Vários
fatos ocorridos recentemente tornam mais evidentes os limites
e a insuficiência do atual modelo de democracia (representativo
e delegativo) e reafirmam a necessidade da sua superação histórica,
pois, nele, o povo (demos) e o seu governo (cracia)
permanecem separados, distantes e hierarquizados. Separados
porque a “origem” do poder político, a sociedade (enquanto
coletividade dos cidadãos), não guarda em si [nela mesma ou
em seu interior] e para si o exercício público do governo.
Distantes porque a sociedade não é nem a base nem a finalidade
permanente da administração pública. Hierarquizados porque
os representantes, uma vez escolhidos (eleito), passam a ter
o domínio (“monopólio”) e a propriedade do governo e de sua
autoridade, podendo até utilizá-los contra quem o delegou,
sob o amparo da lei.
Não
bastasse isso, há muito tempo também já sabemos que em nossa
sociedade os processos de escolha nominal dos representantes
estão submetidos predominantemente ao poder de quem detêm
o poder econômico (riquezas e rendas) e o poder da informação
(comunicação) e da elaboração do conhecimento (forjamento
e manipulação da opinião pública). As “máquinas eleitorais”
e o peso do financiamento privado nas campanhas são fatos
corriqueiros que evidenciam isso a cada eleição.
Dizer
que os processos eleitorais (meios) e o voto (instrumento)
são a essência e o máximo da democracia é, no
mínimo, demagogia, para não dizer abertamente que se trata
apenas de uma defesa dos interesses de quem não quer deixar
de usar o Governo como coisa privada e colocá-lo ao seu serviço.
OS
NEGÓCIOS GRANDES
Em
nome da “democracia” se fazem grandes negócios. O último e
maior deles foi a segunda guerra contra o Iraque.
Foi
em nome de “Uma democracia” e para “levá-la” a Outra Nação
que o governo norte-americano, de George W. Bush (Partido
Republicano), e o inglês, de Tony Blair (Partido Trabalhista),
iniciaram a guerra contra o Iraque neste ano. Nessa guerra
o “inimigo oficial” era o Governo de Um Ditador sanguinário,
Sadan Ussein (um ex-aliado da CIA nos anos 80 contra o Irã).
As “justificativas humanitárias” da ação bélica, preventiva,
foram a eliminação da ameaça “terrorista” ao Ocidente (as
supostas armas de destruição em massa que até hoje não apareceram),
e a “ajuda estrangeira” (filantrópica ?) prestada ao povo
iraquiano para derrubar “O Ditador”.
Que
a guerra é, para poucos, um bom negócio não há dúvidas. Que
existem governos que fazem da guerra (interna e externa) uma
política também é coisa óbvia. Se a democracia é a forma mais
civilizada de governo, como entender, então, a correlação
entre política, guerra e negócio? Como qualquer outra forma
de uso dos meios violentos (diretos ou indiretos) para impor
o domínio físico e cultural (“estilo de vida”, valores ideológicos)
e a subordinação vigiada, historicamente, a guerra não é uma
negação da política?
Qual
a relação de parentesco existente entre a guerra e a política?
A guerra é, sim, um expediente dos Impérios e não das Repúblicas!
Os Impérios fazem da guerra uma política de negócio. Estão,
vejamos qual é a cara do mais novo Império e alguns dos seus
negócios.
Após
o caso Flórida sabemos que George W. Bush, o Filho, não venceu
as eleições nas urnas. Diga-se de passagem, que o regime eleitoral
e partidário (revezamento entre republicanos e democratas)
não é lá grande coisa; muito menos a democracia em seu estado
puro. O ex-candidato Gore também teve sérios problemas referentes
a certa origem do financiamento da sua campanha. Também sabemos
que os grandes grupos econômicos das indústrias de armas e
de extração mineral (petróleo e minérios), além dos exportadores,
são o núcleo duro do ultraconservadorismo “bushiano”, desde
os tempos do pai até os tempos do filho. É evidente que a
guerra contra o Iraque teve como interesse os negócios de
venda de armas (limpeza dos estoques) e o controle da segunda
reserva mundial de petróleo (energia). O “aquecimento” desses
negócios pode dar novamente fôlego à crise interna da economia
norte-americana que se arrasta desde os anos 70. Porém, quem
vai pagar a conta? Por um lado, os contribuintes norte-americanos
e ingleses; por outro, a nação e o povo iraquiano (principalmente
seus mortos, feridos, mulheres e crianças) e as novas gerações
que estarão sujeitas às heranças da guerra (urânio empobrecido,
fome, espoliação do petróleo e da água da Mesopotâmia). Além,
é claro, a humanidade, haja vista a destruição de parte do
patrimônio histórico naquela região.
