Por ANTONIO ALBERTO TRINDADE
Sociólogo. Mestre em Ciências Sociais pela PUC/SP - Doutorando do Programa de Multimeios na UNICAMP

 

Ciência e Senso Comum (Uma reflexão ilustrada por comentários sobre o filme “O Carteiro e o Poeta”)

 


Apresentação

Este trabalho está dividido em duas partes. Na primeira, pretendemos refletir um pouco sobre senso comum. A partir de alguns textos pretendemos falar da importância do conhecimento não-científico tanto para as pessoas que não têm acesso ao conhecimento científico como para toda a sociedade. Estará incluída aqui a discussão sobre a importância das construções intelectuais da ciência ou, mais precisamente, sobre a capacidade do conhecimento científico de se difundir e cumprir a função de dotar o conjunto dos homens de elementos que os possibilitem superar suas dificuldades e satisfazer suas necessidades materiais e sociais.

Na segunda parte comentaremos alguns trechos do filme O Carteiro e o Poeta[1] que, a nosso ver, ilustra um pouco o que é e o que poderia ser a relação entre ciência e senso comum. No filme a relação que se desenrola entre os dois personagens principais - o carteiro Mario e o poeta Pablo Neruda - e entre este e outros personagens - nos remete à reflexão sobre as tantas relações entre pessoas que ocorrem na vida real e nas quais constantemente estamos envolvidos: um advogado e um seu cliente; um professor e um pai de aluno; um profissional de recursos humanos e um operário; um representante político e um eleitor etc. No âmbito das relações sociais é freqüente o contato entre homens de pouca formação escolar e homens que atingiram níveis mais elevados de formação. Este fato confere à história do filme um certo grau de realidade; o autor usa de sua sensibilidade para mostrar momentos de relações sociais e humanas perfeitamente compatíveis com as que vivemos no dia-a-dia.


Conhecimento científico e senso comum

- I -

Max Weber, em seu texto sobre a ciência como vocação pede que nos lembremos do livro VII da República de Platão no qual este escreve: “aqueles homens da caverna, acorrentados, cujas faces estão voltadas para uma parede de pedra à sua frente. Atrás deles está uma fonte de luz que não podem ver. Ocupam-se apenas das imagens em sombras que essa luz lança sobre a parede e buscam estabelecer-lhes inter-relações. Finalmente, um deles consegue libertar-se dos grilhões, volta-se, vê o sol. Cego, tateia e gagueja uma descrição do que viu. Os outros dizem que ele delira. Gradualmente, porém, ele aprende a ver a luz, e então sua tarefa é descer até os homens da caverna e levá-los para a luz. Ele é o filósofo; o sol, porém, é a verdade da ciência, a única que reflete não ilusões e sombras, mas o verdadeiro ser”[2].

Estas palavras de Platão descrevem bem - a nosso ver - o espírito que, desde meados do século XIX, predomina no pensamento ocidental no qual a ciência adquiriu total hegemonia e passou a ser socialmente reconhecida pelas virtualidades instrumentais da sua racionalidade, ou seja, pelo desenvolvimento tecnológico que tornou possível e pelas possibilidades que criou para uma melhor compreensão da dinâmica e dos fenômenos sociais. O texto de Platão distingue os homens e a qualidade de suas compreensões do mundo. Os homens da caverna representam o homem comum e seu “conhecimento” é considerado como produto das inter-relações que este estabelece com um mundo que não conhece verdadeiramente e do qual - por isso mesmo - se serve apenas de impressões que não lhe permite adquirir senão uma idéia equivocada do que ele realmente significa. O filósofo, por outro lado, representa o cientista ou o homem que se serve do conhecimento científico. Este é considerado como o detentor da verdade da ciência que por sua vez é considerada - no texto - como a única válida. Se, por um lado, Platão procura demonstrar que o conhecimento científico é superior a outras formas de “conhecimento”, também procura firmar a idéia de que, cabe aos “filósofos” o papel de difundir a verdade da ciência para que a humanidade possa elevar-se do “mundo das sombras” para o “mundo da verdade”.

No texto de Platão podemos identificar uma das questões mais importantes do nosso tempo; trata-se da relação entre ciência e sociedade. Nesta questão, nossa preocupação central consiste em analisar de que maneira e em que grau o conhecimento científico tem servido à totalidade dos homens ou, de outra forma, de que maneira os instrumentos científicos têm possibilitado ao conjunto dos homens melhor decidir frente aos problemas e necessidades que se lhes apresentam.

