A
calamitosa situação econômica e social que
caracteriza os países eufemisticamente chamados
emergentes ou “em desenvolvimento” exige
reflexão e análise críticas quanto aos rumos
da política do governo e seu discurso tranqüilizador
sobre a próxima retomada do crescimento,
tão logo estiver controlada a inflação...
Entretanto,
a recessão se alastra, o desemprego aumenta,
a miséria se expande e a violência beira
os limites do insuportável. Os habitantes
das metrópoles sentem-se, literalmente,
sitiados pelos bandos de delinqüentes e
de narcotraficantes. Os porta-vozes do governo
continuam a repetir, como se fosse uma verdade
revelada no Monte Sinai, as prescrições
do FMI referentes a políticas neoliberais
de equilíbrio fiscal, de superávit nas contas
externas e de altas taxas de juros para
controlar a inflação, sem mencionar o empobrecimento
assustador da maioria da população
Não se
apontam as raízes sistêmicas da crise, a
recessão que afeta toda a economia capitalista,
com queda da produção e do consumo e níveis
de desemprego chocantes, enquanto cresce
o déficit comercial dos EUA, cuja redução
afetaria ainda mais as economias que dependem
do mercado norte americano. Promete-se a
retomada do crescimento “sustentado”, embora
saibamos que este será do tipo jobless
growth, um crescimento sem geração de
empregos, e devastador do meio ambiente.
A salvação viria do retorno do IDE – Investimento
Direto Externo, mas não se menciona seus
efeitos espoliadores e desestruturadores
nas cadeias produtivas nacionais.
A experiência
do Brasil nas últimas décadas, tem demonstrado
que grande parte dos recursos aportados
é canalizada para adquirir empresas nacionais
– na desestatização do setor de serviços
públicos financiada pelo BNDES – ou, pior
ainda, em aplicações especulativas do mercado
financeiro que geraram lucros fabulosos,
remetidos ao exterior devido a falta de
controle sobre o movimento de capitais.
É da natureza “perversa” do capital financeiro
procurar o retorno máximo, com risco mínimo
e no prazo mais curto. Ademais, esperar
por investimentos nos setores produtivos
com as taxas de juros vigentes seria simples
ilusão ou pura mistificação.
Ao fazer
o balanço dos últimos anos, procurando calcular
o quanto o Brasil remeteu ao exterior, a
título de juros, dividendos e royalties,
além dos ganhos ilícitos pelo sub e superfaturamento
praticados por empresas transnacionais (e,
também, as nacionais), fica patente que
este modelo conservador de acumulação de
capital, supostamente desenvolvimentista,
não nos serve, porque concentra ativos,
riquezas, poder e informação nas mãos de
poucos, enquanto aumenta o fosso entre os
have e os have not pelo mundo
afora.
Urge,
portanto, pensar e propor alternativas,
um novo paradigma de desenvolvimento que,
em vez de apostar na competitividade externa,
concentra seus esforços no mercado interno,
investindo na construção de moradias, no
saneamento básico e nos transportes coletivos,
em saúde e educação, para arrancar a população
do estado de indigência. A estratégia alternativa
priorizará o fomento das PMEs – pequenas
e médias empresas, capacitando-as nas áreas
de marketing e inovações tecnológicas, enquanto
se democratiza o acesso ao capital. Não
é por acaso países que seguiram caminhos
alternativos, aceitando a vinda de capitais
estrangeiros apenas se
fiscalizados na entrada e saída do
país, como a China e a Índia viram suas
economias crescerem em ritmo impressionante
enquanto o resto do mundo afundava em crises
crônicas e sucessivas.
Não é
mais possível descartar, sob os rótulos
de idealismo ou utopia, mudanças de curso
da política econômica. Até a conservadora
e neoliberal revista “The Economist”, em
sua edição de 3 de maio p.p. (“A survey
of global finance”) adverte que o recurso
ao capital estrangeiro pode carregar em
seu bojo calamidades, tais como a insolvência,
o conseqüente “calote”, a fuga de capitais,
inclusive nacionais, crise cambial e desmoronamento
do mercado acionário. Esses efeitos se propagam
por todos os setores da economia nacional
e, em alguns casos, contagiam regiões inteiras.
Exemplos eloqüentes a respeito são as crises
financeiras que se abateram sobre a América
Latina nos anos oitenta, México em 1994,
o Extremo Oriente em 1997-98, nas quais
foram perdidos os avanços econômicos conquistados
nos anos anteriores. Os anos de 1980 foram
batizados como a “década perdida”, Argentina
e Brasil continuam a enfrentar recessões
extremamente severas, enquanto a ameaça
de um colapso do sistema financeiro continua
presente, afetando também as economias vizinhas.
No momento
histórico atual, de recessão prolongada
e com as dificuldades crescentes da economia
norte-americana para sair do marasmo, crises
financeiras domésticas se propagam com seus
efeitos desestabilizadores através do sistema
mundial, deixando em seu rastro ruínas de
pequenas empresas, trabalhadores desempregados
e famílias desestruturadas. Por isso, “The
Economist” chega a desaconselhar o livre
fluxo de capitais e defende uma regulação
inteligente, tanto em nível nacional quanto
internacional. Ao propor ponderar custos
e benefícios da mobilidade do capital, a
revista sugere que devem ser abandonadas
as abordagens ortodoxas da política econômica
internacional porque os riscos são imensos
e os ganhos são geralmente distribuídos
de forma assimétrica.
