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I -
Max
Weber, em seu texto sobre a ciência como vocação
pede que nos lembremos do livro VII da República
de Platão no qual este escreve: aqueles homens
da caverna, acorrentados, cujas faces estão voltadas
para uma parede de pedra à sua frente. Atrás
deles está uma fonte de luz que não podem
ver. Ocupam-se apenas das imagens em sombras que essa luz
lança sobre a parede e buscam estabelecer-lhes inter-relações.
Finalmente, um deles consegue libertar-se dos grilhões,
volta-se, vê o sol. Cego, tateia e gagueja uma descrição
do que viu. Os outros dizem que ele delira. Gradualmente,
porém, ele aprende a ver a luz, e então sua
tarefa é descer até os homens da caverna e
levá-los para a luz. Ele é o filósofo;
o sol, porém, é a verdade da ciência,
a única que reflete não ilusões e sombras,
mas o verdadeiro ser[2].
Estas
palavras de Platão descrevem bem - a nosso ver -
o espírito que, desde meados do século XIX,
predomina no pensamento ocidental no qual a ciência
adquiriu total hegemonia e passou a ser socialmente reconhecida
pelas virtualidades instrumentais da sua racionalidade,
ou seja, pelo desenvolvimento tecnológico que tornou
possível e pelas possibilidades que criou para uma
melhor compreensão da dinâmica e dos fenômenos
sociais. O texto de Platão distingue os homens e
a qualidade de suas compreensões do mundo. Os homens
da caverna representam o homem comum e seu conhecimento
é considerado como produto das inter-relações
que este estabelece com um mundo que não conhece
verdadeiramente e do qual - por isso mesmo - se serve apenas
de impressões que não lhe permite adquirir
senão uma idéia equivocada do que ele realmente
significa. O filósofo, por outro lado, representa
o cientista ou o homem que se serve do conhecimento científico.
Este é considerado como o detentor da verdade da
ciência que por sua vez é considerada - no
texto - como a única válida. Se, por um lado,
Platão procura demonstrar que o conhecimento científico
é superior a outras formas de conhecimento,
também procura firmar a idéia de que, cabe
aos filósofos o papel de difundir a verdade
da ciência para que a humanidade possa elevar-se do
mundo das sombras para o mundo da verdade.
No
texto de Platão podemos identificar uma das questões
mais importantes do nosso tempo; trata-se da relação
entre ciência e sociedade. Nesta questão, nossa
preocupação central consiste em analisar de
que maneira e em que grau o conhecimento científico
tem servido à totalidade dos homens ou, de outra
forma, de que maneira os instrumentos científicos
têm possibilitado ao conjunto dos homens melhor decidir
frente aos problemas e necessidades que se lhes apresentam.
Se
o conhecimento científico é o conhecimento
de todos os homens e representa o grau máximo ao
qual a humanidade chegou na interpretação
de seu mundo e na criação de mecanismos e
procedimentos para interferir neste, interessa-nos discutir
se, da mesma maneira, podemos dizer que este conhecimento
de todos os homens serve realmente a todos os
homens. Neste sentido, julgamos conveniente explorar um
pouco a maneira como a ciência vem se desenvolvendo
e a maneira como ela chega ao conjunto dos homens enquanto
conhecimento. Em outras palavras, julgamos conveniente fazer
uma crítica da relação entre ciência
e sociedade com o intuito de identificar até que
ponto a ciência nos serve a todos e até que
ponto existem problemas que impedem que isso aconteça.
-
II -
A ciência
desenvolveu - em todas as áreas - uma linguagem própria
cuja compreensão passou a exigir níveis de
formação escolar cada vez mais elevados. Como
os sistemas escolares não garantiram o acesso ao
conhecimento para toda a sociedade, grande parte dos indivíduos
foram pouco a pouco marginalizados do saber científico
que, por fim, passou a ser propriedade de alguns poucos
grupos sociais, notadamente daqueles que dispõem
de condições econômicas para adquiri-lo.
Hoje, o complexo discurso científico, vale dizer,
atinge inclusive a própria comunidade científica
na medida em que o avanço da especialização
torna impossível ao cientista, e já não
apenas ao cidadão comum, compreender o que se passa
(e porque se passa) à volta do habitáculo
(cada vez mais estreito) [3] em que a ciência
se desenvolve.
