A
necessidade de um novo modelo policial
Os acontecimentos violentos que viram
notícias revelam para a opinião pública a dimensão do
problema da violência no Brasil. Desde a década de 80,
assistirmos ao desenvolvimento de organizações criminosas.
Por conta disso, a criminalidade no Brasil deixou de
ser uma questão meramente de ato individual, para ser
algo complexo, onde indivíduos organizados atuam à margem
do Estado em busca do lucro através de atividades ilícitas.
O crime organizado possui as seguintes
características: 1. Atividades ilícitas; 2. Hierarquia;
3. Planejamento empresarial; 4. Controle territorial;
5. Monopólio da violência; 6. Uso da intimidação; 6.
Simbiose com o Estado; 7. Clientelismo (Mingardin, 1998:
p. 17). Contudo, as ações das organizações criminosas
não se restringem aos morros, mas também estão presentes
nas esferas do poder político e econômico.
Por conta disso, não é obrigatório
para a definição da organização criminosa a presença
de todas as características evidenciadas; mas parte
delas. Porém, toda organização criminosa tem como objetivos
básicos a busca do lucro; a interação com os poderes
do Estado; e se aproveita – e
aqui pode está um dos motivos principais da existência
de organizações criminosas – do Estado clientelista
e patrimonial.
As organizações criminosas possuem
como sustentáculo o poder político e o econômico. Quando
falo em poder político, estou falando em poderes do
Estado, ou seja, o Sistema de Justiça, o Legislativo e o Executivo. Através
destes poderes, as organizações criminosas tentam capturar
agentes públicos para servirem aos seus interesses.
O poder econômico está presente na lavagem de dinheiro
e em fraudes fiscais.
Uma questão importante, que deve
ser esclarecida, é que o crime organizado não se caracteriza
apenas por atuar com o narcotráfico e com o roubo de
cargas. As atividades das organizações criminosas vão
desde o tráfico de drogas, a fraudes fiscais e a interferência
em licitações públicas (Fiorentini, 1995). Neste sentido,
compreendo que a discussão em torno da criminalidade
organizada no Brasil está desfocada por conseqüência
da miopia, intencional ou não, dos atores que
decidem analisar ou combater o crime organizado. Por
conta disso, as argumentações em torno da eficiência
da polícia brasileira no combate a criminalidade, especificamente
a da Polícia Civil, esconde as variáveis/motivos
obscuros que levam as instituições policiais a serem
ineficientes.
Na área das Ciências Sociais existem
poucos trabalhos que analisam os motivos que levam as
instituições policiais a serem ineficientes e as práticas
sociais existentes dentro delas. Dentre as obras acadêmicas
recentes que procuram discutir a relação causal que
proporciona a existência de uma polícia ineficiente
ou os seus mecanismos internos destaco Soares (2000),
Lima (2002), Beato (2002).
Soares mostra a sua experiência no
desenvolvimento de políticas públicas na área da segurança
no período de 1999 a 2000. A obra de Soares
evidencia fatos empíricos que possibilitam a especulação
sobre o por que da polícia fluminense não combater
a criminalidade de modo eficaz. Soares revela pouco
do lado obscuro das instituições policiais – não uma
especificamente. Lima traz à tona a relação entre formação
policial e policia eficiente. Beato mostra a importância
do planejamento para uma ação policial eficiente.
No entanto, nenhuma das três obras
citadas mergulha no submundo, que até então era obscuro,
da dinâmica interna da instituição Polícia Civil. Zaverucha
(2003), por meio de uma pesquisa empírica e enriquecida
com uma análise sofisticada teoricamente, revela os
mecanismos internos da Policia Civil de Pernambuco,
proporcionando assim, que as variáveis que possibilitam
que uma polícia seja ineficiente sejam esclarecidas.
Esclareço que o autor não explicita que a sua obra possibilita
a explicação do por que da Polícia Civil de Pernambuco
atuar de modo ineficiente no combate à criminalidade.
Neste sentido, destaco quatro pontos
principais na obra de Zaverucha: as práticas policialescas,
a relação entre polícia e política eleitoral, o inquérito
policial e a falência da polícia Técnica-Científica.
Esses quatro pontos devem ser compreendidos como variáveis
causais que possibilitam a ineficiência da instituição
policial. Porém, essas variáveis também revelam como
a Polícia Civil de Pernambuco contribui para a descaracterização
do Estado de Direito.
De acordo com Zaverucha, as práticas
policialescas caracterizam-se por serem ações policiais
ilegais, aéticas ou atécnicas. Dentre as práticas policialescas,
o autor refere-se ao “chaveiro de cela”. Este “chaveiro”
é encontrado em delegacias que concentram um grande
número de presos. O papel do “chaveiro de cela” é tomar
conta de outros presos. Este papel é conquistado pelo
fato de o preso possuir bom comportamento. Friso que
essa prática é ilegal e aética. Como pode um preso atuar
com agente do Estado?