Tony
Blair, o Relações Públicas Internacional da Guerra de Bush,
também foi o porta-voz dos grupos bélicos ingleses e do bloco
do dólar. O “Príncipe da Terceira Via”, que já havia afundado
o Partido Trabalhista quando candidato, durante a guerra foi
aplaudido pelos ultraconservadores no Parlamento. A “Dama
de Ferro”, Margareth Thatcher, aquela que estava convencida
de que diante do neoliberalismo não existia alternativa, deve
como sucessor o enobrecido “Príncipe de Ferro”.
Diante
de multidões contrárias a guerra, os Sócios do Império impuseram
um controle rígido na cobertura jornalística (escrita e falada)
da violência. A imprensa oficial apresentou o show virtual
da tecnologia bélica e a logística militar. O urânio utilizado
nos mísseis e bombas é do tipo “empobrecido”, mas radioativo
(não é do tipo de destruição em massas, mas seus efeitos não
desaparecem em um século). As operações e os alvos eram cirúrgicos,
mas sem anestesia... Que o diga a população iraquiana.
Sem
qualquer sustentação no direito internacional, o Império “B
& B” estabeleceu a nova ordem para o século XIX: antes
da democracia e da diplomacia estão os negócios. A ONU, já
viúva, ou melhor, divorciada e abandonada pelo Rei (EUA),
pelo visto bem que tentou evitar o pior, mas certamente não
sairá ilesa, pois nessa guerra também foi bombardeada. Na
realidade é bom que tenhamos clareza de que o papel e a força
da ONU nunca foram além do que ela apresentou nesse episódio.
Seu Conselho de Segurança (poder de veto) nem chegou a ser
testado plenamente.
Outro
tipo de negócio feito no interior dos espaços e dos meios
institucionais democráticos, (não tão grande como o que foi
citado acima), diz respeito ao jogo de interesses privados
que existe na disputa pela posse da máquina governamental,
o que não é novidade, nem vai deixar de existir tão cedo assim.
Todavia, refrescar a memória, além de ser um bom ato pedagógico,
já é parte da construção de novas bases populares da república.
No
dia 5 de maio passado o PT fez uso do programa eleitoral gratuito
para reapresentar uma série de irregularidades e de ilegalidades
praticadas nas Eleições de 2002 no Distrito Federal. A vitória
eleitoral da Candidatura Joaquim Roriz (PMDB) e Maria Abadia,
no 2º Turno, deveu-se ao uso da máquina pública e de
práticas eleitorais ilegais. Majela, Canditato pelo PT que
disputou com Roriz, entrou com ação no TSE solicitando a cassação
do mandato do Governo Roriz/Abadia, tendo por base os crimes
eleitorais. Pelo visto, não faltam evidências ao fato. Entretanto,
qualquer decisão que for tomada não terá a participação dos
eleitores do Distrito Federal.
Dirão
os defensores de Roriz/Abadia que as acusações não têm fundamento
e não existem provas suficientes para consumar a acusação.
Ou mais. Na verdade, os queixosos não aceitam a derrota, estão
querendo criar caso e usando o vulgo direito de “espernear”.
Os perdedores, além disso, não respeitam as regras da democracia:
o resultado dos votos nas urnas. Dirão mais. Como isso faz
parte do “jogo na política”, é coisa da oposição e fato corriqueiro
entre os “políticos”.
Basta
ter um pouco de conhecimento da sociedade do Distrito Federal
e da trajetória política de Roriz para compreender a estrutura
clientelista e os coronéis que existem naqueles sertões. O
mercado imobiliário e os negócios que giram em torno dos “terrenos
irregulares” nos arredores de Brasília (sede do Governo Federal),
se fossem convertidos em votos, bastariam para qualquer candidato
ganhar qualquer eleição, até mesmo para porteiro de “condomínio
residencial irregular”.
Se
o direito à moradia fosse coisa concreta no país, ao menos
sua “irregularidade” (ausência) não teria mais o mesmo peso
que tem hoje como moeda de troca nesse tipo de negócio: o
voto pelo controle da máquina governamental.