Se o conhecimento científico é o conhecimento de todos os homens e representa o grau máximo ao qual a humanidade chegou na interpretação de seu mundo e na criação de mecanismos e procedimentos para interferir neste, interessa-nos discutir se, da mesma maneira, podemos dizer que este conhecimento de “todos os homens” serve realmente a todos os homens. Neste sentido, julgamos conveniente explorar um pouco a maneira como a ciência vem se desenvolvendo e a maneira como ela chega ao conjunto dos homens enquanto conhecimento. Em outras palavras, julgamos conveniente fazer uma crítica da relação entre ciência e sociedade com o intuito de identificar até que ponto a ciência nos serve a todos e até que ponto existem problemas que impedem que isso aconteça.

- II -

A ciência desenvolveu - em todas as áreas - uma linguagem própria cuja compreensão passou a exigir níveis de formação escolar cada vez mais elevados. Como os sistemas escolares não garantiram o acesso ao conhecimento para toda a sociedade, grande parte dos indivíduos foram pouco a pouco marginalizados do saber científico que, por fim, passou a ser propriedade de alguns poucos grupos sociais, notadamente daqueles que dispõem de condições econômicas para adquiri-lo. Hoje, o complexo discurso científico, vale dizer, atinge inclusive a própria comunidade científica na medida em que “ o avanço da especialização torna impossível ao cientista, e já não apenas ao cidadão comum, compreender o que se passa (e porque se passa) à volta do habitáculo (cada vez mais estreito) ”[3] em que a ciência se desenvolve.

Podemos dizer que “dadas as condições sociais de produção e apropriação do conhecimento científico, a criação de objetos teóricos está cada vez mais vinculada à criação ou potenciação de sujeitos sociais e, conseqüentemente, à destruição ou degradação dos sujeitos sociais que não podem investir no conhecimento científico ou apropriar-se dele”[4]. Ou seja, muito do que se procurou e do que se procura desenvolver no campo científico, reflete interesses particulares ou de determinados grupos sociais para os quais o conhecimento científico representa uma maneira de garantir ou conquistar interesses frente a grupos sociais de interesses diferentes . Podemos citar como exemplo o fato de um estudo econômico poder ser utilizado por uma empresa para melhorar a sua atuação, ou seja, para afirmá-la e fortalecê-la enquanto sujeito social [5].

Aos que não detêm o conhecimento científico, resta buscar resolver seus problemas cotidianos sem a ajuda das construções racionais e metódicas da ciência, sem os instrumentos que a ciência desenvolveu para que se atinja uma melhor compreensão do mundo. Dotados de informações e interpretações que adquirem com a experiência de vida, os “homens comuns” procuram dar respostas às questões e necessidades de seu mundo baseados num “conhecimento” cujo conjunto de formulações a ciência denomina “senso comum”[6]. Para a ciência, contudo, trata-se de um “conhecimento vulgar”, de uma “sociologia espontânea”, com a qual é preciso romper para que se torne possível o conhecimento científico, racional e válido.[7]

Podemos dizer que há uma oposição entre o conhecimento científico e o “conhecimento” não-científico ou senso comum. O primeiro coloca-se como “verdadeiro” baseado na sua qualidade teórica sem se questionar a cerca do quanto esta qualidade consegue se fazer útil para o conjunto dos homens. Desqualifica e afasta-se de todas e quaisquer outras formas de “conhecimento” sem relevar o quanto estas efetivamente representam para aqueles que delas fazem uso. O segundo, embora não se oponha da mesma forma e aceite-se como diferente - e talvez, como de menor qualidade - firma-se numa auto-valorização determinada pelos êxitos que julga acumular na medida em que enfrenta as dificuldades cotidianas. Os detentores dos “conhecimentos” não-científicos apostam na validade de suas interpretações do mundo e é a partir delas que definem as maneiras de enfrentar os problemas. Confiam que estão, a partir da experiência de vida, construindo um conhecimento que talvez se defina como “sabedoria” . “Alunos” do que consideram ser a “escola da vida”, confiam no tempo de vida como um “equivalente” do “banco escolar”.

