Em um texto anterior discutimos a
relação entre super-heróis e axiologia. No presente texto, continuamos tratando
da temática da super-aventura, mas passando da discussão sobre
os aspectos axiológicos e conservadores da super-aventura
para a análise da super-aventura como manifestação do inconsciente
coletivo. Isto é necessário devido ao fato de que o mundo
dos super-heróis é um mundo de fantasia, produzido pela imaginação,
e por isso mesmo é locus de manifestação do inconsciente,
tal como afirma a psicanálise. Porém, não trataremos aqui
do inconsciente individual e sim do inconsciente coletivo,
que definiremos mais adiante, pois não se trata de analisar
obras de autores enquanto indivíduos e sim um gênero como
um todo, o que leva a analisar a obra coletiva de uma infinidade
de autores individuais.
Os super-heróis são seres sobre-humanos
e que por isso mesmo superam as limitações humanas. Segundo
Jacques Marny, “eles são personagens vivos, mágicos da ilusão
e da fantasmagoria, mas também são mestres do sonho e símbolo
do desejo de poder”. É justamente aí que encontramos a relação
entre super-heróis e inconsciente coletivo. Mas antes de tratar
desta relação é preciso analisar o que é o inconsciente coletivo.
Freud dizia que o universo mental (ou, segundo suas palavras,
“aparelho psíquico”) do indivíduo era composto pela consciência
e pelo inconsciente (inicialmente ele o dividia em dois componentes
– princípio de prazer e princípio de realidade – e posteriormente
em três – id, ego e superego –, embora um grande número de
psicanalistas prefiram utilizar sua concepção inicial). O
inconsciente era produto da repressão que a sociedade fazia
aos instintos do indivíduo, o lugar onde vivem os desejos
reprimidos.
Freud nunca usou a expressão “inconsciente
coletivo”, considerando que não haveria nenhuma vantagem com
sua utilização, embora aceitasse a idéia de um conteúdo coletivo
para o inconsciente, tal como propôs Jung. O primeiro a se referir a um inconsciente
coletivo foi o seu colaborador e posteriormente dissidente,
Carl Gustav Jung, que forneceu uma visão metafísica deste
conceito, que representaria, segundo ele, arquétipos universais
e imutáveis. A renovação ocorreu com Erich Fromm (embora ele
fale de “inconsciente social” e não em “inconsciente coletivo”).
Erich Fromm define inconsciente social
da seguinte maneira:
“A diferença entre a expressão de Jung, ‘inconsciente coletivo’,
e o ‘inconsciente social’ aqui empregada é a seguinte: o ‘inconsciente
coletivo’ indica diretamente a psique universal, grande parte
da qual não pode nem mesmo tornar-se consciente. O conceito
de inconsciente social parte da noção do caráter repressivo
da sociedade e se refere àquela parte específica da experiência
humana que uma determinada sociedade não permite que atinja
a consciência”.
Desta forma, o inconsciente coletivo
é expressão de um desejo reprimido socialmente que atinge
o conjunto da sociedade ou então grupos sociais no seu interior.
A posição de Fromm, entretanto, é limitada, pois sua visão
do inconsciente é puramente cultural, esquecendo que o processo
psíquico é um processo energético. Além disso, Fromm considera
que tudo o que é reprimido faz parte do inconsciente, o que
é um equívoco.
O inconsciente coletivo, do nosso
ponto de vista, é o conjunto de necessidades/potencialidades
reprimidas em todos os indivíduos que formam uma coletividade
(grupo, classe etc.). É no mundo da fantasia, dos sonhos,
etc., que ele se manifesta mais constantemente. Os sonhos
comuns em um grupo social ou na sociedade são geralmente inacessíveis
mas a fantasia não. As aventuras dos super-heróis expressam
uma fantasia que é expressão do inconsciente coletivo: o desejo
de poder.
Ora, vivendo em uma sociedade dominada
pela repressão, pela burocracia, etc., nada é mais natural
do que buscar, na fantasia, ultrapassar este estado de coisas.
Citemos dois exemplos colocados por Erich Fromm:
“Deve haver muitos comerciantes em nossas cidades grandes que
tenham um cliente que precise muito, digamos, de um terno,
de roupa, mas que não dispõe de dinheiro suficiente para comprar
nem mesmo o mais barato. Entre comerciantes (especialmente
os mais abastados), haverá uns poucos que sintam o impulso
natural e humano de dar essa roupa ao cliente, pelo preço
que este puder pagar. Mas quantos se permitirão adquirir consciência
de tal impulso? Creio que serão poucos. A maioria o recalcará,
e poderemos ver entre eles alguns que terão, na noite seguinte,
um sonho que expressará o impulso reprimido, de uma forma
ou de outra”.
“O moderno ‘homem de organização’ pode sentir que sua vida
não tem sentido, que seu trabalho o aborrece, que tem pouca
liberdade de fazer e pensar como quer, que está perseguindo
uma ilusão de felicidade que jamais se torna verdade. Mas
se ele tivesse consciência de tais sentimentos, seria muito
prejudicado em sua atuação social. Sua consciência constituiria
um perigo real para a sociedade tal como está organizada,
e em conseqüência o sentimento é recalcado”.