A
máquina governamental é o grande negócio! Se ela estiver nas
mãos de poucos (pouquíssimos, para ser correto) e uma vez
colocada ao seu serviço geral, podem ganhar muito!
OS
NEGÓCIOS PEQUENOS
E
os pequenos negócios? Existem ou não?
Para
tratar dessa questão também serão utilizados alguns exemplos
e casos recentes para esclarecer melhor quais são as práticas
da pequena política que tornam a “democracia” um pequeno negócio.
Entretanto, pequenas coisas podem ser utilizadas para se fazer
grandes e pequenos negócio em nome da Administração Pública.
Começamos
por um caso aparentemente pequeno ocorrido nos EUA (o baluarte
da “democracia”), mas que teve como interesse a disputa entre
democratas e republicanos no controle da “maquina governamental”
daquele país. Com certeza todos estão lembrados do fato, mas
como já se passaram alguns anos e mesmo por ser um fato comum
na tradição inglesa (britânica e norte-americana), talvez
tenha sido esquecido.
Trata-se
do “Caso Monicagate” (para parodiar um outro caso mais complicado:
o Irã-Gate). Lá pelo final do primeiro mandato do governo
Bill Clinton, em meio às disputas pela sucessão e o interesse
na reeleição do Clinton, apareceu mais um escândalo na “Casa
Branca”, envolvendo o Presidente e uma Estagiária, a Mônica
Levinsky.
O
grande escândalo foi o caso extraconjugal de Clinton com Mônica
Levinsky, que “abalou a principal instituição moral daquele
país”: a família puritana, não a Casa Branca. O Senado norte-americano
inclusive abriu Processo de Cassação do Mandato do Presidente.
A mídia internacional e norte-americana não media esforços
no acompanhamento do caso e na busca de furos de reportagem
ou exclusividade documental... Este era um grande negócio
para a Mídia-Global do Império.
Mônica
Levinsky com seu pequeno negócio, certamente fez um grande
negócio na política norte-americana, pois além de ser um caso
para Hollywood (baseado em fatos reais!), faturou uma boa
grana com entrevistas, provas do “crime”, livros, matérias
exclusivas, venda de direitos autorais, etc. Pouquíssimas
estagiárias obtiveram tantos benefícios particulares numa
função (emprego) temporária e num serviço terceirizado.
O
Presidente Bill Clinton com seu negócio pequeno (um caso amoroso)
na Casa Branca criou um grande pepino particular e público
(de Estado). Aristóteles, da Grécia Antiga que o diga... Pessoalmente
Clinton se viu numa enrascada perante o Senado (e Tribunais),
pois teve que mudar seu depoimento diante das provas (exame
de DNA), ao mesmo tempo em que teve que se acertar com Hillary
(esposa e Primeira Dama) e seus filhos. Publicamente teve
que responder o processo na condição de Presidente Democrata,
escandaloso e mentiroso confesso (inicialmente mentiu para
preservar a Casa Branca).
Para
melhorar sua popularidade (índice de aprovação da opinião
pública, midiática) e viabilizar sua reeleição, inventou uma
guerra no Oriente Médio, inclusive lançando mísseis no Iraque.
Já pensou se Hillary fosse puritana-fundamentalista ou “xiita”?
Se fosse “terrorista-suicida” então nem se fala ... Só uma
bomba atômica...
Portanto,
outras guerras (grandes negócios) já foram feitas contra o
povo iraquiano e do Oriente Medio, por motivos bem menores!!!
Os curdos não foram massacrados somente pelo Governo Sadan
Ussein, do Iraque, mas também pelo da Turquia, com armas compradas
e/ou contrabandeadas por ordem do Governo dos EUA e seus sócios.
Depois
dizem, para nós latino-americanos e terceiro-mundistas, que
cada povo tem o governo que merece... Com exceção dos cidadãos
que são contra a guerra e qualquer forma de corrupção na Administração
Pública, podemos dar razão ao ditado anterior, porém, incluindo
os “civilizados que defendem os valores da democracia através
da guerra”.
Se
o caso “Monicagate” é um dos mais hilariantes para tratar
dos negócios pequenos e dos pequenos negócios, existem outros
com sentido semelhante (uso da coisa pública para fins
particulares e assuntos pessoais) praticados em nosso meio
e relacionados com o “domínio do Governo e seu uso como domicílio”:
a economia doméstica dos grandes e pequenos negócios.
