Por MARCELLO KASHMIR
Sociólogo, bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André/SP - FAFIL - 1995-1998. Atualmente cursando 1º ano bacharel em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu/SP. Professor de História e Geografia - E.F II, Sociologia e Filosofia - E.M. em SBC/SP. Duplicolunista do site Duplipensar.net desde 29/02/2002


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"Nós nos encontraremos num lugar onde não há nenhuma escuridão..."

 

Cena do Filme1984O filme totalmente superlativo de Michael Radford baseado no romance de Orwell talvez seja uma das melhores adaptações cinematográficas de uma fonte literária já vista - e é considerado como um dos filmes britânicos mais memoráveis dos últimos trinta anos. O crédito é dividido em parte ao diretor de fotografia Roger Deakins que filmou tudo em cores granulosas, desaturadas e opacas que adicionam ao filme uma atmosfera retratada com uma estranheza, contudo austera, como se fosse de sonho.

Como foram feitos os ajustes modernos de Londres? Optou-se por uma visão mais próxima do que seria da capital da Inglaterra da perspectiva de 1948, uma Londres com suas ruas estreitas, os edifícios mal-conservados, dilapidados, campos desolados pela guerra, becos sem saída, fachadas escuras desoladas e sugestões góticas-victorianas e reflexos de uma minimalista arquitetura fascista. Assemelha-se a um projeto de carcaça da era de depressão após os ataques da Luftwaffe alemã durante a II GM.

A trilha sonora instrumental de Dominic Muldowney, com suas chamadas marciais dos clarinetes, suas explosões bombásticas de órgão de igreja, e o coro choroso de temas como 'Oceania', 'Tis for thee', têm uma mistura de grandeza Wagneriana e religiosidade Bachiana. Completando, temos também as estranhas e subestimadas pelo diretor, 4 músicas adicionais de Dave Stewart e Annie Lennox, da dupla Eurythmics, com suas ascensões e quedas, tecendo-se dentro e fora da narrativa como se fosse um espírito subconsciente.

Radford trata as premissas do livro de Orwell não como um vôo sci-fi de fantasia ou de dura profecia, mas como se o mundo de 1984 fosse visto através de um vidro escuro - um tipo do jogo medieval da moralidade passando-se na era do pós-totalitarismo. Há menos ênfase no melhor do romance, já bem conhecido e de infinitas escolhas sobre a importação de suas polêmicas, o maior foco ficou para o drama dos elementos humanos, e certamente, a escolha dos atores, que tem tanta semelhança com as descrições de Orwell, que parecem praticamente ter nascido para os seus papéis.

Com sua quietude, eloqüência e os olhos assombrados como que pulando para fora num grande terror, magreza cadavérica como se tivesse tuberculoso, pálido e acinzentado como um quadro de Egon Schiele, John Hurt é moldado idealmente como Winston Smith. Como Julia, Suzanna Hamilton (que estreou como uma empregada em "Tess" de Roman Polanski) tem uma serena e arrebatadora presença - e parece tão misteriosa, agitada e como uma novidade para nós quanto para Smith. Traz um frescor e um calor cativante a seu papel, seu corpo pálido e mignon têm uma beleza simples, não afetada, quase arquétipica, e nos momentos mais íntimos do filme, ela irradia toda a sua graça sensual e tátil como se fosse uma pintura das modelos nuas de Munch ou Degas.

Como O'Brien, um jesuítico inquisidor de infinita paciência, Richard Burton no seu último papel antes de sua morte, entrega-nos sua perspicaz última performance. Transforma-se quase num tipo de um oráculo de 'Thanatos' ao 'Eros' da Julia amante de Smith. Em numa estranha mistura da maliciosa ironia Swiftiana, a famosa voz de Burton, com suas ricas inflexões melodiosas de Gales e descendentes cadências dos sonetos shakespeareanos e da poesia de Dylan Thomas, torna-se um cruel arauto da destruição intencional, sistemática do espírito humano - 'da coisa mais má no mundo' que espera no quarto 101...' no destinado lugar 'onde não há nenhuma escuridão'. Quando O'Brien diz para Winston: "Você está pensando de que minha cara é velha e cansada... e enquanto eu falo de poder, sou incapaz de impedir a deterioração de meu próprio corpo", a expressão dramática de Burton fala mais alto.

Em poucos papéis, o Parsons de Gregor Fisher assemelha-se literalmente a uma doce rã, Syme de James Walker é a imagem clássica do minguado e meia-boca intelectual-do-partido, enquanto o Tillotson de Andrew Wilde é a figura mais fria e bestificada de um "homem de companhia". O Sr. Charrington interpretado por Cyril Cusack faz o gentil senhorio Cockney que não é tudo o que parece ser, com um charme sentimental suavizado pontuado por cintilações ligeiras de ameaça calculada (preste atenção de que maneira as expressões faciais de Cusack mudam sempre que Hurt não olhando para ele). Phyllis Logan fornece uma das mais inteligentes e desconhecidas ironias do filme: como anunciadora de Teletela, sua voz estridente sugere a mais aguda caricatura de Margaret Thatcher.

Além de tudo, este filme faz um original e competente uso para alguns dos recursos cinematográficos mais velhos presentes no livro que ultimamente quase todos os diretores contemporâneos haviam então abandonado: slow dissolves, fades, blackouts, shock-cuts, slow motion, flashbacks, montagens. A fotografia em alto contraste, iluminação alternadamente áspera e discreta, e close-up icônicos evocam o sumário e a pureza transcendental de Cartier-Bresson. Enquanto Hurt é fotografado como um santo que procura a redenção depois de tantas provações, Burton é filmado em um opressivo baixo-ângulo com sobras expressionistas definindo as linhas de sua figura dissimuladora.

O que faz o filme ser assim tão poderoso não são meramente a fidelidade à sua fonte literária, mas ao seu vívido senso de realismo. 1984 é um desapaixonado e ricamente texturizado trabalho, em que os seus visuais parecem quase penetrar nos poros de nossa pele, intoxicando nosso psiquismo.E Radford mostrou-se um perito em obscurecer os limites que separam a persistente percepção de revelia da deslumbrante aspereza de se acordar para a realidade, que faz o filme neste aspecto mostrar-se quase assustador.


Adaptação para cinema (1984)
Título: Nineteen Eighty-Four
Direção: Michael Radford
Produtora: Virgin Films
Gênero: Drama / Ficção-Científica/Política
País: Reino Unido
Idioma: Inglês
Cor: Colorido.
Personagens:
John Hurt - Winston Smith
Richard Burton - O'Brien
Suzanna Hamilton - Júlia
Cyril Cusack - Charrington
Gregor Fisher - Parsons
James Walker - Syme


MARCELLO KASHMIR

     

* Publicado em Duplipensar.net em 20.05.03.

 


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