Interessa-nos aqui, a partir dessas colocações, refletir um pouco sobre estes dois “tipos” de conhecimento. Nossa atenção, como está ficando claro, está centrada na avaliação do grau de validade que cada “tipo” de conhecimento tem para aqueles que deles fazem uso. Nosso objetivo é o de avaliar até que ponto essa oposição entre ciência e senso comum se justifica e até que ponto ela é um produto das diferenças sociais e econômicas que contrapõem os grupos sociais no campo dos interesses. A defesa da superioridade qualitativa da ciência é dispensável neste trabalho mas, em relação ao senso comum, devemos nos aprofundar para buscar nele algo mais que os aspectos negativos que facilmente podemos detectar quando o comparamos com o conhecimento científico. Referências ao senso comum ou ao conhecimento não-científico aparecem desde há muito em obras de importantes autores. Vale lembrar o que Max Weber sugere a esse respeito em seu texto sobre a ciência como vocação:

“Significará que nós, hoje, por exemplo, sentados neste auditório, temos maior conhecimento das condições de vida em que existimos do que um índio americano ou um hotentote? Dificilmente. A menos que seja um físico, quem anda num bonde não tem idéia de como o carro se movimenta. E não precisa saber. Basta-lhe poder ‘contar’ com o comportamento do bonde e orientar a sua conduta de acordo com essa expectativa; mas nada sabe sobre o que é necessário para produzir o bonde ou para movimentá-lo. O selvagem tem um conhecimento incomparavelmente maior sobre as suas ferramentas. O selvagem sabe o que faz para conseguir sua alimentação diária e que instituições lhe servem nessa empresa. A crescente intelectualização e racionalização não[8] indicam, portanto, um conhecimento maior e geral das condições sob as quais vivemos”[9].

Também Lévi-Straus, observa que “há (...) um pensamento selvagem” (...) que é “homólogo ao pensamento lógico” cujas “classificações ramificadas” e as “finas nomenclaturas são o próprio pensamento classificatório, mas operando (...) em outro nível estratégico, o do sensível”. Observa ainda que “o pensamento selvagem é o pensamento da ordem , mas é um pensamento que não se pensa”[10].

Max Weber e Lévi-Straus, falam de um “conhecimento” - ou pensamento - que orienta as atitudes do homem comum. Lévi-Straus procura mostrar que tal pensamento se estrutura no nível do sensível e o qualifica como “libertador, pelo protesto que eleva contra o não-sentido”[11]. Max Weber fala da eficácia desse conhecimento. Deixa claro que trata-se de um “conhecimento” das condições sob as quais vivemos e deixa implícito que, tal “conhecimento” deve ser encarado pela ciência como diferente e não como menor ou inferior.

- III -

Mas, o que caracteriza efetivamente o senso comum? Para nos aprofundarmos neste ponto, apresentaremos algumas caracterizações do senso comum desenvolvidas pelos autores Adolfo Sánchez Vásquez, Boaventura de Souza Santos e Antonio Gramsci.

Para Adolfo Sánchez Vásquez, senso comum é “o ponto-de-vista do (...) praticismo; prática sem teoria, ou com o mínimo dela [12]”. Na consciência de senso comum “o prático - entendido num sentido estritamente utilitário - contrapõe-se à teoria. Esta se faz desnecessária ou nociva para a prática”; “o ponto-de-vista do senso comum docilmente de desdobra aos ditames ou exigências de uma prática esvaziada de ingredientes teóricos”. Em lugar destes tem-se “uma rede de preconceitos, verdades esteriotipadas e, em alguns casos, superstições de uma concepção irracional ( mágica ou religiosa ) do mundo”. Para o senso comum “a prática se basta a si mesma [13]”.

Para Boaventura de Souza Santos o senso comum é “o menor denominador comum daquilo em que um grupo ou um povo coletivamente acredita” tendo, por isso, “uma vocação solidarista e transclassista”. “O senso comum é o modo como os grupos ou classes subordinados vivem a sua subordinação” mas “essa vivência (...) longe de ser meramente acomodatícia, contém sentidos de resistência que, dadas as condições, podem desenvolver-se e transformar-se em armas de luta”[14]. “ O senso comum faz coincidir causa e intenção; subjaz-lhe uma visão do mundo assente na ação e no princípio da criatividade e das responsabilidades individuais. O senso comum é prático e pragmático; reproduz-se colado às trajetórias e às experiências de vida de um dado grupo social e nessa correspondência se afirma de confiança e dá segurança. O senso comum é transparente e evidente; desconfia da opacidade dos objetos tecnológicos e do exoterismo do conhecimento em nome do princípio da igualdade do acesso ao discurso, à competência cognitiva e à competência lingüística. O senso comum é superficial porque desdenha das estruturas que estão para além da consciência, mas, por isso mesmo, é exímio em captar a profundidade horizontal das relações conscientes entre pessoas e entre pessoas e coisas. O senso comum é indisciplinar e imetódico; não resulta de uma prática especificamente orientada para o produzir; reproduz-se espontaneamente no suceder quotidiano da vida. Por último, o senso comum é retórico e metafórico; não ensina, persuade [15]”.

