O
Jeca Tatu, entre outros, faz parte da galeria das personagens
mais populares da cultura brasileira. Consagrado por Monteiro
Lobato nas páginas de Velha Praga e Urupês,
em 1914, o caipira de barba rala e calcanhares rachados
do Vale do Paraíba e do Oeste Paulista caiu, tempos depois,
no gosto do povo e hoje serve de referência para dizer
das pessoas que denunciam apego pelas coisas da roça.
Muito se falou e ainda se fala
do Jeca Tatu. Certamente muito ainda se falará dele. Por
ora, falaremos apenas de um dos motivos que levou Monteiro
Lobato a se entregar ao estudo do trabalhador rural paulista.
A figura do Jeca Tatu em si fica para um próximo artigo.
Um desses motivos foi inclinação
intelectual e artística de Lobato para o estudo naturalista
dos temas populares em detrimento dos referentes elites.
Pendor para o popular que era governado por uma concepção
de história e de artista, grosso modo, do tipo “pé-no-chão”
e subterrâneo.
É o tipo de imaginação histórica
e artística que podemos depreender da fala do autor em
vários momentos da sua vida. Observa ele, em 1911:
“A verdadeira vida dum artista deve ser esta que estou levando
- vida de aprendizagem, como a teve o Wilhem Meister de
Goethe. Viver todas as vidas - depois pintar a Vida. Uns
tempos como pedreiro, outros como carapina, vivendo no
meio deles, com o aroma das madeiras morando-nos no nariz,
mais os cheiros das telhas e da cal e do reboco, com a
unha do polegar da esquerda sempre negra das marteladas
em falso. E depois, o mar, uns tempos de mar - e engajado
em barco de vela, cantando e apanhando bofetadas tremendas
do capitão - um capitão de suiças. E depois, cocheiro
de cab em Londres, ou de fiacre em Paris,
ou mesmo de tilburi em S. Paulo. Depois, criado, maquinista,
guarda -freio da Central, motorneiro da Light, vendedor
de frutas no carrinho, e de bilhetes de loteria, e caixeiro,
e faroleiro, e camelot, e farol de roleta... Viver
as vidas principais ‘vidas coloridas’ e realmente vivas
- e só depois então casar. Só assim um homem tornar-se-ia
honestamente casavel.” (LOBATO,1959:310-311).
Em carta de 1912, para o seu amigo
Rangel, oporá uma história dos bastidores a uma história
oficial, deixando clara a sua opção pela primeira:
“O que na Revolução Francesa me interessa é o que os estupidos
historiadores á moda classica não contam. Eu quero fatias
de vida da epoca, conservadas aqui e ali em memorias,
em panfletos de despeitados. Interessa-me o bas-fond
da revolução, o formigueiro dos interesses inconfessaveis,
a trama secreta dos bastidores, os fios que movimentavam
os polichinelos politicos - os subornos. A historia fala
no patriotismo de Danton, na virtude de Robespierre, mas
o que me interessa conhecer é o apetite de Danton, a ambição
de Robespierre.Os grandes homens aparecem infinitamente
mais interessantes, mais ‘homens’, quando despidos das
falsas atitudes com que os veste a Historia - esse reposteiro...”
(LOBATO,1959:314-315).
Mais do que uma história oficial
e dos grandes acontecimentos, Lobato preconizará uma história
da “gente miuda”, dos trabalhadores, só possível
de ser rastreada através das memórias. Sobre isso, dirá
a Rangel, em carta de abril de 1913:
“Parece que ando na idade de ler memorias. Só nelas temos
o que é possível de historia verdadeira, com os bas-fond
e as cozinhas e copas da humanidade. A historia dos historiadores
coroados pelas academias mostra-nos só a sala de visitas
dos povos. É um garni uniforme, incolor, tanto
na França como na Turquia e Russia. Mas as memorias são
a alcova, as anaguas, as chinelas, o pinico, o quarto
dos criados, a sala de jantar, a privada, o quintal -
a pele quente e nua, ora macia e lisa ora craquenta de
lepra - da humanidade com h minusculo, esse oceano
de machos e femeas que come, bebe e ama - e supõe que
que faz mais alguma coisa além disso.” (LOBATO,1959:340-341).
Em geral, os protagonistas dessas
narrativas históricas e ficcionais seriam, em vez de heróis
de guerra, governadores e presidentes, os esquecidos sociais.
Numa carta de 1911 a Rangel, enfatiza:
“O livro que v. planeja sobre bandidos do sertão, capangas,
etc., tambem é dos necessarios. O assunto foi tocado pelo
velho Bernardo Guimarães e outros - gente de pouco realismo,
e de romantismo em dose maior que o quantum satis.
O filão está virtualmente virgem.” (LOBATO,1959:316).
É ancorado nessa atitude e convicção
de pensar, decididamente, o universo popular, com o intuito
de delegar voz aos silenciados da História, que Lobato
irá direcionar o seu olhar para o trabalhador rural do
Vale do Paraíba. Estes silenciados cujas causas sociais
e econômicas da sua dilaceração humana, o escritor conhecia
muito bem, como mostra esse trecho do seu prefácio ao
livro “Diretrizes para uma Política Rural e Econômica”
, de Paulo Pinto de Carvalho:
“Quem do alto olha para o Brasil vê um complexo sistema de
parasitismo em repouso sobre um larguissimo pedestal de
escravos andrajoso e roidos de todas as doenças endemicas:
o homem rural, o que chamamos o caboclo, o negro da roça,
os milhões de seres sem voz que na terra mourejam numa
agricultura ainda de indio - queimar e plantar, só, só,
só. Sobre a miseria infinita desses desgraçados está acocorada
a nossa ‘civilização’,
isto é, o sistema de parasitismo que come, veste-se, mora,
e traz a cabeça sob a asa para evitar o conhecimento da
realidade.” (LOBATO,1959:54-55).