Por ELIZABETHE CRISTINA FAGUNDES DE SOUZA
Dentista. Professora no Departamento de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Doutoranda em Saúde Coletiva na Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP-SP)

 

Carandiru, o filme

 

As cenas finais do filme Carandiru, direção de Hector Babenco, mostram a implosão dos prédios de um dos maiores presídios da América Latina, que no início dos anos 1990 vivenciou o massacre que resultou na morte de 111 presos.

Uma Casa de detenção em São Paulo. Um lugar que deixou de existir. A implosão mostrada no filme não pôs fim à implosão revelada na convivência daquele lugar. O médico, personagem e narrador, oferece sua escuta mais como curiosidade individual e menos como projeto de intervenção terapêutica, destacando singularidades que despertam a atenção também do espectador. Sua escuta mostra-se como um pequeno veículo para passagem de fluxos implosivos que habitam aquelas pessoas e aquele lugar. Celas superlotadas, mal-cheirosas, sujas, úmidas. Pessoas amontoadas, confinadas, penitenciando suas próprias marginalidades. Convivem com o confinamento de sonhos, desejos, planos, frustrações, mágoas, ódios, amores. Estabelecem regras e ética próprias: sobreviver numa selva de homens que morrem e matam em nome da própria sobrevivência. Dentro e fora do presídio a vida é marginal. Margeia a lei, o mercado, a moral, o desejo, o sonho, o poder. Qual a saída? Qual a possibilidade de desviar a margem e seguir um outro percurso? A banalidade da vida justifica a morte. Justifica o massacre, como se não houvesse saída para o estado de maldade e violência senão para aqueles que, na via do arrependimento, aceitem um Salvador nas palavras de mensageiros religiosos. 

Naquele amontoado de gente, que em alguns momentos lembram rebanhos, destacam-se “ovelhas” para falarem de si, da marginalidade de suas vidas, dos afetos produzidos e dos que os produziram como marginais de si e da sociedade. Presidiários que parecem não mais poderem se libertar mesmo que saiam dali, por um plano de fuga bem sucedido ou pela expiração da pena. Presidiários confinados em seus fluxos implosivos.

As cenas da cozinha mostram que   ali não é só o local de preparar os alimentos; é também onde se escolhe a presa humana e se prepara a forma de pegá-la. No meio da sujeira e da malvadeza, facas cortam carne e legumes com o mesmo fio que atravessam vísceras e músculos de homens vingados pelos grupos de poder, quando quebram os códigos de regras do lugar. Margeando a cozinha e o ambulatório médico respingam também solidariedade e amor indicando que a vida ali vai além da sobrevivência. Lady Di e Sem Chance, um auxiliar de enfermagem e um travesti, descobrem que são almas gêmeas e resgatam a chance de desfrutar fora da lei e da moral seus sentimentos, fantasias e desejos, redefinindo afirmativamente uma relação considerada marginal. No pátio, Rita Cadilac espanta o medo da Aids alimentando o tesão confinado de homens portadores de sexualidades implodidas que vazam em gestos, gritos, sussurros e no movimento de corpos que dançam, ao mesmo tempo, com a única dançarina do palco como se ela fosse muitas num imenso salão de fantasias. Noutro momento, o jogo de futebol passa do instante lúdico que congrega preferências para o embate da disputa de poder e acertos de conta.

Falta e excesso confinados em um mesmo lugar, produzindo relações e afetos entre presos e carcereiros. Uma enxurrada de sangue produzida por tiros que perfuram corpos faz vazar o excesso e a carência de cada um dos presos em sua marginalidade. Parece não haver saída! O excesso e a carência estatal também se mostram. Parece não haver saída! Sangue e água com sabão se misturam escorrendo pelo chão como se já não se pudesse separar o sujo do limpo. Já não se pode “lavar as mãos” sem mantê-las maculadas. As marcas nas paredes, os gritos, os sons dos tiros ressoam nas imagens e nas histórias dos motins dos vários presídios que margeiam Carandiru.

Saí do filme com a impressão que o médico narrador cumpria a missão de amenizar o sofrimento dos presos, cuja razão não lhe caberia interrogar, muito menos julgar. Algumas cenas me emocionaram quando do rebanho de bichos-homens destacavam-se singularidades que me faziam lembrar a vida, as chances de vida, as potencialidades perdidas. Ali também parecia não existir mais saída!

Da sala do cinema passo para o pavilhão de um shopping-center com outro amontoado de gente: pessoas limpas, vestidas de formas variadas, caras alegres, caras tristes, caras indiferentes, risos, vozes, movimentos de corpos, filas, vitrines, chope, sanduíches, refrigerantes, pratos rápidos. Parecem desfilar livremente, mas o shopping agora protege também nossa aparente liberdade. Nossas singularidades arrebanham-se, confinam-se em ambientes fechados e protegidos, vigiados e controlados para se ter a justa medida do excesso e da falta e não ser preciso instituir a implosão ou o massacre. Parece também não haver saída!

Penso novamente na passividade do médico, mas também em sua generosidade que possibilitou revelar um pouco de nós todos naquele amontoado de corpos, que já não parecem mais humanos. Um convite para se desviar do banal, se implicar nas margens e se perguntar: como buscar saídas?

Outro filme, aparentemente distante de Carandiru, As Horas, de Stephen Daldry, 2001, recentemente em cartaz, fez-me lembrar outros tipos de prisões que margeiam as Casas de Detenção. A prisão cotidiana instituída pelo medo da vida: nos shoppings, nas ruas, nas casas, nas relações afetivas de amor e amizade há também um apelo comum para nos aprisionarmos, nos protegermos dos riscos produzidos pelo próprio ato de viver. Em Carandiru, a prisão e o alto risco são colocados de antemão para os seus habitantes instituindo regras de convivência e sobrevivência. Aqui do lado de fora, o medo e a desconfiança de transitar se aproximam das cenas do presídio. A marginalidade instituída impõe medo, desconfiança e insegurança no rosto de cada um de nós, e disfarçamos a exposição aos riscos com as prisões produzidas para nos proteger. Lembro então a personagem principal de As Horas ao se interrogar: que adianta vivermos em paz se evitamos a vida?

 


ELIZABETHE CRISTINA FAGUNDES DE SOUZA

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