Para Antonio Gramsci “não existe um único senso comum, pois ele é um produto e um devenir histórico “. O senso comum e também a religião “não podem constituir uma ordem intelectual porque não podem reduzir-se à unidade e à coerência nem mesmo na consciência individual”. [16] O senso comum, ainda que implicitamente, “emprega o princípio da causalidade”; “em uma série de juízos, identifica a causa exata, simples e imediata, não se deixando desviar por fantasmagorias e obscuridades metafísicas, pseudo-profundas, pseudo-científicas etc.” Nisto reside o valor do que se costuma chamar (...) bom senso” [17]

Nas caracterizações acima podemos encontrar tanto os elementos que servem de alvo às críticas da ciência ao senso comum como outros que poderíamos considerar positivos. Atentos aos aspectos positivos podemos dizer que, o senso comum se manifesta como atitude do homem comum. Seu caráter supersticioso, preconceituoso e irracional, reflete apenas as possibilidades que uma consciência comum tem de reagir contra o “não-sentido” das coisas. Tal atitude é positiva e não é menos digna que a atitude científica de buscar compreender as mesmas situações e problemas visando dominá-los para melhor agir sobre eles.

Impulsionado pelas necessidades, o homem comum age sem formulações metódicas e teóricas. Por ser sensível e por ser dotado da capacidade de reagir, desenvolve interpretações e cria soluções. No lugar dos instrumentos científicos - que lhe são inacessíveis - o homem comum procura contar com seu “bom senso”[18]. O homem comum, e não apenas a ciência, também acerta.

O senso comum ou o conjunto dos “conhecimentos” não-científicos pode ser classificado como parte constitutiva do que chamamos de cultura popular. O modo de ver e de fazer do senso comum, mesmo não contando com uma estrutura de difusão organizada e institucionalizada, penetra na consciência do homem comum de maneira profunda e, além de servir a cada homem individualmente, assume funções sociais importantes.

Tal modo de ver e de fazer difunde-se nas brincadeiras, nas expressões da linguagem, nos ditados etc. “As adivinhas e os passatempos” por exemplo “funcionam, em numerosas ocasiões, como um meio ajustador entre pessoas que se conhecem pouco”; “os ditados, frases de sabedoria, são necessários à medida que reduzem situações difíceis ao contexto do já conhecido, da tradição”; os provérbios são “sistemas de referência que organizam a percepção do mundo no plano emocional e racional, significando para os que os vivenciam, uma verdade sintética, sabedoria e apoio”[19].

Gramsci reforça esses argumentos dizendo que “nas expressões da linguagem comum pode-se inclusive detectar a idéia que o povo faz da filosofia. A expressão “tomar as coisas com filosofia”, por exemplo, para Gramsci, contém “o convite à reflexão, à tomada de consciência de que aquilo que acontece é, no fundo, racional e que assim deve ser enfrentado, concentrando as próprias forças e não se deixando levar pelos impulsos instintivos e violentos[20]. Gramsci observa que “tais expressões têm um significado muito preciso, a saber, o de superação das paixões bestiais e elementares por uma concepção da necessidade que fornece à própria ação uma direção consciente” sendo este “ o núcleo sadio do senso comum, o que poderia ser chamado de bom senso, merecendo ser desenvolvido e transformado em algo unitário e coerente”.

- IV -

Boaventura de Souza Santos em seu livro Introdução a Uma Ciência Pós-Moderna, desenvolve - dentre outras coisas - uma critica importante sobre as relações entre ciência e senso comum e faz proposições interessantes no sentido de superar problemas nesta relação.

Para Santos “a oposição ciência / senso comum não pode equivaler a uma oposição luz / trevas” porque, “se os preconceitos são as trevas[21], mesmo a ciência nunca se livra totalmente deles” e, por isso, é “simplista avaliá-los negativamente”.[22] Citando Gadamer, Santos observa que “os preconceitos são constitutivos do nosso ser e da nossa historicidade e, por isso, não podem ser levianamente considerados cegos, infundados ou negativos” pois, “são eles que nos capacitam a agir e nos abrem à experiência e, por isso, a compreensão do nosso estar no mundo não pode de modo algum dispensá-los”.[23]