Para
entender o conteúdo do jogo da pequena política, convém relatar
dois casos ocorridos em um certo lugar nas eleições de 2000.
O
Primeiro caso: Passadas as eleições e como o candidato não
se elegeu, apesar de ter investido muito na campanha,
um cabo eleitoral foi cobrar a cesta básica de um eleitor
de uma determinada seção eleitoral e até que teria um “bom
motivo moral” para fazê-lo, afinal de contas, foram dadas
dezenas de cestas básicas no local, porém o candidato não
obteve qualquer voto naquela urna...;
O
segundo caso: Estando na fila de votação um certo eleitor
(que havia dado o carnê do IPTU atrasado para ser quitado
em nome de um candidato), encontrou o cabo eleitoral que havia
recebido o referido carnê e perguntou-lhe a respeito do “negócio
que haviam acertado”. O cabo eleitoral confirmou o “negócio”,
dizendo que depois das eleições o carnê seria pago. Como negócio
é negócio, o eleitor simplesmente votou no outro candidato.
Moral
dos casos?
Os
casos não dizem respeito à moral, mas à transformação da política
num “pequeno mercado” (como diz Noberto Bobbio em “O Futuro
da Democracia”), onde o voto é negociado da mesma forma
como qualquer outra mercadoria ou produto, sob a ótica de
uma relação de clientela entre vendedor e comprador.
Infelizmente,
para muitos isso é democracia, ou melhor, democracia é voto
e eleição: um mercado persa. A única diferença que existe
entre os concorrentes está na quantidade de voto recebido
de um universo de eleitores (mercado potencial). Mais. Para
estes as eleições limitam-se à concorrência entre candidatos
e partidos no pequeno mercado e as “regras democráticas” garantem
a liberdade de iniciativa neste negócio. Como o princípio
geral é a liberdade no(de) mercado e nossa democracia é liberal,
tal como nossa economia, onde a iniciativa ($) é livre. Entretanto,
será que a regra básica dessa democracia de mercado é a lei
da oferta e da procura? Não existe outra alternativa?
A
princípio, entre grandes negócios e pequenos negócios existem
duas diferenças e uma semelhança:
§
A primeira
diferença é de natureza quantitativa (numérica e matemática):
o grande e o pequeno são diferentes pela quantidade que cada
um possui (um tem mais e o outro tem menos, quando comparados
entre si), mas também são iguais porque ambos expressam apenas
uma quantidade (volume, valor, peso, etc.) que é diferente;
§
Uma segunda
diferença estaria no tamanho dos negociantes (quem são e quem
representam?), porém também esta é de ordem quantitativa,
pois grande parte da força dos negociantes vem do tamanho
do negócio que possuem ou fazem; e,
Já
a semelhança é de natureza substantiva (de conteúdo): ambos
são negócio e somente negócio.
Democracia
é quantidade ou negócio? Para quem compreende o governo como
a administração da “coisa pública”, democracia
não é nem quantidade (de votos ou de grandeza) nem negócio.
Democracia
é a política exercida segundo a consciência e a participação
da maioria entre os iguais. Iguais em consciência
(conhecimento) e em participação (proposição
e ação). Ambas somente serão alcançadas se o debate for politizado
e democratizado a todas as pessoas envolvidas. A primeira
igualdade, aquela que possivelmente será a primeira alcançada,
é a igualdade política, pois o público somente será público
e se manterá público se for socializado ao máximo possível
entre os cidadãos na cidade. Havendo igualdade na gestão da
polis, certamente teremos mais de meio caminho andado
para construir outras igualdades. Ninguém está falando em
uniformidade. Nesse sentido também não devem existir os mais
iguais e os menos iguais, perante a lei ou perante os outros.
Sua natureza não é quantitativa, mas sim, qualitativa (de
conteúdo).
Referindo-se
a outra reflexão de Bobbio (Direita e Esquerda), é
a noção de igualdade que torna radical a diferença entre a
direita e a esquerda partidária e social.
Para
continuar na construção desta tarefa histórica, que tal pensar
num governo exercido diretamente pela maioria igual? Para
tanto teremos que avançar na construção da própria democracia
(demos + cracia): o governo popular.