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Por PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
Doutor
em Ciências Sociais, diplomata, autor de vários trabalhos
sobre relações internacionais e política
externa do Brasil
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Contra a corrente: treze
idéias fora do lugar (V)
10.
A globalização acentua as desigualdades dentro e entre
as nações. Por isso o Brasil deve evitar uma abertura
excessiva à economia mundial.
Errado. O contrário é
verdadeiro, mas a inserção internacional não exime
a capacitação endógena.
O chamado “senso comum” costuma refletir um determinado conhecimento
prático da sociedade, emergindo algumas vezes da experiência
passada, ou de “abalizadas pesquisas” ou opiniões
de “especialistas”. No caso da globalização, parece
haver um certo “consenso” de que esse processo acarreta,
no longo prazo, conseqüências positivas em termos
de modernização, mas que, no curto e médio prazos,
ele seria responsável por tendências à divergência
econômica e à concentração de ativos na economia mundial,
pelo suposto aumento da pobreza global, por uma indução
perversa às crises financeiras (produto da abertura
comercial e aos “capitais voláteis”) e pela mais do
que “inevitável” (aos olhos dos críticos mais acerbos)
exacerbação das desigualdades na distribuição de renda
entre países e dentro dos países, isto é, entre os
vários estratos de cidadãos.
Pois bem: esse “consenso” em torno do “senso comum”, sustentado
ou não em “análises comprovadas” de economistas e
mesmo, eventualmente, de organizações internacionais,
está errado e, contrariamente ao que se crê e se afirma
correntemente, a globalização não provoca pobreza
e concentração, como estudos mais abalizados podem
comprovar. Ao contrário, ele desconcentra riqueza
e renda, e tende a contribuir para a elevação dos
padrões sociais ao sustentar taxas mais elevadas de
crescimento e de integração na economia mundial (e
portanto de modernização tecnológica). Uma discussão
detalhada, com apresentação de estatísticas e dados
comprobatórios se revelaria pouco factível aqui, mas
vou remeter a trabalhos importantes que devem ser
consultados em qualquer debate sério sobre o assunto.
Como demonstra o economista e professor da Columbia University
(catalão de origem) Xavier Sala-i-Martin (website:
http://www.columbia.edu/~xs23/home.html),
em lugar das supostas tendências ao crescimento das
desigualdades (refletidas até em documentos como o
Relatório do
Desenvolvimento Humano, por exemplo), as taxas
de pobreza e as desigualdades globais na repartição
de renda têm na verdade declinado em escala global
nas duas últimas décadas. Sala-i-Martin, com base
em novas metodologias e um diferente foco analítico
(o indivíduo, não o país; o consumo, antes que a renda),
traz evidências contundentes nesse sentido: elas podem
ser conferidas em seu estudo “The disturbing ‘rise’
of global income inequality”, preparado para o National
Bureau of Economic Research (disponível no link: www.nber.org/w8904).
O que ele “descobriu”, basicamente, depois de ingentes pesquisas
e refinadas simulações econométricas, é que ocorreu
uma redução geral das desigualdades de renda entre
1980 e 1998 e que a maior parte das disparidades globais
são encontradas entre os países, não dentro dos países.
Tendo estabelecido funções para a distribuição mundial
de renda, ele constatou que, se em 1970 o mundo apresentava
uma larga fração da população num renda modal próxima
da linha de pobreza — isto é, subsistência à razão
de um dólar por dia —, essa fração começou a definhar
e o mundo hoje se encaminha para uma “larga classe
média”, em suas palavras. Tanto as taxas de pobreza
quanto o número de pobres decresceram dramaticamente:
o critério de um dólar por dia caiu de 20% em 1970
para apenas 5% em 1998 da população mundial, enquanto
que pelo critério de dois dólares por dia a taxa reduziu-se
de 44% a 8%. Em termos de “volume” humano, isso representou
uma subtração de aproximadamente 400 milhões de pessoas
ao “estoque mundial” de pobres entre aqueles dois
anos. Ou seja, o “dramático e perturbador” aumento
da pobreza e nas desigualdades no período recente
da globalização simplesmente não ocorreu, ao contrário
do que afirmam os anti-globalizadores e mesmo entidades
aparentemente sérias e respeitáveis como o PNUD.
Em termos desagregados, as evidências são interessantes do
ponto de vista das regiões e países. O exemplo mais
ilustrativo da tendência global por ele revelada é
obviamente o da Ásia, onde os índices de pobreza caíram
de forma espetacular. A China e a Índia, ainda socialistas
nos anos 1970, foram os países que mais progrediram
do ponto de vista da diminuição da pobreza e da convergência
em relação aos indicadores de países mais avançados.