Podemos
dizer que dadas as condições sociais
de produção e apropriação do
conhecimento científico, a criação
de objetos teóricos está cada vez mais vinculada
à criação ou potenciação
de sujeitos sociais e, conseqüentemente, à destruição
ou degradação dos sujeitos sociais que não
podem investir no conhecimento científico ou apropriar-se
dele[4]. Ou seja, muito do que se procurou e do que
se procura desenvolver no campo científico, reflete
interesses particulares ou de determinados grupos sociais
para os quais o conhecimento científico representa
uma maneira de garantir ou conquistar interesses frente
a grupos sociais de interesses diferentes . Podemos citar
como exemplo o fato de um estudo econômico poder ser
utilizado por uma empresa para melhorar a sua atuação,
ou seja, para afirmá-la e fortalecê-la enquanto
sujeito social [5].
Aos
que não detêm o conhecimento científico,
resta buscar resolver seus problemas cotidianos sem a ajuda
das construções racionais e metódicas
da ciência, sem os instrumentos que a ciência
desenvolveu para que se atinja uma melhor compreensão
do mundo. Dotados de informações e interpretações
que adquirem com a experiência de vida, os homens
comuns procuram dar respostas às questões
e necessidades de seu mundo baseados num conhecimento
cujo conjunto de formulações a ciência
denomina senso comum[6]. Para a ciência,
contudo, trata-se de um conhecimento vulgar,
de uma sociologia espontânea, com a qual
é preciso romper para que se torne possível
o conhecimento científico, racional e válido.[7]
Podemos
dizer que há uma oposição entre o conhecimento
científico e o conhecimento não-científico
ou senso comum. O primeiro coloca-se como verdadeiro
baseado na sua qualidade teórica sem se questionar
a cerca do quanto esta qualidade consegue se fazer útil
para o conjunto dos homens. Desqualifica e afasta-se de
todas e quaisquer outras formas de conhecimento
sem relevar o quanto estas efetivamente representam para
aqueles que delas fazem uso. O segundo, embora não
se oponha da mesma forma e aceite-se como diferente - e
talvez, como de menor qualidade - firma-se numa auto-valorização
determinada pelos êxitos que julga acumular na medida
em que enfrenta as dificuldades cotidianas. Os detentores
dos conhecimentos não-científicos
apostam na validade de suas interpretações
do mundo e é a partir delas que definem as maneiras
de enfrentar os problemas. Confiam que estão, a partir
da experiência de vida, construindo um conhecimento
que talvez se defina como sabedoria . Alunos
do que consideram ser a escola da vida, confiam
no tempo de vida como um equivalente do banco
escolar.
Interessa-nos
aqui, a partir dessas colocações, refletir
um pouco sobre estes dois tipos de conhecimento.
Nossa atenção, como está ficando claro,
está centrada na avaliação do grau
de validade que cada tipo de conhecimento tem
para aqueles que deles fazem uso. Nosso objetivo é
o de avaliar até que ponto essa oposição
entre ciência e senso comum se justifica e até
que ponto ela é um produto das diferenças
sociais e econômicas que contrapõem os grupos
sociais no campo dos interesses. A defesa da superioridade
qualitativa da ciência é dispensável
neste trabalho mas, em relação ao senso comum,
devemos nos aprofundar para buscar nele algo mais que os
aspectos negativos que facilmente podemos detectar quando
o comparamos com o conhecimento científico. Referências
ao senso comum ou ao conhecimento não-científico
aparecem desde há muito em obras de importantes autores.
Vale lembrar o que Max Weber sugere a esse respeito em seu
texto sobre a ciência como vocação:
Significará
que nós, hoje, por exemplo, sentados neste auditório,
temos maior conhecimento das condições de
vida em que existimos do que um índio americano ou
um hotentote? Dificilmente. A menos que seja um físico,
quem anda num bonde não tem idéia de como
o carro se movimenta. E não precisa saber. Basta-lhe
poder contar com o comportamento do bonde e
orientar a sua conduta de acordo com essa expectativa; mas
nada sabe sobre o que é necessário para produzir
o bonde ou para movimentá-lo. O selvagem tem um conhecimento
incomparavelmente maior sobre as suas ferramentas. O selvagem
sabe o que faz para conseguir sua alimentação
diária e que instituições lhe servem
nessa empresa. A crescente intelectualização
e racionalização não[8] indicam, portanto,
um conhecimento maior e geral das condições
sob as quais vivemos[9].
