Dois agrarismos
de fim de século
Em
pouco mais de um ano, dois eventos alteraram os significados
que o MST brasileiro e o neozapatismo do México vinham imprimindo
ao imaginário das revoluções do século XX ainda com apelo
entre nós. Esses movimentos rebeldes não só testemunhavam
e resistiam ao “fim do campesinato”, como chamara Hobsbawm
as transformações que remodelaram radicalmente o mundo rural
no milênio, mas também, desde a segunda metade da década de
1990, relançavam valores extraídos de grupos agrários como
estímulo para novas militâncias.
Em muitos ambientes intelectuais, chegava-se a falar
na missão dos sem-terra como semeadores de um Projeto Popular
para o Brasil. Dizia-se que, no MST, estaria surgindo um segundo
impulso para formar uma outra esquerda, tal como, na passagem
para a década de 1980, o PT nascera em sindicatos organizados
e viera substituir o PCB. Exemplar na rebelião dos guerrilheiros
do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), esses
agrarismos viriam alimentar, na resistência à globalização,
mais uma utopia de fim de século; foi para onde apontaram
a conferência contra o neoliberalismo organizada pelo próprio
EZLN, em Chiapas, em 1996, e as articulações mais recentes
ao redor da chamada Via Campesina.
O primeiro daqueles eventos foi justamente a marcha
realizado pelo EZLN, em março de 2001, até a Cidade do México,
concretizando uma rebeldia de grande carga simbólica. Pacífica,
a jornada trazia um sentido diferente da função, que se lhe
atribuía, de movimento social de novo tipo chamado a refundar
a política. Esta, segundo certa bibliografia, já não teria
centralidade em nossas sociedades pós-industriais e sem classes
universais, notadamente depois da falência do comunismo e
da exaustão do Welfare State.
Os guerrilheiros marcharam até a sede do governo mexicano,
não para assumir o poder, mas para anunciar, conforme a palavra
dos seus comandantes no Zócalo (a praça central da cidade
do México), que a saga daquele exército de libertação nacional
representava a vitória de um “exército sem armas”.
O êxito do EZLN, naquele ano de 2001, não era só para
fazer ouvir a “voz dos sem rosto” (indígenas) e consagrar
os signos do discurso neozapatista. Eles deixaram outra lição.
Após o Zócalo, os insurretos de Chiapas rumaram para o parlamento
do México e depararam com os espaços político-institucionais,
onde teriam de reivindicar uma nação multiculturalista que
reconhecesse efetivamente o Outro. Embora não se tenha dito
ali, o significado do gesto daquele movimento dissidente significava
a colocação do tema do aggiornamento da democracia
como função da política e dos seus partidos. Aggiornamento
já em curso em algumas áreas da esquerda ex-comunista e socialdemocrata
da Europa, que se defrontaram, em registro positivo, com os
primeiros tempos do globalismo, inclusive participando de
governos de centro-esquerda organizados para disputar com
a direita neoliberal as modernizações do fim do milênio.
O segundo evento, que certamente vai ressignificar
o papel do MST aos olhos de suas áreas militantes e afins,
é a vitória do PT em 2002. Diferentemente do emblema mexicano,
o evento brasileiro mostraria a valorização da política a
partir da circunstância do acesso eleitoral ao poder. Entre
nós, a idéia atualizada de revolução – incorporar amplas demandas
sociais, como dissera Luiz Inácio Lula da Silva, prometendo
realizar na Presidência aquilo que reivindicara desde a anistia
de 1979 – passa a ter o sentido de um grande impulso societário,
que deve se institucionalizar por instrumentos do Estado democrático
de direito. Uma concepção de revolução que redimensiona radicalmente
o imaginário que, até bem pouco tempo atrás, ainda guiava
os passos de parcelas bem numerosas da militância oposicionista
do PT e condicionava as suas responsabilidades diante das
modernizações globalistas, especialmente durante os governos
de Fernando Henrique Cardoso.