Nos EUA, por sua vez, simplesmente inexistem aquelas
faixas de renda correspondendo a pessoas que vivem
com 1 ou 2 dólares por dia, que constituem as medidas
padrões utilizadas pelos organismos internacionais
para medir a pobreza. A Indonésia representou a mais
dramática mudança na história econômica da humanidade,
com redução sensível da pobreza e da desigualdade,
mesmo a despeito da crise financeira de 1998, quando
o PIB foi reduzido em mais de 15%. A América Latina
não foi uma região particularmente feliz em termos
de diminuição do número de pobres, embora tivesse
conhecido, igualmente, uma certa redução da pobreza,
mas em décadas anteriores. No Brasil, os progressos
efetuados nos anos 1970 foram freados nos anos 1980
e, nos anos 1990, com exceção de alguns anos, os ricos
melhoraram mais do que os pobres.
As pesquisas e regressões matemáticas de Sala-i-Martin confirmam,
por sua vez, estudos do economista indiano Surjit
Bhalla, para quem a globalização não resultou em taxas
menores de crescimento, nem em aumento da pobreza
ou da desigualdade, mas ao contrário, numa diminuição
sensível das desigualdades mundiais, dos índices de
pobreza e num crescimento da renda dos estratos mais
pobres, relativamente aos mais ricos. Os
interessados em uma discussão mais detalhada sobre
as relações entre crescimento, desigualdade e pobreza
na era da globalização, assim como nos principais
avanços metodológicos introduzidos por Surjit
Bhalla podem ler o seu livro Imagine There’s No Country: Poverty, Inequality
and Growth in the Era of Globalization (Washington: Institute for International Economics, 2002)
ou “ver” uma apresentação feita no Banco Mundial (links:
http://www.worldbank.org/wbi/B-SPAN/sub_poverty_globalization.htm
e http://poverty.worldbank.org/files/12978_Surjit_Bhalla_Two_Policy_Briefs.doc).
Os trabalhos de Surjit Bhalla são efetivamente importantes
pela sua contribuição ao avanço dos métodos de pesquisa
em terrenos clássicos da economia política como o
da distribuição de renda e riqueza (que não são obviamente
sinônimos). Mas ele também não deixa de tocar nas
implicações políticas de suas teses, como a questão
de saber quem perde com a globalização. De um modo
geral, as evidências sobre a convergência entre sistemas
econômicos nacionais parecem agora bem estabelecidas,
sobretudo do ponto de vista da equalização de salários
em níveis similares de produtividade, o que deve beneficiar
os mais capacitados no mundo em desenvolvimento (que
alguns chamam de burguesia, ou de elite, do Terceiro
Mundo). Os únicos, talvez, a perderem com esse processo
impessoal seriam os trabalhadores pouco qualificados
dos países desenvolvidos e uma difusa classe média
que sente que lhe estão sendo retirados os benefícios
do “velho” welfare
State. São exatamente estes grupos que compõem
o grosso da massa mobilizada pelos movimentos da anti-globalização:
“velhos” sindicalistas e jovens de classe média, todos
eles bem alimentados e já inseridos na globalização.
Alguma surpresa nisto?
Todas essas evidências são válidas no plano global, mas elas
não resolvem, obviamente, a situação de países ou
indivíduos ameaçados pela perda de competitividade
e de emprego trazida pelo processo de globalização.
O Brasil, reconhecidamente um país “classe média”
em termos de renda mundial, se vê ameaçado, como tantos
outros, pelo imenso “dumping social” provocado pelo
exército industrial de reserva da China, tendo de
aumentar constantemente o conteúdo tecnológico de
seus produtos ou a produtividade de seus processos
produtivos para fazer frente a essa ameaça crescente
vinda do Oriente.
Fugir da globalização, ou seja, da abertura aos intercâmbios
globais, não constitui resposta apropriada a esse
tipo de ameaça, pois isso só nos conduziria à defasagem
tecnológica e ao atraso econômico absoluto: os empregos
preservados hoje seriam perdidos amanhã, com a baixa
da competitividade geral da economia e a pressão interna
sobre os custos. Dura realidade, mas a ela só se pode
responder fazendo esforços pela melhoria geral da
qualidade da nossa força de trabalho. Como regra geral,
a exposição à globalização é que é geradora de avanços
tecnológicos e de progresso social, não o insulamento
e a política do avestruz. De resto, são as classes
médias já globalizadas que, por inércia, acomodação
ou medo, tendem a recusar a intensificação desse processo,
ao passo que os pobres, pouco globalizados, tendem
a votar com os próprios pés, emigrando celeremente
para os centros da globalização contemporânea. Miragem
para alguns, pesadelo para outros, este parece ser
o destino da globalização capitalista. Pode-se protestar
contra ela, frear-lhe o curso impessoal é que parece
difícil.
