No
mês de março passado, enquanto em viagem ao estado de
Minnesota, parei na cidade capital do Estado de Oklahoma,
Oklahoma City. Nessa ocasião, tive a oportunidade de visitar
um lugar que não existia na última vez que fiz uma viagem
por carro passando por Oklahoma, o "Oklahoma City
National Memorial" - O Memorial Nacional da Cidade
de Oklahoma.
Para relembrar:
foi neste lugar que, no dia 19 de abril de 1995, às 9:01
da manhã, um carro-bomba explodiu o Prédio Federal Alfred
P. Murrah, que abrigava, além de escritórios de várias
agências locais do governo federal dos Estados Unidos,
também uma creche. A explosão matou 168 pessoas, incluindo
algumas que estavam em prédios vizinhos.
A visita
a este memorial de Oklahoma é talvez mais emocionante
que uma visita ao lugar da baía em Pearl Harbor onde ainda
se pode ver o óleo saindo dos cascos dos navios afundados
pelo ataque japonês durante a segunda guerra mundial.
Duas razões me emocionaram mais em Oklahoma City. Uma
delas é obviamente o fato de este ataque ter acontecido
em minha geração, e portanto tenho uma conexão mais direta
com as imagens do ataque e das tentativas de salvamento
das pessoas soterradas. A outra razão é devida ao fato
de que a maioria absoluta dos que morreram neste ataque
eram civis, e 19 eram crianças (bebês, realmente), que
estavam na creche na hora do ataque.
As famílias
dos que morreram, junto com pessoas que sobreviveram ao
ataque, escolheram homenagear as vítimas com um monumento
ao ar livre que é, ao mesmo tempo, comemorativo do sofrimento
e da perda destas pessoas, e de esperança no futuro. O
que restou do prédio Alfred P. Murrah foi implodido depois
que a busca por sobreviventes e por restos mortais terminou.
A área --uma parte central do cidade—foi toda usada para
este monumento.
A característica
que chama mais a atenção, e que virou a "marca registrada"
deste memorial são as 168 cadeiras vazias. Estas cadeiras,
dispostas em nove filas para simbolizar os nove andares
do prédio, são construídas de bronze e vidro. Durante
o dia, as cadeiras parecem flutuar no espelho d’água que
fica diante delas. À noite, a parte de vidro se ilumina,
e a silhueta das cadeiras, vazias, representam a ausência
e a saudade. Na entrada norte do monumento, está marcada
a hora, 9:01, quando a explosão ocorreu. Mas o monumento,
que toma dois quarteirões, tem outras características,
como a cerca de arame trançado onde pessoas colocam mensagens,
imagens, fotos, bandeiras, brinquedos. Do lado de dentro
do monumento, se encontra uma árvore enorme, chamada "Survivor
Tree" - árvore sobrevivente - que tem no tronco marcas
da explosão; ao lado desta árvore foram plantadas árvores jovens e fortes, para indicar que há
esperança, e que os que morreram não serão esquecidos.
Devo admitir
que me emocionei. Quem não se emociona em um lugar em
que vidas inocentes foram tiradas assim, bestamente? Quem
não sente um pouco da dor daqueles que viram seus filhos
e filhas, maridos, esposas, irmãs, irmãos, retirados dos
escombros, em pedaços? E, sempre, aquela pergunta, "por
quê?"
Nas horas
imediatamente após este ataque, enquanto o país todo assistia
em choque as cenas transmitidas ao vivo de oklahoma City
(onde fica mesmo este lugar?—muitos se perguntavam), muitos
achavam que este tinha sido um ataque perpetrado por estrangeiros.
Uma das primeiras manchetes em um jornal dizia, "Eles
agora estão matando criancinhas!" "Eles,"
naturalmente, não são "nós." Uma outra frase
que ficou marcada daqueles primeiros momentos foi, "In
American soil" - no solo americano—indicando que
"eles" tinham tido a ousadia de "nos"
atacarem dentro da nossa própria casa. Como todos sabem,
em pouco tempo o perpetrante do ataque, um antigo militar,
e americano, Timothy McVeigh, foi apreendido. Em tempo,
ele foi julgado, condenado, e executado.