É difícil ver a posse de Lula sem ter a impressão
de estarmos frente à conclusão de um movimento social que,
durante 22 anos, polarizara aspirações, obtendo reconhecimento
para as duas letras do seu nome partidário. Trata-se da vitória
de um partido que, em uma mobilização contínua de interesses,
reunira variados grupos remanescentes das esquerdas do pós-64
e perfilara uma perspectiva de poder com aquela origem social,
a ponto de apresentar-se como crítica antielitista e até mesmo
como denúncia da política corrente no país.
O PT forjou essa vocação de poder alternativo, afirmando-se,
no associativismo, através de oposições combativas que deslocaram
lideranças e, às vezes, estruturas existentes; e cresceu nas
eleições, com suas candidaturas próprias. Ao longo da sua
trajetória exerceu um oposicionismo dissociado do estilo do
frentismo pluriclassista do velho PCB, frentismo que este
partido movia buscando melhorar as coisas em andamento a partir
de negociações com atores tal como existiam na cena pública.
No entanto, após uma campanha eleitoral em que recebeu os
mais variados apoios, inclusive em quase todos os partidos,
principalmente no segundo turno, o PT passou a ocupar a Presidência
da República, lembrando outros momentos de intenso movimento
de opinião pública, como a eleição de Tancredo no Colégio
Eleitoral.
Como disseram alguns protagonistas, a cerimônia da
posse de Lula simbolizava a realização daqueles grupos sociais
e de áreas de intelligentsia que acompanharam os passos
do líder sindical até o Palácio do Planalto. Lula chegara
ao poder, mobilizando uma idéia de união nacional fortemente
centrada em torno do PT, como se pode ver na formação do primeiro
Ministério; concepção diversa da tradição dos comunistas,
que se diziam servidores (mesmo que, no discurso, apenas taticamente)
de uma frente única pluralista democrático-reformadora. Partido
minoritário, sempre atento para não se isolar e perder influência,
na sua prática corrente o PCB subordinava tudo aos objetivos
gerais, inclusive a própria identidade, ao permanecer por
anos no MDB/PMDB.
De qualquer modo, ao alcançar a Presidência, o PT
acelerou a desradicalização com que já vinha se defrontando
nas suas experiências à frente de governos estaduais e acedeu
à política do possível que recusara anteriormente. Partido
novo e ainda não solidamente majoritário, em alguns aspectos
tornou-se tão pragmático que corre o risco de se ver sem projeto
próprio, mostrando não só o seu distanciamento em relação
à cultura política daquela esquerda histórica, cujo frentismo
estaria aludindo ao modo como o PT conquistou o governo. O
pragmatismo também chama a atenção para a falta de interpelação
do pensamento social brasileiro, que é uma das fontes inspiradoras
de todo sistema de orientação que se proponha operar a política
no Brasil segundo parâmetros discursivos.
O presente momento histórico de recriação da esquerda
brasileira ainda estimula a fazer outras considerações sobre
a correlação entre passado e presente. Em primeiro lugar,
observando o modo como aquele impulso do “país real” e suas
carências se institucionalizaram na representação do PT, temos
a sensação de estar diante de uma trajetória de partido não
tanto no sentido da interpelação intelectual de grupos sociais,
tal como exposta no Que Fazer? que Lenin escreveu sobre
o formato de partido revolucionário mais apropriado à sua
teorização da formação social russa. Aqui, parecemos estar,
grosso modo, ante uma experiência próxima daquela descrita
no Manifesto Comunista: conforme o modelo inglês usado
por Marx e Engels, uma classe em seu conjunto é que
se converteria à forma-partido, com o auxílio coadjuvante
de uma intelligentsia portadora das visões gerais de
que os grupos sociais careciam. O PT evocaria mais o exemplo
da Inglaterra, cujo sindicalismo, como se sabe, recorrera
à esfera política para concretizar demandas e terminara criando
um partido trabalhista, modelo, aliás, evocado por alguns
fundadores do PT em 1979. Mas, aqui, os elementos intelectuais
se disseminaram em embates intrapartidários ao largo do país
e seus movimentos sociais. Eles não foram mobilizados a partir
de uma interpretação de Brasil ao modo leniniano, ou em termos
manheimianos, como no antigo Iseb, ou ainda, em certo sentido,
como tentou fazer Fernando Henrique Cardoso no PSDB.
