É
fato conhecido e divulgado que muitas crianças de
hoje consomem alimentos que não são nutritivos.
Orientadas
por adultos, crianças vêm processando na justiça norte-americana
a rede de fast food McDonald's, por fornecer sanduíches
que supostamente não desenvolvem "hábitos",
mas criam “dependência” ou "viciam" as pessoas.
Especialistas
colocam no mesmo grupo como "dependência doentia",
tanto o consumo de álcool, fumo e drogas, como o de
sanduíches e refrigerantes. Essas "coisas saborosas"
são maquinadas inteligentemente pela propaganda enganosa
como "meios mais rápidos para se chegar à felicidade".
Evidentemente, uma falsa felicidade, vendida em forma
de produto que gratifica a oralidade. Promete preencher
os vazios humanos com a satisfação gratificada na
forma de gozo do paladar, que os antigos chamavam
"gula", ou seja, um dos sete pecados capitais.
Operando desse modo, ganham três vezes: a) gratificando
as demandas infinitas e simbólicas do sujeito inconsciente;
b) escondendo a possibilidade real de doenças advindas
do mau hábito alimentar, que os médicos sempre falam,
mas que poucos respeitam; 3) colonizando os todos
os povos do mundo a substituírem à alimentação nativa,
cultural e saudável, por outra alheia a sua cultura
e industrializada. Á muito tempo, estamos nos rendendo
aos costumes alimentares importados principalmente
dos EUA, que vem fazendo lá a obesidade e suas conseqüências
na saúde ser um problema epidêmico naquele país.
Doa
a quem doer: dependência por um produto é vício, é
doença ou patologia, não é simples hábito. Podemos
mudar hábitos,
mas o vício
é mais complicado, talvez impossível, uma vez que
sabemos que ninguém se cura da narcodependência, do
alcoolismo ou do tabaco. O vício esconde motivações
não conscientes, que reaparecem em forma de imperativo
categórico, além da auto sustentação repetitiva.
A
psicanálise se refere a "compulsão à repetição",
ou seja, o sujeito diante dessas "coisas saborosas"
trabalhadas pela propaganda, perde a sua condição
de sujeito-que-escolhe,
como querem os crentes no homem apenas determinado
pela força racional-consciente.
É por ser um “sujeito dividido” que se torna
um objeto ou dependente do que elas representam.
Por exemplo, conhecemos inúmeros casos de pessoas
que sabem dos malefícios do cigarro, das drogas, de
comer alimentos errados e em demasia, mas não conseguem
ser verdadeiramente "sujeito".
Ou seja, “ele é onde não se pensa ser”, disse
Lacan, invertendo a sentença cartesiana. Daí, muitos
se voltarem ao Pai-Todo Poderoso (já que ele se vê
como um fraco); isto é, ele precisa crer
numa "força maior" para se manter
como "sujeito" no seu limite e pagando algum
preço.
Como
fator exógeno, sem dúvida, a propaganda contribui
nos influenciando em todos os espaços disponíveis
para sermos respondentes passivos aos seus apelos
e da ideologia consumista. A ideologia subjacente
da propaganda é que nos tornemos, não "pessoas"
ou “sujeitos independentes”, mas "consumidores
passivos ou dependentes", tal como em relação
às drogas. Desde cedo, as crianças são seduzidas pela
propaganda que certos alimentos são mais gostosos:
batatas fritas, sanduíches, pastéis, pizzas, doces...
sempre acompanhados de refrigerantes. Mais tarde,
dizem o mesmo da cerveja e das demais bebidas alcoólicas.
Mesmo
sabendo o quanto tais alimentos são gordurosos e causadores
de problemas de saúde, sobretudo se a criança é sedentária
e tem a tendência a obesidade, os pais terminam deixando-se
levar pela "onda" do consumo oral. Será
por impotência diante da sedução ostensiva ou é por
comodismo? Ou seria porque eles também se viciaram
em tais comidas, como se não mais existisse o pecado
da gula? Afinal, o apelo da propaganda é tão forte
e a sedução dos pequenos é tão implacável que terminam
fazendo com que até os pais mais conscientes – ou
de esquerda - também se rendam ao “consumismo capitalista”.
Foi o tempo em que os pais esquerdistas conseguiam
fazer com que os filhos não bebessem Coca-cola, lessem
gibi do Pato Donald e usassem jeans. Não são poucos
os que ainda se sentem tomados de culpa corrosiva,
traindo os preceitos do pai, ao tomar uma cola, por
exemplo.
Ter-se-iam
também os pais rendidos às promessas de felicidade
oral e garantia de status das comidas industrializadas, em
vez de seguirem o saudável costume de consumir frutas,
sucos, arroz com feijão, carne e salada?
Pesquisas
apontam que o brasileiríssimo "arroz-feijão-e-carne"
está sendo substituído pelo sanduíche, batata frita
e pizza, comidas muito calóricas e pouco nutritivas.
Existem escolas que, na contramão dos ensinamentos
de salas de aula, nas cantinas vendem comidas gordurosas
e industrializadas, em vez de frutas e comidas mais
naturais. A maioria das crianças de hoje não levam
lancheira para a escola para não "pagar mico".
Tudo
bem que escolhamos, vez por outra, ir às cantinas
ou lanchonetes comer essas "coisas" industrializadas.
Contudo, se não tivermos consciência e autocontrole,
o hábito de comer nesses lugares "ideologizados"
poderá virar vício.
Não
precisamos chegar ao extremo de processar os McDonald's,
os Habib's, os Roberto’s, afinal, esse é o negócio
deles. Porém, quando escuto uma mãe dizer “que fazer
se meu filho só quer sanduíche todo o dia?”, ou "ela
está gordinha, não sei porque", logo, penso:
será que não foi a mãe (ou pai) que deixou acontecer
esse “todo o dia”?
Onde fica a responsabilidade dos pais na educação
dos filhos?
Na
outra ponta, há quem sugira, em vez de processar os
McDonald’s, porque não processar os pais, pois são
eles que autorizaram
ou se omitem quando os filhos se inclinam para as
comidas industrializadas. É mais cômoda tal atitude
do que tomar posição preventiva à saúde e à compulsão
alimentar advinda desses hábitos.
Acho
exagero processar as tanto as lanchonetes como os
pais pela sua falta de educação alimentar. Em vez
de pensar
que só com a lei, a polícia, a justiça, o governo,
enfim, uma medida repressiva qualquer, que tal tentarmos
mudar nosso modo de pensar? Em vez de culpar o McDonald’s
ou a Elma Chip’s que tal os pais assumirem sua responsabilidade
de melhor orientar os filhos, desde pequenos, quanto
ao que comer? Que tal melhorar nossa educação alimentar?