De um
total estimado de investimentos internacionais,
em 2001, no montante de 12 trilhões de dólares,
os países em desenvolvimento foram receptores
de apenas 600 bilhões, concentrados em meia
dúzia de países.
É lícito
indagar por que o capital dos países ricos
não flui naturalmente para os países menos
desenvolvidos? Não basta ter acesso ao capital
se falta mão de obra
qualificada, se os direitos de propriedade
são mal definidos e se o sistema jurídico
não é confiável. Nessas condições, os investimentos
estrangeiros nem sempre garantem o retorno
esperado. Riscos de instabilidade política,
seguida de possíveis alterações nas regras
de jogo constituem outros fatores de impedimento
aos investimentos produtivos de longo prazo.
Assim, o contexto internacional, a conjuntura
nacional e as perspectivas de negócios não
conduzem à criação de um ambiente propício
para atrair investimentos estrangeiros.
As preocupações e a conseqüente precaução
de potenciais investidores tendem a elevar
o famigerado “risco país” contribuindo para
a deterioração do clima de negócios, em
geral. Ademais, a alta taxa de juros que
remunera aplicações financeiras desencoraja
imobilizações a prazo mais longo e com taxa
de retorno inferior.
Um levantamento
realizado pelo FMI em 1999, apontou para
64 crises bancárias e 79 crises cambiais,
desde 1970, entre nacionais e internacionais,
implicando em queda substancial das atividades
econômicas e a conseqüente redução do PIB
(Produto Interno Bruto) dos países afetados.
Em países onde os impactos foram particularmente
severos, uma abertura imprudente da economia
para o capital estrangeiro pode causar mais
efeitos negativos do que positivos.
O contágio
de uma crise financeira em um país transborda
as fronteiras geográficas e contamina outros,
mesmo em regiões distantes. A crise financeira
russa de 1998, um efeito retardado da crise
nos países do Extremo Oriente em 1997, impactou
rapidamente no Brasil e nos outros países
latino-americanos. A alta probabilidade
de contágio enfraquece as políticas que
confiem demais no investimento de capital
estrangeiro, particularmente em sua forma
mais móvel e volátil, ou seja, dívidas bancárias
de curto prazo.
A falha
de um banco em honrar seus compromissos,
por ter excedido o limite legal de empréstimos
ou por ter aplicado seus recursos (depósitos
de terceiros) em maus negócios, pode constituir-se
em risco para o sistema financeiro como
um todo, exigindo a intervenção de Bancos
Centrais e Tesouros Nacionais para evitar
uma corrida contra os bancos.
Foi este o argumento que sustentou
o PROER, o programa de socorrer os bancos
falidos executado pelo governo brasileiro
nos anos 90, com graves prejuízos para a
economia e as finanças nacionais.
Muitos
países em desenvolvimento ansiosos para
atrair investimentos estrangeiros, acenam
aos potenciais investidores com subsídios
e isenções tributárias cujos custos reais
são omitidos. A perda de receitas tributárias
e os problemas fiscais posteriores estreitam
a base das receitas do governo e assim inviabilizam
os programas de gastos sociais e os projetos
para melhorar a infra-estrutura. A promessa
ilusória de uma moeda estável (Argentina
e Brasil, nos anos 90) levou ao ingresso
de capital especulativo buscando ganhos
de curto prazo. Com a desvalorização da
moeda nacional – Brasil em 1999 e Argentina,
no ano 2000 – as economias entraram em crise,
por terem excedido os limites legais de
empréstimos e financiamentos de curto prazo
com altas taxas de juros, cujos débitos
deviam ser saldados em dólares. Na proximidade
das datas de vencimento, a procura por dólares
forçou a alta da moeda estrangeira, sempre
escassa em nosso país, o que obrigou o governo
a recorrer ao “socorro” do FMI, ao mesmo
tempo impedindo a implantação de uma política
monetária e fiscal para conter a recessão
e lançar os programas prometidos pelo governo
de gerar milhões de empregos.
Isso coloca
com urgência a questão do controle do capital
estrangeiro, na entrada e na saída do país.
A história das últimas duas décadas ensina
que o mercado de capitais globalizado constitui
uma arena turbulenta e perigosa, particularmente
para os países mais pobres que não estão
preparados, institucional e politicamente,
para lidar com as tempestades desencadeadas
pelos movimentos erráticos do capital transnacional.
Os exemplos
de China, Índia, Malásia e Chile que atravessaram
relativamente incólumes as grandes crises
financeiras devido aos controles estabelecidos
sobre ao mercado de capitais, sem perder
o acesso ao mesmo, são instrutivos e dignos
de serem estudados e, eventualmente, seguidos.
Um imposto ou taxa compulsória sobre o investimento
de curto prazo oferece a vantagem de transparência
e simplicidade nas transações. Obviamente,
a eficácia de tal política seria maior se
fosse implementada por vários países tomadores
de empréstimos e financiamentos, em ações
conjuntas e concertadas. A resistência e
as pressões dos centros financeiros só poderão
ser enfrentadas se houver acordo básico
entre os países devedores nos termos da
integração de políticas econômica, financeira
e comercial. Afinal, a China e a Índia,
apesar de inúmeros percalços no período
relativamente curto de sua independência
caracterizado por crises e desafios, souberam
imprimir ritmo e intensidade a seus processos
de crescimento econômico, baseados em tecnologias
e inovações geradas internamente (a famosa
self reliance) recusando soberanamente
a submissão e a dependência às forças externas.