Também
Lévi-Straus, observa que há (...) um
pensamento selvagem (...) que é homólogo
ao pensamento lógico cujas classificações
ramificadas e as finas nomenclaturas são
o próprio pensamento classificatório, mas
operando (...) em outro nível estratégico,
o do sensível. Observa ainda que o pensamento
selvagem é o pensamento da ordem , mas é um
pensamento que não se pensa[10].
Max
Weber e Lévi-Straus, falam de um conhecimento
- ou pensamento - que orienta as atitudes do homem comum.
Lévi-Straus procura mostrar que tal pensamento se
estrutura no nível do sensível e o qualifica
como libertador, pelo protesto que eleva contra o
não-sentido[11]. Max Weber fala da eficácia
desse conhecimento. Deixa claro que trata-se de um conhecimento
das condições sob as quais vivemos e deixa
implícito que, tal conhecimento deve
ser encarado pela ciência como diferente e não
como menor ou inferior.
-
III -
Mas,
o que caracteriza efetivamente o senso comum? Para nos aprofundarmos
neste ponto, apresentaremos algumas caracterizações
do senso comum desenvolvidas pelos autores Adolfo Sánchez
Vásquez, Boaventura de Souza Santos e Antonio Gramsci.
Para
Adolfo Sánchez Vásquez, senso comum é
o ponto-de-vista do (...) praticismo; prática
sem teoria, ou com o mínimo dela [12]. Na consciência
de senso comum o prático - entendido num sentido
estritamente utilitário - contrapõe-se à
teoria. Esta se faz desnecessária ou nociva para
a prática; o ponto-de-vista do senso
comum docilmente de desdobra aos ditames ou exigências
de uma prática esvaziada de ingredientes teóricos.
Em lugar destes tem-se uma rede de preconceitos, verdades
esteriotipadas e, em alguns casos, superstições
de uma concepção irracional ( mágica
ou religiosa ) do mundo. Para o senso comum a
prática se basta a si mesma [13].
Para
Boaventura de Souza Santos o senso comum é o
menor denominador comum daquilo em que um grupo ou um povo
coletivamente acredita tendo, por isso, uma
vocação solidarista e transclassista.
O senso comum é o modo como os grupos ou classes
subordinados vivem a sua subordinação
mas essa vivência (...) longe de ser meramente
acomodatícia, contém sentidos de resistência
que, dadas as condições, podem desenvolver-se
e transformar-se em armas de luta[14]. O senso
comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe
uma visão do mundo assente na ação
e no princípio da criatividade e das responsabilidades
individuais. O senso comum é prático e pragmático;
reproduz-se colado às trajetórias e às
experiências de vida de um dado grupo social e nessa
correspondência se afirma de confiança e dá
segurança. O senso comum é transparente e
evidente; desconfia da opacidade dos objetos tecnológicos
e do exoterismo do conhecimento em nome do princípio
da igualdade do acesso ao discurso, à competência
cognitiva e à competência lingüística.
O senso comum é superficial porque desdenha das estruturas
que estão para além da consciência,
mas, por isso mesmo, é exímio em captar a
profundidade horizontal das relações conscientes
entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é
indisciplinar e imetódico; não resulta de
uma prática especificamente orientada para o produzir;
reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida.
Por último, o senso comum é retórico
e metafórico; não ensina, persuade [15].
Para
Antonio Gramsci não existe um único
senso comum, pois ele é um produto e um devenir histórico
. O senso comum e também a religião
não podem constituir uma ordem intelectual
porque não podem reduzir-se à unidade e à
coerência nem mesmo na consciência individual.
[16] O senso comum, ainda que implicitamente, emprega
o princípio da causalidade; em uma série
de juízos, identifica a causa exata, simples e imediata,
não se deixando desviar por fantasmagorias e obscuridades
metafísicas, pseudo-profundas, pseudo-científicas
etc. Nisto reside o valor do que se costuma chamar
(...) bom senso [17]
Nas
caracterizações acima podemos encontrar tanto
os elementos que servem de alvo às críticas
da ciência ao senso comum como outros que poderíamos
considerar positivos. Atentos aos aspectos positivos podemos
dizer que, o senso comum se manifesta como atitude do homem
comum. Seu caráter supersticioso, preconceituoso
e irracional, reflete apenas as possibilidades que uma consciência
comum tem de reagir contra o não-sentido
das coisas. Tal atitude é positiva e não é
menos digna que a atitude científica de buscar compreender
as mesmas situações e problemas visando dominá-los
para melhor agir sobre eles.
