Cooperação
e cooperativismo no movimento dos trabalhadores rurais sem
terra
O
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o principal
movimento social de luta pela terra desde a década de 1980,
vem se tornando um fenômeno mundialmente conhecido, adquirindo
conotações diversas. Dentro do Brasil, a notoriedade adquirida
pelo movimento se deve, principalmente, à estratégia por ele
empregada para possibilitar o acesso à terra de seus integrantes:
organizam-se acampamentos nas margens de rodovias, manifestações
em praças públicas, passeatas em grandes cidades, longas caminhadas
do interior do país até a capital federal, ocupações de prédios
públicos, bancos, e ainda a ocupação de áreas rurais públicas
ou privadas. Essa estratégia visa criar fatos políticos que
obriguem o Estado a interferir na estrutura agrária, promovendo
desapropriações de terra para o assentamento dos participantes
do movimento.
Mas
o MST não se reduz a apenas isso. Trata-se de um fenômeno
social complexo, que possui uma estrutura na qual encontram-se
desde simples camponeses, intelectuais acadêmicos, membros
de partidos políticos e do clero católico. Isso leva o MST
a assumir várias formas, dependendo do tipo da ação desenvolvida.
Ou seja, dependendo daquilo que venha a ser por ele realizado,
se uma ocupação de prédios ou de uma área de terra, se a promoção
de um curso de capacitação para assentados, o movimento adquire
formas diferentes. Tal condição faz com que o MST em alguns
momentos atue como uma ONG, outras vezes como partido político,
e outras ainda como verdadeiro movimento social. Nesse sentido,
pode-se definir o MST como um fenômeno bastante complexo,
consistindo num movimento de e para trabalhadores
rurais ao mesmo tempo.
A
estrutura do MST é composta pelos segmentos hierarquizados
direção, militância, base e massa.
Cada um dos segmentos abriga tipos específicos de pessoas.
A direção, eleita por todos os integrantes da estrutura, é
formada pelas pessoas mais esclarecidas ou mais preparadas
politicamente para a determinação das diretrizes de ação.
É junto à direção que atuam os intelectuais acadêmicos. A
militância corresponde ao quadro de funcionários do MST, sua
burocracia, que atua junto à base e à massa. A base é composta
pelos integrantes que receberam terras, os assentados. A massa
é como se chama o conjunto das pessoas que participam das
ações organizadas pelos militantes do MST, e que o fazem na
esperança de conseguirem o acesso à terra mediante a conquista
do assentamento.
Parte
considerável da complexidade do MST diz respeito à complicada
relação entre os segmentos na estrutura. Os projetos e objetivos
de cada um deles se difere bastante. O projeto da direção
é de médio e longo prazos: através da conquista de assentamentos
pretende imprimir transformações no cotidiano, para criar
o homem novo e a mulher nova, mudando a sociedade,
levando-a ao socialismo. A militância é composta de funcionários
que fazem carreira dentro do MST, e visam cada um seu próprio
espaço, pretendendo chegar à direção. Quanto à base, composta
por pessoas que já conseguiram o assentamento, a preocupação
reside principalmente em encontrar os melhores meios de permanecer
na terra conquistada. Enfim, a massa compreende pessoas que
têm, cada uma, projetos próprios e diferentes para a terra.
Em geral, como demonstram resultados de pesquisas, os componentes
da massa visam a terra para concretizar nela o desejo de viver
com autonomia, ou seja, de sobreviver fora das relações de
assalariamento; planejam relacionar-se com a terra no modelo
da propriedade privada.
A
complexidade do MST não se esgota na disposição de sua estrutura
e na relação entre os segmentos. É possível identificar no
interior da estrutura do Movimento diferentes projetos para
a terra, que se manifestam através das diferentes formas de
apropriação e gestão dos assentamentos conquistados. Sendo
a parte mais esclarecida do Movimento, a direção tem se preocupado
muito com a viabilização econômica dos assentamentos conquistados.
