A população brasileira, especialmente
os assalariados urbanos e rurais, tem baixo envolvimento
ideológico, tanto quanto as classes dominantes.
Os primeiros, especialmente após
a Revolução de 30, com a criação do Sindicato Único atrelado
ao Estado que vive da contribuição sindical e taxa assistencial
descontada compulsoriamente de quem trabalha, na sua maioria,
estão fora dos sindicatos e dos partidos políticos.
Há categorias operárias, em que 70% não conhecem o nome
dos diretores, 60 a 70% não sabem onde está instalada
a sede de seu sindicato.
No que tange aos partidos políticos,
é válida a afirmação de Oliveira Vianna: “não são entidades
de direito público, são entidades de direito privado.”
O proletariado urbano até bem pouco tempo seguia coronéis
urbanos (Prestes, Getúlio Vargas), a classe média
mais qualificada e alguns setores operários seguiam Jânio,
a classe média desqualificada e o ‘lúmpen’ seguiam Adhemar
de Barros, enquanto ‘líder carismático’. Quanto aos partidos
ideológicos, Ação Integralista Brasileira ou PCB, víamos
o primeiro, na sua maioria, integrado pela classe média
urbana e setores da burocracia civil e militar que seguia
Plínio Salgado como ‘Chefe Nacional’; o segundo só fora
partido de massas entre 1933/35 e 1945/7 atrás do carisma
prestista.
A classe dominante brasileira que
tem o poder econômico ‘brincava’ de formar partidos políticos.
A União Democrática Nacional era desunida, planejava golpes
de Estado (vide 1964) e era pouco nacional; o Partido
Social Democrático era pouco democrático e no plano social,
um zero à esquerda. Como hoje, o Partido Democrático Social
nada tem que ver com o título e o Partido Trabalhista
tem tudo, menos trabalhadores de linha na sua direção,
vive da exploração política de um morto cujo carisma sua
sobrinha pretende incorporar; é o carisma de Getúlio que
Ivete quer reproduzir.
Isso não impediu a ‘sagrada união’
desses partidos com facções do PMDB na votação da lei
de arrocho, exigida pelo Fundo Monetário Internaconal.
E o nacionalismo o que tem que ver
com isso?
Entendo que o ‘nacionalismo’ como
fenômeno na política nacional emerge após 30 com o ‘Tenentismo’
disposto a reformas sociais e políticas. Porém, Getúlio
ap nomeá-los capitães, ‘cooptou-os’, integrando-os
à máquina do Estado Novo.
A Ação Integralista Brasileira leva
adiante a bandeira nacionalista por mediação de Plínio
Salgado, que procura unir a ideologia nacionalista à defesa
da pequena propriedade e sua extensão em nível nacional.
Seu ódio à industrialização e urbanização define, nesse
contexto, uma ideologia de nacionalismo defensivo,
que não procura como o fascismo a expansão externa,
militar ou não. Tem apoio nas classes médias urbanas,
pequenos proprietários rurais, grandes latifundiários
e setores civis e militares da burocracia estatal.
Vargas utilizou-a para subir ao poder,
eliminado-a após tê-lo em sua mãos, devemos lembrar que
o integralismo provém das Ligas Nacionalistas criadas
na 1ª República, quando Olavo Bilac criava um ‘nacionalismo
patrioteiro’ parnasiano. As Ligas se constituíam numa
resposta conservadora aos movimentos sociais operários
urbanos vinculados ao socialismo libertário em São Paulo,
ou à social-democracia alemã, no Rio Grande do Sul, na
mesma época.
Com Vargas, assistimos a emergência
de um nacionalismo tático fundado com a implantação
do ‘Estado Novo’ (1937/45), porque sua ideologia era ausência
de qualquer ideologia, daí sua fama de ‘político’. Com
a 2ª Guerra e a industrialização conjuntural que era sua
decorrência no País, Vargas emerge como um ‘líder industrialista’.
Ao mesmo tempo, cria o ‘sindicalismo de controle’ já em
1931, atrelado ao estado, onde ele no topo executava suas
funções como ‘pai dos podres’.
Com Juscelino, teremos o célebre
Iseb vinculado ao Ministério de Educação e Cultura – que,
segundo ele – tinha como única bandeira ‘amar ao Brasil’.
O nacionalismo isebiano lutava ‘pelos
interesses superiores da Nação’, criticava aqueles intelectuais
que não compreendiam as ‘nações subdesenvolvidas’,
considerava-se expressão autêntica ideologia, porque independente
dos interesses específicos de cada classe, o Iseb formulava
uma ideologia para a comunidade como um todo. Concebia
uma sociologia nacional (desalienada), não falava
de capitalismo, mas sim, de nação dependente.
Via a contradição principal
entre a periferia e a metrópole e, no nível interno entre
o setor moderno (industrial) e o arcaico (latifúndio).
Através de seus ideólogos, o Iseb
definia as contradições fundamentais no Brasil; Alvaro
V. Pinto pregava a união entre o proletariado e a
burguesia autóctone contra o imperialismo e a burguesia
industrial alienada; Cândido Mendes unia o empresariado
aos assalariados num bloco contra o latifúndio expansionista;
Guerreiro Ramos unia a burguesia nacional mais
o proletariado contra os setores vinculados à estrutura
colonial; Hélio Jaguaribe unia a burguesia nacional
à classe média produtiva
e o empresariado contra a burguesia latifundiária
mercantilista e a classe média cartorial; Nelson W.
Sodré, pregava a união entre a burguesia nacional,
pequena burguesia e o operariado contra a burguesia latifundiária
e o imperialismo; finalmente, Roland Corbisier,
unia os industriais ‘autóctones’ ao proletariado urbano
e à lavoura tecnificada contra o imperialismo, burguesia
latifundiária-mercantil e classes médias parasitas, conforme
Caio N. Toledo, ‘Iseb, fábrica de ideologias’,
Ed. Ática, 1977, págs. 130/1.
Qual foi a prática de JK, oppsta
ao nacionalismo isebiano, do qual aproveitou a teoria
desenvolvimentista? Sobre sua égide houve a internacionalização
da economia, que os militares após 64 aprofundaram às
últimas conseqüências com a ‘involução nacionalista’.
Seu ‘desenvolvimento’ enriqueceu os mais pobres.
Por isso, entendo que o surto
nacionalista perceptível apenas no nível do discurso
é hoje fruto da crise conjuntural. Para a classe
dominante no Brasil, pode ser uma arma para regatear
com o capitalismo mundial maiores facilidades para si.
O nacionalismo que opõe frações de
industriais e banqueiros, classe média contra estes e
o capital internacional, define contradições secundárias
no sistema. A intelectualidade classe média assumindo-o
poderá usá-lo para ascensão social nos ‘aparelhos do Estado’.
É o ‘interesse nacional’ ideal e o interesse classista
particular o real. Para o proletário urbano e rural
nada significa, mais envolventes têm sido os ‘saques’
para saciar a fome.