Os
fundadores da Academia Olímpia eram jovens, pobres e
marginalizados do establishment acadêmico. Desde
sua formatura, em julho de 1900, Einstein só tinha obtido
alguns empregos temporários em escolas secundárias.
Naquela páscoa de 1902, com 23 anos de idade, ele estava
desempregado e vivendo à beira da miséria. Aos 27 anos,
o romeno Solovine continuava estudante, sem saber a
que área do conhecimento deveria se dedicar. Sua aptidão
o dirigia para a filosofia, mas seu grande desejo de
estudar questões concretas o levou a freqüentar cursos
de matemática, física, geologia e fisiologia. Com 26
anos de idade, Conrad Habicht era estudante de doutorado
em matemática na Universidade de Berna.
De junho de 1902 a julho de 1903, esses boêmios reuniam-se
quase que diariamente, ao final da tarde, ora na casa
de um, ora na casa de outro. Discutiam filosofia, ciência
e literatura. Eventualmente Einstein dava um concerto
de violino. Se o ambiente era intelectualmente rico,
a janta era um modelo de frugalidade; comiam geralmente
uma salsicha, uma fruta, um pedaço de queijo, mel e
uma ou duas xícaras de chá. Dos três, o único que escreveu
algo sobre essas reuniões foi Solovine. Na introdução
do seu livro, Albert Einstein: Letters to Solovine,
ele diz que para discutir filosofia e ciência, eles
leram Platão, Spinoza, Karl Pearson, Stuart Mill, David
Hume, Ernst Mach, Helmholtz, Ampère e Poincaré. Mas
também leram obras literárias de Sófocles, Racine e
Charles Dickens. Desses, os que mais influenciaram Einstein
foram Hume, Mach e Poincaré.
Einstein jamais esqueceu aquele ambiente, e ficou
muito feliz quando, em 1954, Carl Seelig mencionou a
Academia na sua biografia Albert Einstein. Eine documentarische
Biographie (Albert Einstein. Uma biografia documentada).
A Academia é mencionada em praticamente todas as biografias
de Einstein, mas há uma confusão quanto à data da sua
“criação”. No Volume 5 do The Collected Papers of
Albert Einstein, obra editada pela Universidade
de Princeton (1987), a cronologia referente ao ano de
1903 destaca, entre outros, os seguintes eventos: casamento
de Einstein e Mileva Maric (6 de janeiro); criação da
Academia Olímpia (páscoa). Seguramente esta é uma informação
equivocada, e as contradições estão documentadas no
próprio Volume 5. Em carta enviada a Mileva em 28 de
junho de 1902 (doc. 1, p. 5), Einstein refere-se a Solovini
[sic]. A nota [4] deste documento esclarece que se trata
de Maurice Solovine, e que este começou um grupo de
discussão informal tão logo conheceu Einstein, na páscoa
de 1902. Outros documentos referem-se a esta data, mas
o documento chave que aponta o equívoco da cronologia
acima é a certidão de casamento de Einstein, datada
de 6 de janeiro de 1903, na qual consta que Habicht
e Solovine foram as testemunhas.
O curioso é que este tipo de equívoco tenha se difundido
através de obras importantes. Por exemplo, Abraham Pais
e Albrecht Fölsing, repetem a informação nas cronologias
apresentadas nas suas famosas biografias, respectivamente
“Sutil é o Senhor...: a ciência e a vida de Albert Einstein”
(Nova Fronteira, 1995) e Albert Einstein. A biography
(Penguin, 1997). No entanto, eles entram em contradição
ao longo do texto. Na página 52 Pais sugere que o grupo
começou a se reunir antes da nomeação de Einstein no
Escritório de Patentes de Berna, em junho de 1902. Albrecht
Fölsing se contradiz na página 99, quando menciona o
livro de Solovine, o qual é claro: o grupo de discussão
teve início na páscoa de 1902.
O descuido da literatura é apenas um fato curioso,
não tem qualquer importância história fundamental. Pouco
importa se o centenário da criação da Academia Olímpia
deveria ter sido comemorado na páscoa de 2002 ou se
deverá ser comemorado na páscoa de 2003. Mais relevante
do que a data exata do seu surgimento, é o efeito psicológico
que a existência da Academia pode ter tido sobre o jovem
Einstein. Neste sentido não podemos esquecer de incluir
Michele Angelo Besso como “membro correspondente da
Academia”. Engenheiro de origem italiana, que também
estudou na ETH (concluiu o curso no ano que Einstein
ingressou), Besso formou com Habicht e Solovine o primeiro
círculo de interlocutores de Einstein.
Este período da vida de Einstein mereceria um estudo
orientado pela sua repercussão psicológica. Como é que
um sujeito desenvolve as idéias que ele desenvolveu,
tendo como únicos interlocutores um engenheiro, um matemático
e um filósofo, sendo que todos faziam parte daquela
espécie que o mundo acadêmico classifica como outsider.
Portanto, absolutamente isolado do meio acadêmico e
vivendo à beira da miséria, na companhia de outros boêmios
igualmente marginais, Einstein publicou, durante a curta
vida da Academia Olímpia (junho de 1902 – julho de 1903)
três trabalhos sobre termodinâmica e teoria cinética
na revista alemã Annalen der Physik. Além disso,
discutiu com seus colegas “acadêmicos” os alicerces
teóricos que redundaram nos extraordinários trabalhos
de 1905, pelos quais ganhou o Prêmio Nobel de 1921.
Nesses trabalhos de 1905 Einstein obteve sucesso na
explicação do efeito fotoelétrico, do movimento Browniano,
na formulação de teoria da relatividade restrita e na
formulação da eqüivalência massa-energia, a famosa equação
E=mc2.