11.
Processos de liberalização entre parceiros muito desiguais
beneficiam principalmente os mais poderosos, por isso
devemos primeiro corrigir assimetrias estruturais.
Não necessariamente,
uma vez que todos os processos de interdependência
– a fortiori de integração – sempre se dão entre parceiros
relativa ou absolutamente desiguais e os mais exitosos
são justamente aqueles que mobilizam países em estágios
diversos de desenvolvimento.
A geografia e a história distribuíram fronteiras, agrupações
humanas, sistemas econômicos e regimes políticos aleatoriamente
pelos diversos continentes, não havendo um padrão
comum a dois países, mesmo vizinhos. Obviamente, traços
civilizacionais e aspectos culturais tendem a aproximar
os vizinhos de uma mesma sub-região, mas ainda assim
as unidades nacionais diferem bastante em tamanho,
recursos naturais, organização interna ou na propensão
à inovação e ao progresso econômico e social. O arco
cristão deslocou-se ao longo dos séculos, do Oriente
Médio ao conjunto da Europa e daí para o Novo Mundo,
ao passo que o islâmico expandiu-se na África e na
Ásia do Sul, o que não implicou necessariamente em
homogeneização dessas sociedades, dos seus estados
ou de seus substratos materiais.
Em duas palavras: diferenças históricas e assimetrias estruturais
entre as várias formações nacionais são uma constante
em qualquer época ou região, sendo as mais importantes
aquelas que decorrem do “volume” relativo de cada
uma delas e das suas respectivas dotações em termos
de poder e riqueza. Algumas dessas dotações são “naturais”,
outras “herdadas” ao longo dos séculos, outras ainda
criadas ou desenvolvidas em períodos históricos relativamente
curtos, como alguns exemplos podem demonstrar.
O glorioso Império Britânico representava, ao início do século
XX, o maior conjunto populacional, territorial e econômico
da história da humanidade, mas ele não durou mais
de um século, se tanto. A “massa atômica” da jovem
república americana, por sua vez, cresceu continuamente
ao longo do século XIX, mas salvo alguns pequenos
experimentos coloniais – como no Caribe e nas Filipinas
– seu imperialismo foi basicamente econômico e virtual.
A Rússia conforma um caso único de crescimento fragmentado:
ela expandiu-se tremendamente sob o czarismo, continuou
a crescer sob a forma de União Soviética, mas implodiu
sem nenhuma glória numa miríade de novos estados independentes
depois que o socialismo deu dois suspiros e morreu
de esclerose múltipla.
Mais próximo de nós, os sonhos bolivarianos de uma confederação
de estados ordeiros deram lugar a instáveis repúblicas
caudilhescas, ao passo que a centralização bragantina
do Império do Brasil logrou preservar a unidade nacional
do maior país sul-americano. Falando do Brasil, justamente,
ele tinha, em 1960, o dobro da renda per capita da
Coréia do Sul, ao passo que os coreanos ostentam hoje
um renda média bem superior à dos brasileiros, aliás
muito melhor distribuída, sem mencionar a excelência
do avanço tecnológico coreano.
Independentemente, porém, do tamanho, cor ou religião, o fato
é que essas várias formações nacionais passam a interagir
entre si, de modo mais ou menos pacífico, até se alcançar,
eventualmente, uma eliminação das fronteiras físicas
e a unificação dos espaços econômicos nos fenômenos
da integração e até mesmo da união. Invariavelmente,
todos esses experimentos se dão entre parceiros “desiguais”,
ainda que, em vários casos, traços comuns de desenvolvimento
econômico e social sejam evidentes entre os parceiros.
A Comunidade (hoje União) Européia reuniu desde o
começo a “enorme” França e o minúsculo Luxemburgo,
assim como ela colocou em confronto zonas relativamente
ricas como a Holanda e Bélgica e outras bastante pobres
como o mezzogiorno italiano. Esses países não
esperaram a eliminação das “assimetrias estruturais”
entre eles para dar a partida na integração, mas,
ao contrário, elas foram sendo corrigidas e eventualmente
eliminadas no decorrer do próprio processo. Alguém
ouviu dizer que o sul da Itália foi “explorado” pela
rica Alemanha, ou que Portugal e Espanha tivessem
exigido a mudança de regras da então Comunidade Européia
para então decidirem “ingressar” num bloco decididamente
“assimétrico”?
