-se visível que o movimento do capital em
processo, seja em sua dimensão estrutural, de reorganização
dos espaços da produção de valor, seja em sua dimensão sócio-política,
com a ofensiva neoliberal, coloca para a classe-que-vive-da-venda-da-força-de-trabalho
imensos (e complexos) desafios, tanto no plano da consciência
de classe contingente, com a busca desesperada contra o desemprego
massivo, como no plano da consciência necessária, com a necessidade
de buscar novas formas organizativas e políticas, não apenas
de resistência, mas de emancipação social, contra a barbárie
do capital.
Essa idéia de que o capital é o
“sujeito automático” que instiga a classe dos trabalhadores
assalariados a buscar novas respostas sociais e políticas e
ir além de si mesma, como classe em si e para si, está presente
nas reflexões candentes de Karl Marx e Friedrich Engels. É de
Marx a expressão Hic Rhodus, Hic Salta!, tanto no “18
Brumário”, quanto em “O Capital”.
Na verdade ela significa o desafio
constante, e quase perpétuo, posto pelo capital ao mundo do
trabalho, como representante da Humanidade, para ir além das
novas formas de exploração do valor em processo. O pior que
poderia acontecer com a classe do proletariado, na perspectiva
de Marx, era a acomodação passiva às condições de degradação
física e moral postas pelo modo de produção capitalista. É de
Lukács a observação de que “o homem é um ser que dá respostas”
e diante da barbárie do capital a resposta verdadeira, na perspectiva
do desenvolvimento do gênero humano, é aquela que está comprometida
com os valores que significam a abolição do estranhamento e
do fetichismo da mercadoria.
A elaboração de uma ética materialista,
adequada aos novos tempos de escolhas cruciais de um desenvolvimento
histórico ampliado, foi um dos projetos teóricos do velho Lukács.
Infelizmente, o mestre húngaro não conseguiu concluir sua “Ética”
e nos deixou apenas uma “Ontologia do Ser Social”, base de uma
reflexão materialista sobre as escolhas a serem feitas
pelos homens – e pelo mundo do trabalho que é o mundo
dos homens – diante da barbárie do capital que tornou-se
mundializada.
Deste modo, muitos dos desafios
do trabalho, postos pelo desenvolvimento contraditório e bárbaro
do capital, exige não apenas uma resposta sindical e política
strictu sensu, como atestamos nos vários movimentos de
resistência à degradação da classe-que-vive-da-venda-da-força-de-trabalho,
mas antes de mais nada, uma resposta ética, no sentido
materialista, capaz de colocar para a classe a necessidade
de instaurar, não apenas no plano do local de trabalho, mas
no campo do cotidiano e da integralidade da vida social, uma
nova forma de controle sócio-metabólico, como observa
Meszáros, capaz de romper com o metabolismo social do capital
e não apenas com suas personificações capitalistas.
Com certeza, os desafios do trabalho
são muitos e concebe-los apenas como um certo marxismo político
concebeu, no plano da política e do sindicalismo, é não apreender
a natureza ontológica das escolhas que estão sendo colocadas
para o mundo dos homens nessa condição particular de crise estrutural
do capital. O que queremos salientar não é que abandonemos a
perspectiva clássica da luta política e sindical, tão necessária
como nunca, mas que ampliemos a reflexão sociológica sobre o
mundo do trabalho para o campo da reprodução social, onde iremos
vislumbrar os fenômenos do estranhamento e as novas formas persistentes
de fetichismo (o que nos coloca para além do local de trabalho
e nos situa na dimensão do cotidiano clivado de contradições
insuportáveis, na busca de uma nova hegemonia ético-política
essencial).
São tais questões ontológicas que
dão substrato material a centralidade do problema da subjetividade
do novo (e precário) mundo do trabalho. É no plano da subjetividade,
como campo crucial das disposições éticas mais plenas, que o
capital busca instaurar novos desafios para o mundo do trabalho.
É a captura da subjetividade que assume, mais do que
nunca, um papel crucial nas formas de reprodução estranhadas
e fetichizada do sistema sócio-metabólico do capital.