Em segundo lugar, chama a atenção que a projeção rural
dessa experiência partidária brasileira, diferentemente de
um resgate de um campesinato revolucionário, tenha se estruturado
na Contag, a partir de sindicatos anteriormente organizados
por esta central agrária. O exemplo mais próximo do impulso
diruptivo localizado no mundo rural – segundo a bibliografia
clássica, lugar de camponeses sem a centralidade do mundo
do trabalho urbano – seria vivido pela ação do MST, organização
que se manteve, em todos esses anos, cumprindo intensa função
imagética em áreas militantes e de intelligentsia ao
largo do país.
Não casualmente, foi a estrutura contaguiana – de
formato organizacional estável e sempre propensa à negociação
– que o PT usaria para se afirmar no mundo rural, onde iria
substituir, em algumas áreas com apoio da Igreja, as últimas
influências pecebistas nos sindicatos e federações, ainda
visíveis até os anos imediatos à anistia de 1979. Mesmo que
tenha protagonizado esse deslocamento dos comunistas mediante
as oposições combativas nas entidades rurais existentes, nota-se,
na evolução do PT, uma co-habitação entre a forma-partido
e a mobilização de tipo trabalhista (também pela terra) e
por políticas públicas.
Aliás, por assim dizer, nisso o PT repetiu os passos
do velho PCB, quando, no imediato pré-64, este partido se
dedicou a fundar entidades sindical-agrárias e abandonou as
pretensões campesinistas que alimentara até o início da década
de 1950. Ainda se vendo como partido de missão histórica exclusiva,
o PT continuou a vocação contaguiana, mantendo no mundo rural
o antigo modus vivendi de interação com a esfera pública,
pressionando para melhorar as políticas governamentais. Natural,
assim, que fosse a Contag a receber espontaneamente, na Praça
do Planalto, o novo Presidente da República, com um gesto
de reivindicação dos interesses dos seus agrários e, ao mesmo
tempo, de celebração pela conquista do governo modelada na
trajetória social do PT.
Vivemos um tempo de recriação da esquerda. Se, para
o PT, colocar-se à frente da Presidência da República constitui
o momento alto para arrematar sua evolução de partido social
a partido da política, para o MST também parece haver chegado
a hora de se pôr a caminho da própria institucionalização.
O tempo oportuno do MST seria este mesmo, em que o impulso
gerador do partido sindical se conclui com a eleição e posse
de Lula, ao assumir o PT, agora, sua função nacional de partido
político. O MST teria que olhar para sua trajetória nesta
circunstância nova em que tem pela frente uma estrada de muitas
possibilidades, principalmente a de tornar o reformismo agrário
corrente ainda mais forte que durante os governos anteriores.
Por sua natureza de interpelação intelectual, o aggiornamento
do MST significaria um duplo movimento de redimensionamento
dos objetivos que até aqui lhe conduziram os passos. De um
lado, o gesto implicaria em reconhecer os fatos novos que
já o interpelavam desde os tempos de Fernando Henrique Cardoso
e sua reforma agrária adaptativa do mundo rural às novas ruralidades
emergentes. De outro, estaria na hora do MST reavaliar a sua
capacidade de intervenção, limitada que estaria pelo acentuado
voluntarismo, como já vem sendo sugerido pela bibliografia
brasileira nos últimos quatro anos.
Pelo que lhe pede agora o governo do PT, o MST deveria
assumir o seu lugar de ator da inclusão social, em vez de
manter-se como um agrarismo vocacionado à instabilidade política,
por demais extemporânea, quando movimentos profundos já se
incorporaram por meio da eleição de Lula. Neste princípio,
uma incorporação ainda em nível simbólico, mas que está reconstituindo
o imaginário da esquerda partidária e motivando o novo governo
– o que não é pouca coisa. A presente circunstância seria
o momento oportuno para o MST realizar o seu potencial de
inovação social, institucionalizando-se na democracia política
brasileira, refletindo sobre o modo como agiu o PT, ao assentar
o seu trabalho agrário na Contag.