Santos, citando Elster, observa que “a investigação sobre a inferência humana ou a escolha racional revelam que uma ilusão pode conduzir à verdade, quer porque corrige ( e neutraliza ) uma outra ilusão, quer porque substitui uma interferência correta”.[24] Observa que “caminhamos para uma nova relação entre a ciência e o senso comum, uma relação em que “qualquer deles é feito do outro e ambos fazem algo de novo”[25]

Para Santos, a época em que vivemos hoje deve ser considerada “uma época de transição entre o paradigma da ciência moderna e um novo paradigma” que ele designa “ciência pós-moderna”. Santos observa que, a ciência, para se constituir nesta nova etapa, deve romper com o “conhecimento” evidente do senso comum para depois romper com esse rompimento.[26] Essa dupla ruptura não significa que a segunda neutraliza a primeira ou que, após esta segunda ruptura, se retorne ao senso comum. Pelo contrário, enquanto a primeira ruptura é imprescindível para constituir a ciência, a segunda transforma o senso comum com base na ciência. Com essa dupla transformação, pretende-se um senso comum esclarecido e uma ciência prudente; um saber prático que dá sentido e orientação à existência e cria o hábito de decidir bem. Trata-se de combinar o caráter prático e prudente do senso comum com o caráter segregado e elitista da ciência. A dupla ruptura procede a um trabalho de transformação tanto do senso comum como da ciência. Para Santos, “o senso comum só poderá desenvolver em pleno a sua positividade no interior de uma configuração cognitiva em que tanto ele como a ciência moderna se superem a si mesmos para dar lugar a uma outra forma de conhecimento”[27].

Comentários sobre o filme “O Carteiro e o Poeta”.

a) No início do filme o personagem Mario deixa transparecer que uma de suas grandes preocupações é a de conseguir uma companheira. Na vida simples de Mario, ter trabalho e uma companheira parece ser o fundamental. Já em seu primeiro contato com a imagem do poeta - no cine-jornal - Mario demonstra-se especialmente interessado pelo fato de o poeta ser considerado “aquele que escreve poemas de amor, o tema favorito da sensível alma feminina”. Não tendo Mario qualquer noção a cerca do que significava a situação de exílio do poeta, de imediato associa as supostas virtuosidades deste à uma de suas necessidades mais imediatas, a de conquistar uma mulher. Mario pensa no poeta como alguém que tem algo do que lhe interessa fazer uso. Essa coisa é a poesia. E a poesia para Mario significava um infalível instrumento para conquistar mulheres; nada mais pensava sobre ela e dela nada mais lhe interessava entender além disso.

b) Mario é contratado como carteiro para entregar as correspondências do poeta. Logo nos primeiros contatos com o poeta, busca identificar elementos que possam ajudá-lo a resolver suas necessidades afetivas. Procura analisar o poeta, observa seus gestos, a maneira como fala e como trata sua companheira; tenta descobrir ou identificar algo que possa aprender[28]. Mario busca um “conhecimento” no poeta e em sua poesia. Poeta e poesia significam para ele a possibilidade de conquistar alguém. Num dos contatos com o poeta, numa tentativa de aproximação, Mario “brinca com palavras[29]”, algo que sabe fazer mas sobre o que não pensa. O poeta reage e caracteriza as palavras de Mario: “Não devia me submeter a comparações e metáforas” . Mario sente que conseguiu estabelecer o diálogo; aprofunda-se querendo saber o que significa metáfora e o poeta explica: “quando falamos algo, mas comparamos com outra coisa”. Mario compreende e descobre algo mais sobre o que fazia no nível do sensível.

c) Mario continua sua busca; diz quer ser poeta e pergunta ao poeta como se faz[30]. Este reage com naturalidade e respeito. Àquela pergunta aparentemente ingênua responde argumentando que os poetas engordam sendo este um bom motivo para que Mario continuasse a ser carteiro. Mario insiste e o poeta - com sensibilidade - responde num discurso acessível: “vá caminhando ao longo da baía e observe tudo”. Mário entende. Percebeu, a seu modo, que era necessário observar as coisas e as pessoas, a forma como vivem e como se relacionam; como trabalham e como se divertem; como amam e como se odeiam; como se ajudam e como se enfrentam etc. Ele entendeu que ser poeta é falar do mundo e para o mundo a partir do que ele nos sugere e do que nos sugere nossa relação com ele. Entendeu que daí viriam as inspirações ou sensações.