Impulsionado
pelas necessidades, o homem comum age sem formulações
metódicas e teóricas. Por ser sensível
e por ser dotado da capacidade de reagir, desenvolve interpretações
e cria soluções. No lugar dos instrumentos
científicos - que lhe são inacessíveis
- o homem comum procura contar com seu bom senso[18].
O homem comum, e não apenas a ciência, também
acerta.
O senso
comum ou o conjunto dos conhecimentos não-científicos
pode ser classificado como parte constitutiva do que chamamos
de cultura popular. O modo de ver e de fazer do senso comum,
mesmo não contando com uma estrutura de difusão
organizada e institucionalizada, penetra na consciência
do homem comum de maneira profunda e, além de servir
a cada homem individualmente, assume funções
sociais importantes.
Tal
modo de ver e de fazer difunde-se nas brincadeiras, nas
expressões da linguagem, nos ditados etc. As
adivinhas e os passatempos por exemplo funcionam,
em numerosas ocasiões, como um meio ajustador entre
pessoas que se conhecem pouco; os ditados, frases
de sabedoria, são necessários à medida
que reduzem situações difíceis ao contexto
do já conhecido, da tradição;
os provérbios são sistemas de referência
que organizam a percepção do mundo no plano
emocional e racional, significando para os que os vivenciam,
uma verdade sintética, sabedoria e apoio[19].
Gramsci
reforça esses argumentos dizendo que nas expressões
da linguagem comum pode-se inclusive detectar a idéia
que o povo faz da filosofia. A expressão tomar
as coisas com filosofia, por exemplo, para Gramsci,
contém o convite à reflexão,
à tomada de consciência de que aquilo que acontece
é, no fundo, racional e que assim deve ser enfrentado,
concentrando as próprias forças e não
se deixando levar pelos impulsos instintivos e violentos[20].
Gramsci observa que tais expressões têm
um significado muito preciso, a saber, o de superação
das paixões bestiais e elementares por uma concepção
da necessidade que fornece à própria ação
uma direção consciente sendo este
o núcleo sadio do senso comum, o que poderia ser
chamado de bom senso, merecendo ser desenvolvido e transformado
em algo unitário e coerente.
-
IV -
Boaventura
de Souza Santos em seu livro Introdução a
Uma Ciência Pós-Moderna, desenvolve - dentre
outras coisas - uma critica importante sobre as relações
entre ciência e senso comum e faz proposições
interessantes no sentido de superar problemas nesta relação.
Para
Santos a oposição ciência / senso
comum não pode equivaler a uma oposição
luz / trevas porque, se os preconceitos são
as trevas[21], mesmo a ciência nunca se livra totalmente
deles e, por isso, é simplista avaliá-los
negativamente.[22] Citando Gadamer, Santos observa
que os preconceitos são constitutivos do nosso
ser e da nossa historicidade e, por isso, não podem
ser levianamente considerados cegos, infundados ou negativos
pois, são eles que nos capacitam a agir e nos
abrem à experiência e, por isso, a compreensão
do nosso estar no mundo não pode de modo algum dispensá-los.[23]
Santos,
citando Elster, observa que a investigação
sobre a inferência humana ou a escolha racional revelam
que uma ilusão pode conduzir à verdade, quer
porque corrige ( e neutraliza ) uma outra ilusão,
quer porque substitui uma interferência correta.[24]
Observa que caminhamos para uma nova relação
entre a ciência e o senso comum, uma relação
em que qualquer deles é feito do outro e ambos
fazem algo de novo[25]
Para
Santos, a época em que vivemos hoje deve ser considerada
uma época de transição entre
o paradigma da ciência moderna e um novo paradigma
que ele designa ciência pós-moderna.
Santos observa que, a ciência, para se constituir
nesta nova etapa, deve romper com o conhecimento
evidente do senso comum para depois romper com esse rompimento.[26]
Essa dupla ruptura não significa que a segunda neutraliza
a primeira ou que, após esta segunda ruptura, se
retorne ao senso comum. Pelo contrário, enquanto
a primeira ruptura é imprescindível para constituir
a ciência, a segunda transforma o senso comum com
base na ciência. Com essa dupla transformação,
pretende-se um senso comum esclarecido e uma ciência
prudente; um saber prático que dá sentido
e orientação à existência e cria
o hábito de decidir bem. Trata-se de combinar o caráter
prático e prudente do senso comum com o caráter
segregado e elitista da ciência. A dupla ruptura procede
a um trabalho de transformação tanto do senso
comum como da ciência. Para Santos, o senso
comum só poderá desenvolver em pleno a sua
positividade no interior de uma configuração
cognitiva em que tanto ele como a ciência moderna
se superem a si mesmos para dar lugar a uma outra forma
de conhecimento[27].