Não queremos dizer que o modo de
produção capitalista não tenha instaurado, desde seus primórdios,
formas de implicação subjetiva (e objetiva) capazes de se apropriar
das disposições físicas e espirituais da mercadoria-força de
trabalho e de garantir sua reprodução social. O que queremos
salientar é que diante do desenvolvimento ampliado e complexo
da “civilização do capital”, com o recuo das barreiras naturais
e da constituição de individualidades complexas, a implicação
subjetiva assume dimensões qualitativamente novas. A própria
reprodução sistêmica do capital, cada vez mais contraditórias,
tende a exigir, para sua evolução, novas formas de socialidade
estranhadas e fetichizadas mais complexas.
A subjetividade, que incorpora
a personalidade integral do individuo complexo, torna-se, mais
do que nunca, o campo de batalha do século XXI. É claro que
é um processo de desenvolvimento histórico que assume, nos últimos
trinta anos, diante da crise estrutural do capital dimensões
mais amplas, e portanto, qualitativamente novas (o que se coloca
como uma nova agenda de investigação sociológica).
Mais do que nunca o novo (e precário)
mundo do trabalho é o mundo (estranhado e fetichizado) do homens
e os desafios do trabalho contém, em si e para si, os desafios
de uma vida plena de sentido dentro e fora do local de trabalho.
Enfim, uma vida plena de sentido na luta de existência, algo
que, diante da barbárie do capital, torna-se cada vez mais difícil.
Nessa fase de desenvolvimento do
capitalismo mundial, é possível apresentar duas teses nada conclusivas
que buscam tão-somente provocar uma reflexão sobre os desafios
do trabalho numa determinada etapa histórica, a da crise
estrutural do capital, na qual estamos imersos há cerca
de trinta anos. É o que apresentaremos aqui, ainda de modo bastante
preliminar.
Tese 1
Apesar da precarização do mundo
do trabalho ser um traço estrutural da classe-que-vive-da-venda-da-força-de-trabalho,
ou seja, é algo intrínseco ao ser-precisamente-assim do mundo
do trabalho, sob a crise estrutural do capital, a categoria
de precarização tende a assumir dimensões qualitativamente
nova que merecem serem investigadas em suas múltiplas manifestações
societais.
Inclusive, pode-se dizer que ela
tende a assumir um sentido estrutural mais pleno, em decorrência,
por um lado, daquilo que Meszáros salientou como sendo o esgotamento
das margens de manobra das concessões reformistas no interior
do sistema do capital (o que significa a diluição das garantias
político-institucionais de Welfare State amplo e universal).
Por outro lado, a crise dos instrumentos
defensivos clássicos, partido e sindicato, e a
própria crise do Estado-nação como base do contrato social
entre capital e trabalho, são apenas dimensões contingentes
da nova forma de reprodução sistêmica do capital caracterizada
pela precarização irremediável do mundo do trabalho e do mundo
dos homens, tanto em sua dimensão objetiva, quanto subjetiva.
A ampliação da superpopulação relativa, com a extensão
de seu contingente estagnado, permanente e fluido, tende ainda
mais a fragilizar a luta social e política no sentido clássico,
colocando desafios imensos para os institutos defensivos clássicos
do trabalho organizado.
Na verdade, é observando o que
Marx denominou de superpopulação relativa, no Capítulo
23 de “O Capital”, que podemos apreender a natureza da nova
precarização da força de trabalho, que, mais uma vez ressaltemos,
assume uma dimensão objetiva – a perda de direitos e cada vez
mais a mercê do acaso e da contingência – e uma dimensão subjetiva
(aquilo que Richard Sennet identificou como sendo a corrosão
do caráter não deixa de ser um aspecto da precarização da
subjetividade, com implicações ético-psicológicas, que atinge
a personalidade viva da força de trabalho).
Tese 2
O modo de produção e reprodução
do capital é um complexo societário perpetuo que articula (1)
expropriação, como lastro histórico-genético da sociabilidade
estranhada e fetichizada, (2) apropriação objetiva e
subjetiva das forças sociais do trabalho e (3) acumulação
de valor como finalidade sem fim do processo de trabalho
como processo de valorizacão. O que é importante salientar,
nesse complexo histórico onto-societário, é que a expropriação
contínua do mundo do trabalho, que é um traço ineliminável do
ser-precisamente-assim do capital como sistema sócio-metabólico,
tende a assumir formas qualitativamente novas. O que significa
que ela incorpora uma forma tecnológica mais desenvolvida.