Além do “chaveiro de cela” são encontradas
nas delegacias pernambucanas pessoas presas ilegalmente.
Isto ocorre baseado na retórica/desculpa de que o indivíduo
foi preso para averiguação. Saliento que as prisões
ilegais não ocorrem com a garantia jurídica, ou seja,
com mandato judicial ou por conta do flagrante delito.
O livro de Zaverucha revela que os policiais civis fazem
prisões ilegais motivados pelo fato de que se a polícia
seguir estritamente o que a lei manda, a instituição
policial não apresentará resultados.
Algo muito importante encontrado
na obra de Zaverucha é a conivência dos órgãos de comunicação
com as práticas policialescas. A mídia ao chegar numa
delegacia não está interessada se a prisão foi ilegal
ou não; ou se a pessoa realmente cometeu algum tipo
de crime. O interesse principal da mídia é divulgar
o fato para garantir audiência. O policial também lucra
com esse tipo de comportamento midiático, pois ganha
notoriedade junto à opinião pública, à mídia e à instituição
policial.
É ainda muito comum em Pernambuco
a existência do “araque de polícia”. O “araque” atua
como informante da polícia. Em troca, o “araque” recebe
vantagens materiais ilícitas e acobertamento dos seus
próprios delitos. Na verdade, o “araque de polícia”
evidencia a cooperação ilícita/corrupta existente entre
um informante e um policial. O “araque” também atua
em delegacias do interior fazendo funções do servidor
policial.
Zaverucha evidencia, baseado em informações
da imprensa e entrevistas, como a interferência política
orienta o trabalho policial; a nomeação de delegados,
ou o afastamento destes; o arquivamento de um inquérito
policial, ou a omissão na sua construção; o envolvimento
de policiais na política eleitoral; a troca favores
policiais em troca de votos; e o controle político do
sindicato dos policiais civis por um único partido político
por uma década. Tudo isso reflete como a polícia contribui
para reforçar o Estado clientelista brasileiro.
Ressalto que em um Estado clientelista
o interesse público não é o que predomina, mas o interesse
privado. Neste sentido, questiono: como pode existir
uma polícia eficiente, se os interesses dos seus agentes
nem sempre são pautado pelo bem comum? Uma polícia pode
ser considerada democrata quando as suas ações são orientadas
por troca de favores? Qual é a qualificação de um inquérito
policial onde o interesse público choca-se com o privado?
O inquérito policial é monopólio
do delegado de polícia. O delegado decide que provas
colocar no inquérito e que testemunhas chamar. É comum,
e isto Zaverucha revela, policiais militares executarem
um ato de prisão, entregar o delinqüente ao delegado,
mas nunca ter sido chamado para depor na justiça. O
que aconteceu? O delegado fez algum acordo? Ou o delegado
descobriu que os policiais militares prenderam o indivíduo
ilegalmente?
Uma polícia eficiente não se faz
apenas com mais viaturas e armas. Para uma investigação
obter sucesso se faz necessário uma polícia Técnica-científica.
Em qualquer ocorrência policial que existam vítimas,
a polícia científica é requisitada. Uma investigação
sobre homicídio, a identificação de um indivíduo, um
exame de DNA; tudo isso são funções da polícia Técnico-científica.
Zaverucha evidencia que em Pernambuco a Polícia Técnica-científica
está falida.
A leitura do livro de Zaverucha possibilita
os seguintes questionamentos: será que a Polícia Civil
brasileira está apta a combater o crime organizado?
Como a Polícia Civil pode combater o crime organizado
se o seu funcionamento é pautado, em certa medida, por
interesses políticos? Não é o poder político junto com
o poder econômico que sustenta o crime organizado? Como
falar em democracia no Brasil se a polícia ainda faz
prisões para averiguação? Como podemos ter duas polícias
nos estados – Polícia Militar e Polícia Civil – fazendo
trabalhos diferentes? Isto promove a eficiência no combate
à criminalidade? Qual é o papel do delegado de polícia:
fazer investigação ou apenas inquéritos?
A necessidade de reformar a instituição
Policial Civil é apresentada no livro através de vários
dados empíricos. Dados estes que comprovam que a sociedade
brasileira, em especial a pernambucana, está diante
de uma instituição policial onde as regras do jogo
são os interesses privados, o corporativismo, a ausência
do accountability, e o desrespeito ao direito individual.
Além disso, o leitor encontrará no livro relatos que
comprovam a existência da corrupção policial, principalmente
por parte dos delegados.
Compreendo que a obra de Zaverucha
veio contribuir para a discussão sobre o funcionamento
de uma instituição tão importante como a Polícia Civil.
Esclareço que a Polícia Civil tem o monopólio da investigação
no sistema estadual de polícia. Sem investigação, lembro,
não temos ação policial eficiente. Friso por fim, que
a obra de Zaverucha tem uma qualidade que muitos trabalhos
da área de Ciência Política deixam a desejar, ou seja:
tentar explicar o por que, por meio de dados
empíricos, de um determinado comportamento institucional.