d) Mario se apaixona por Beatrice. Afobado, procura o poeta para que este faça uma poesia para a moça. O poeta se recusa a fazer a poesia e argumenta: “um poeta precisa conhecer o objeto de sua inspiração; não posso criar algo do nada”. Mario não entende. Angustia-se por um momento mas acha logo uma solução. Retira do bolso da calça uma bolinha de pebolim e a apresenta ao poeta dizendo: “eu tenho essa bolinha que Beatrice colocou na boca; foi tocada por ela; isso pode ajudá-lo a conhecê-la”. Uma bola de pebolim, um objeto que esteve envolvido num momento real do qual Mario e Beatrice participaram; um objeto que continha, para Mario, algo mais que a forma circular; um objeto cheio de lembranças do momento do encontro: os olhares, a postura estática de Mario durante todo o tempo do contato com Beatrice; a imagem dos seios e dos olhos da moça; de seu sorriso e de sua forma provocante de ser. Imerso no plano das sensações, não era possível a Mario compreender que todo esse conteúdo era invisível aos olhos dos outros. Mario não podia entender o processo de criação do poeta.

e) O poeta, sem comentar a atitude de Mario, insiste na recusa. Mario fica decepcionado. Poeta e poesia pareciam não lhe valer para resolver aquela necessidade imediata. Mario reage: “escute poeta, se está criando caso por causa de uma poesia, nunca vai ganhar o Prêmio Nobel”[31] - premio que, para Mario, significava dinheiro, algo que ele sabia ser útil, importante.

f) Sozinho, em casa, Mario “escreve” sua primeira poesia. Desenha a forma circular da bolinha de pebolim numa folha.

g) O poeta presenteia Mario com um bloco de papel com capa e propõe a ele dirigirem-se juntos até a estalagem em que a moça trabalhava para que pudesse conhecê-la. Mario aceita. Diante da moça, o poeta a observa por um curto tempo. Em seguida, autografa o mesmo bloco de papel aprovando a poesia de Mario[32], aquela que ele havia tão profundamente “escrito” em gestos, comportamentos e palavras no encontro anterior. Mergulhado na sensibilidade de Mario, o poeta participou como pôde daquela sua investida; não colocou sua maneira de fazer poesia como a verdadeira, como maneira única de expressar poeticamente o real e de dialogar com ele

h) Mario conquistou a atenção da Beatrice após ter sido visto com o poeta. Conhecia seu meio e sabia dos benefícios que poderiam gerar o fato de ser reconhecido como amigo de alguma pessoa que, em seu meio, fosse considerada importante[33]. Mario sabia quais armas lhe eram necessárias naquela sua investida e conquistou seu objetivo.

i) Mario compõe sua primeira metáfora, frase ou poesia com objetivo prático. Diz à Beatrice que “seu sorriso se abre como as asas de uma borboleta” e esta capta, por sensibilidade, o significado daquelas palavras. A poesia faz a moça sonhar[34]. Outra poesia vem, desta vez copiada de um dos livros do poeta, e fala de seios e de corpo[35]. A tia da moça descobre a poesia. Temerosa e confusa, soubera captar da sua maneira o significado daquelas palavras em sua síntese: a poesia dizia beleza e sensualidade. Tais qualidades ela própria identificava na sobrinha, pessoa cujo corpo conhecia nu[36]. Furiosa, dirige-se até a casa do poeta para que este transmita sua advertência a Mario à quem ordena que se afaste de Beatrice. A tia da moça protege-se contra a poesia que, por sensibilidade, entende que ameaça a normalidade da vida em seu meio[37].

j) Após o ocorrido, o poeta reclama com Mario por este ter-lhe usado a poesia. Mario responde dizendo que, “a poesia não pertence àqueles que a escrevem mas sim àqueles que precisam dela”. O poeta concorda. Para Mario a poesia estava servindo como todo e qualquer outro instrumento capaz de facilitar a satisfação de uma necessidade.

l) Beatrice, envolvida e decidida, escapa ao cerco da tia e vai ao encontro de Mario. A bola de pebolim com ela. O objeto dialoga com os dois; medeia e simboliza sensações e intenções com a obviedade que Mario pensava ser transparente quando o mostrou ao poeta. Faltou a Mario, naquela ocasião, o poder de descrever minuciosamente todo o momento de seu primeiro contato com Beatrice no qual aquele objeto cumprira posição central. Faltou a Mario método para poder atingir a compreensão do outro. Se tivesse podido fazer isso, certamente tudo se lhe teria sido mais fácil.