Com a grande indústria,
e mais ainda, com aquilo que podemos caracterizar como o espectro
da pós-grande indústria, a natureza do processo técnico
assume novas dimensões societais. Ou seja: a técnica
se interver cada vez mais em tecnologia e o processo
tecnológico tende a ser a forma material do capital
se apropriar das forças da natureza.
Aliás, o processo técnico
diz respeito a própria natureza do homem como ser humano-genérico
(a técnica como objetivação/exteriorização). Mas na medida em
que se apropria do processo técnico ampliado, o capital tende
a obstaculizar o desenvolvimento da técnica. O que é mais perceptível,
por exemplo, nos casos constantes de pleitos pelo direito de
propriedade intelectuais, principalmente em áreas da objetivação
humano-genérica recalcitrantes à lógica da escassez que funda
a economia política do capital.
Na verdade, a expropriação da genericidade
humano-genérica tende a assumir uma forma tecnológica. A contradição
entre tecnologia como forma social e técnica como
forma material, no interior do processo de expropriação/apropriação
e acumulação do capital, repõe num sentido ampliado o problema
do controle social da produção. Ou mais ainda, da necessidade
de uma expropriação dos expropriadores.
Só que o comunismo irá exigir expropriadores
à altura, no campo ético-cognitivo, das novas disposições técnicas
do objeto societal. O que significa que o mundo do trabalho,
se quiser estar à altura dos desafios de ir além do capital,
deve incorporar, e dar uma nova forma social, ao cabedal de
conhecimentos e técnicas postas pelo capital como processo tecnológico,
complexo de conhecimentos e técnicas que podem ser superadas/conservadas
como elementos de objetivação da genericidade humano-genérica.
Deste modo, o comunismo irá exigir
homens conscientes e capazes de habilidades ético-cognitivas
– escolhas racionais e disposições técnico-racionais, capazes
de utilizar objetos complexos. Deste modo, o problema da educação
assume uma centralidade. Só que totalmente às avessas daquela
que é colocado pela lógica do capital.
O livro que ora apresentamos é
uma tentativa de mapear alguns desafios do trabalho. São pesquisadores
que apontam resultados de investigações sobre diversos temas. Da análise de conjuntura do capitalismo mundial
e no Brasil, indispensável para a apreensão concreta dos fenômenos
do mundo do trabalho, até os estudos particulares de novas formas
de exploração da força de trabalho em várias categorias de trabalhadores
assalariados e de contingentes imensos da superpopulação relativa,
o livro se propõe a fazer uma ampla apresentação dos desafios
do trabalho. Os temas tratados são amplos e diversos – cotidiano,
educação, qualificação profissional, sindicalismo, estratégias
organizacionais, precarização do estatuto salarial, exploração
intensiva e extensiva da força de trabalho, etc.
A maior parte dos autores são pesquisadores
do Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”. Eles compõem
a linha de pesquisa “Economia Política da Globalização” e “Trabalho
e Sindicalismo” (http://globalization.cjb.net).
É resultado de uma rede de investigadores do mundo do
trabalho que se reúnem cada ano em Marília (SP), nos Seminários
do Trabalho.
A proposta do livro é, acima de
tudo, oferecer uma abordagem crítica e interdisciplinar do mundo
do trabalho, procurando resgatar suas contradições objetivas
e seus desafios concretos nessa atual fase de desenvolvimento
do capital. Evitamos cair no empirismo sociológico que atinge
a maior parte da produção da Sociologia do Trabalho. Na verdade,
é uma tentativa de reconciliar ciência com crítica social, sempre
na perspectiva da crítica do capital.
Autores:
Antonio Thomaz Júnior - Professor de Geografia da FCT/UNESP/Presidente
Prudente; membro dos Programas de Pós-Graduação em Geografia
da FCT/UNESP e do CEUD/ UFMS/Dourados; coordenador do
Grupo de Pesquisa “Centro de Estudos de Geografia do
Trabalho” (CEGeT) < www.prudente.unesp.br/ceget >;
coordenador do Centro de Memória, Documentação e Hemeroteca
Sindical “Florestan
Fernandes” (CEMOSi); pesquisador 2B/CNPq/PQ; autor do
livro “Por Trás dos Canaviais os Nós da Cana”, São Paulo:
Annablume/Fapesp, 2002.