A direção do MST avalia que o modelo agrícola brasileiro é
altamente concentrador e direcionado para a produção de cereais
em escala para a exportação. Isso dificulta a sobrevivência
de pequenos agricultores, que sem apoio do governo, produzem
basicamente alimentos para o mercado interno, o que não é
muito rentável.
Desde
o final da década de 1980, a direção do MST percebeu que a
luta pela terra se desdobra necessariamente na luta pela viabilização
econômica dos assentamentos. Acredita-se que as dificuldades
dos assentados provém da pouca capitalização que cerca sua
atividade na terra: não há suficiente acesso às tecnologias,
aos insumos e às maquinas que permitem aumentar a produtividade,
e com ela os rendimentos do trabalho. E sozinho, isoladamente,
é muito difícil, ou quase impossível, que um assentado possa
conseguir capitalizar-se para inserir-se no mercado.
Em
relação a esses problemas apontados, a direção do MST encontrou
duas soluções. A primeira consiste em inserir na luta pela
terra a revindicação de políticas públicas de créditos para
os pequenos agricultores. A outra solução é a de desenvolver
formas de cooperação que permitam aos agricultores assentados
superar em conjunto as dificuldades que recaem sobre os produtores
quando atuam isoladamente. Ou seja, acredita-se que se os
produtores de determinada área se juntarem, eles conseguirão
encontrar formar de adquirir equipamentos, tecnologia e preços
de produtos mais favoráveis.
Aparentemente
a solução encontrada pela direção não é de difícil implementação.
Há uma coerência lógica que torna inegável que a cooperação
entre assentados pode trazer-lhes mais vantagens que o isolamento.
Entretanto,
contrariando a lógica, a maioria dos assentados rejeita a
cooperação, preferindo correr os riscos do isolamento. A princípio,
a direção do MST interpretou a resistência dos trabalhadores
como derivada das ideologias da classe dominante, incorporadas
pelos assentados. Depois, a explicação mudou. A resistência
à cooperação passou a ser relacionada à mentalidade tradicional
camponesa dos assentados, que o levavam a acreditar que somente
conseguiriam a autonomia através da gestão individual/familiar
da terra.
Embora
aparentemente distintas, as duas avaliações acerca das causas
da resistência à cooperação levaram a direção do MST a desenvolver
metodologias destinadas a alterar a mentalidade e diminuir
a resistência dos assentados às práticas da economia solidária.
Foi assim que a direção do MST voltou-se à pesquisa no campo
da educação, vinculando-a ao desenvolvimento das condições
intelectuais individuais necessárias à cooperação no trabalho,
que proporcionariam melhores perspectivas para a sobrevivência
econômica dos assentamentos.
Por
iniciativa da direção, o MST criou cursos para formação de
militantes destinados a desenvolver ações educativas junto
à base e massa, nos assentamentos e acampamentos. Foram os
cursos de magistério e técnico em administração
de cooperativas os encarregados de educar os trabalhadores
para a cooperação. Junto com isso, a direção criou um sistema
de cooperação, que começava em formas muito simples até chegar
à forma mais sofisticada. A forma simples reduz-se aos grupos
que aprenderiam a cooperação através do planejamento comum
da plantação. A forma mais sofisticada consiste nas Cooperativas
de Produção Agropecuária, nas quais os participantes utilizam
coletivamente a terra, as máquinas e o trabalho, e repartem
o produto obtido no final, com a venda da produção.
No
entanto, a criação dos cursos não possibilitou que os militantes
atuassem de forma mais eficaz na implementação da cooperação.
A resistência dos assentados permaneceu tão intensa quanto
antes.