m) Mario é convidado pelo poeta para gravar mensagem a seus amigos chilenos. Sugestionado a descrever o que de mais belo havia em sua terra, Mario nada mais pode dizer que o nome de Beatrice. Posteriormente, em gravação que ele próprio preparava com o amigo dos correios para enviar ao poeta já regresso ao seu país de origem, Mario grava os sons que lhe traduzem seu lugar[38]. Os sons já existiam antes de Beatrice mas, por ocasião do convite à gravação, a necessidade imediata de Mario ordenou e hierarquizou a importância dos elementos de sua vida em sua mente. Naquela ocasião, Mario estava tomado pela necessidade de conquistar Beatrice. Depois de tê-la conquistado, a mente de Mario deu espaço a outras respostas para a sugestão que lhe fora feita de dizer o que havia de mais belo em sua terra. Mesmo assim, ainda uma vez, Mario responde gravando sons, uma forma de dizer mais exata e fiel do que ele conseguiria desenvolver em palavras.


Informações para citar este texto:
TRINDADE, Antonio Alberto. Ciência e Senso Comum: uma reflexão ilustrada por comentários sobre o filme “O Carteiro e o Poeta”. Pró Ciência. São Paulo, 29 de julho de 2001. Disponível em http://www.prociencia.com.br/default.htm. Acesso em (data em que você acessou o texto).

 


ANTONIO ALBERTO TRINDADE

Imagens do filme "O Carteiro e o Poeta"

 
 

NOTAS

[1]Filme de Michael Radford baseado no livro de “Il Postino di Neruda” de Antonio Skarmeta.

[2]Max Weber, Essays in Sociology, 1946, Oxford University Press , organizado por H.H Gerth e C. Wright Mills ( trad. port. Ensaios de Sociologia, p. 167 )

[3] Boaventura de Souza Santos, Introdução a Uma Ciência Pós-Moderna, 1989, p. 13

[4] op. cit. p. 15

[5] op. cit. p. 14

[6] “O senso comum, enquanto conceito filosófico, surge no século XVIII e representa o combate ideológico da burguesia emergente contra o irracionalismo do ancien régime. Trata-se, pois, de um senso que se pretende natural, razoável, prudente, um senso que é burguês e que, por uma dupla implicação, se converte em senso médio e em senso universal. A valorização filosófica do senso comum esteve, pois, ligada ao projeto político de ascensão da burguesia, pelo que não surpreende que, uma vez ganho o poder, o conceito filosófico de senso comum tenha sido correspondentemente desvalorizado como significando um conhecimento superficial e ilusório. É contra ele que as ciências sociais nascem no século XIX ”. op. cit. p. 36

[7] ibid.

[8] Grifo do autor

[9] Max Weber, Ensaios de Sociologia, p. 165

[10] Paul Ricoeur, Les Conflit des Interprétations: Essais D’Herméneutique, 1969 ( trad. port. O Conflito das Interpretações: Ensaios de Hermenêutica, p. 37 )

[11] op. cit. p. 39

[12] Adolfo Sánchez Vásquez, Filosofia de la Praxis, 1967 ( trad. port. Filosofia da Praxis, p. 211 )

[13] op. cit. p. 210

[14] Boaventura de Souza Santos, Introdução a Uma Ciência Pós-Moderna, 1989, p. 37

[15] Op. Cit., p. 40

[16]Antonio Gramsci, Il Materialismo Storico e La Filosofia di Benedetto Croce, 1955 ( trad. port. Concepção Dialética da História, p. 14 ).

[17] Op. cit. p. 35. (Gramsci complementa dizendo que “a filosofia é a crítica e a superação da religião e do senso comum e, neste sentido, coincide com o ‘bom senso’ que se contrapõe ao senso comum”. op. cit. p. 14 ).

[18] Antonio Gramsci, Il Materialismo Storico e La Filosofia di Benedetto Croce, 1955 ( trad. port. Concepção Dialética da História, p. 16

[19] Ecléa Bosi, Cultura de Massa e Cultura Popular, Leituras Operárias, p. 54

[20] ibid.

[21] Boaventura de Souza Santos, Introdução a Uma Ciência Pós-Moderna, p. 38 - Preconceito aqui, observa o autor, deve ser entendio em seu sentido mais amplo de modo a poder incluir o viés, a pré-noção, a pré-concepção, o pré-juiso, a crença irrazoável, a ilusão, o erro, a distorção, a expectativa irrealista etc.

[22] ibid.

[23] ibid. p. 39

[24] ibid.

[25] ibid. p. 40

[26] ibid. p. 41

[27] ibid.