Endereço: Departamento de Geografia. FCT/UNESP/Presidente Prudente. Cx. P.: 467 - CEP 19060-900. Fone: (0XX18)
229-5375 - FAX: (0XX18) 221-8212. E-mail: thomazjr@stetnet.com.br
Ariovaldo Santos - Doutor em Sociologia e Ciências Sociais
- Université Paris I - Sorbonne. Professor Associado
da Universidade Estadual de Londrina.
Membro do Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”,
inscrito no Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq.
E-mail: ariovald@uel.br
Carmem Lúcia Sussel Mariano é mestre em Psicologia pela UNESP/Assis
e docente do Departamento de Psicologia Evolutiva, Social
e Escolar da UNESP/Assis e do curso de Psicologia da
UNIP/Assis. E-mail: sussel@life.com.br
Francisco Luiz Corsi - Economista, Doutor em Ciências Sociais
pelo IFCH-UNICAMP e professor de economia da Faculdade
de Filosofia e Ciências-UNESP. Membro do Grupo de Pesquisa
“Estudos da Globalização”, inscrito no Diretório do
Grupo de Pesquisas do CNPq. E-mail: flcorsi@uol.com.br
Geruza de Fátima Tomé – Administradora, Mestre em Ciências
Sociais pela UNESP-Marília,
professora do
Centro de Ensino Superior de Dracena – CESD.
Membro do Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”,
inscrito no Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq.
E-mail: geruza@life.com.br
Givaldo Alves da Silva – Sociólogo, Mestre em Ciências Sociais
pela UNESP-Marília e Prof. da UNOPAR. Membro do Grupo
de Pesquisa “Estudos da Globalização”, inscrito no Diretório
do Grupo de Pesquisas do CNPq. E-mail: givaldo2000@hotmail.com
Hélvio Alexandre Mariano - é mestre em História Social pela
PUC-SP, doutorando em História pela UNESP/Assis e docente
do Departamento de História da UNICENTRO-PR E-mail:
sussel@life.com.br
Jorge Luis Cammarano González. - Sociólogo, Doutor em Educação
pela Unicamp, pós-doutor pela PUC-SP. Atualmente é professor
da Universidade de Sorocaba, tendo atuado na Unesp e
na Universidade Estadual de Maringá durante dez anos.
Co-autor do livro Formação e Trabalho: uma abordagem
ontológica da sociabilidade, publicado pela editora
Xamã. E-mail: jorge.gonzalez@uniso.br
José dos Santos Souza – Licenciado em Pedagogia, mestre em
Educação pela UFF-RJ, doutorando em Ciências Sociais
pela Unicamp, professor da Universidade Estadual do
Sudoeste da Bahia –UESB, onde coordena o Núcleo de Estudos
e Pesquisas sobre o Trabalho (NETPS). Autor do livro
“Trabalho, Educação e Sindicalismo no Brasil: anos 90”
e co-autor do livro “Educação e Política no Limiar do
Século XXI”, ambos editados pela Autores Associados.
E-mail: jsantos@uesb.br
Marcelo Júlio de Oliveira – Sociólogo, Mestre em Ciências
Sociais e Prof. da Faculdade de Direito da Alta Paulista
– FADAP – Tupã-SP. E-mail: mojulio2002@bol.com.br
Renan Araújo - Graduado em História pela Unesp-Assis. Mestre
em Ciências Sociais Unesp-Marília. Prof. Sociologia
Universidade Maringá-Uningá e da UNESPAR/FAFIPA-Paranavaí.
Membro do Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”,
inscrito no Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq.
E-mail: renan-araujo@uol.com.br
Roberto Leme Batista – Graduado em História pela UEM, Mestre
em Ciências Sociais pela UNESP-Marília, professor de
História Contemporânea na UNESPAR-Paranavaí-PR. Educador
de jovens e adultos na rede pública do Paraná. Membro
do Grupo de Pesquisa “Estudos da Globalização”, inscrito
no Diretório do Grupo de Pesquisas do CNPq. E-mail:
rlbatista@zipmail.com.br
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