Por CARLOS ALBERTO DOS SANTOS
Professor do Instituto de Física. Universidade Federal do Rio Grande do Sul


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Einstein e o Centenário da Academia Olímpia

 


SINOPSE
Na páscoa de 1902, Maurice Solovine leu um anúncio num jornal de Berna segundo o qual Albert Einstein dava aulas particulares de matemática e física por três francos a hora. No terceiro dia de aula, Einstein desistiu de cobrar e sugeriu que eles tivessem apenas reuniões diárias para discutir o que bem entendessem. Algumas semanas depois Conrad Habicht começou a participar das discussões. Para ridicularizar as verdadeiras academias científicas passaram a se autodenominar Akademie Olympia. Foi com esses dois colegas e com Michele Besso que Einstein discutiu as idéias científicas que redundaram nos extraordinários trabalhos publicados em 1905.

Albert Einstein (14.03.1951)Os fundadores da Academia Olímpia eram jovens, pobres e marginalizados do establishment acadêmico. Desde sua formatura, em julho de 1900, Einstein só tinha obtido alguns empregos temporários em escolas secundárias. Naquela páscoa de 1902, com 23 anos de idade, ele estava desempregado e vivendo à beira da miséria. Aos 27 anos, o romeno Solovine continuava estudante, sem saber a que área do conhecimento deveria se dedicar. Sua aptidão o dirigia para a filosofia, mas seu grande desejo de estudar questões concretas o levou a freqüentar cursos de matemática, física, geologia e fisiologia. Com 26 anos de idade, Conrad Habicht era estudante de doutorado em matemática na Universidade de Berna.

De junho de 1902 a julho de 1903, esses boêmios reuniam-se quase que diariamente, ao final da tarde, ora na casa de um, ora na casa de outro. Discutiam filosofia, ciência e literatura. Eventualmente Einstein dava um concerto de violino. Se o ambiente era intelectualmente rico, a janta era um modelo de frugalidade; comiam geralmente uma salsicha, uma fruta, um pedaço de queijo, mel e uma ou duas xícaras de chá. Dos três, o único que escreveu algo sobre essas reuniões foi Solovine. Na introdução do seu livro, Albert Einstein: Letters to Solovine, ele diz que para discutir filosofia e ciência, eles leram Platão, Spinoza, Karl Pearson, Stuart Mill, David Hume, Ernst Mach, Helmholtz, Ampère e Poincaré. Mas também leram obras literárias de Sófocles, Racine e Charles Dickens. Desses, os que mais influenciaram Einstein foram Hume, Mach e Poincaré.

Einstein jamais esqueceu aquele ambiente, e ficou muito feliz quando, em 1954, Carl Seelig mencionou a Academia na sua biografia Albert Einstein. Eine documentarische Biographie (Albert Einstein. Uma biografia documentada).

A Academia é mencionada em praticamente todas as biografias de Einstein, mas há uma confusão quanto à data da sua “criação”. No Volume 5 do The Collected Papers of Albert Einstein, obra editada pela Universidade de Princeton (1987), a cronologia referente ao ano de 1903 destaca, entre outros, os seguintes eventos: casamento de Einstein e Mileva Maric (6 de janeiro); criação da Academia Olímpia (páscoa). Seguramente esta é uma informação equivocada, e as contradições estão documentadas no próprio Volume 5. Em carta enviada a Mileva em 28 de junho de 1902 (doc. 1, p. 5), Einstein refere-se a Solovini [sic]. A nota [4] deste documento esclarece que se trata de Maurice Solovine, e que este começou um grupo de discussão informal tão logo conheceu Einstein, na páscoa de 1902. Outros documentos referem-se a esta data, mas o documento chave que aponta o equívoco da cronologia acima é a certidão de casamento de Einstein, datada de 6 de janeiro de 1903, na qual consta que Habicht e Solovine foram as testemunhas.

O curioso é que este tipo de equívoco tenha se difundido através de obras importantes. Por exemplo, Abraham Pais e Albrecht Fölsing, repetem a informação nas cronologias apresentadas nas suas famosas biografias, respectivamente “Sutil é o Senhor...: a ciência e a vida de Albert Einstein” (Nova Fronteira, 1995) e Albert Einstein. A biography (Penguin, 1997). No entanto, eles entram em contradição ao longo do texto. Na página 52 Pais sugere que o grupo começou a se reunir antes da nomeação de Einstein no Escritório de Patentes de Berna, em junho de 1902. Albrecht Fölsing se contradiz na página 99, quando menciona o livro de Solovine, o qual é claro: o grupo de discussão teve início na páscoa de 1902.

O descuido da literatura é apenas um fato curioso, não tem qualquer importância história fundamental. Pouco importa se o centenário da criação da Academia Olímpia deveria ter sido comemorado na páscoa de 2002 ou se deverá ser comemorado na páscoa de 2003. Mais relevante do que a data exata do seu surgimento, é o efeito psicológico que a existência da Academia pode ter tido sobre o jovem Einstein. Neste sentido não podemos esquecer de incluir Michele Angelo Besso como “membro correspondente da Academia”. Engenheiro de origem italiana, que também estudou na ETH (concluiu o curso no ano que Einstein ingressou), Besso formou com Habicht e Solovine o primeiro círculo de interlocutores de Einstein.

Este período da vida de Einstein mereceria um estudo orientado pela sua repercussão psicológica. Como é que um sujeito desenvolve as idéias que ele desenvolveu, tendo como únicos interlocutores um engenheiro, um matemático e um filósofo, sendo que todos faziam parte daquela espécie que o mundo acadêmico classifica como outsider. Portanto, absolutamente isolado do meio acadêmico e vivendo à beira da miséria, na companhia de outros boêmios igualmente marginais, Einstein publicou, durante a curta vida da Academia Olímpia (junho de 1902 – julho de 1903) três trabalhos sobre termodinâmica e teoria cinética na revista alemã Annalen der Physik. Além disso, discutiu com seus colegas “acadêmicos” os alicerces teóricos que redundaram nos extraordinários trabalhos de 1905, pelos quais ganhou o Prêmio Nobel de 1921. Nesses trabalhos de 1905 Einstein obteve sucesso na explicação do efeito fotoelétrico, do movimento Browniano, na formulação de teoria da relatividade restrita e na formulação da eqüivalência massa-energia, a famosa equação E=mc2.



* Professor do Instituto de Física. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. http://www.if.ufrgs.br/einstein


CARLOS ALBERTO DOS SANTOS

     

* Publicado in: Voz do Paraná, n. 1769, edição de 9/4/2003

 


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