[28] Diálogo entre o chefe dos correios e Mario: - Como é Don Pablo? Ele é normal? - Como pessoa, é... normal. Mas quando fala é diferente. Dá para reconhecê-lo. Sabe como chama a esposa? “Amor”!, eles se tratam por “amor”. É um poeta, com toda certeza.

[29]Diálogo entre Mario e o poeta: Mario entrega as correspondências ao poeta e não vai embora. O poeta se manifesta: - Vai ficar aí parado como um poste? - Cravado como um arpão? - Não, imóvel como a torre no jogo de xadrez. - Mais silencioso do que um gato de porcelana.

[30] Desculpe Don Pablo. Só queria dizer que gostaria de ser poeta também; (...) com a poesia as mulheres vão se apaixonar por mim.

[31] Mario conversa com o poeta sobre o Prêmio Nobel de Literatura: - Um prêmio? - Se querem dar, não recusarei. - Por que?, é muito dinheiro? - 171.135 coroas suecas. - Isso é muito? - Muito dinheiro. - Então vai ganhar com certeza.

[32] Diz o poeta: “Já aprovei sua poesia; se quiser escrevê-la, já tem um caderno”

[33] Mario dialoga com o chefe dos correios: - É proibido ficar fazendo perguntas aos clientes. - Eu sei, não quero incomodá-lo. Só vou pedir para ele autografar este livro. Quando receber o pagamento e puder ir a Nápoles, mostrarei a todas as moças que sou amigo de Pablo Neruda, o poeta do amor.

[34] Diálogo de Beatrice com sua tia Rosa: - O que está fazendo? - Pensando. - Com a janela aberta? - Sim, com a janela aberta. - Seja sincera, o que ele falou para você? - Metáforas. - Metáforas? - Nunca ouvi você falar assim antes. Que metáforas ele fêz com você? - Fêz não, ele falou. - Disse que meu sorriso se abre como as asas da borboleta.

[35] “Nua, você é simples como uma de suas mãos. Macia, terrena, pequenina. Redonda, transparente. Traços da lua, caminhos de maça. Nua, você é delicada como o trigo. Nua, sua pele é lívida como as noites cubanas ...”

[36]Diálogo da tia de Beatrice, Sra. Rosa, com o poeta: - Há quase um mês Mario Ruoppolo anda peranbulando na estalagem e seduziu minha sobrinha. - O que ele lhe disse? - Metáforas. - E então? - Despertou fortes sensações na moça com suas metáforas. Um homem cujo único capital são os fungos nos dedos do pé. Se os pés são cheios de micróbios, sua boca é enfeitiçada. Começou de maneira inocente: o sorriso de uma borboleta. Agora diz que os seios dela são um fogo com duas chamas. - A senhora acha que é apenas imaginação dele ou... - Sim, acho que ele colocou as mãos nela. Leia isto, estava no sutiã dela. ( o poeta lê ) - É lindo ! - Então ele viu a moça nua? - Não Sra. Rosa ! Nada neste poema está dizendo isso. - A poesia não mente, minha sobrinha nua é assim como o poema descreve.

[37]Sra. Rosa em diálogo com Beatrice: - Quando um homem começa a tocá-la com palavras não demora muito para usar as mãos. - Não há nada de errado com as palavras. - A palavra é a pior coisa que pode existir. Prefiro um bêbado beliscando seu traseiro na estalagem do que alguém dizendo: seu sorriso voa como uma borboleta. Quando trata-se de cama, não existe diferença entre um poeta, um padre e até um comunista.

[38] Mario grava os sons de seu lugar: “Número um. As ondas em Cala di Sotto. Pequenas. Número dois. Ondas. Grandes. Número três. O vento nos rochedos. Número quatro. O vento nos arbustos. Número cinco. As redes tristes do meu pai. Número seis. O sino da igreja...com o padre. Número sete. Noite estrelada na ílha. Número oito. O coração de Pablito.


Bibliografia:

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RADFORD, Michael. Filme baseado no livro de “Il Postino di Neruda” de Antonio Skarmeta.

RICOEUR, Paul. O Conflito das Interpretações: Ensaios de Hermenêutica (trad. Hilton Japiassu). Rio de Janeiro. Imago. 1969.

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VÁZQUEZ, Adolfo Sánchez. Filosofia da Práxis (trad. Luiz Fernando Cardoso). Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 1968.

WEBER, Max. Ensaios de Sociologia (trad. Waltensir Dutra). Rio de Janeiro. Zahar. 1982


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