Aqueles que agitam o perigo das assimetrias numa futura (e
ainda hipotética) Alca acenam precisamente com o princípio
do tratamento “diferenciado e mais favorável” que
recebem os sócios menores ou relativamente menos desenvolvidos
no esquema europeu de integração, para exigir o mesmo
tipo de “compensação” no âmbito americano. Não importa
aqui as demandas contraditórias pela preservação da
“soberania nacional” nesse espaço de livre comércio
hemisférico em construção, quando um dos elementos
característicos da experiência européia é, precisamente,
a renúncia quase total de soberania “em troca” desses
mecanismos de correção de desigualdades estruturais
ou coetâneas ao processo de integração.
O que pretendem, na verdade, os defensores da “teoria” das
desigualdades assimétricas é “provar” que a existência
de uma economia “elefantina” como a dos EUA faz correr,
aos demais países, um risco insuportável de fragilização
(“sucateamento” e “depauperamento”) das atuais estruturas
econômicas nacionais na América Latina. Sem dúvida,
a maior parte dessas economias são pouco competitivas
(com várias exceções, entre elas a do Brasil), o que
justificaria, segundo o argumento, que o mandato de
Miami seja necessariamente complementado por um programa
(gigantesco?) de correção dessas desigualdades estruturais.
Simples, não é mesmo?
Sem considerar o importante aspecto político de que estamos
falando de dois animais completamente diferentes –
um mercado comum completo de um lado, uma mera zona
de livre comércio, de outro – e a circunstância institucional
de que tal tipo de tratamento compensatório não se
encontra previsto no mandato de Miami – a não ser
para as chamadas “economias menores” –, atente-se
para o fato de que nenhum processo de integração,
nem mesmo o europeu, ocorreu na ausência de “desigualdades
estruturais”. São elas, aliás, que justificam e dão
todo sentido à construção integracionista, ao mobilizar
parceiros desigualmente dotados num mesmo empreendimento
de unificação (e também de crescente homogeneização)
de mercados e espaços econômicos.
São as desigualdades estruturais que estão na base das “vantagens
comparativas” de cada país – ainda que alguns tenham
horror a tal expressão ricardiana – e que passam a
estimular a circulação de pessoas, capitais, bens,
serviços e tecnologia num ciclo ascensional de economias
de escala e de ganhos de competitividade. Ainda que
muitos não acreditem, mesmo o pais mais miserável
do planeta também possui “vantagens comparativas”,
ainda que neste caso ligadas à miséria (sempre relativa)
de grande parte de sua população e, portanto, ao custo
infinitamente menor de sua mão-de-obra fabril ou agrícola,
comparativamente ao parceiro mais desenvolvido. Todo
e qualquer país, mesmo em áreas insuspeitas, possui
um imenso manancial de vantagens comparativas, sejam
elas a densidade e a concentração de seu capital financeiro,
a potência de suas empresas, ou, mais geralmente,
a inventividade de seu povo, que pode manifestar-se
na música, no futebol, na sua natureza bem explorada
e até na sua joie
de vivre, como seria o caso do carnaval ou da
própria “afetividade” e “cordialidade” da sociedade
em questão.
Resumindo – e retomando uma das lições do grande historiador
economista russo Alexander Gerschenkron –, o “atraso”
tem suas vantagens, mais não fosse para explorar esse
diferencial de custos e também o potencial de superação
do atraso saltando etapas no processo de desenvolvimento.
Aos que se apressam em condenar como “capitalistas”
ou “burguesas” estas idéias das vantagens do atraso,
não custa lembrar que elas provêm diretamente do pensamento
marxista, ou mais especificamente trotsquista, sendo
conhecidas como “teoria” do desenvolvimento desigual
e combinado do capitalismo (e do socialismo também,
pode-se acrescentar).
Enfim, nada como uma “boa” desigualdade para estimular a emulação
(cópia) e a competição (nessa ordem), virtudes válidas
tanto no plano individual como no nacional. As situações
de igualdade, absoluta ou relativa, tendem a ser aborrecidas,
quando não a gerar acomodações regressistas, como
já demonstrado por setenta anos de transição do socialismo
ao capitalismo. Em todo caso, no longo prazo, o capitalismo
dos processos de abertura e de liberalização tendem
a produzir o socialismo do livre comércio. Que outra
prova da excelência da teoria marxista da sucessão
dos modos de produção poderíamos pretender de melhor?
(Continua na sexta, e última, parte)
PAULO
ROBERTO DE ALMEIDA
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