A partir destes dois exemplos, podemos
observar que a falta de liberdade na sociedade contemporânea
cria o desejo de liberdade, de poder (não no sentido de dominação
e sim de potência). Entretanto, este desejo é reprimido e
não se manifesta na consciência coletiva mas tão-somente no
inconsciente individual e coletivo. O desejo reprimido de
liberdade, de ser livre e superar os limites impostos pela
sociedade repressiva, encontra no mundo dos super-heróis uma
de suas formas de manifestação mais espetaculares. Estes rompem
com os limites impostos, combatem a injustiça (embora a idéia
de justiça que se passa é mais a ditada pela consciência do
que pelo inconsciente), defendem os “fracos e oprimidos” –
que são aqueles que continuam submetidos à opressão –, etc.
Voar, por exemplo, é um símbolo de liberdade, de superação
de limites, e muitos super-heróis possuem este poder. Desta
forma, a super-aventura é, em parte, manifestação do inconsciente
coletivo e é por isso que ela (e não só ela como também os
heróis comuns) tem um público tão grande. Revela-se aí, o
potencial emancipador das aventuras dos super-heróis ao manifestar
o desejo reprimido de liberdade.
O processo de criação da super-aventura
é um processo consciente no qual o criador envia uma mensagem
na maioria das vezes axiológica. Porém, nenhuma produção cultural
é somente consciente e junto com o processo consciente caminha
o processo inconsciente. No caso da ficção isto é ainda mais
forte. Na super-aventura a imaginação ganha autonomia na narrativa
e isto permite uma manifestação mais forte do inconsciente.
Porém, além do inconsciente individual derivado da repressão
individual que se manifesta em cada obra individual, também
se manifesta o inconsciente coletivo, derivado da repressão
coletiva. Tal repressão coletiva é a do mundo burocrático
e mercantil em que vivemos. Se lembrarmos que a produção da
super-aventura é uma forma de manifestação da criatividade,
que é uma potencialidade humana reprimida em nossa sociedade,
então podemos supor que ela é, para os criadores, um momento
de liberdade e de realização. Porém, devemos reconhecer que
tal criatividade se manifesta mas de forma controlada. Os
criadores de super-aventuras não são livres para produzirem
o que quiserem e como quiserem. Eles estão submetidos às grandes
empresas que controlam esta produção, seja a Marvel Comics,
a DC, a Image, ou qualquer outra. Tais empresas são tão burocráticas
e mercantis quanto qualquer outra. A partir disto se conclui
que tal controle é um dos elementos que originam tal produção.
A vontade de liberdade inconsciente
cria aventuras onde o ser humano rompe com seus limites (naturais
e sociais). Essa ruptura com os limites faz dele um “super-homem”,
um ser impotente diante da burocratização e da mercantilização
que se torna um ser “poderoso”. Um ser que pode superar as
injustiças fazendo justiça por suas próprias mãos, alguém
destituído de poder e dominado no trabalho, na escola, na
família, etc., que se levanta e passa por cima de tudo que
lhe aprisiona e realiza os seus desejos de aventura e liberdade.
O modelo exemplar, o Super-Homem, acompanhado por suas
cópias, Capitão Marvel (Shazam), Homem-Aranha,
Thor, Hulk, Batman, etc., são aqueles
que fazem o que gostaríamos de fazer mas não fazemos: desafiar
o mundo. Ser um super-herói significa ser sobre-humano, o
que quer dizer ser mais do que um simples marionete da sociedade
repressiva. A super-aventura significa a carta de alforria
imaginária do ser humano escravizado no mundo da burocracia
e da mercadoria.
O público leitor da super-aventura
é composto em grande parte por crianças e jovens que ainda
não estão envolvidos neste mundo institucional repressivo.
Porém, estão submetidos à outras formas de repressão (familiar,
escolar, entre outras) e se identificam com os atos heróicos
que expressam seu desejo de liberdade. Por isso, surge um
mercado consumidor bastante fiel da super-aventura. Mas, de
qualquer forma, tanto os produtores quanto os consumidores
da super-aventura manifestam o desejo inconsciente de liberdade
em resposta ao mundo burocrático e mercantil fundamentado
na repressão.
Porém, o inconsciente coletivo só
se torna explosivo quando se torna consciente. O inconsciente
coletivo tornar-se consciente (que só pode ser uma consciência
coletiva, fruto de um processo coletivo), neste caso, significa
o reconhecimento da necessidade de liberdade. Tal como Marx
colocou, a consciência do que não é consciente é fundamental
para o processo de libertação humana:
“É preciso tornar a opressão real mais opressiva, acrescentando-lhe
a consciência da opressão; é preciso que a vergonha se torne
ainda mais vergonhosa, apregoando-a. (...). É preciso mostrar
e ensinar ao povo a assustar-se de si próprio, para infundir-lhe
coragem”.
Descobrir o inconsciente coletivo
por detrás das produções axiológicas é, portanto, fundamental
para o desenvolvimento desta consciência coletiva e tarefa
essencial do pensamento marxista. É impossível para o marxismo
contemporâneo desconhecer a importância da psicanálise para
compreender as lutas sociais e, em especial, as produções
axiológicas e imaginárias, tal como as histórias em quadrinhos.