De uma
certa maneira, apesar da grande tristeza que um lugar
como este memorial em Oklahoma City provoca, pelo menos
se pode ter um sentimento de que o "culpado"
foi identificado, embora ainda existam tipos dentro dos
Estados Unidos que a) acreditam que McVeigh era inocente,
b) crêem que a causa dele era justa (Há um grande número
de pessoas que estão contra o governo federal, se acham
no direito de viver como querem, sem pagar impostos e
sem seguir as leis do país. Entre pessoas deste grupo
estão extremistas que acham que matar inocentes, incendiar
clínicas, tudo é justificado para fazerem seu ataque ao
governo). Mas em muitos outros lugares, tanto aqui nos
Estados Unidos como em outros países, este sentimento
é impossível, e a dor não oferece o consolo da esperança.
Uma vez
mais, o país que pode oferecer o exemplo mais pungente
de como o sofrimento causado a toda uma população pode
ser transformado em uma força positiva nos vem do Japão.
Aqui me refiro especialmente ao povo da ilha de Okinawa,
que fica ao sul do arquipélado.
Okinawa,
como lembramos, foi o palco do ataque americano ao Japão,
por terra. Na ilha morreram 200.000 pessoas, entre os
próprios residentes japoneses, soldados do imperador,
soldados das forças aliadas, coreanos e chineses que estavam
aprisionados e eram usados como escravos pelos japoneses (para fins de comparação, basta recordar que
no ataque com bomba nuclear a Hiroshima aproximadamente
140,000 pessoas morreram dentro de um ano). Duzentas mil
pessoas é um número muito grande, se se considera que
Okinawa é uma ilha relativamente pequena. A maioria dos
mortos eram civis, gente que na realidade não era bem
aceita nem respeitada pelos japoneses das ilhas ao norte
(Okinawa tem uma cultura tradicional polinésia).Depois da guerra, o Japão "cedeu"
Okinawa aos Estados Unidos, que mantiveram controle da
ilha por muitos anos. Quando afinal os americanos devolveram
Okinawa ao Japão, eles mantiveram na ilha bases militares,
que interessam ao Japão para sua proteção, e aos Estados
Unidos que assim mantêm bases firmes na Ásia. E Okinawa?
Ainda hoje a ilha paga o preço da segunda guerra mundial,
sendo obrigada a carregar o peso da maior parte da responsabilidade—e
da dor de cabeça—de ter este elemento alienígena dentro
do seu seio.
Ainda hoje
Okinawa e seus cidadãos são tratados como uma parte inferior
do Japão. Mas eles perseveram nos seus sentimentos de
que a paz é necessária, possível, e preferível a qualquer
guerra. No dia 23 de junho de 2003, quando a ilha comemorava
os 58 anos do fim da luta em Okinawa (devolvida ao governo
japonês em 15 de maio de 1972), o governador Keiichi Inamini
reiterou o propósito de continuar explicando para a geração
presente o que a guerra significou e significa para a
comunidade.
Okinawa,
então, carregando seu fardo de soldados estrangeiros que
geralmente só se misturam à comunidade local para causar
danos, sentindo ainda hoje o preço de ter sido invadida
tanto pelos japoneses como pelos americanos, ainda tem
força para emitir apelos de paz ao mundo.
Então,
se compararmos Oklahoma City a Okinawa, vemos que o sentido
do perdão e da renovação, por mais duro e mais testado
que seja no dia a dia, continua forte, sendo realmente
um exemplo para a humanidade. Cada uma destas comunidades,
uma nos Estados Unidos e outra no Japão, tenta dar seu
recado ao mundo, de maneiras diferentes.