Comentários
sobre o filme O Carteiro e o Poeta.
a) No
início do filme o personagem Mario deixa transparecer
que uma de suas grandes preocupações é
a de conseguir uma companheira. Na vida simples de Mario,
ter trabalho e uma companheira parece ser o fundamental.
Já em seu primeiro contato com a imagem do poeta
- no cine-jornal - Mario demonstra-se especialmente interessado
pelo fato de o poeta ser considerado aquele que escreve
poemas de amor, o tema favorito da sensível alma
feminina. Não tendo Mario qualquer noção
a cerca do que significava a situação de exílio
do poeta, de imediato associa as supostas virtuosidades
deste à uma de suas necessidades mais imediatas,
a de conquistar uma mulher. Mario pensa no poeta como alguém
que tem algo do que lhe interessa fazer uso. Essa coisa
é a poesia. E a poesia para Mario significava um
infalível instrumento para conquistar mulheres; nada
mais pensava sobre ela e dela nada mais lhe interessava
entender além disso.
b) Mario
é contratado como carteiro para entregar as correspondências
do poeta. Logo nos primeiros contatos com o poeta, busca
identificar elementos que possam ajudá-lo a resolver
suas necessidades afetivas. Procura analisar o poeta, observa
seus gestos, a maneira como fala e como trata sua companheira;
tenta descobrir ou identificar algo que possa aprender[28].
Mario busca um conhecimento no poeta e em sua
poesia. Poeta e poesia significam para ele a possibilidade
de conquistar alguém. Num dos contatos com o poeta,
numa tentativa de aproximação, Mario brinca
com palavras[29], algo que sabe fazer mas sobre o
que não pensa. O poeta reage e caracteriza as palavras
de Mario: Não devia me submeter a comparações
e metáforas . Mario sente que conseguiu estabelecer
o diálogo; aprofunda-se querendo saber o que significa
metáfora e o poeta explica: quando falamos
algo, mas comparamos com outra coisa. Mario compreende
e descobre algo mais sobre o que fazia no nível do
sensível.
c) Mario
continua sua busca; diz quer ser poeta e pergunta ao poeta
como se faz[30]. Este reage com naturalidade e respeito.
Àquela pergunta aparentemente ingênua responde
argumentando que os poetas engordam sendo este um bom motivo
para que Mario continuasse a ser carteiro. Mario insiste
e o poeta - com sensibilidade - responde num discurso acessível:
vá caminhando ao longo da baía e observe
tudo. Mário entende. Percebeu, a seu modo,
que era necessário observar as coisas e as pessoas,
a forma como vivem e como se relacionam; como trabalham
e como se divertem; como amam e como se odeiam; como se
ajudam e como se enfrentam etc. Ele entendeu que ser poeta
é falar do mundo e para o mundo a partir do que ele
nos sugere e do que nos sugere nossa relação
com ele. Entendeu que daí viriam as inspirações
ou sensações.
d) Mario
se apaixona por Beatrice. Afobado, procura o poeta para
que este faça uma poesia para a moça. O poeta
se recusa a fazer a poesia e argumenta: um poeta precisa
conhecer o objeto de sua inspiração; não
posso criar algo do nada. Mario não entende.
Angustia-se por um momento mas acha logo uma solução.
Retira do bolso da calça uma bolinha de pebolim e
a apresenta ao poeta dizendo: eu tenho essa bolinha
que Beatrice colocou na boca; foi tocada por ela; isso pode
ajudá-lo a conhecê-la. Uma bola de pebolim,
um objeto que esteve envolvido num momento real do qual
Mario e Beatrice participaram; um objeto que continha, para
Mario, algo mais que a forma circular; um objeto cheio de
lembranças do momento do encontro: os olhares, a
postura estática de Mario durante todo o tempo do
contato com Beatrice; a imagem dos seios e dos olhos da
moça; de seu sorriso e de sua forma provocante de
ser. Imerso no plano das sensações, não
era possível a Mario compreender que todo esse conteúdo
era invisível aos olhos dos outros. Mario não
podia entender o processo de criação do poeta.
e) O
poeta, sem comentar a atitude de Mario, insiste na recusa.
