Carandiru,
o filme
As
cenas finais do filme Carandiru, direção de Hector Babenco,
mostram a implosão dos prédios de um dos maiores presídios
da América Latina, que no início dos anos 1990 vivenciou
o massacre que resultou na morte de 111 presos.
Uma
Casa de detenção em São Paulo. Um lugar que deixou de existir.
A implosão mostrada no filme não pôs fim à implosão revelada
na convivência daquele lugar. O médico, personagem e narrador,
oferece sua escuta mais como curiosidade individual e menos
como projeto de intervenção terapêutica, destacando singularidades
que despertam a atenção também do espectador. Sua escuta
mostra-se como um pequeno veículo para passagem de fluxos
implosivos que habitam aquelas pessoas e aquele lugar. Celas
superlotadas, mal-cheirosas, sujas, úmidas. Pessoas amontoadas,
confinadas, penitenciando suas próprias marginalidades.
Convivem com o confinamento de sonhos, desejos, planos,
frustrações, mágoas, ódios, amores. Estabelecem regras e
ética próprias: sobreviver numa selva de homens que morrem
e matam em nome da própria sobrevivência. Dentro e fora
do presídio a vida é marginal. Margeia a lei, o mercado,
a moral, o desejo, o sonho, o poder. Qual a saída? Qual
a possibilidade de desviar a margem e seguir um outro percurso?
A banalidade da vida justifica a morte. Justifica o massacre,
como se não houvesse saída para o estado de maldade e violência
senão para aqueles que, na via do arrependimento, aceitem
um Salvador nas palavras de mensageiros religiosos.
Naquele
amontoado de gente, que em alguns momentos lembram rebanhos,
destacam-se “ovelhas” para falarem de si, da marginalidade
de suas vidas, dos afetos produzidos e dos que os produziram
como marginais de si e da sociedade. Presidiários que parecem
não mais poderem se libertar mesmo que saiam dali, por um
plano de fuga bem sucedido ou pela expiração da pena. Presidiários
confinados em seus fluxos implosivos.
As
cenas da cozinha mostram que
ali não é só o local de preparar os alimentos; é
também onde se escolhe a presa humana e se prepara a forma
de pegá-la. No meio da sujeira e da malvadeza, facas cortam
carne e legumes com o mesmo fio que atravessam vísceras
e músculos de homens vingados pelos grupos de poder, quando
quebram os códigos de regras do lugar. Margeando a cozinha
e o ambulatório médico respingam também solidariedade e
amor indicando que a vida ali vai além da sobrevivência.
Lady Di e Sem Chance, um auxiliar de enfermagem e um travesti,
descobrem que são almas gêmeas e resgatam a chance de desfrutar
fora da lei e da moral seus sentimentos, fantasias e desejos,
redefinindo afirmativamente uma relação considerada marginal.
No pátio, Rita Cadilac espanta o medo da Aids alimentando
o tesão confinado de homens portadores de sexualidades implodidas
que vazam em gestos, gritos, sussurros e no movimento de
corpos que dançam, ao mesmo tempo, com a única dançarina
do palco como se ela fosse muitas num imenso salão de fantasias.
Noutro momento, o jogo de futebol passa do instante lúdico
que congrega preferências para o embate da disputa de poder
e acertos de conta.
Falta
e excesso confinados em um mesmo lugar, produzindo relações
e afetos entre presos e carcereiros. Uma enxurrada de sangue
produzida por tiros que perfuram corpos faz vazar o excesso
e a carência de cada um dos presos em sua marginalidade.
Parece não haver saída! O excesso e a carência estatal também
se mostram. Parece não haver saída! Sangue e água com sabão
se misturam escorrendo pelo chão como se já não se pudesse
separar o sujo do limpo. Já não se pode “lavar as mãos”
sem mantê-las maculadas. As marcas nas paredes, os gritos,
os sons dos tiros ressoam nas imagens e nas histórias dos
motins dos vários presídios que margeiam Carandiru.
Saí
do filme com a impressão que o médico narrador cumpria a
missão de amenizar o sofrimento dos presos, cuja razão não
lhe caberia interrogar, muito menos julgar. Algumas cenas
me emocionaram quando do rebanho de bichos-homens destacavam-se
singularidades que me faziam lembrar a vida, as chances
de vida, as potencialidades perdidas. Ali também parecia
não existir mais saída!
Da
sala do cinema passo para o pavilhão de um shopping-center
com outro amontoado de gente: pessoas limpas, vestidas de
formas variadas, caras alegres, caras tristes, caras indiferentes,
risos, vozes, movimentos de corpos, filas, vitrines, chope,
sanduíches, refrigerantes, pratos rápidos. Parecem desfilar
livremente, mas o shopping agora protege também nossa aparente
liberdade. Nossas singularidades arrebanham-se, confinam-se
em ambientes fechados e protegidos, vigiados e controlados
para se ter a justa medida do excesso e da falta e não ser
preciso instituir a implosão ou o massacre. Parece também
não haver saída!
Penso
novamente na passividade do médico, mas também em sua generosidade
que possibilitou revelar um pouco de nós todos naquele amontoado
de corpos, que já não parecem mais humanos. Um convite para
se desviar do banal, se implicar nas margens e se perguntar:
como buscar saídas?
Outro
filme, aparentemente distante de Carandiru, As Horas,
de Stephen Daldry, 2001, recentemente em cartaz, fez-me
lembrar outros tipos de prisões que margeiam as Casas de
Detenção. A prisão cotidiana instituída pelo medo da vida:
nos shoppings, nas ruas, nas casas, nas relações afetivas
de amor e amizade há também um apelo comum para nos aprisionarmos,
nos protegermos dos riscos produzidos pelo próprio ato de
viver. Em Carandiru, a prisão e o alto risco são colocados
de antemão para os seus habitantes instituindo regras de
convivência e sobrevivência. Aqui do lado de fora, o medo
e a desconfiança de transitar se aproximam das cenas do
presídio. A marginalidade instituída impõe medo, desconfiança
e insegurança no rosto de cada um de nós, e disfarçamos
a exposição aos riscos com as prisões produzidas para nos
proteger. Lembro então a personagem principal de As Horas
ao se interrogar: que adianta vivermos em paz se evitamos
a vida?