Analisando
a metodologia desenvolvida pela direção e aplicada pelos militantes
junto às pessoas da base e da massa, observa-se que há dois
problemas nela contidos. O primeiro diz respeito ao diagnóstico
da resistência. A direção do MST conduz o movimento baseando-se
nas teses do marxismo-leninismo. Tal referência teórica proporciona
uma leitura complicada das condutas individuais, que são separadas
conforme as categorias consciência e alienação. Conscientes
são aqueles que pensam e agem da forma prescrita pela direção,
e alienados todos os outros que pensam e agem de forma diferente.
Mais
ainda, a perspectiva adotada leva a direção a equivocar-se
no entendimento de teorias educacionais dotadas de força lógica
consistente, como é o caso da filosofia da educação emancipatória
construída por Paulo Freire. Por causa de suas referências,
a direção do MST utiliza a filosofia freireana para tentar
convencer assentados e acampados acerca do valor fundamental
da cooperação como expressão de socialismo.
Orientados
no diagnóstico e nas referências teóricas produzidas pela
direção, os militantes tentam conscientizar a base
e a massa, e o fazem desqualificando todos os projetos e práticas
que não combinam com aquelas contidas no modelo estabelecido
no topo da hierarquia do MST. Ao agirem assim, os militantes
provocam atritos sobretudo com os integrantes já assentados,
atritos que geralmente culminam com o desligamento de muitos
deles do movimento. Por outro lado, a referência teórica empregada
pela direção do MST para diagnosticar a resistência à cooperação
também não permite que ela encontre alternativas ao modelo
da mudança de mentalidade. Para isso, a direção precisaria
recorrer a outros paradigmas de interpretação, diferentes
do marxismo-leninismo.
A
pesquisa aqui relatada baseou-se na teoria sociológica desenvolvida
por Jean Piaget para sugerir um diagnóstico alternativo à
direção do MST. Fundamentado-se duplamente na metafísica de
Kant e na dialética marxista, Piaget defendeu a tese de que
a cooperação não é uma conduta derivada de um modo de pensar
típico. Raciocinando através do materialismo dialético, Piaget
concluiu que a cooperação não depende, para acontecer, da
existência de uma mentalidade favorável, previamente instalada
nas consciências individuais. Ao contrário, na teoria de Piaget,
a cooperação é uma forma de relação social. Para que se tenha
uma relação social cooperativa não é necessário alterar a
mentalidade dos envolvidos. É necessário que seja alterada
a forma objetiva da relação social, de maneira que cada participante
seja reconhecido como indivíduo livre, autônomo e igual. Ou
seja, a cooperação é uma relação social que pressupõe a democracia
como forma de tomar decisões em conjunto, de coordenar diferentes
pontos de vista para alcançar um acordo entre eles.
Sendo
uma forma de relação social, a cooperação proporciona uma
situação problemática favorável ao desenvolvimento intelectual
e moral dos envolvidos, fator esse que se reverte sobre a
forma da reprodução da relação inicial, alterando-a qualitativamente.
Quer dizer, quanto mais as pessoas se envolvem em relações
de cooperação, mais se desenvolvem moral e intelectualmente,
de maneira que mais conseguem estabelecer relações cooperativas
entre si. E por causa do desenvolvimento dos participantes,
proporcionado pela própria situação de cooperação, as relações
de cooperação que se seguem tornam-se gradativamente melhores
que as anteriores.
Caso
a direção do MST viesse a adotar a referência citada, não
precisaria gastar energias tentando mudar a mentalidade dos
assentados para convence-los da necessidade da cooperação.
Bastaria à direção e aos militantes esforçarem-se para tornar
as diversas práticas do movimento ocasiões propícias para
a construção de espaços democráticos de debates e decisões.
Agindo assim, o MST colaboraria não apenas para a descentralização
da estrutura fundiária, ou para a implementação de formas
cooperativas de trabalho que permitiriam aos assentados adquirir
condições mais favoráveis de inserção no mercado e permanência
na terra. Abrindo espaços de cooperação na forma sugerida,
o MST participaria decisivamente para a construção de uma
democracia que poderia modificar por completo a estrutura
institucional da sociedade e do Estado no Brasil.