Mario fica decepcionado. Poeta e poesia pareciam não
lhe valer para resolver aquela necessidade imediata. Mario
reage: escute poeta, se está criando caso por
causa de uma poesia, nunca vai ganhar o Prêmio Nobel[31]
- premio que, para Mario, significava dinheiro, algo que
ele sabia ser útil, importante.
f) Sozinho,
em casa, Mario escreve sua primeira poesia.
Desenha a forma circular da bolinha de pebolim numa folha.
g) O
poeta presenteia Mario com um bloco de papel com capa e
propõe a ele dirigirem-se juntos até a estalagem
em que a moça trabalhava para que pudesse conhecê-la.
Mario aceita. Diante da moça, o poeta a observa por
um curto tempo. Em seguida, autografa o mesmo bloco de papel
aprovando a poesia de Mario[32], aquela que ele havia tão
profundamente escrito em gestos, comportamentos
e palavras no encontro anterior. Mergulhado na sensibilidade
de Mario, o poeta participou como pôde daquela sua
investida; não colocou sua maneira de fazer poesia
como a verdadeira, como maneira única de expressar
poeticamente o real e de dialogar com ele
h) Mario
conquistou a atenção da Beatrice após
ter sido visto com o poeta. Conhecia seu meio e sabia dos
benefícios que poderiam gerar o fato de ser reconhecido
como amigo de alguma pessoa que, em seu meio, fosse considerada
importante[33]. Mario sabia quais armas lhe eram necessárias
naquela sua investida e conquistou seu objetivo.
i) Mario
compõe sua primeira metáfora, frase ou poesia
com objetivo prático. Diz à Beatrice que seu
sorriso se abre como as asas de uma borboleta e esta
capta, por sensibilidade, o significado daquelas palavras.
A poesia faz a moça sonhar[34]. Outra poesia vem,
desta vez copiada de um dos livros do poeta, e fala de seios
e de corpo[35]. A tia da moça descobre a poesia.
Temerosa e confusa, soubera captar da sua maneira o significado
daquelas palavras em sua síntese: a poesia dizia
beleza e sensualidade. Tais qualidades ela própria
identificava na sobrinha, pessoa cujo corpo conhecia nu[36].
Furiosa, dirige-se até a casa do poeta para que este
transmita sua advertência a Mario à quem ordena
que se afaste de Beatrice. A tia da moça protege-se
contra a poesia que, por sensibilidade, entende que ameaça
a normalidade da vida em seu meio[37].
j) Após
o ocorrido, o poeta reclama com Mario por este ter-lhe usado
a poesia. Mario responde dizendo que, a poesia não
pertence àqueles que a escrevem mas sim àqueles
que precisam dela. O poeta concorda. Para Mario a
poesia estava servindo como todo e qualquer outro instrumento
capaz de facilitar a satisfação de uma necessidade.
l) Beatrice,
envolvida e decidida, escapa ao cerco da tia e vai ao encontro
de Mario. A bola de pebolim com ela. O objeto dialoga com
os dois; medeia e simboliza sensações e intenções
com a obviedade que Mario pensava ser transparente quando
o mostrou ao poeta. Faltou a Mario, naquela ocasião,
o poder de descrever minuciosamente todo o momento de seu
primeiro contato com Beatrice no qual aquele objeto cumprira
posição central. Faltou a Mario método
para poder atingir a compreensão do outro. Se tivesse
podido fazer isso, certamente tudo se lhe teria sido mais
fácil.
m) Mario
é convidado pelo poeta para gravar mensagem a seus
amigos chilenos. Sugestionado a descrever o que de mais
belo havia em sua terra, Mario nada mais pode dizer que
o nome de Beatrice. Posteriormente, em gravação
que ele próprio preparava com o amigo dos correios
para enviar ao poeta já regresso ao seu país
de origem, Mario grava os sons que lhe traduzem seu lugar[38].
Os sons já existiam antes de Beatrice mas, por ocasião
do convite à gravação, a necessidade
imediata de Mario ordenou e hierarquizou a importância
dos elementos de sua vida em sua mente. Naquela ocasião,
Mario estava tomado pela necessidade de conquistar Beatrice.
Depois de tê-la conquistado, a mente de Mario deu
espaço a outras respostas para a sugestão
que lhe fora feita de dizer o que havia de mais belo em
sua terra. Mesmo assim, ainda uma vez, Mario responde gravando
sons, uma forma de dizer mais exata e fiel do que ele conseguiria
desenvolver em palavras.